I'll Take The Breath Out Of You
17 Análogo
Notas iniciais
(...) Russell
Eu quase havia me esquecido disso. Do quão interessante é apagar em um lugar e acordar em outro completamente diferente. Principalmente quando, em ambas às vezes em que tive essa sensação singular, o outro lugar era um hospital.
Você não se lembra de acordar porque está muito grogue pra notar isso, você apenas abre os olhos. Quando você nota que está acordado, finalmente começa a assimilar o que está acontecendo a sua volta. Nunca tem muito barulho, apenas um bipe constante e rítmico.
O cheiro de álcool. A cama um tanto dura e reclinada em uma posição desconfortável. A tipoia em meu braço. Em um quarto repleto de cores neutras e claras, apenas as rosas vermelhas em cima da mesa no quarto quebravam o padrão. E foi entre balões azuis com a frase "fique boa logo!", e alguns presentes não abertos que encontrei John. Ele não demorou muito para notar que eu havia despertado. Ele sorriu.
— Boa noite.
Sim, isso explicava o motivo de tanto silêncio. À noite, um hospital ficava duplamente mais calmo.
— Noite.
John sentou-se a cadeira ao lado de minha cama.
— Sherlock está comendo.
Eu o encarei. Era algo um tanto inusitado de se ouvir.
— Sozinho?
— Não
— Por vontade própria?
Ele fez uma careta.
— Não. Tivemos que obrigar ele a sair do quarto porque ele passou muito tempo achando que você ia acordar a qualquer momento. Bem, 10 minutos atrás ele disse a mesma coisa e dessa vez ele acertou. Você acordou.
— Quem?
— Mary e Molly o arrastaram. Não foi fácil, mas no fim, elas conseguiram. Ele pediu pra que eu o chamasse caso você acordasse.
Eu o impedi.
— Não, ainda não. Deixe o nosso teimoso comer alguma coisa.
John riu.
— Sim. Ele vai ficar doido quando souber que você acordou e que eu não o avisei.
Eu assenti.
— Imagino. Por quanto tempo fiquei apagada?
— 47 horas.
— Caramba.
— Sim.
Tomei coragem para perguntar.
— Muitos estragos?
— O tiro no braço foi superficial; a do abdômen acertou o lobo direito do fígado, porém você vai ficar bem. Sua clavícula se partiu em vários pedaços e, ontem de manhã, você passou por mais uma cirurgia para a retirada de estilhaços remanescentes e para a colocação de uma prótese.
— Eu ferrei minha clavícula?
— Você não; Patrick Donleavy. — Suspirei afundando no travesseiro. — Sherlock quis matar ele. No navio. Chegou a bater nele, mas Lestrade precisou intervir.
— Como ficou essa história afinal?
— Não tem como Donleavy sair do tribunal sem ganhar uma perpétua. Você e Sherlock estão a salvo.
Assenti. Passou um segundo até eu me lembrar de algo que precisava dizer.
— Eu beijei Sherlock Holmes.
A surpresa de John foi grande, porém nada comparado ao sorriso que ele deu em seguida.
— Está falando sério? Ah garota, meus parabéns!
— Foi muito bom, John. Eu não consigo imaginar algo melhor do que aquilo. Naquele momento foi como experimentar meu próprio paraíso pessoal.
— Isso é muito bom.
— Também teria sido bom você ter me avisado que ela acordou John.
A conversa nos havia distraído o suficiente para esquecermo-nos de vigiar a porta. Sherlock entrou seguido de Mary com um copo de café na mão.
— Ela acabou de acordar, Sherlock.
Ele assentiu.
— Vocês se beijaram?!
Mary celebrou.
— Sim.
Respondeu Sherlock simplesmente caminhando e parando ao lado de meu leito.
— Isso é muito fofo!
Continuou ela.
— Sim.
Sherlock repetiu. O silêncio pairou na sala por poucos segundos quando John se levantou.
— Acho que essa é a indireta pra gente cair fora. Onde está Molly? Prometi uma carona a ela.
— Ficou na cantina.
Respondeu Mary.
— Sim, claro. Russ, — John pegou minha mão e a afagou gentilmente — descanse, tudo bem? O horário de visitas já acabou a um bom tempo e já devíamos ter ido embora, porém estaremos de volta amanhã. E Sherlock, chame a enfermeira.
— Vou chamar.
