I'll Take The Breath Out Of You
21 Surpresa
Notas iniciais
— Você parece nervoso.
— Eu não estou nervoso apenas quero que tudo saia conforme o planejado.
Expliquei depois de revirar os olhos para a alegação feita por John pela sétima vez.
— Tudo bem, Mister Perfeição. — Comentou arrumando o enfeite grudado a seu paletó. — Mas então... Animado?
— Como?
John se balançou nos próprios pés levemente
— É o dia do seu casamento. Está animado?
Encarei meu amigo por alguns segundos. John claramente estava querendo chegar a algum lugar com aquela conversa.
— Estou eufórico.
Ele assentiu.
— Sei. E depois?
— A recepção? Não estou exatamente animado, contudo minha mãe insistiu então...
Ele balançou a cabeça mais uma vez interrompendo-me.
— Sim, mas e depois?
— A Lua de Mel?
— Ou feriado do sexo, como você chamou alguns anos atrás. Está animado para essa parte também?
Ponderei por um segundo, mas não foi para achar uma resposta e sim para tentar entender por que John teria interesse em saber sobre minha vida sexual. Então logo ficou claro.
— Eu não sou virgem, John.
— Mas...
— Muito menos Russell.
Ele ficou em silêncio para processar ambas as informações.
— Então você e a Russell...?
— Yep.
Estalei o “p” em meus lábios ainda visualizando a capela por detrás dos arbustos perto da estrada.
— Você e ela?
— Muito.
— Muito?
— E em diversos lugares.
— Quantas vezes?
— Três... Às vezes quatro vezes.
— Diversos lugares?
— Sim.
— Baker Street?
— O apartamento inteiro.
Ele fez uma pequena pausa.
— Por “apartamento inteiro” você quis dizer o apartamento exceto alguns lugares, certo? Como, por exemplo, minha poltrona?
— Não. A propósito, ela é extremamente desconfortável.
— V-vocês transaram na minha poltrona?
— Tecnicamente Russell fez sexo oral em mim e, em seguida, copulamos no chão.
— Não, nunca mais eu sento naquela poltrona.
Revirei os olhos para sua atitude.
— Ah, deixe de fazer drama, John! Eu nem ejaculei em sua preciosa poltrona.
— Como pode ter certeza?
Sorri ao me lembrar daquele dia.
— Simplesmente sei.
Meu amigo me encarou por meio segundo.
— Por Deus, vocês... Ela te transformou em um tarado.
— Com toda certeza.
— Quando isso aconteceu?
— Oito semanas depois de ela sair do hospital e praticamente todos os dias por todos esses três anos de relacionamento. Devo admitir John: agora é completamente compreensível porque algumas pessoas preferem copular com a pessoa pela qual estão apaixonadas. O sentimento torna tudo mais intenso. Atrevo-me a dizer que possui certa...
— Mágica?
Fiz uma careta.
— Por falta de palavra melhor creio que “mágica” serve. E Russell tem criatividade. Sempre tem uma ideia nova, uma posição nova, um lugar novo.
— Isso incluiu minha poltrona.
— Tecnicamente sua poltrona estava no caminho e ela já esperava por isso.
Senti meu celular vibrar em meu bolso e rapidamente li a mensagem de Lestrade que dizia estar chegando.
— Pelo menos pouparam a cozinha.
— Hum, claro.
Eu não precisava ver pra saber que John estava um tanto desconfortável e, naquele momento, ciente de minha real resposta.
— Isso quer dizer um não.
— Isso quer dizer que fizemos um delicioso bolo.
— Vá buscar Russell!
Exaltou-se John.
— Fale baixo, homem! Quer acordar os cães?
— Cães?
— Achou mesmo que só houvesse metralhadoras?
Assuntei-o retoricamente antes de deixar o local onde nos escondíamos nas sombras, atrás dos arbustos do pequeno bosque que se abria por trás da propriedade. Segui pela pequena estrada de terra e dobrei a pequena esquina ladeada por árvores, flores e plantas de diferentes espécies cultivadas ali, já avistando o carro de Lestrade que se aproximava. Bem, agora sim era a hora exata para ficar nervoso.
Senti-me estupido ao notar que meus pés, ao receberem a informação por meu cérebro de minha ansiedade, passaram a bater ritmicamente na terra, meus pulmões pesavam a cada respiração e um calafrio súbito fez moradia em meu estômago. Tudo isso me fez insultar John por sua capacidade de me manipular com sua acuidade mental. Lestrade parou o carro e, depois de um breve aceno, abriu a porta traseira ajudando Mary a sair do mesmo.
