I'll Take The Breath Out Of You
16 Reminiscências
Notas iniciais
(...) Sherlock Holmes
A princípio foi um toque de lábios e eu imaginei que aquilo seria o suficiente para ela, achei que seria o suficiente para não me aturdir, mas foi. Foi mais que o suficiente para me quebrar. Em um ultima tentativa de escapar, separei meus lábios dos seus, porém não achei a vontade de me afastar, muito menos de soltá-la. A única vontade que eu tinha era a de sentir mais dela e eu cedi a essa vontade tão humana.
E a derrota nunca foi tão doce. Minha mente pareceu se expandir como se criasse uma nova porta em meu palácio para armazenar e conservar aqueles sentimentos e reações. Fiquei tão afoito por conta delas que não consegui ser calmo ao sentir sua língua na minha, porém Russell não reclamou quando prensei seu corpo ao contêiner com força suficiente para fazê-lo emitir um som um pouco alto.
Eu conseguia me ouvir no canto mais profundo do meu cérebro gritando para me controlar provocando uma pequena onda de raiva em mim mesmo por tentar tirar de mim algo que eu obviamente queria. Agarrei Russell com mais força como se isso pudesse impedir aquela parte de minha cabeça de afastá-la. Eu entendia o medo que essa parte de mim tinha e também entendia o que estava acontecendo comigo.
Eu precisava diminuir a voz, precisava distraí-la antes que ela me distraísse. Quatro neurotransmissores básicos são despertados pelo beijo: a dopamina, que nos faz sentir prazer e bem-estar; a serotonina, que nos faz sentir excitação e otimismo; a epinefrina, que aumenta a frequência cardíaca; e a oxitocina que gera o afeto e a confiança.
Eu podia dizer que estava sentindo tudo isso, mas já havia passado delas para outro nível causado pelo beijo, outra substância. O óxido nítrico que era responsável pelo relaxamento dos vasos sanguíneos, que estava causando o aumento de fluxo de sangue em uma parte especifica de minha anatomia. Em um movimento involuntário, movi meu quadril de encontro ao de Russell que me puxava pelas lapelas do casaco.
— Não te falei? Eu estava certo.
Separei-me de Russell cambaleando um pouco, tanto pela falta de ar e por, naquele exato estante, eu e Russell estarmos sob a mira de quatro armas. Cinco homens, quatro armados e um que eu reconheci de imediato.
— O que significa isso?
Ele sorriu condescendente.
— Significa que está na hora da festa, Sr. Sherlock Holmes.
(...) Russell
— Sentem-se.
Era uma espécie de escritório extremamente requintado que obviamente deixava Patrick Donleavy exultante. Nem mesmo estando sozinho naquela sala comigo e Sherlock o deixava nervoso apenas pelo fato de ele, assim como dois de seus capangas na porta, também estar armado.
— Eu prefiro ficar de pé.
Ele sorriu e brincou com a arma em suas mãos.
— Tudo bem.
— Como descobriu?
Patrick bufou diante da pergunta de Sherlock pousando a arma em cima da mesa.
— Ah, por favor, acha que eu não leio o jornal ou que não vejo TV? — Ele fez uma pausa. — Porque se é isso que você acha está certíssimo. Se quiser realmente saber como então, nesse caso, devo me entregar. Digamos que eu sou irmão de um “certo” rei.
Sherlock assentiu.
— Moriarty.
— Exato.
— Vocês não tem o mesmo nome.
— Tomei a liberdade de ceder meu nome a ele.
— Richard Brooke.
— Deus, você é muito inteligente.
— Você que mandou as cartas.
— Sim, era só uma questão de tempo até você encontrar as pistas certas. — Donleavy pousou seus olhos em mim. — E você descobriu afinal.
Sherlock tomou a liberdade de passear pelo cômodo observando tudo. Eu não sentia medo, apenas uma revolta por ter sido interrompida em um momento importante.
— Sim.
— Não duvidou nem por um instante?
— Uma vez eliminado o impossível, o que restar, não importa o quão improvável, deve ser a verdade.
