I'll Take The Breath Out Of You
5 Fragmentos
Notas iniciais
— Como assim "não pode"? — Apenas assenti com a cabeça confirmando o recado que a Sra. Hudson me passará. Sherlock bagunçou os cabelos impacientemente e marchou até a porta. — Sra. Hudson!
Como sempre, ela não demorou a aparecer.
— O que tem de tão importante em seu cronograma que não pode ser cancelado para que cuide daquela garota.
Antes de que a senhora respondesse, uma Mary, ainda em seu pijama e aparentemente exausta, entrou no recinto soltando um grande bocejo.
— Bom dia, galera.
Murmurou fracamente caminhando na direção a cozinha. Ela usava uma blusa branca, uma calça de moletom cinza e um robe de algodão com a gola puxada para cima, seus cabelos loiros estavam presos em um coque um tanto desarrumado. Nada parecia exatamente estranho ou fora do lugar, mas a Sra. Hudson pareceu ver algo.
— Querida, o que é isso em seu pescoço?
Perguntou ela despreocupadamente ao puxar o robe de Russell, que foi pega de surpresa pelo toque, fazendo a peça deslizar pelos braços expondo a pele pálida da garota. Rapidamente a menina puxou os cabelos para esconder, ou tentar, esconder algo que todos já haviam visto.
— Oh, eu sinto muito querida, eu-eu não sabia.
Cicatrizes. Mary possuía grandes cicatrizes em sua pele. Pude identificar três antes de ela pegar o robe delicadamente das mãos da Sra. Hudson, que encontrava-se chocada e claramente envergonhada por sua ousadia, e vesti-lo novamente . Uma das cicatrizes que marcava seu pescoço era fina e fácil de esconder; entendi porquê não a havia notado em nenhum momento até agora, a outra grande marca que avistei marchava do ombro de Russell até sua clavícula, esta era grande e só poderia ser escondida por roupas e a última ela esconderá em sua nuca com sucesso.
— Tudo bem.
Ouvi Mary responder brandamente. Decidi não mostrar interesse e fazer pouco caso das marcas.
— Bom dia, Mary, com fome?
Ela assentiu e fez seu caminho em direção a cozinha novamente. Olhei para meu amigo em busca de algo, alguma reação dele a respeito do que tínhamos acabado de ver ali, ele tinha os olhos cravados na cozinha.
— Sherlock?
— Na mão também.
— O que?
— Uma ferimento na mão direita que conseguiu se regerar melhor e agora só resta uma marca branca na pele, mas ela perdeu parte da força na mesma, há uma certa rigidez no joelho esquerdo também.
— Pobre menina.
Sussurrou Sra. Hudson ao passar por nós e descer as escadas. Fiquei em silêncio absorvendo todas as informações que havia recebido até então, Sherlock, por outro lado, foi em direção ao sofá onde desabou a pensar.
— Ela vai ter que ir junto.
Senti meus olhos quase saltarem das órbitas.
— Está louco? É só uma menina.
Sherlock revirou os dele.
— Você mesmo concordou que não é uma simples garota.
— Sim, mas não deixa de ser errado levar uma moça para ver corpos.
Ele pareceu confuso.
— Molly vê cadáveres todos os dias.
— Ela é diferente.
— Não vejo como.
Apontei o mais discretamente possível para a cozinha.
— Ela não tem idade para isso.
— Bem, então arranje um lugar para ela ficar porque sozinha ela não fica.
— Ela deve ser inteligente o suficiente para saber o que pode ou não fazer.
— Sim, e Moriarty, com certeza, acha o mesmo.
Então entendi o verdadeiro motivo de meu amigo querer levar a garota. Quase me dei um tapa.
— Droga, como pude me esquecer disso?
— Sim, como?
Bufei em resposta.
— Mas afinal, como pretende fazer isso? "Mary, bote seu casaco, pois vamos ver alguns mortos hoje"?
— Tem ideia melhor?
— Eu adoraria.
Respondeu uma voz doce em minhas costas. Virei-me para a garota embasbacado.
— Adoraria?
— Sim, por quê não? Pode ser divertido.
Olhei para Sherlock novamente que me encarava com um sorriso cheio de presunção.
— Não disse?
Talvez os dois fossem loucos. Mantive essa ideia até sairmos, os três juntos, de Baker Street.
(...)
— Como me encontrou?
Perguntou Lestrade assim que viu Sherlock se aproximar da cena do crime. Meu amigo levantou um pedaço de papel com o endereço que a secretária dele havia nos passado.
— Tem que parar de contratar membros do meu fã-clube, Gavin.
— Greg.
