I'll Take The Breath Out Of You
15 Game Over
Notas iniciais
(...) Russell
Ele não reagiu bem e eu não esperava mais que isso. Eu não diria aquilo esperando que ele simplesmente viesse para meus braços contente e disposto. A princípio, ele simplesmente me encarou com aquela expressão um tanto nervosa, depois simplesmente se levantou e saiu, passando por mim como se eu não estivesse lá e rumando para seu quarto onde se trancou pelo resto da noite.
Dormi no sofá depois de mandar uma mensagem para John informando minha falta de progresso, e ele também não se surpreendeu com a reação do detetive. Mas havia outra coisa que martelou em minha mente até o momento em que adormeci. Eu não me daria por vencida. Aquilo não seria apenas uma tentativa falha, aquilo não seria minha derrota.
Eu acordei com um barulho na cozinha. Eu achei que acordaria tremendo de frio, pois me lembrava de ter ido dormir sem cobertor, entretanto, notei que meu corpo havia sido embalado em três cobertores enormes que obviamente pertenciam a ele. Eu conseguia sentir seu cheiro impregnado neles e aquilo só me deu vontade de me enroscar mais naqueles cobertores voltar a dormir.
Outro barulho vindo da cozinha me fez repensar e descartar a ideia no momento. Levantei-me e rumei em direção aos barulhos encontrando Sherlock ocupado com uma tarefa dupla: tentando evitar que os ovos da frigideira queimassem e falar ao telefone. Ele sussurrava.
— Sim, claro. — Ele esperou a resposta. — Se ela melhorar eu a levarei. — Mais uma pausa. — Muito obrigada pelo convite, Patrick. Até mais tarde.
Esperei ele desligar.
— Não sabia que você e Donleavy eram tão chegados.
Brinquei. Sherlock não me olhou ao responder.
— E não somos.
— Posso saber sobre o que estavam conversando?
Ele se virou colocando os ovos em um prato que já possuía bacon. Senti uma fome instantânea.
— Vou até Aurora hoje à noite. Aqui, coma.
Respondeu colocando o prato com ovos e bacon sobre a bancada juntamente uma caneca com achocolatado. Sentei-me cautelosamente ainda analisando sua frase: o “eu” implícito na frase indicava “sozinho”.
— O que devo usar?
— Você sabe que eu quis dizer sozinho.
— Sim, mas você prometeu que me levaria.
Ele sorriu.
— Se você repassar aquela conversa que tivemos Russell verá que eu não disse “eu prometo”, e sim, “tudo bem”. Tudo bem não é uma promessa.
— Então vai me deixar aqui para que “Moriarty” me ache.
— Não, você vai ficar com outra pessoa.
— Arranjou uma babá? Ele é bonito pelo menos?
Ele me encarou com cara de poucos amigos.
— É Mycroft.
— Péssima ideia.
Comentei levando um pedaço de bacon à boca.
— Não estamos podendo escolher.
— Você pode me levar junto.
Sherlock olhou para o lado e perguntei-me sobre o que ele estava pensando. Eu certamente estava pensando sobre o que aconteceu no Aurora.
— Não vou te levar.
Assenti ficando em silêncio e recomeçando a comer. Ele me encarou.
— Não vai aceitar isso, né? — Simplesmente dei de ombros mastigando calmamente. Ele bufou. — Imaginei. — Dei de ombros novamente. — Me responda.
Em um ritmo que eu esperava ser excruciantemente lento para ele, mastiguei e engoli o resto da comida.
— Você, mais do que ninguém, devia saber que eu não sou do tipo que “assim será” e me conformo. E se é dessa forma que você quer jogar...
— Não estou jogando. Você mesmo disse que não ia jogar comigo.
— Eu disse que não ia jogar seu jogo, Sherlock. — Levantei-me ficando de frente para ele. — O jogo é meu. O tabuleiro está pronto; as peças precisam se mover. — Fiquei na ponta dos pés, meu rosto estava a poucos centímetros do dele. — Eu começo.
— Esse é o objetivo do seu novo jogo? Vai tentar me seduzir? “A Mulher” já tentou isso e não deu certo.
— Ah, mas aí você se esqueceu de uma coisa.
— O quê?
— Eu não sou Irene Adler. Meu nome é Mary Russell, estou apaixonada por você da mesma forma que eu sei que você também está por mim e eu não vou deixar que você me afaste por medo.
— Eu não tenho medo.
— Não mente pra mim.
— Não estou mentindo.
