I'll Take The Breath Out Of You
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Notas iniciais
Boa Leitura!!!
ATENÇÃO.: Esse capítulo traz spoileirs do livro The Beekeeper's Apprentice de Laurie R. King(que não possuí versão traduzida), se você pretende ler esse pastiche ou outras obras subsequentes e não curte spoiler, sugiro que não leia.
— Eu quero jogar um jogo.
Explicou Sherlock depois de arrastar minha poltrona para bem perto da sua e sentar Mary bem a sua frente para fazer uma análise detalhada.— Eu vou ter que sobreviver à que?A confusão tingiu o rosto de meu amigo.— O quê? Ela fez uma careta ao responder.— É um filme de... Ah, deixa pra lá. Ele seguiu em frente. — Muito bem, fale-me sobre você, Russell. A única reação de Mary as palavras de meu amigo foi um sorriso. Um sorriso travesso atravessou as feições da jovem garota que se recostou confortavelmente em minha poltrona dizendo:— Por que você não fala sobre minha pessoa, Holmes?Tive a impressão de que essa seria a maneira pela qual eles se tratariam por um longo tempo. Sobrenomes. Porém eles pareciam tão à vontade tratando-se pelo último nome, naquela pequena sala, que até parecia algo intimo, parecia algo natural entre os dois.— É um desafio? Ela levantou as sobrancelhas em um movimento rápido e pousou o queixo sua mão em uma pose altiva. — Exatamente. Ele assentiu.— Sob uma condição. — Qual? — Fará o mesmo por mim quando eu terminar com você. Ela deu de ombros e brincou.— Bem, claro. Posso tentar, mesmo que esteja a ponto de ser humilhada. Sherlock juntou as mãos debaixo do queijo e fechou os olhos. — Talvez sim, talvez não. — Não vou jogar seu jogo.Lembrou-o com uma risada. Será que ela sabia que eu tinha ouvido aquela conversa entre eles outra noite? Como meu amigo havia dito: Talvez sim, talvez não. — E que jogo você vai jogar se não for o meu? Você está no meu mundo, Russell. A expressão dela não vacilou; ainda sustentava um sorriso triunfal em seu rosto, mas a pose de menina que mantinha perto de mim desapareceu. — Não, Holmes. — A voz dela desceu a um nível que parecia um tanto ameaçador. — Só porque estou no "seu" mundo, não significa que só possa jogar o seu jogo. Tenha em mente, de agora em diante, que vou jogar meu jogo enquanto finjo jogar o seu. Sherlock abriu os olhos somente para encarar Mary, tão surpreso quanto eu, genuinamente surpreso. — O quê? Disse ele. — Relaxe, Holmes, no meu jogo, você ainda está com uma quantidade razoável de vidas e pode muito bem receber ajuda. — Ela comentou ao puxar seu celular do bolso e o estender para ele. Sherlock não se moveu fazendo Mary rir. — O celular de uma pessoa diz muito sobre ela. — Isso pareceu fazer sentido e em um movimento um tanto brusco, ele pegou o celular das mãos pequenas. — Eu te diria a senha, mas acho que você já a descobriu. — Quanto tempo? Perguntou ele; Mary deu de ombros.— Não tenha pressa. Sherlock começou sua análise sobre o celular, virando-o nas mãos algumas vezes, encarou e sem precisar olhar muito para a tela, o desbloqueou logo em seguida começando a zapear por tudo ali: Aplicativos, fotos, músicas, documentos. Por fim, depois de alguns minutos, ele suspirou e começou a falar. — Mary Russell era o nome da sua avó paterna, o nome foi lhe dado em homenagem a ela. Russell assentiu como se parecesse satisfeita com o inicio da dedução, ela subiu uma das mãos pela blusa que usava e de dentro da mesma puxou um medalhão de aparência antiga. De minha posição — eu havia arrastado uma cadeira para o lado de Sherlock —, dava para notar a gravação MMR no mesmo. — Continue. Estimulou Russell. — Você tem quatorze, quase quinze, poderia dizer que tem dezesseis anos pela sua altura. Porém, apesar de jovem e do fato de não estar estudando, pretende passar nos exames para uma universidade, Oxford, pelos livros baixados em PDF no celular. — Ele moveu o celular como se o mostrasse e em seguida pousou-o no colo, voltando a juntar as mãos embaixo do queixo, mas nunca tirando os olhos dela. — Você é, obviamente, canhota. Um dos pais era judeu — sua mãe talvez? Sim, definitivamente sua mãe. — e você lê e escreve hebraico. Você é 10 cm mais alta que seu falecido pai; quando nos conhecemos, você estava usando um sobretudo que claramente não só era masculino como também pertencerá a ele. Seu pai era americano. Como estou indo? Sherlock perguntou. — O hebraico? — As marcas de tinta nos seus dedos... essas marcas só poderiam vir de uma escrita da direita para a esquerda. Ela assentiu levemente ao olhar as marcas em seu polegar.— Mas é claro. — Concordou ela. — Observação impressionante. — Não acabei ainda. Ela riu e voltou sua atenção para ele novamente. — Imaginei. Continue. — Seu sotaque está um tanto... apagado. Voltou não muito recentemente da cidade natal do pai, no oeste dos Estados Unidos, provavelmente no norte da Califórnia. Você nasceu à borda sul-ocidental de Londres. Vi Mary revirar os olhos para isso. — Sim, sim, Mycroft com certeza te falou sobre isso. Ele ignorou a interrupção.— Se mudou com a família para a Califórnia e se fixaram ali pelos últimos, hm, dois anos. Diga a palavra mártir, por gentileza. — Ela o fez. — Sim, dois anos. Em algum momento entre esse tempo e dezembro, seus pais morreram em um acidente em você também estava presente e que lhe proporcionou tais cicatrizes que vimos esta manhã. Talvez eu estivesse vendo coisas, entretanto, pode jurar que vi Mary mover-se desconfortável na poltrona e engolir em seco.