Ouvimos duas vozes o corrigir, o próprio Greg e Mary ao meu lado. Lestrade estava nitidamente surpreso.
— E quem seria a moça?
Estava pronto para responder, entretanto, Sherlock passou em minha frente impaciente.
— Russell, Lestrade. Apresentados? Tudo bem. O que temos aqui?
— Nos chamaram ao ouvir tiros, mas tudo não passa de um suicídio. Já estávamos indo embora.
— Vou dar uma olhada mesmo assim.
Respondeu ele já subindo as escadas do apartamento. Lestrade encarou a mim e Mary.
— Detesto quando ele acorda com o pé errado. Você é amiga dele?
— Sherlock? — Ela riu. — Ele é meu tutor.
— Ele está treinando pessoas agora?
Ele me dirigiu a pergunta.
— Não, ele é realmente o tutor dela agora. Está detestando a ideia.
Greg parecia descrente.
— Quem seria o louco a dar a tutela de uma garota a ele?
Dei de ombros.
— Os pais, o irmão dele, o juiz concordou. Longa história.
Começamos a subir as escadas quando ouvi Greg murmurar.
— Ele é quem precisa de um tutor.
Passamos pela sala e seguimos por um corredor até uma grande área com duas grandes janelas. O lugar não passava de um grande estúdio biblioteca; parte do quarto estava coberto de quadros e rascunhos com desenhos impressionantes e outros inacabados. A outra parte possuía uma grande estante cheia de livros. A cor e beleza, no entanto, se perdiam perto das janelas.
Ali no chão, os cabelos ruivos de uma mulher misturavam-se com o vermelho de seu sangue. Em sua mão direita estava a arma que ela usara para tirar a própria vida, e na esquerda um cigarro que permaneceria inacabado como algumas daquelas obras que agora nunca seriam finalizadas.
Era óbvio pelo seu rosto o quanto parecia estar sofrendo, a maquiagem borrada pelas lágrimas que meu amigo costumava chamar de fraqueza estavam ali, entretanto, eu não saberia dizer o motivo de sua dor. Virei Mary antes que ela pudesse ver algo por entre a equipe que cobria o corpo ligeiramente.
— Pode me fazer um favor? — Ela assentiu. — Fique aqui, ok? Não saia daqui.
Ela voltou a balançar a cabeça. Virei-me e atravessei o quarto parando ao lado de Sherlock que analisava a cena. Ele não levou meio segundo.
— Por Deus, você são idiotas. — Todos no recinto o olharam. — Isso foi um homicídio.
Como ninguém se pronunciou, decidi abrir minha boca.
— Diga.
Sherlock se moveu pelo quarto parando de frente para a escrivaninha da vitima que ficava ao lado de uma das grandes janelas.
— A caneta com que ela escrevia continua pousada do lado esquerdo da folha, portanto, ela era canhota. Geralmente quando uma pessoa decide se matar, ela sente a adrenalina antes, algumas choram e começam a tremer, logo ela precisaria das duas mãos para segurar a arma, entretanto, ela ainda segura um cigarro entre os dedos da mão direita. Se ela tivesse atirado perto do rosto também haveria traços de pólvora nele, talvez um pouco no cabelo, mas não. O tiro foi certeiro na cabeça, mas foi de longe. Se ela tivesse atirado em si mesma, o impacto do tiro a teria empurrado contra a parede e a mesma teria escorregado até o chão e, se fosse esse o caso, ela estaria sentada; não deitada.
Haveria rastros do sangue que desceriam a parede até a cabeça, mas a parede possui uma mancha e respingos de sangue, o resto está espalhado pelo chão. — Ele se interrompeu por um segundo e depois andou até a escrivaninha da vitima passando os dedos levemente pela madeira. — Ela estava sentada aqui, desenhando algo distraída. Depois de certo tempo, levantou-se na necessidade de fumar um cigarro, mas foi interrompida pelo invasor, ela entrou em desespero, se afastou da janela para argumentar com ele. Obviamente o homem queria alguma coisa que ela não queria dar ou que não tinha. Como ela não colaborou ele atirou nela. O assassino tentou procurar pelo o que queria, mas não achou, afinal, olhe a bagunça que deixou para trás...
— Ô Sherlock, dá um pulinho aqui.
A voz interrompeu Sherlock de supetão em um momento um tanto inconveniente. Ele pareceu confuso por um segundo, depois pareceu reconhecer a voz. Ele praticamente rosnou ao responder.
— Eu estou ocupado.
Ouvimos ela ofegar surpresa.
— Que lindo!
O detetive olhou para trás e algo passou por seus olhos.
— Não toque em nada!
Ele correu para perto da menina e puxou sua mão para impedir o avanço dela.