— Então qual é o problema? Eu sou uma distração, é isso? — Ele não respondeu. — Porque eu sei que você e eu somos ótimos juntos em cenas de crime. Eu sei exatamente quem você é, William Sherlock Scott Holmes e não vou exigir flores no dia dos namorados ou provas de amor. Na verdade, me levar para resolver um homicídio pode ser o presente perfeito, ou simplesmente podemos desenhar, a tiros, carinhas sorridentes na parede da sala.
— Eu não...
— Diz.
Meus lábios arderam, meu coração começou a bater tão forte que, pelo fato de ele estar bombeando mais sangue, meu corpo inteiro clamou por mais oxigênio. Faltou um milésimo, mas sempre tem 1% que pode estragar tudo.
— Devo entender que vocês já se acertaram?
Eu e Sherlock nos separamos imediatamente ao ouvir a voz de Mycroft na porta. A raiva me dominou.
— Não está meio cedo para você aparecer aqui?
Ele olhou para seu relógio.
— Já é meio dia. Você está pronta?
A pergunta sem nexo algum me fez pestanejar.
— O quê?
Mycroft olhou para Sherlock em represália.
— Você nem ao menos a avisou.
— Eu estava a ponto de fazer isso.
— Bem, você devia ter feito isso antes.
Continuou o Holmes mais velho.
— Ela acabou de acordar.
Mycroft revirou os olhos.
— Muito bem, sugiro que conte agora. Vou mandar os homens pegarem as coisas dela.
— Pegar minhas coisas? Como assim, Sherlock?
— Muito obrigada, Mycroft.
— Como dizia a mamãe: É sua sujeira, agora, limpe!
Sherlock finalmente se dirigiu a mim, mas não me olhava.
— Você vai ficar com Mycroft hoje e, amanhã, vai para casa dos meus pais.
— Como é?
— Você me ouviu.
— Você armou isso e não me contou?
— É o melhor para você.
— Não, é o melhor para você. Por que é isso que você faz, Sherlock. Você não encara seus medos, você foge deles e eu sou um deles agora.
Sherlock nem mesmo reagiu como eu achei que reagiria, ele assentiu.
— Até logo, Russell.
Despediu-se antes de deixar a cozinha. Mycroft ainda estava na cozinha quando, no auge de minha raiva, peguei minha caneca a procura de um conforto que ela não me daria a não ser que a espatifasse no chão. E foi assim que preferi descontar minha raiva.
(...) The Diogenes Club
— E aqui estou eu novamente. Nessa mesma sala, sentada na mesma poltrona, ouvindo você.
— Você está nervosa e tem todo o direito de estar.
— Que bom que você sabe.
— Sim, eu sei de tudo.
— Sabe?
— Eu sei que você alcançou seu objetivo, Russell. Quando Moriarty voltou, eu achei que ele fosse o Vento Leste que o destruiria, mas, no fim, era você.
Eu encarei Mycroft, minha boca se abriu uma, duas, três vezes tentando formular a frase que descrevesse e ainda me confirmasse o que ele realmente quis dizer com aquilo.
— Você está dizendo que eu... Destruí a vida do seu irmão? Porque Sherlock me contou sobre essa história e esse tal de “Vento Leste” nunca pareceu boa coisa.
Ele riu.
— Sim, você destruiu. Porém há males que vem para o bem.
— O que quer dizer com isso?
— Quero dizer que você destruiu o gelo que há tempos havia se impregnado nele.
Eu assenti quando finalmente entendi. Eu sorri.
— E você gosta disso. — Não havia necessidade de perguntar o que estava óbvio. Mycroft Holmes queria que eu quebrasse o gelo de Sherlock Holmes. — Por quê?
— Ele está apaixonado por você, não há dúvidas disso; e você está apaixonada por ele.
— Tá, mas por quê? O que você ganha com isso?
Ele ficou sério e ficou mudo. Talvez ele tivesse se lembrado de uma memoria um tanto desagradável, ou apenas pensava no modo mais fácil de explicar, entretanto, Mycroft Holmes não deu um discurso, também não me ofereceu uma frase. Foi apenas uma palavra.
— Redenção.
— E o que ele ganha com isso?
— Achei que soubesse.
— Eu sei, mas quero ouvir de você.
— Dr. Watson me disse isso uma vez: Porque Sherlock Holmes é um grande homem, e um dia, se tivermos sorte, ele pode até se tonar um bom homem. — Ele respirou fundo. — Então, diga-me Russell: como e onde gostaria de encontrar meu irmão esta noite?
(...) Sherlock Holmes
O mesmo caminho pelo cais de Londres parecia solitário e eu sabia por qual motivo estava me sentindo daquela forma. Eu sentia a melancolia corroer minha memória, a noite taciturna agravava minha situação. Sem nenhum aviso, minha vontade de continuar meu caminho começou a se esvair e pensei em dar meia-volta e ir para casa.
