Notas iniciais
Boa Leitura!!!

(...) Russell

48 horas atrás...

— Bom dia, Holmes.

Cumprimentei-o com um sorriso.

— Bom dia, Russell.

Disse sem tirar os olhos do microscópio. Depois que saímos de Aurora, sem nenhuma suspeita de Patrick Donleavy, voltamos a Baker Street como se nada tivesse acontecido. A festa de natal foi extremamente adorável, até conversei com Molly, que eu não via desde meu aniversário de quinze anos.

O presente de Holmes já adornava meu pescoço. E eu não me atreveria a tirar, pois aquilo era uma prova de que agora eu, juntamente com John, também era sua parceira. Em minha mente, tirar aquele colar seria o mesmo que trai-lo e eu não faria isso.

Servi-me um pouco de leite enquanto observava o atento detetive ocupado com seus experimentos. Sempre tão compenetrado, sempre tão curioso para saber mais sobre assuntos que só ele entenderia. Sherlock Holmes não tinha objetivos comuns. Ele era incomum. Olhai para algumas poucas folhas de papel soltas e um livro em cima da mesa. Algo me chamou atenção.

— Holmes?

Sussurrei.

— Sim, Russell?

Ele respondeu-me no mesmo tom baixo ainda sem deixar de avaliar o que tinha na lente do microscópio.

— Pode... O que é isso?

Holmes olhou para o livro e depois para mim.

— Nunca estudou isso?

Fiquei ligeiramente constrangida. Fui ensinada em casa juntamente com meu irmão mais novo e nosso objetivo, desde cedo, foi chegar a Oxford. Havia muitos fatores que fizeram meus pais optarem pelo ensino domiciliar e não uma escola. Eu nunca reclamei a respeito, mas meu irmão sim. Ele era apenas uma criança e, como tal, queria poder brincar com alguém além de sua irmã mais velha e “sem-graça”.

O fato é que, se eu havia aprendido algo sobre aquilo que estava naquele livro, eu não saberia dizer. Acho que meus pais pediam a meus professores que me passassem coisas que, para eles, me seria útil.

— Eu acho que não. O que é?

Sherlock não fez uma careta como achei que faria. Ao invés disso, puxou uma cadeira, pediu para que eu me sentasse e puxou sua própria cadeira para perto da minha.

— Este é o diagrama de Linus Pauling. Com esse diagrama, eu posso descobrir em que período e família estão cada elemento na Tabela Periódica sem precisar ter uma em mãos. Mas primeiro você precisa fazer a distribuição eletrônica do elemento.

Assenti. Sherlock fez questão de me ensinar aquilo até que eu entendesse e então, como um bom professor, me passou exercícios. Era engraçado vê-lo tão exultante ao ver-me acertar e confuso quando eu errava uma que, para ele, era extremamente fácil. Para ser honesta, às vezes eu errava propositalmente. Havia algo de único no rosto dele quando isso acontecia. Não era frustração... Era determinação. Ele estava determinado a me fazer entender aquilo.

— Não, este está errado. — Ele disse quando cometi mais um erro. Vi seu braço se esticar e sua mão pegou o lápis da minha, rabiscando por cima do meu erro em seguia. — Este é da família 2A. Qual é a família 2A, Russ? Metais...?

—Metais Alcalinos Terrosos.

— Isso, muito bem. Bem, acho que por hoje está bom, amanhã posso passar mais alguns exercícios. O que acha?

— Eu adoraria. Obrigada, Holmes.

— Eu que agradeço Russ. E, para mostrar o quanto estou agradecido, tanto pela sua presença e por me deixar ensina-la, que tal sairmos para comer alguma coisa e, depois, fazer um breve passeio pelo Secret Garden?

— Nós não vamos ao Aurora hoje?

— Hoje não.

(...)

— Achei que você iria pedir batata frita.

— Era minha intenção a principio.

— O que tem naquela batata frita salgada que te torna tão doce, Holmes?

Ele fingiu pensar.

— Acho que gordura.

Rimos. Havia uma grande diferença para o detetive entre “comer” e “almoço/janta”. E quando Sherlock Holmes falava “comer” significava petiscos. E o petisco favorito dele era: Batata frita. Não foi nenhuma surpresa. Mas aquele dia foi diferente. Naquele dia, ele realmente se sentou a mesa de um restaurante e comeu um bom prato de Fettuccine à Carbonara.

Depois, fomos direto para o Secret Garden. Não era um dia frio, na verdade, estava quente o suficiente para me fazer retirar o casaco pesado ficando apenas com o cashmere cor de pele que eu usava por debaixo do casaco da mesma cor. Deixei o sol do meio dia banhar meu rosto e meus cabelos enquanto caminhávamos pelo parque.

