Notas iniciais
Opa, olha quem voltou! Boa Leitura!!!

(...) John

— Telegramas?

— Pule essa parte também.

— Sherlock!

Sibilou a Sra. Holmes para o filho fazendo todos rirem. Peguei o primeiro cartão e sorri com a sensação de deja vu que me arrebatou.

— Mike Stanford.

— Previsível.

Resmungou Sherlock.

— “Peço perdão por não comparecer, mas desejo muitas felicidades a ambos. Mary, querida, obrigada por mudar esse homem que costumava se igualar a um copo de café sem açúcar e, Sherlock, por favor, trate-a como um caso número 10”.

— Maravilhoso, acabou?

Indagou meu amigo.

— Tem um do Anderson também.

Comentei pegando o cartão que foi arrancado de minha mão e jogado para longe em um único movimento.

— Acabou então.

Comentou Sherlock fazendo-me rir.

— Bem, agora é minha vez.

— Arrasa!

Gritou minha mulher. Alguns aplausos se seguiram e eu os aceitei com um sorriso.

— Alguns anos atrás, em meu casamento, Sherlock admitiu não ter entendido quando o pedi para ser meu padrinho de casamento. Ele atribuiu isso a desculpa de que não esperava nunca ser o padrinho de alguém, pois não esperava ser o melhor amigo de ninguém. Hoje, admito que tive dificuldades em entender também. Eu não esperava ser o padrinho de casamento de Sherlock Holmes porque achei que ele nunca se casaria. Ele mesmo me disse uma vez que relacionamentos românticos não faziam parte de sua divisão.

— Eu nunca disse isso.

Protestou Sherlock.

— Disse alguma coisa parecida.

— Depois eu que sou o dramático.

Revirei os olhos.

— Para se montar um grande quebra-cabeça é preciso que todas as peças se encaixem e ao mesmo tempo não sejam parecidas para que, no fim, juntas, elas formem uma única imagem. Do lado de fora da caixa, você vê como a imagem será quando você a montar, mas é preciso paciência e disposição para começar a tarefa e cumprir com o objetivo final que é o de montá-lo. Às vezes é frustrante, você fica um tanto perdido, acha que não vai dar certo e que não vai conseguir, porém você descobre que o certo é dar uma pausa, respirar fundo e continuar com calma depois. Sherlock é uma peça, Mary Russell é outra.

“Ao mesmo tempo em que são diferentes, se complementam. E não há outra imagem que eles possam complementar, pois eles foram moldados um para o outro e só complementam a imagem de um quebra-cabeça: o deles. É claro que todos nós também estamos lá, como segundo plano, apenas parte da paisagem enquanto eles são os protagonistas da arte. É engraçado quando me recordo de como tudo começou. Com uma garota desconhecida em meio à sala de estar de 221B, Baker Street, fantasiada de Sherlock Holmes e em posse de uma carta que continha uma obrigação nada simples.

“Ele a atraiu. Pelo menos é no que sempre acreditei e sempre vou acreditar. Tudo começou com brincadeiras de criança, afinal, ela era uma quando a conheci, e então, em muito pouco tempo, vi aquelas brincadeiras continuarem, mas não com os mesmos propósitos. Eu vi o olhar dele sobre ela mudar e, se quer saber, em minha opinião, não repudiei a ideia. Na verdade, fiquei surpreso a principio, porém depois tomei aquilo como um milagre. Deixei acontecer.

“Vi pouco a pouco ela moldá-lo e mudá-lo sob seus pequenos dedos de menina e depois de simples dois anos, eu estava ali, observando os dois rirem de alguma coisa que Molly dizia em uma noite de natal. E eu digo pelo o que vi, não sei o dizer o que ela fez enquanto eu não estava lá. Eu os vi passar por provações loucas, perigos, brigas — se é que eu posso chamar aquilo de briga, pareciam mais disputas de intelecto —, dificuldades simples do dia a dia, entretanto, nunca o vi tão feliz em minha vida. Também nunca o vi sorrir tanto. Pensei que ele sempre fosse continuar sozinho, mas acho que as pessoas certas aparecem nas horas certas. Pois é, o tempo lhe fez bem, meu amigo. Bem, o tempo e uma certa menina mulher chamada Mary.”

Peguei minha taça e a ergui.

— Um brinde aos recém-casados.

Em meio aos aplausos dos poucos convidados, vi meu amigo se levantar.

— E um brinde ao homem que também faz parte do quebra-cabeça complicado que é minha vida.

Trocamos um abraço assim como eu já havia feito uma vez em um passado não tão distante e em uma ocasião parecida.

(...) Russell

— Cadê a Molly?

Mary olhou ao redor.

— Eu a vi indo na direção do banheiro, mas já faz algum tempo. — Ela se aproximou, sussurrando. — Acho que pode ter sido o camarão.

Assenti.

— Vou me certificar de que ela continua viva então.

Rumei até o banheiro já batendo na porta.