Eu podia me enxergar do outro lado da rua, com as mãos nos bolsos, os olhos voltados para o chão como um condenado caminhando para a morte, apenas me faltavam os grilhões nos pulsos para completar a cena. Precisava me recompor antes de chegar à lancha que me levaria até Aurora, por isso, respirei fundo, ajeitei os ombros, levantei minha cabeça e apressei-me pelo cais.
— Hey, você!
A voz veio de um homem em uma lancha branca a minha direita. Ele era de estatura mediana, seu cabelo era loiro e precisava ser cortado, pois estava um tanto grande; sua barba estava por fazer e suas roupas, constituídas por uma calça jeans, uma camisa de flanela, um casaco e uma touca, estavam sujas de graxa. Um “marujo”. Era estranho, mas senti que o conhecia. Eu que precisava me aproximar para enxerga-lo melhor, ele estava longe demais da luz do cais e não conseguia ver mais que o óbvio.
— Sim?
— Poderia me ajudar, colega?
Sua voz era estranha, como se ele fizesse força para que ela saísse mais máscula. Comecei a desconfiar, poderia ser uma armadilha.
— Com o quê?
Ele desceu do barco e a luz bateu em um local realmente estratégico. “Ele” possuía uma cicatriz no pescoço assim como certa pessoa que eu conhecia.
— O que está fazendo aqui, Russell?
— Uau, que rápido. — Comentou começando a tirar a barba falsa. — Mas nem tanto assim. Achei que me reconheceria assim que me olhasse, você demorou um pouco.
— Está escuro.
— Talvez deva comer mais cenouras.
— Russell...
— Ou talvez seja hora de ir ao oftalmologista.
—... Como chegou aqui?
Ela deu de ombros.
— Táxi.
— Vou ligar para Mycroft.
— Pra quê?
— Para que ele venha te buscar.
— Ah, por favor, quem você acha que pagou o táxi?
Ela levou às mãos a cabeça para remover a touca.
— Está louca? Quer que te vejam?
Sussurrei agarrando-a pelo braço e arrastando-a comigo para fora do cais e para longe de ande estava ancorada a lancha que servia de escaler para Aurora.
— Para onde estamos indo?
— Vou te levar para casa.
— Finalmente voltou a pensar corretamente.
Não respondi. Minha maior preocupação naquele momento era que ninguém que pudesse nos identificar e trabalhasse para Patrick tivesse nos identificado e visto aquela cena. Isso seria perigoso para Russell. Parei quando cheguei à área dos Navios Cargueiros e a puxei para trás de um grande container vermelho.
— Hoje você fica em Baker Street, mas amanhã vou enfiar você no primeiro trem que te deixe na casa dos meus pais.
Ela revirou os olhos.
— Eu sou o centro, se lembra?
— Não, você não é.
Ela sorriu.
— Você fica lindo com o cabelo penteado para trás.
— Para com isso.
— Isso o quê?
— De tentar me distrair.
— Não tem como se livrar de mim agora, Sherlock. Tudo e todos conspiram a meu favor. Não importa pra onde ou com quem você me deixar, eles vão me mandar de volta para você. Se você me deixar com Sally Donovan, ela ainda vai me mandar direto pra Baker Street.
— Não estou tentando me livrar de você.
— Mentira.
— Eu ia visitar você.
— Outra mentira.
— O que você quer que eu diga afinal?
— A verdade.
— A verdade não vai mudar nada Russell.
— Então me prova.
Eu não ia me fingir de desentendido.
— Como?
— Me beija.
Esperei meu cérebro processar o pedido de Russell. Era bem claro e eu havia entendido perfeitamente, mas aquilo me sobressaltou. Eu estava completamente pasmo.
— O quê?
— Ora, não fique tão surpreso.
— Como isso vai provar alguma coisa?
— Se você me beijar e ainda for capaz de dizer, na minha cara, que não sente nada forte o suficiente por mim e que esse sentimento não vai mudar em nada sua vida, então eu serei obrigada a concordar com você; prometo nunca mais tocar no assunto e farei o que você quiser que eu faça. Mas caso você não conseguir; então, Holmes, guarde minhas palavras, ou você derruba a sua Rainha por livre e espontânea vontade, admitindo assim a sua derrota, ou eu vou te dar um Xeque-mate. O movimento é seu, escolha com cuidado.
— Você não me deu muita escolha.
Ela sorriu.
— Bem, então parece que você esta encurralado. Xeque.
Peguei seu rosto aproximando-me dela e assim que colei meus lábios aos seus eu sabia que já havia perdido. Querida Russell, você ganhou. Fim de Jogo.
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