— Interessante. Sabe, quando Jim me contou todo o plano, do começo ao fim, pensei que ele estava ficando louco, afinal, onde encontraríamos a garota perfeita para “dopar” o detetive. — Relatou sentando-se em sua poltrona. — Ele me disse que essa era a parte mais óbvia e que eventualmente ele me contaria caso eu não conseguisse descobrir por mim mesmo, mas até hoje eu não descobri e ele também não pode me contar agora. Mas você pode.
Sherlock uniu as mãos atrás das costas e me fitou por meio segundo antes de voltar seu olhar para Patrick.
— Sim.
— Então, relate a situação para mim, por favor.
Sherlock suspirou.
— Moriarty sabia que eu me apaixonaria por Russell porque ele também se apaixonou por ela.
Encarei-o de olhos arregalados e de boca escancarada de surpresa, mas ele não me olhou de volta.
— Mas eu nunca o conheci.
Sussurrei cedendo à vontade de me sentar como Donleavy sugeriu minutos mais cedo.
— Mas ele conheceu você e isso foi o suficiente. Você foi também um dos motivos para ele ter se matado, pois foi ali que ele notou que, para continuar seu plano, ele precisava deixar outra pessoa no comando para não atrapalhar. A vontade de me destruir era maior que o amor dele por você; ele te amava, mas não queria te amar. Como continuar o jogo sem deixar que o sentimento comprometesse o jogo dele? Uma bala. E você — continuou Sherlock olhando diretamente para Patrick —, é o discípulo dele. O vídeo que me impediu de sair de Londres, as cartas, as “pistas”... Tudo para me encurralar aqui e agora. Então, o que vai ser?
Ele sorriu e deu de ombros.
— Eu admito que ainda não. Moriarty disse pra queimar o seu coração, mas como? Eu pensei diversas vezes a respeito disso. Talvez torturar ela para atingir você e depois mata-la ou simplesmente te torturar e depois deixar você morrer sabendo que eu ia fazer da vida dela um inferno...
— Não é possível que esse seja o grande desfecho do plano de Moriarty. Acredite, eu o conhecia bem o suficiente para te dizer que isso o desapontaria por ser tão clichê.
— Uau, calma fera, eu nem terminei ainda. Você tem razão, eu também pensei que isso seria tão clichê que o deixaria doente, então eu pensei: o que fazer para queimar o coração de Sherlock Holmes? Se eu matasse Russell você obviamente ficaria muito triste, mas com toda certeza você iria me matar de alguma forma e eu quero tentar evitar a minha morte, então eu tenho que fazer você se sentir completamente responsável pela morte dela. Aposto que você entendeu o que eu quis dizer com isso, por isso você certamente sabe como vai acabar essa linda história de amor. — Patrick levantou-se de sua cadeira, abotoou seu paletó com um sorriso tão sádico no rosto que me deu náusea e terminou sua sentença. — É a melhor história de Romeu e Julieta que o mundo vai ver.
— O que quer dizer com isso?
Pronunciei-me pela primeira vez.
— Ora, não é óbvio? Jim adorava contar histórias e vocês foram escalados para interpretar os papeis principais na última história dele.
(...)
— Isso é ridículo e você é um babaca.
— Russell.
Repreendeu-me Sherlock enquanto éramos escoltados para os fundos do navio onde, de acordo com Patrick, seria o local perfeito para gravar a cena que ele nomeou carinhosamente de “O Adeus” e, não satisfeito, ele também me fez entrar em um figurino montado por ele composto de vestido rosa claro um tanto apertado e um casaco da cor caramelo.
— Você acha? Eu achei bem romântico. Consegue imaginar seu corpo no fundo do Tamisa seguido pelo corpo de seu amante que, em agonia por ter causado a sua morte, se mata em seguida. Quanto ao babaca... Não sabia que você chegaria a esse nível.
— Isso aqui parece um jogo de videogame pra ter nível? Eu estou muito irritada então o mínimo que você pode fazer é me conceder o privilegio de falar mal de você até meu último suspiro.
Ele balançou a cabeça. Senti a mão de Sherlock na minha, apertando-a como se dissesse para pegar leve, porém a última coisa que eu queria fazer naquele instante era pegar leve.
— Suponho que este seja seu último desejo?
— Não, meu último desejo seria ver você estirado no chão coberto com seu sangue, mas como isso não vai acontecer isso é o mínimo que você tem que me oferecer.