— Molly? — Sem resposta. Voltei a bater. — Molly, você está aí? Eu já vou jogar o buquê.

Encostei-me a porta para ouvir melhor.

— Sim, eu já estou indo.

Praguejei mentalmente ao ouvir a voz falhar em um soluço. Isso era exatamente o tipo de coisa que eu queria evitar naquele dia, mas o que era um casamento sem um pequeno drama? Respirei fundo.

— Molly abra a porta, por favor.

Achei que ela recusaria, porém, para minha surpresa, ouvi o barulho da tranca e a porta ser aberta minimamente. Uma Molly se esforçava para retocar a pouca maquiagem que usava e não desviou o olhar do espelho para me fitar.

— Eu já estava a caminho, apenas...

— Molly.

Interrompi. Era mais do que óbvio que havia algo errado. Ela suspirou pousando as mãos ao lado da pia.

— Eu... Eu não devia estar aqui.

Assenti compreendendo.

— Deixe-me adivinhar: Sherlock?

— Eu não entendo. Houve um tempo em que eu pensei que ele simplesmente não queria nada, que não se sentia pronto para algo sério como eu queria, afinal, olhe pra ele: tem tudo para ser um garanhão. Depois eu pensei que não fosse interessado em mulheres, cheguei a pensar que John fosse “bi” por um tempo também. Eu decidi que não podia ficar esperando até ele... Bem, me enxergar e tentei seguir em frente, mas ele voltou dos mortos e trouxe a desordem de volta pra minha vida. John se casou e eu pensei que Sherlock simplesmente não queria nada. Pensei que ele seguiria aquela vida solitária dele até os últimos dias de sua vida, mas você apareceu. Aparentemente, o problema não era ele; era eu.

Ouvi em silêncio, não havia raiva em suas palavras nem lágrimas em seus olhos; apenas magoa. No lapso de segundo em que me pus no lugar dela, também senti. Era um vazio tão incomodo que tirava o ar e naquele instante me perguntei como ela ainda não estava gritando com as paredes porque aquela foi a minha vontade. Gritar a até que a necessidade de respirar sobrepujasse a dor. Respirei para me acalmar e me aproximei fitando-a pelo espelho.

— Ah Molly, como você ainda não vê?

— O quê?

— Que você não está à altura de Sherlock Holmes.

Ela cerrou os olhos.

— Perdão?

— Antes que você me de um tabefe, me deixe explicar. — Peguei o corretivo de cima da bancada de mármore e me virei para ela. — Nós, seres humanos, passamos nossa vida procurando alguém que esteja a nossa altura, alguém que atenda nossas expectativas. Mas você tem sido extremamente modesta consigo mesma, Molly. Você foi atrás de Sherlock Holmes, mesmo sem querer, mas foi. Você não está à altura de Sherlock Holmes porque você já o ultrapassou há muito tempo, portanto não aceite algo que está abaixo de você quando pode conseguir uma pessoa melhor. Sherlock Holmes não te merece.

Ela sorriu.

— Está comprovado.

— O quê?

— Idade não define maturidade.

Eu ri e comecei a passar o corretivo embaixo dos olhos de Molly.

— Não mesmo. Já viu quando Sherlock está frustrado? Parece um garoto de oito anos.

Rimos.

— Verdade.

— Bem, prometo passar minha vida criando meu marido.

(...)

— Depois do buquê, Sherlock vai jogar a liga da noiva.

Agarrei o braço de Sherlock ao ouvir Lestrade lembrar animadamente sobre a liga.

— Estou com uma arma na liga.

Ele me olhou.

— Como assim?

— Ora, eu vim pronta para enfrentar um primo nervoso e cães raivosos, querido. Como vou me livrar dela?

— Achei que você tinha colocado a arma no buquê, estava a ponto de arrancar ele da mão da Mary.

Agradeci mentalmente por ele me lembrar de que Mary poderia esconder uma arma sem problemas.

— Ótima ideia, eu vou entregar a arma para Mary.

Antes que eu pudesse sair ele me puxou de volta colando nossos corpos.

— Acho melhor eu pegar ela.

Eu ri de sua voz rouca.

— Você quer pegá-la, detetive?

— Sim, eu quero ter a honra de te desarmar esta noite.

— Você acha que consegue?

— Parte do meu trabalho exige que eu desarme ladras como você.

Respondeu-me ele entrando na brincadeira.

— E o que exatamente eu roubei?

— Minha sanidade.

Sussurrou ele.

— Nesse caso, você também devia ser preso.

— Chegamos a um impasse então.

— O que você fará agora, detetive?

— Eu acho que vou te beijar. — Colamos nossos lábios em um beijo caloroso. Pelas estrelas, algum dia os lábios dele deixariam de me distrair e me atordoar daquela forma? Suspirei em meio ao beijo, meus dedos emaranharam-se por entre os cachos sedosos e provocativos. Nós braços dele eu poderia facilmente ser comparada a sorvete na praia. Era fácil derreter nos braços do meu sol pessoal, era fácil demais esquecer os outros orbitando a nossa volta. A única dificuldade era parar, mas geralmente nós acabávamos nos lembrando de que precisávamos respirar e naquele momento não foi diferente. Claramente ofegantes, ele sorriu para mim e levantou a mão. Eu ri quando ele rodou a arma no dedo e, logo em seguida a enfiou no bolso do paletó. — Problema resolvido.