A porta se fechou e Sherlock apertou o botão no painel acima de minha cama. Limpei minha garganta quando o vi pousar um café em cima da mesa de canto e tirar seu casaco e paletó. Eu esperei que ele dissesse algo, qualquer coisa, todavia, ele permaneceu calado. Não falou com a enfermeira que veio me ver, muito menos com o doutor que veio me explicar toda situação de uma forma mais elaborada que John. O silêncio começou a me incomodar quando a enfermeira entrou pela segunda vez me trazendo uma sopa para aplacar minha fome. Sozinhos, decidi começar um diálogo, mesmo se ele fosse forçado.
— Você não fez a barba hoje. — Ele não respondeu. Então ele não estava a fim de conversar comigo? Bem, já que ele estava ali, pelo menos podia ser prestativo. — Pode me ajudar? — Pedi apontando sugestivamente para a sopa a minha frente. Com um suspiro alto, ele arregaçou as mangas da camisa, pegou a colher de minha mão e começou a me ajudar. O silêncio continuou ali, me atormentando até o cúmulo de minha paciência que se esvaiu como a sopa que eu tomava. Explodi. — Mas que droga, Sherlock! Qual é o problema?
Ele não respondeu a principio, apenas me encarou. Respirei fundo para me acalmar e peguei sua mão. — O que houve?
— Não é óbvio?
— Nem tudo tem que ser óbvio, Sherlock.
Ele balançou a cabeça.
— Eu não posso fazer isso.
— O quê?
Uma pausa.
— Você me apavora. — Não consegui responder ou sequer questionar aquilo, estava um tanto surpresa pela palavra usada: apavorado. — Esse tipo de sentimento nunca se aplicou a mim e agora que está aqui... Não sei como lidar com ele, mas sei que não consigo ficar longe de você. Isso não é saudável.
— Não me afaste Sherlock.
— Não vou, não posso, não quero e não consigo.
Ele jogou a marmita na lixeira.
— O que isso significa?
— Significa que você ganhou e, embora eu esteja desesperado para fugir disso e, embora amar ainda seja um mistério para mim, vou tentar aprender a como lidar com ele. Primeiro porque não sou nenhum covarde pra fugir disso, e segundo porque eu sei que você é a única professora que vai ter a paciência de me ensinar.
Eu sorri estendendo minha mão em sua direção. Eu precisava dele e esperava que ele entendesse o que eu queria com aquele gesto. E meu detetive sabia. Sherlock se inclinou em minha direção e novamente senti seus lábios nos meus. Era de se esperar que ele estivesse tentando tomar cuidado pelo fato de eu estar enferma, todavia, era claro que nossos corpos queriam mais. Assim como nosso primeiro beijo, perto das docas, no cais dos Navios Cargueiros, aquele também foi instigante. Incendiário seria a melhor forma de descrever. Meu corpo formigou e reagiu, segurei-o pela nuca aprofundando o beijo, cheguei a sentir uma pontada no ombro esquerdo, porém não deixei aquilo me atrapalhar. Ignorando a dor, puxei Sherlock para mais perto com meu braço bom e agarrei seus cachos irresistíveis. Ele só se separou de mim quando nenhum de nós conseguia mais respirar.
— Isso é muito bom.
Ofeguei.
— Quer ouvir uma coisa estranha?
— O quê?
— Eu quis te beijar no momento em que te vi no cais.
Ah sim, muito estranho.
— Holmes, você achou que eu era um homem.
— Sim e devo admitir que fiquei ligeiramente consternado e perplexo.
Rimos juntos.
— Você é inacreditável, Sr. Holmes.
— De fato. Bem, espero que saiba que eu estou, profundamente, decepcionado com você, Russ.
Não precisei ver meu rosto pra saber que minha expressão caiu.
— Ora, mas por quê?
— Você podia ter morrido. Se Donleavy fosse bom de mira teria lhe acertado o coração no lugar fígado, ou a cabeça ao invés da clavícula. Você quase sangrou até a morte e eu quase morri de...
Ele não terminou, mas não precisava; eu só precisava me colocar no lugar dele para entender perfeitamente.
— Eu peço desculpas, não foi minha intenção preocupa-lo.
Ele assentiu.
— Eu falei com o reitor em Oxford e expliquei a situação a ele que entendeu perfeitamente e, por enquanto, você pode estudar em casa enquanto se recupera. Ele vai mandar os conteúdos, exercícios, apostilas por e-mail e quando você estiver pronta para voltar, será muito bem vinda.