— Eu fiquei bem surpresa.

— A respeito?

— Bem, você costuma abster-se de comida durante um caso e hoje você quase acaba com toda a massa disponível de um restaurante.

— Você e o John gostam de exagerar, não é? — Eu ri. — Bem, costumo abster-me quando preciso solucionar problemas e, neste caso, o problema já está solucionado, só precisamos de mais provas.

— Nunca me contou o real motivo disso.

— A comida me deixa lento.

— E sem ela você fica rabugento. Já notou?

— O quê? Não diga besteiras, Russell.

Sherlock tirou seu casaco dobrando-o em seu braço assim como eu.

— Então já que você está com apetite hoje, que tal um sorvete?

Perguntei apontando para o sorveteiro algumas arvores a frente.

— Claro, por que não?

Sherlock me ofereceu seu braço e eu imediatamente passei meu braço pelo dele. Caminhamos juntos até o adorado sorvete que cairia para o dia quente.

— Dois, por favor. De...

Ele me olhou esperando que eu escolhesse.

— Chocolate.

— Dois de chocolate.

Foi um dia. Um dia e tanto.

(...)

Tudo estava tão calmo naquela noite. Eu podia ouvir tudo. As mínimas coisas com as quais você se preocupa se tornam ainda mais insignificantes quando se esta realmente feliz. E eu estava. Ao meu lado dentro daquele carro, eu conseguia ouvir a respiração do meu irmão ao mesmo passo que a de minha mãe que também dormia no banco do passageiro e, meu pai, que ainda não mostrava sinais de fadiga, dirigia cantarolando baixo “Love Me Tender”, do Elvis Presley.

E é assim que sempre vou me lembrar deles. É assim que vou me lembrar de cada um deles antes de tudo acabar como acabou. E como tudo acabou ainda me assombra. Noite após noite. O luto havia me deixado há muito tempo, mas naquela noite, aquele sonho me atingiu no peito. Acordei com a saudade, com a dor e, as lágrimas, que eu achei que nunca mais derramaria, também estavam ali.

Mas, por mais que eu sentisse que tudo estava desmoronando, ainda havia alguém ali que cuidava de mim. Ele me encontrou agarrada a um travesseiro como quem se agarra a vida, chorando como uma criança perdida, desesperada por consolo. Ele estava lá.

— Russ.

— Não foi nada, desculpe ter te acordado.

Ele suspirou.

— E por que está chorando? — Eu dei de ombros, diante disso, ele se aproximou, sentando-se na cama ao meu lado. — Você não consegue mentir para mim, Russell.

— Tem um cigarro?

Ele me olhou de lado claramente pensando que eu estava louca, mas puxou um único cigarro do bolso de seu roupão de seda. Entendi minha mão para pegar o cigarro, porém, Sherlock voltou a guarda-lo. O fitei perdida.

— Não. Eu já estraguei muitas pessoas de muitas maneiras, Russell; eu não vou estragar você.

— Mas eu...

— Há outras formas de lidar com a dor, Russ.

— Ensine-me.

— Deite. — Fiz como instruído deitando-me na cama, Sherlock me cobriu com as cobertas. — Quando eu era mais novo, meus pais, arranjaram um cachorro. Eu achei que seria mais um infortúnio em minha vida, mas no instante em que o vi, eu o amei. E da mesma forma que o amei, sofri quando partiu. Veja bem, Russel, eu nunca tive... Amigos. Quando tentei ter, fracassei. Tudo o que me sobrou foi tentar orgulhar meus pais; só que eu teria que competir com meu próprio irmão. — Ele pousou a mão em meus cabelos fazendo um cafune, um conforto que eu já lhe havia dado. — Mycroft me fez pensar por anos que eu era um idiota. Quando meu cachorro, Barba Ruiva, morreu, ele fez questão de me fazer pensar que eu era um completo imbecil por sentir algo, qualquer coisa, por um ser vivo. Como um interruptor, desliguei meus sentimentos. — A voz dele começou a desaparecer aos poucos. Eu queria ouvir mais, queria saber mais, todavia, o sono começou a me arrastar para uma neblina onde ainda havia seu toque e aquela deliciosa vibração rouca da voz dele. — Mycroft me ensinou isso mesmo sem saber, e John me ensinou a ligar o interruptor quando eu precisava...

(...) Sherlock Holmes

Ela dormiu. E eu tomei a liberdade de lhe contar o que eu queria contar.

—... E você está mantendo ele ligado.

(...)

— Então nós não vamos voltar ao Aurora?