Ela sorriu animada e retribui seu sorriso estendendo minha mão para que ela a pegasse, porém ambos sabíamos que dois dias longe um do outro foram o cúmulo para nosso equilíbrio, por isso que quando ela ao me alcançou tomei-a em meus braços em um longo e apertado abraço. Afundei meu rosto em seu pescoço sentindo o inconfundível cheiro de chocolates que emanava de sua pele e aquilo me acalmou como uma mãe que acalenta e tranquiliza um filho aos prantos. Ela me trazia conforto, segurança e serenidade em uma escala inacreditável. Senti ela me apertar de leve e, como sempre, entendi perfeitamente.
— Eu também senti sua falta.
Lestrade não se incomodou em simplesmente sair de cena, apenas notei que ele já havia partido para buscar o resto de nossos convidados quando fiz questão de ceder a um de meus desejos da noite.
— Onde está John?
— Longe o suficiente.
Respondi colando meus lábios aos seus em seguida. Nosso suspiro conjunto foi elétrico, senti-me formigar por completo, do couro cabeludo as pontas dos dedos e sem realmente saber como, Russell já se encontrava prensada a árvore mais próxima por meu corpo. Eu estava perto do fogo e quando esse fogo se alastrava, minha única vontade era a de me livrar daquilo que me impedia de me queimar mais rápido nas chamas de Russell, nesse caso, nossas roupas. Deixei seus lábios para me afastar antes que a situação saísse definitivamente do controle. Eu precisava respirar e me acalmar. Beijar Russell era pedir para esquecer meu próprio nome; tudo virava um borrão indistinto que se abstinha de sentido e permaneciam apenas as sensações. Ouvi sua risada graciosa.
— Tem certeza? Ainda temos uma longa noite pela frente.
Ponderei.
— Certeza? Não, e sei que vai ter momentos em que vou me arrepender de ter dito não, mas é melhor cumprirmos as normas da noite.
Ela assentiu.
— Sem sexo, então.
Assenti.
— Sem sexo, por enquanto. Agora vamos, pois eu preciso abrir a capela.
(...) Russell
John ficou para trás para receber nossos convidados e testemunhas. Holmes me pegou pelo cotovelo para me guiar pela noite que era apenas iluminada pela lua naquele momento. Havia luz suficiente para me dar certa ideia do lugar onde estávamos nos metendo, mas eu não sentia medo. Eu tinha total certeza de que a adrenalina que percorria meu corpo nada tinha a ver com medo.
A silhueta do que me parecia uma casa de campo apareceu conforme andávamos. Um som suave de água a frente era a evidencia de um pequeno rio; mais a frente, uma forma escura tomou forma e Sherlock passou o braço por meus ombros para me guiar melhor por ela. Era uma ponte que passava por cima do rio. À medida que nos aproximávamos da capela, que ficava nos fundos da casa, Sherlock entrou em estado de alerta e parou no meio da ponte.
— O que foi?
Sussurrei.
— Luzes. — Respondeu no mesmo tom. — Em torno da parte dianteira da casa.
— Isso é incomum?
— Um pouco, essas luzes são como holofotes. Quando era garoto só costumavam acende-las quando tínhamos visitas para uma festa.
— Oh, céus.
— Não deve ser nada. Na verdade, pode ser benéfico. Convidados podem manter a família ocupada. — Supus que uma festinha na casa não acabaria por migrar para a capela, a não ser que fosse uma festa religiosa. — Venha.
Sherlock me puxou delicadamente. O caminho se tornou mais complicado e enquanto eu hesitava antes de pisar, Sherlock parecia saber exatamente onde estava indo.
— Como sabe pra onde ir? Eu não enxergo quase nada.
E estava pior pelo fato de eu ter decidido deixar os óculos fora de minha produção matrimonial.
— Meus pés mapearam o caminho quando criança. — Continuamos o caminho até Holmes me parar no fim da ponte. Ele cochichou em meu ouvido. — Essa parte é um pouco complicada. Fique aqui enquanto atravesso essa parte e destranco a porta. Volto em menos de dois minutos.
Eu o senti se afastar mais do que ouvi se afastar e puxei as lapelas do casaco para aplacar o frio que começará a sentir. Agora que estava parada podia ouvir a noite: a brisa batendo nas folhas das árvores, o barulho das tabuas da velha ponte, o bufar de um cavalo ao sentir um cheiro diferente. Constatei com certa admiração que havia um estabulo não muito longe de onde estava e movi-me um pouco para o lado para ter uma visão melhor do mesmo. Bem, nenhum cão pelo menos. Meu coração pulsou ao ouvir outro barulho: vozes.