— Tenho?
— Você me trouxe até aqui, me enfiou neste maldito vestido e quer que o Sherlock me de um tiro e se mate em seguida, então sim, você tem.
— Muito bem, é justo.
Revirei os olhos.
— Muito bem, é assim que vai acontecer...
Patrick foi interrompido por um toque de celular que, para ser mais precisa, era o meu que havia sido confiscado juntamente com o de Sherlock quando fomos revistados ao entrar no navio.
— Quem é?
Guinchou Patrick.
— Inspetor Lestrade.
Ele me olhou.
— Por que ele ligaria para você?
— Talvez por que o celular do Sherlock está no silencioso e ele não está atendendo as ligações dele.
Murmurei sarcástica.
— Deixe tocar.
— Não seja burro. Deve ser algo importante para ele estar ligando e se ele não conseguir ligar para o Sherlock e nem para mim, com certeza ele vai até Baker Street e você sabe o que vai acontecer depois disso.
— Mas ninguém sabe do paradeiro de vocês.
Vangloriou-se ele antes da hora.
— O irmão do Sherlock sabe.
— Como?
— Primeiro porque eu disse a ele onde eu ia encontrar o Sherlock e segundo porque Mycroft colocou um rastreador no celular do irmão para saber a onde ele está.
— Isso é impossível.
— Não mesmo. Como você acha que Mycroft encontrava Sherlock quase morrendo de overdose nos becos da cidade? — Uma ideia se formou em minha mente e, embora ela não fosse nada original, ainda era a melhor opção. Eu e Sherlock estávamos no limite do navio, se distraíssemos todos ali por alguns míseros segundos, podíamos pular a grade e nadar até a margem, que apesar de longe, ainda podia ser vista. Respirei fundo e estendi minha mão para o celular. — Deixe-me falar com ele, dizer que não podemos ajuda-lo com nada, pois estamos em outro lugar, que estamos ocupados.
— Nem pensar.
— Escuta! Você acha mesmo que eu vou arriscar falar alguma coisa pra ele? Acha que eu sou tão louca a esse ponto? Deixe-me mandar uma para Lestrade e outra para o irmão dele, só para dizer que estamos bem.
Ele ponderou por um longo instante, mas por fim assentiu.
— Eu quero que me mostre a mensagem antes de mandar.
— Pode deixar. — Peguei o celular do capanga e no mesmo instante desbloqueei o mesmo e comecei a digitar a mensagem para Lestrade. Mostrei a Patrick e então passei para a próxima que enviaria a Mycroft, seguindo o mesmo protocolo de mostrar a mensagem em seguida. Mas eu era mais esperta que isso. — Droga!
— O quê? O que houve?
— Essa última não tá enviando, acho que meus créditos acabaram. Você tem? — Fingi apertar o botão para enviar novamente. Sherlock viu o exato momento em que cliquei rapidamente no número de Lestrade, que estava na discagem rápida, e bloqueei o celular em seguida. — Espera, agora foi. — Devolvi o celular para o capanga rezando para que Lestrade estivesse na linha. — Então, péssimo dia para morrer, né?
— Verdade.
Concordou Sherlock, precisávamos enrolar o máximo possível neste momento.
— Ei, será que eu posso... Beijar ele? Você meio que interrompeu a gente antes eu ainda estou querendo quebrar a sua cara por causa disso.
— Você realmente quer isso, Russell?
— Sim, porque se eu for morrer esta noite, neste navio que nem é um Titanic, mas é esta merda de Aurora, eu prefiro morrer sabendo que a última coisa que senti foram seus lábios nos meus.
— Nunca achei que seria grato a Moriarty por algo, mas agora eu sou. Ele me trouxe você.
Murmurou Sherlock sem desviar seus olhos dos meus.
— Espera um segundo. — Falei virando-me para Patrick. — Isso significa que Moriarty matou minha família.
— Mas é claro que não foi ele. — Um sorriso macabro tingiu os lábios dele. — Fui eu.
Travei. Enquanto toda a cena se desenrolava lentamente diante de mim, eu não interagia nela, apenas fazia parte dela como um simples objeto. Como a arma que deram a Sherlock. Ouvi a menção de só haver uma bala na mesma e como poucas coisas na vida, aquilo parecia o suficiente para terminar tudo.