— Hoje não.

— Mas é meu último dia aqui, Holmes. Como irei te ajudar se...

— Eu pretendo voltar lá, mas pretendo voltar sozinho.

— O quê?

— Você me ouviu.

— Pode ser perigoso.

— E aqui estou eu, não é mesmo?

— Holmes, por favor, deixe-me ir com você.

— Russ...

— Por favor.

Ela esticou sua mão pelo granito da mesa da cozinha e agarrou a minha com força. Minha mão devia formigar desta forma? Faria uma pesquisa a respeito disso mais tarde.

— Muito bem, mas hoje não.

— Quando?

— Você saberá.

Retornei meu olhar para o jornal e voltei a beber meu chá.

— Mas então o que fará hoje?

— Bem, estava pensando em ir patinar. Aproveitar que a pista de gelo Canary Wharf está aberta.

— Sério?

— Sim.

— Ah Holmes, às vezes acho que nunca vou compreender você por completo.

Eu sorri.

— Mas você compreende, sempre.

Passei o dia e parte de nossa tarde ensinando-a o básico para poder passar para o complexo pouco a pouco. Mas eu tinha algo errado, eu sentia isso.

(...) John

Dois dias depois...

— O quê? Mas...

Russell tirou seus olhos do papel a sua frente e olhou para Sherlock.

— Se é que foi mesmo “Moriarty” que mandou isso.

Sherlock, que se encontrava de costas para nós olhando pelas janelas, virou-se para encarar Russell.

— O que está insinuando?

— Ora, não se faça de bobo, Holmes. Você nunca quis que eu fosse para Oxford e agora você acha que encontrou a maneira perfeita de me impedir de voltar. Moriarty está morto e ele não vai voltar. Se ele quisesse me machucar ele já teria aparecido.

A voz dela aumentou ao chegar ao final.

— Não é assim que funciona, Russell! Você acha que eu inventei isso?

Sherlock gritou.

— Sim, eu acho! Não é você que engana quando precisa enganar sob seus próprios pretextos? Esse é o nosso código, Sherlock! O mesmo que usamos em nossas mensagens. Como ele sabe?

— John, por favor, ensine-a a não dizer bobagens. — Cruzei meus braços. Mary tinha motivos pra desconfiar de Sherlock e eu também não sabia se eu podia confiar nele neste caso. Ele nunca quis que Mary tivesse ido a Oxford e se ele quisesse impedi-la, precisava de um bom motivo. — Não vai dizer nada?

— Desculpe Sherlock.

— Não. Eu não vou deixar que ele fazer isso de novo, ele está brincando com sua mente novamente, John. Por que você está permitindo isso?

Engoli em seco.

— E eu não vou fazer parte do seu jogo, Sherlock. Eu te falei. Eu disse que não ia jogar seu jogo.

Antes que Russell pudesse alcançar a porta, Sherlock a segurou.

— Eu cansei. Não me importa se acredita em mim ou não, se vai jogar esse maldito jogo que também não estou jogando, mas você não vai voltar a Oxford até que eu tenha certeza de que Moriarty ou quem quer que esteja brincando conosco fingindo ser ele desapareça. E, já que está tão teimosa, vou ter que te lembrar de que eu sou seu responsável e enquanto eu tiver sua guarda, sua tutela, você me obedece.

Talvez ele tenha sido muito duro com ela. Quando vi Russell correr escada acima, claramente angustiada, também não pude aceitar.

— Eu espero que não seja uma pegadinha sua.

— Não é!

Ele bateu a porta com força.

— Ela está chateada, Sherlock.

— Bem, eu não posso fazer nada posso?

— Devia ir pedir desculpas por ter sido tão idiota.

— Eu fui idiota por tentar protege-la?

— Não, mas foi rude.

— Ah, por favor...

— Por que você é tão contra ela ir para a Universidade?

Sherlock encostou-se à mesa da sala, sua respiração estava irregular.

— Eu. Não. Sou. Contra.

Respondeu-me pausadamente.

— Então agora é sua chance de me dizer.

— O quê?

— Por que você é diferente com ela? Por que tudo em relação a ela é diferente? Por que... Ela?

Ele fechou os olhos e exasperado, disse uma verdade que mudaria muita coisa.

— Porque eu acho que estou apaixonado por ela, John.

Notas finais
Opa, então... Não deu tempo de verificar e consertar os erros porque estou bastante ocupada e vou estar até terça-feira, mas vou consertar assim que eu puder. Enfim, espero que vocês tenham gostado e até o próximo capitulo(que eu espero não demorar tanto). Beijos e até lá! VickSaturn