Estavam longe, provavelmente perto da casa. Não consegui distinguir as palavras, mas ainda assim, podia dizer que eram duas vozes masculinas. Eles não se aproximaram e rapidamente desapareceram. Ouvi um ruído arrastado, um protesto fino vindo da madeira seguido de passos apressados pelo chão então mais uma vez Holmes me guiava pelo caminho irregular até a frente da porta da capela.
O odor de mel me disse onde eu estava antes mesmo antes de passar por entre as portas. Velas feitas a base de mel de abelha iluminavam o altar e enchiam o lugar com um cheiro doce. A capela era pequena: com quarenta pessoas você já poderia declarar o lugar lotado. Era antiga também. Aquelas janelas deviam ser do século XIII. Havia um pequeno espaço para um coro e outro para uma banda. E uma pequena galeria no fundo que possuía uma variação de pinturas e fotografias. Entre elas, uma chamou minha atenção: uma mulher magra, olhos cinzentos, um nariz muito curvo para uma beleza convencional, os cabelos loiros que possuíam uma cor similar aos meus. Sua personalidade forte, perfeitamente capturada, dominava o local. E mais uma coisa: um colar de prata ladeado por pérolas adornava seu pescoço. Minha mão foi instintivamente para o pescoço para tocar o colar que agora me pertencia. A mulher ali parecia ter minha idade e eu tive a mínima impressão de estar me olhando no espelho.
— Sua avó?
Ele parou ao meu lado também comtemplando o quadro.
— Sim.
Fiz uma pausa.
— Por que nunca me disse que eu e ela...
— Só o cabelo e os olhos. — Ele suspirou. — Ela tinha acabado de completar 25 anos quando fez esse retrato.
— Bem, ela era...
— Linda. Eu tinha 11 anos quando ela morreu.
Aquilo foi um elogio para ambas, tanto para mim quanto para ela. Não sabia se devia achar estranho, mas cheguei a conclusão de que não era grande coisa, afinal, temos o costume de procurar em nossos parceiros coisas que nos lembrem nossa família. Quando ele fechou a porta e foi para o altar, abrindo os braços como se fosse abraçar o mundo, sentei-me em uma das cadeiras para observa-lo. Ele limpou a garganta.
— “‘Meu nome é Ozymandias, Rei dos Reis: Contemplem minhas obras, ó poderosos, e desesperai-vos’. Nada mais resta. Ao redor, a decadência daquele destroço colossal sem limite e vazio. As areias solitárias e planas espalham-se para longe.”
A voz dele reverberou pelas paredes e voltou em forma de eco. Era como uma galeria de sussurros, o som se espalhava para todos os cantos simultaneamente. Algo passou por minha cabeça.
— Você tocava violino aqui, não tocava?
Ele sorriu.
— Só quando o Padre Frank estava fora durante a temporada de caça. Se ele me pagasse aqui, eu levava uma surra.
Fiz uma careta.
— Ui.
— O Padre Frank era adepto aos costumes antigos.
Nós rimos e por uma fração de um breve segundo, eu vi o garoto que Holmes havia sido. Eu vi um menino travesso e curioso, o mesmo menino que se vestia de pirata e destruía jardins a procura de tesouros ou simplesmente invadia lugares, como uma capela para brincar. Havia algum aspecto na vida de Sherlock Holmes que não fazia dele um aventureiro? O humor de meu noivo se dissipou ao notar minha reação.
— O quê?
— Ah Holmes, queria ter te conhecido quando era um garoto.
— Você teria me achado mandão, teimoso e convencido. Pode perguntar pra mamãe.
— Não duvido nada, mas é que, às vezes, sinto que sei muito pouco sobre seu passado.
— Enquanto o resto do mundo acha que me conhece muito bem, graças ao que John escreve.
— Bem, sim...
— Perdoe-me Russ, contudo creio que devemos averiguar o que se passa na casa antes de trazermos nossos convidados.
Assenti.
— Certo.
Ele pegou minha mão e rumamos para fora da capela cuidadosamente. Ele observava tudo em seus mínimos detalhes e seus olhos expressavam muito mais que mero reconhecimento: cada olhar possuía toques de saudade, felicidade e um sentimento em particular que, apesar de passar rapidamente por seu rosto, definitivamente expressava dor. Era tão raro ver Sherlock expressar aquilo, mesmo que fosse por poucos segundos, e aquilo deixava claro que os eventos desta noite tinham uma justificativa: este lugar era importante para ele.