— Lembre-se: se não atirar nela, eu vou atirar.
Eu agi quase que no automático ao empurrar Sherlock e puxar a arma de sua mão e mirar em Patrick. O fato de não pensar antes de agir é que você acaba ignorando outros fatores importantes como eu ignorei os capangas dele. Três dos homens de Donleavy pularam na água ao tentar escapar do barco quando o helicóptero chegou banhando-nos em uma luz insuportavelmente forte, porém um que permaneceu fiel a seu contratante atirou conseguindo acertar meu braço direito. Larguei a arma por reflexo levando a mão até o ferimento, mas nem isso conseguiu me deter por tempo suficiente. Ignorando a dor, estiquei meu braço para alcançar a arma novamente e Sherlock tentou me alcançar para me impedir.
— Larguem as armas!
Ouvi a voz de Lestrade ecoar do helicóptero e a de Sherlock quando finalmente parei. Tarde demais. A primeira bala de Donleavy atravessou meu ombro na altura da clavícula, a segunda em algum ponto perto do abdômen. Alguns diriam que eu estava tentando salvar Sherlock, outros a nós dois e, de fato, também quis salva-lo, entretanto, não importa realmente quem foi o foco de minha “missão suicida”, pois, como diria meu detetive, foi apenas erro humano.
(...) John Watson
Já tinha algum tempo que não falávamos nada. Apesar de Sherlock não demonstrar, eu sabia que ele estava a ponto de cair exatamente como Moriarty planejou. Minha esposa reconfortava meu melhor amigo, pois eu mesmo não havia obtido êxito ao tentar. Três tiros. Russell foi forte, manteve seu coração batendo até chegar ao hospital, mas a falta de noticias estava destruindo todos e matando Sherlock Holmes aos poucos.
Mycroft e Lestrade também estavam ali. Patrick Donleavy foi preso e não precisariam de muito para convencer o júri a sentencia-lo a passar sua vida atrás das grades. Formação de quadrilha, sequestro, tráfico humano, tentativa de homicídio eram alguns dos crimes que encabeçavam a lista que possibilitaria a perpetua. Isso era o mínimo, pois não sabíamos se ainda havia mais.
Fitei meu amigo. Se Russell partisse dessa para uma melhor, ele quem seria preso por matar Patrick. Quando Lestrade me ligou me deixando a par da situação, eu e Mary corremos para o hospital como dois desesperados e quando chegamos, foi daquela maneira que encontramos Sherlock. Sentado na ala de espera, os cotovelos apoiados nos joelhos e com a cabeça caída nas mãos.
Ele nos viu chegar, mas não falou nada. Bem, ele não falou nada que fizesse sentido. Às vezes resmungava para si mesmo, outras vezes apenas agarrava os cabelos por entre os dedos e puxava os cachos como se fosse arranca-los. Ele estava se punindo. Lestrade nos contou que ele já havia ido ao Aurora uma vez e, de acordo com Mycroft, Russell lhe contara que ela havia acompanhado Sherlock. Eu teria brigado com Sherlock por ter feito isso, porém era óbvio que aquele não era o momento, ainda mais quando o médico estava chegando. Sherlock se levantou de imediato.
— A bala no braço atingiu o músculo então não causou muitos danos. A outra acertou o lobo esquerdo do fígado, mas como o este órgão se regenera e a bala parou ali, não é bem o maior problema. A última bala é. Ela atravessou o pescoço e quebrou a clavícula do lado direito e arrebentou ela, haviam muitos estilhaços do osso para serem retirados e talvez ainda tenha sobrado alguns pedaços. É o tipo de ferimento que vai deixar sequelas. Ela provavelmente vai sentir dor nesse ombro pelo resto da vida.
— Meu Deus.
Sussurrou minha esposa.
— Quando vou poder vê-la?
Perguntou Sherlock.
— Ela vai ser transferida para o quarto em poucos minutos, porém ela ainda está sob o efeito da anestesia então ainda está desacordada.
— Eu espero. — Ele estendeu a mão para o cirurgião que tinha salvado a vida de Russell. — Muito obrigado.
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