— Você falou com ele por mim? — Sherlock apenas deu ombros levemente como se aquilo não fosse nada demais. — Obrigada. Não sei o que seria de mim sem você.
Ele sorriu e balançou a cabeça concordando.
— Digo o mesmo, Russ.
(...)
Inevitavelmente, a vida é cheia de clichês. Não dá para escapar deles. "Depois da tempestade vem a bonança", é o que dizem.
Eu estava bem. Era verdade que as primeiras semanas acabaram comigo, porém, meu corpo estava apenas se recuperando de três péssimas feridas. Sherlock ajudou o que eu creio que foi isso que me ajudou a ganhar alta tão rapidamente.
Em menos de três semanas, eu já estava saindo do hospital e rumando para minha amada Baker Street ao lado de Sherlock Holmes. Nada poderia me deixar mais contente. Bem, a notícia de que Donleavy estava preso e que nem mesmo se confessasse seus crimes conseguiria uma pena menor também me deixou feliz. Minha família merecia justiça.
Não demorou mais para me recuperar totalmente, ao todo, oito semanas foram suficientes, porém eu tinha ganhado um atestado de doze semanas e não voltaria para Oxford até o fim dele, pois havia prometido aquilo a Sherlock.
Ele cuidou de mim. Isso quando eu não o expulsava de casa para resolver algum crime com John. Eu nunca o ataria a mim sabendo que muitos precisavam dele. Seria ridículo me portar de forma egoísta só porque estávamos nos relacionando. Ele não era como aquela caveira que eu podia colocar de enfeite na lareira.
Era bom quando ele chegava e ficávamos no sofá descansando. Eu depois de ter passado o dia estudando e ele por ter resolvido, não um, mas múltiplos casos em um só dia. Era bom quando eu sentia dor no ombro calejado e ele me preparava uma bolsa de água quente para aliviar a dor, exatamente como o médico havia instruído, já que eu era teimosa com a medicação.
Eu sentia o ombro nos dias mais frios e depois de passar muito tempo com a cara nos livros, como naquele exato momento. Sherlock estava sentado em sua poltrona lendo alguns arquivos. Já fazia um tempo que tínhamos nossas teorias de como Moriarty poderia ter me conhecido. A de Sherlock parecia infalível. Lestrade também mandou um e-mail ao condado de Sussex pedindo qualquer informação que eles tivessem a respeito dele. E eis aqui a história anexada à teoria de Holmes.
Jim Moriarty sempre foi bom com números e se formou cedo decidindo exercer a profissão de professor em Sussex. Sim, ele já havia sido professor. Depois de pesquisar por algum tempo, descobrimos que Moriarty foi aluno de um de meus professores e, se Holmes estivesse certo como geralmente estava, Moriarty me conheceu por intermédio desse professor. O resto ficava por conta da imaginação.
Senti uma pontada no ombro e o movi levemente na tentativa inútil de aliviar a dor, todavia, isso não adiantou. Tentei disfarçar, a última coisa que eu queria era atrapalhar Sherlock, contudo, o detetive estava sempre de olho em mim e sabia exatamente o que estava acontecendo. Suspirei quando o vi levantar e antes que pudesse começar a me punir mentalmente pensando em como eu só dava trabalho, senti suas mãos em meus ombros.
— Já deu por hoje. — Ele esticou a mão para fechar meu livro. Eu não iria discutir, não adiantaria de nada. — Você já estudou demais, precisa descansar.
— Mas...
— Chega, Russ.
A voz dele foi calma, porém firme. Suspirei e tirei os óculos pousando-o na mesa.
— Tudo bem.
— Vou preparar um banho pra você.
— Tudo bem.
Inicialmente, quem me dava banho era Mary, esposa do tio John, mas não demorou muito para que eu conseguisse me ensaboar e me trocar sozinha, mas Sherlock ainda me esperava na porta só para garantir. E naquela noite, aquilo não mudou. Apenas o rumo das coisas que não foi o mesmo, porque, naquela noite, eu não fui para meu quarto. E essa é a parte interessante sobre acordar em outro lugar completamente diferente do qual você está acostumado a acordar. A diferença é que, no momento em que eu fechasse meus olhos para dormir naquela noite, na manhã seguinte, eu me lembraria de como fui parar no quarto de Sherlock Holmes e, mais especificamente, em sua cama. E como isso aconteceu? Bem, começou com um clichê: tudo começou com um beijo.
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