Ao nos aproximarmos mais da casa, protegidos por uma planta grande decorativa e pela escuridão, paramos ali quando a porta da frente se abriu. Da casa logo saiu um homem em um uniforme seguido de outro vestido em um smoking impecavelmente liso e luxuoso. Esse mesmo homem entregou um envelope ao homem de uniforme que apenas agradeceu entrou em uma minivan branca, que até aquele momento tinha passado completamente despercebida, e foi embora.
— Lugar estranho para uma entrega, não acha?
Perguntei depois que o homem de smoking entrou na casa. Holmes fez um barulho que sugeria concordância.
— E é uma hora estranha também.
Comentou olhando para seu relógio. De fato, já eram quase duas da manhã. Enquanto observávamos, uma segunda minivan, que pelo nome estampado na lataria parecia ser de um restaurante chinês, estacionou em frente a casa. O motorista desceu, foi recebido pelo mesmo homem que havia pagado o entregador anterior e logo mais dois homens em smokings saíram de dentro da casa indo em direção ao veiculo para descarregar o mesmo. No fim, assim como o anterior, o entregador foi pago e tão rápido como chegou, ele se foi.
— Aquele homem que pagou os entregadores era seu primo?
— Hm, não. Aquele é o mordomo. Há uma governanta também, mas acho que só trabalha pela manhã. Bem, vamos deixar eles ocupados com... Seja lá o que eles estejam planejando fazer. Acabei de sentir meu celular vibrar no bolso e acho que é Lestrade ou John com os convidados.
Na volta, no entanto, senti a necessidade de perguntar ao ver o quanto Holmes ainda observava a casa.
— Holmes, você tem certeza?
— Que não seremos descobertos? Não vejo razão para nos preocuparmos.
— Não. Bem, isso também, mas me refiro a casa. Tem certeza que não gostaria de comprar o lugar?
— Não, qual seria a finalidade? Não gosta de Baker Street?
— Não, claro que gosto, apenas... Holmes é óbvio que esta casa faz parte de você. Só quero dizer que se você mudou de ideia, se você decidir que quer esta casa, eu posso consegui-la.
Sherlock apertou minha mão levemente na sua. Claramente ele não esperava isso.
— Você está certa. O lugar é importante, porém devo recusar Russell. Uma visita ocasional a cada dez ou cinco anos são o suficiente.
(...)
Quando os dois carros estacionaram eu me preparei para as lágrimas, o entusiasmo as congratulações, mas para minha completa surpresa, nossos convidados permaneceram quietos e silenciosos. Sra. Hudson apenas me deu um bom abraço, assim como minha futura sogra enquanto Mary e Molly começavam a ajeitar meu cabelo que, de acordo com a loira, estava uma bagunça.
Conheci o bispo que realizaria a cerimônia. Gostaria de dizer a ele para não se preocupar, porém tinha a impressão de que mentir para ele não seria algo nada sábio a se fazer naquele momento. Mycroft não fez comentários nem a mim, muito menos a Sherlock, todavia isso não me surpreendeu como achei que surpreenderia. Na verdade, a surpresa que todos tivemos foi a de vê-lo acompanhado.
— Quem é ela?
Perguntei a Sherlock.
— Não faço a mínima ideia.
Depois que Greg equipou a todos com velas e lanternas, fizemos nosso caminho em direção à capela. Nosso progresso desta vez foi mais lento e talvez menos silencioso. Apesar disso, chegamos sem problemas e assim que todos se sentaram, eu tirei o pesado casaco de Holmes para finalmente me casar com ele. Sem música, sem alguém para me levar ao altar, a luz de velas e lanternas, apenas peguei meu buquê com Molly e pus-me ao lado de meu noivo.
— Sejam muito bem-vindos. Hoje, estamos aqui para testemunhar e celebrar a união de Sherlock Holmes e Mary Russell. Dois corações que apesar de todos os obstáculos e...
— Eu acho... — Sussurrou Sherlock interrompendo o bispo e obrigando-me a engolir uma risada. — Acho que você pode pular o sermão e ir logo para os votos.
— Sherlock!
Ouvi a Sra. Holmes repreende-lo em um cochicho. O bispo riu.
— Aos votos então. Estão com as alianças?