— Só isso?

— Mais tarde eu te revisto inteira.

Fui em direção a Mary que me entregou meu buquê e me posicionei em frente à Molly, Ronnie, Donovan e a moça que estava acompanhando Mycroft. Precisava me lembrar de abordar meu cunhado e a moça mais tarde.

— Prontas?

— Sim!

— Certeza?

— Sim!

— Absoluta?

— Joga logo essa coisa!

Gritou minha amiga puxando os cachos ruivos para longe do rosto. Virei de costas.

— Então é um... Dois... Três...

Joguei. Dizem que quando você deseja algo com força de vontade, aquilo pode acontecer. E poucas coisas eu desejei com força na minha vida. Uma delas foi Oxford, Sherlock também foi um desejo que se realizou no fim, mas naquela noite, desejei muito amor e muita felicidade para uma pessoa em especial. Talvez fosse uma superstição boba, mas eu desejei que ela pegasse o buquê. Imaginei-o fazendo um arco no ar e caindo exatamente nas mãos daquela morena. E quer saber? Desejar com força funciona.

(...)

— Lestrade.

— A noiva! Obrigado pela liga.

Disse ele mostrando a liga que Sherlock havia tirado com os dentes de minha perna. Eu ri.

— De nada.

Avistei meu marido do outro lado do salão conversando com Mycroft e a moça que o acompanhava.

— Greg?

— Sim?

— Eu não tive a oportunidade de dar um presente de casamento para meu marido.

Ele entortou a cabeça de leve.

— E isso é necessário?

— Acredito que sim.

— Ele te deu alguma coisa?

— Ah, ele deu.

Comentei lembrando-me do anel de noivado.

— Entendo. E o que eu tenho a ver com isso?

— Bem, eu tenho um presente em mente.

— E...?

— Diga-me, Lestrade, estaria interessado em me ajudar a quebrar uma lei ou duas, estritamente em nome da justiça?

Ele olhou rapidamente ao outro lado do recinto, talvez estivesse olhando para Sherlock, ou Mycroft, antes de voltar sua atenção para o pequeno embrulho de suvenires que eram para os convidados.

— Uma coisa que eu aprendi com Sherlock: a lei não é o único caminho para a justiça. O que tem em mente?

— Tem uma pintura — eu disse — que eu gostaria de dar para meu marido.

(...)

— Sr. Holmes.

Murmurei abraçando-o pelos ombros quando voltei — depois de me despedir de John e Mary, nossos últimos convidados — e o avistei sentado em uma grande poltrona na sala de estar em frente à lareira acesa. Ele acariciou minhas mãos pousadas em seu peito e suspirou.

— Srta. Holmes. — Ficamos em silêncio, apenas aproveitando o calor da sala e ouvindo a respiração um do outro. Era uma sensação ótima. — Mycroft está namorando.

— O quê?

A descrença devia estar estampada até em minha língua. Sherlock estava de olhos fechados, a cabeça recostada à poltrona, completamente relaxado.

— Sim, foi minha reação inicial, mas parece algo sério e ele parece feliz apesar de ela parecer ser o completo oposto do que ele é: um verdadeiro pé no saco.

— E qual é o nome da dama, afinal?

— Eu não faço a mínima ideia.

— Como não?

— Quando ele falou o nome dela meu cérebro ainda estava tentando processar as palavras: “minha namorada”.

— Inacreditável.

— Eu sei que é brasileira.

— Brasileira? Quem te contou?

— Foi a única informação que peguei a respeito da moça.

— Que desatento você. Se ela se for tornar sua cunhada o que vai fazer?

— Torcer para que o casamento seja no Brasil?

— Sério?

— Claro, ouvi que há uma diversidade de coisas maravilhosas para se ver por lá. Quem sabe eu até não resolva alguns casos inexplicáveis?

— Aprender a falar português talvez seja o primeiro passo.

— E sem o sotaque.

— Essa vai ser a parte mais difícil.

— Uma hora chegamos lá.

— Sim, e falando em “chegar lá”...

Ele finalmente abriu os olhos.

— Ah sim, eu prometi revistar você, não foi mesmo?

— De fato.

Ele se levantou e em único movimento me pegou no colo. Eu ri.

— Bem, por mais que eu aprecie seu entusiasmo em consumar nosso casamento, assim como eu também estou, afinal, foi uma longa noite, eu não sei se é uma boa ideia me carregar escada acima.

Sherlock assentiu.

— Eu sei disso e é por isso que vamos de elevador.

— Espera, essa casa tem um elevador?

Meu marido apenas riu.

Notas finais
Espero que tenham gostado e até logo! Muitos beijos!!!