— Aí! — Ela exclamou puxando sua mãos das dele. — Isso doeu, seu bruto!
— Não toque em nada!
Repetiu o detetive raivoso. Aproximei-me dos dois sendo completamente ignorado por ambos que agora fitavam-se em afronta.
— O que aconteceu, Mary?
Ela me olhou.
— Acho que sei o que o assassino estava procurando.
— E o que seria?
Ela simplesmente apontou para a estante de livros como se isso fosse o suficiente para explicar tudo. Meu olhar vagou dela para os livros que ela apontará ingenuamente e, por fim, olhei brevemente para Sherlock ao meu lado.
— Por que acha que ele iria querer um livro, Mary?
Perguntei o mais atenciosamente possível imaginando o quão pura a mente desta garota poderia ser a respeito da morte. Ela me olhou como se eu fosse um estranho suspeito querendo compra-la com doces e, em seguida, ela revirou os olhos.
— E eu lá disse livros? Olha essa estante, tio John. A preferencia dela por ficção é indiscutível e é evidente que ela arrumava a estante por uma ordem pessoal; eu faço isso. Olhe, sagas ficam juntas. — Ela disse mostrando uma ordem de livros que ia do número um ao cinco. — Ela colocava os favoritos dela em cima, a altura dos olhos, pois assim seria mais fácil de encontrá-los, posso dizer que são os favoritos dela porquê são os mais surrados e danificados, ou seja, ela os leu mais de uma vez. Os de baixo são os que ela menos leu, ou que simplesmente ela não gostou o suficiente para colocá-los aqui e estão bom estado. Mas o que chama a atenção é que todos os livros seguem um padrão: Ficção. Então, o que isso está fazendo aqui?
Disse ela ao apontar um livro azul titulado de O Capital de Karl Marx. Realmente, o que aquilo estava fazendo ali? Era um livro que constituía analises do capitalismo, nele eram abordados muitos conceitos econômicos complexos. Pensei naquilo por segundos, mas depois olhei para a menina na minha frente. Como ela sabia? Desorientado, voltei a olhar para meu amigo como quem pede uma explicação.
— É um livro falso. — Ela respondeu fazendo-me olhá-la novamente. — Eu tinha um. É tipo um cofre disfarçado, eu acho bem criativo; engana idiotas facinho. — Minha cara se fechou em uma careta um tanto carrancuda que ela notou de imediato e tentou remediar em seguida. — Não que você seja um idiota.
Sherlock deu um passo a frente, tirou o livro da estante e o abriu. Todos nos encaravam, esperando. Ele assentiu.
— É um cofre. — Em seguida ele me passou o objeto e inclinou-se ligeiramente na direção de Mary. — Muito bom, Russell. Mas o cofre precisa de uma chave, onde você acha que ela a guardaria? Você sabe?
Russell fez um bico fofo e encolheu os ombros como uma criança que obviamente sabe de algo. O detetive bufou.
— O que quer?
Ela abriu um enorme sorriso.
— Eu quero uma barra de chocolate toda semana.
Respondeu fazendo ele franzir o cenho.
— Só isso? — Mary assentiu. — Tudo bem.
— A chave é pequena e, se for parecido com o meu, é colorida. Ela era um pouco desleixada então é claro que tinha medo de perder a chave, nesse caso, ela mantinha ela em um local que ela não correria essa risco. Eu diria molho de chaves, mas acho que você já pensou nisso.
Ela mal terminou. Meu amigo já rumava para a porta da frente da casa da mulher e voltava em poucas passadas, agarrando o cofre de minhas mãos para abri-lo. Dali saiu uma pequena sacola de plástico transparente recheada de comprimidos.
— O que é?
Greg perguntou.
— Um problema que Molly pode ajuda-lo a resolver. — Disse Sherlock entregando o saco a ele. — Quanto a você, problema número dois, para Baker Street, agora!
O detetive agarrou Mary pelo braço pronto para ir embora.
— Mas Sherock, e o assassino?
Praticamente gritou Greg. Meu amigo virou-se novamente e sem largar o braço de Russell, impulsionou-a para frente.
— Fale!
— Aí, Holmes! — Reclamou, porém ele não a soltou. Ela bufou e com sua mão livre tirou o cabelo do rosto. — É um assassino descuidado, principiante, caso contrário não teria de montar essa cena toda e não precisaria deixar a arma. Provavelmente você irá encontrar digitais nela ou em — ela olhou em volta — qualquer outro lugar aqui. Possivelmente um drogado que pensou que ninguém investigaria um suicídio.
Ela finalizou antes de ser arrastada pela porta.
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