Ah, isso estava mais do que arranjado. Semanas antes de a cerimônia em si acontecer, Holmes me perguntou a respeito das alianças. Eu não usei um anel de noivado, mas isso não significa que ele não existia. Muito pelo contrário. Havia um anel de ouro branco com uma linda pedra azul que, em um passado não muito distante, já pertencera a Condessa de Morcar. Pelo que me foi contado, a pedra fora um presente da própria Condessa aos ancestrais da família Holmes que prestou um serviço a ela. Aparentemente, este diamante que agora me pertencia, possuía um valor inestimável no século XIX e eu não poderia imaginar o quanto poderia valer nos dias atuais. Por esse motivo, não fiz questão de usar o anel.
Já que estávamos usando heranças de família, eu possuía as minhas. O anel de meu pai, que ainda estava guardado em uma pequena caixa que haviam me entregado depois do acidente, serviria perfeitamente no dedo de Sherlock. Claro que fiz questão de medir caso precisasse ajusta-la e tomei a liberdade de gravar meu nome e a data de nosso casamento nela. Minha aliança também saiu da avó de Holmes a única diferença era que na minha tinha o nome dele gravado. Assim que John e Mary nos entregaram as alianças olhei para gravação na luz fraca percebendo que não havia parado para pensar antes em como a troca de alianças poderia ser algo tão simbólico. Sherlock ficou de frente para mim, pegou minha mão e me olhou nos olhos.
— Eu, William Sherlock Scott Holmes, recebo a ti, Mary Judith Russell, como minha legitima esposa. Prometo ser fiel, te amar e respeitar, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza, por todos os dias de nossa vida — ele recitou colocando a aliança em meu dedo — e que se dane a morte porque nem isso vai nos separar.
Completou fazendo todos rirem. Respirei fundo e assim que peguei sua mão sem deixar seus olhos nem por um instante.
— Eu, Mary Judith Russell, recebo a ti, William Sherlock Scott Holmes, como meu legitimo marido. Prometo ser fiel, te amar e respeitar, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza, por todos os dias de nossa vida e que nem a morte nos separe.
Eu não chorei, mas um sorriso enorme persistente se acomodou em meu rosto e eu tinha a impressão de que ele não sairia de meus lábios tão cedo. Não tinha problema, ele expressava minha felicidade. Ali, naquela capela, eu me casei com Sherlock Holmes. Ali, naquela capela, depois que eu e Sherlock assinamos todos os papéis, eu deixei Mary Judith Russell para me tornar Mary Russell Holmes. Reverentemente, discretamente, deliberadamente, sobriamente, temente a... Bem, talvez não a Deus, mas certamente a um primo armado. Será que imaginei Sherlock olhar de relance para aquele retrato na parede? Não creio que tenha imaginado isso.
— Bem, agora só falta você beijar a noiva.
Disse o bispo com um sorriso.
— Realmente.
Concordou Sherlock.
— Já estava esquecendo, Holmes?
Brinquei e ele riu.
— Nunca, Srta. Holmes.
Perdi-me nos lábios de meu marido. Eu esperava que ele apenas me desse um pequeno beijo e se afastasse em seguida, afinal, tínhamos convidados e pensei que ele não gostaria de se expor desta forma na frente deles, mas ele me beijou. E eu não sei exatamente quanto tempo levou até sermos interrompidos. Mycroft pigarreou alto chamando nossa atenção.
— Er, Sherlock... Mamãe acha que talvez você queira mostrar a Mary “o corredor”. Pelo menos desta vez.
Houve uma pequena troca de ideias silenciosas entre os dois irmãos, Sherlock fitou sua mãe que deu um sorriso. Finalmente, meu marido disse:
— Nosso primo pode ter selado as portas, não acha?
— Só há uma forma de saber. — Sherlock assentiu e me ofereceu seu braço pelo qual passei o meu imediatamente. — Vou levar os convidados.
Assim que nossos convidados saíram pela porta e Mycroft as fechou deixando eu e Sherlock a sós, perguntei:
— Ah, “o corredor”?
— É uma casa antiga com muitas passagens secretas. Eu costumava me esconder nelas, apenas Mycroft sabia até que um dia, enquanto passávamos nossas férias aqui, eu adormeci em uma e ele teve que dizer a mamãe que ela não sabia exatamente tudo sobre esta casa.
Eu o acompanhei até uma parede. Se ele não tivesse acabado de me contar das passagens secretas, aqueles riscos na parede poderiam ser confundidos com detalhes do papel de parede, porém agora eu podia notar que os riscos na verdade eram os cantos de uma porta.
— Isso é interessante. — Ele pousou a mão na mesma empurrou e soltou. A porta se abriu silenciosamente apresentando um grande e luxuoso corredor. No fim do mesmo podia se ver claramente a porta de entrada da casa. — Isso é definitivamente muito interessante.
O corredor possuía três portas a esquerda e quadros à direita. Admirei os quadros da parede. Parecia uma extensão de membros da família de outra geração, como uma parede genealógica da família Holmes. Um barulho vindo da porta da frente nos sobressaltou e em um movimento rápido, Sherlock me puxou para dentro de uma das portas no corredor. Ainda assim, algo familiar me chamou a atenção ali pela janela que ficava ao lado da porta de madeira. Sherlock fechou a porta rápida, mas silenciosamente. Respirei fundo antes de falar.
— Sherlock, aquela, na porta, era a sargento Donovan.
— O quê?
— Eu tenho certeza.
Ele me olhou como se eu tivesse acabado de dizer que vi um unicórnio.
— Sally Donovan?
Eu assenti
— Eu tenho certeza.
Repeti.
— Positivo?
Hesitei.
— 85%
Ele assentiu.
— Se prepare pra correr caso estiver errada.
— Tudo bem.
No momento em que nossas cabeças saíram pela fresta da porta, fomos surpreendidos por um grande “hip, hip, urra!”. Então era isso, uma grande surpresa no fim das contas. Todos nossos convidados estavam ali, inclusive Ronnie, minha amiga da universidade: nossa família. Holmes e eu nos entreolhamos como dois idiotas então saímos de dentro do quarto.
— Mycroft!
Incriminou Sherlock, Mycroft apenas deu de ombros.
— Eu não fui o único a fazer esse bolo.
Disse o Holmes mais velho apontando para minha sogra.
— Mãe...
— Considere como um presente de casamento que eu não vou aceitar de volta.
Respondeu ela a meu marido.
— Como?
— Ora querido, Rudy tem uma rixa com você e seu irmão, comigo não. Então eu o fiz reconsiderar.
— Mas Russell e eu já havíamos decidido a respeito...
— É uma casa de férias, Sherlock. E pense bem, quando você e Russell começarem a produzir meus netos vão precisar de um espaço que aquele apartamento em Baker Street não tem.
Aquele assunto me gelou. Nunca realmente sentei para dialogar com Sherlock a respeito de gerar seres humanos. Ainda mais de seres que eu não tinha a mínima ideia se seria capaz de gerar. Mesmo assim, durante esses anos com Holmes, eu tinha me regulado para me prevenir durante meus períodos férteis. Seja dito de passagem, creio que só tivemos esta conversa uma única vez e eu pensava que a última coisa que Sherlock poderia querer era mais um ser humano com quem se preocupar.
— Você está bem, querida? Parece um pouco aturdida.
Abri a boca e a fechei logo em seguida, precisava dizer algo que fizesse sentido.
— Estou morrendo de fome.
— Ora, então venha querida, vamos encher essa barriga de comida primeiro.
Murmurou a Sra. Hudson já me puxando pelo corredor e para outra porta que dava para um salão de tamanho médio com uma pista de dança e duas grandes mesas: uma para todos nós e outra repleta de comidas. Havia uma banda que começou a tocar assim que entramos e um fotógrafo que foi devidamente interrogado, afirmou-me Greg fazendo-nos rir. Sherlock fez questão de montar um prato grande para nós dois onde ele fez uma mistura estranha de chinesa com tailandesa. Mais tarde, já alimentada, depois de ter conversado com todos na mesa e cumprindo com as tradições da noite, eu e meu marido fomos para o centro da pista para a valsa.
— Você quer?
Perguntou depois de certo tempo. Levantei meu rosto, que eu havia deitado em seu peito, para olhar em seus olhos. Eu sabia sobre do que ele estava falando e o respondi com toda sinceridade.
— Eu não sei.
Aqueles olhos de cores incertas passearam por meu rosto.
— Tem medo do que posso pensar. — Não foi uma pergunta e, mesmo que tivesse sido, eu não saberia o que responder. Suspirei voltando a pousar minha cabeça em seu peito enquanto balançávamos no ritmo da música. — Você não é obrigada a dar netos a ninguém, mas saiba que, seja qual for sua decisão, daremos um jeito.
Meu próximo movimento foi beijá-lo sob o flash da única câmera que poderia registrar aquele momento.
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