— Depois de se recuperar muito parcamente, foi morar com um membro da família de sua mãe, um membro um tanto avarento e insensível que não facilitou em nada sua total e completa recuperação. Foi mandada para a casa de meus pais e, em seguida, foi trazida para cá. — Vi Sherlock sorrir levemente ao ver o desconforto no rosto de Mary. — Assunto delicado, não é mesmo? Família? Mary limpou a garganta antes de olha-lo. — Sempre é nunca há exceções. Muito bom, Holmes, trezentos anos atrás você teria sido queimado. Vi o rosto de meu amigo se contorcer em um sorriso ainda maior.— Sim, já me disseram isso uma vez. Embora nunca tenha me imaginado no papel de um bruxo, rindo malignamente ao lado de um caldeirão. Ela riu. — Recebeu sua carta de admissão em Hogwarts, ou sua coruja também se perdeu? — Imaginei que faria referência a esta franquia de filmes. Comentou Sherlock revirando os olhos para a tentativa dela de fazer piada. — Livros, os filmes são baseados nos livros. — Corrigiu ela. — Porém foi uma brincadeira, não quis compara-lo a um bruxo, e sim a uma pessoa que alcança conhecimento e poder de outra forma, que não seja através da graça do Senhor Deus de Israel, er, bem, um feiticeiro. Ele assentiu. — Se refere à Levítico*, certo? — Ela apenas assentiu. — Devo continuar? — Por favor. — Pais de boa condição financeira. Você agora é portadora de uma grande fortuna que fez os olhos de sua tia saltarem das órbitas quando soube. Ela queria sua herança e nada mais. A fortuna combinou perfeitamente com sua assustadora inteligência. Sabia que se ficasse com sua tia, ela acabaria com você para possuir o que era seu, por isso, deixou que ela lhe infligisse quase todo e qualquer mal para que pudessem ser afastadas. Essa parte não me pareceu muito inteligente. Mary deu de ombros mais uma vez naquele dia com um sorriso. — Bem, eu não podia fugir. Sua dedução foi brilhante, Holmes, exatamente como eu esperava que fosse. — Eu sei. — Acabou? — Além das coisas obvias como o fato de você usar óculos, mas os esquece com frequência, o que sugere que isso é algo recentemente implantado em sua rotina. Sua visão começou a falhar por conta de leituras até tarde da noite diante de uma iluminação inadequada... — Sherlock sorriu. — O movimento é seu, mas tenha em mente que quero suas palavras sobre o que pode ver em mim, e não o que leu no blog do meu entusiasmado amigo John. Ela riu.— Vou tentar não pegar emprestado algumas das muitas observações incisivas dele. — Incisivas? Soltei sem querer. — Sim, embora devesse saber se, utilizar o que John escreve a seu respeito, não viria a ser uma espada de dois gumes. As fotos que vi são certamente enganosas; elas te fazem parecer mais velho e mais alto. Não sou boa com idades, mas imagino que você não passe dos quarenta. — Trinta e quatro**, embora exagerar a idade não seja algo ruim no meu trabalho. Juventude não inspira confiabilidade, nem em vida nem em histórias, como descobri para minha total irritação. Espero que não faça da adivinhação um hábito. Adivinhar é uma fraqueza provocada pela indolência e nunca deve ser confundida com intuição. — Vou tentar me lembrar disso. Seu passado é consideravelmente, hm, como posso dizer... rico, embora seu relacionamento com seus pais não fosse exatamente feliz. Hoje em dia se pergunta sobre eles e tenta se entender com essa parte do seu passado. — Sherlock levantou uma das sobrancelhas. — Enquanto estava sozinha, fiz um pequeno tour pelo apartamento e é claro que seu quarto não me passou despercebido. Você tem uma fotografia da sua família na gaveta do seu criado-mudo, escondida ali, obscurecida debaixo de alguns livros, em vez de estar pendurada abertamente nas paredes para ser ignorada e esquecida com o tempo. Achei que aquilo deixaria meu amigo um tanto incomodado — tanto pela menção da família quanto a invasão em seu quarto —, todavia, fui surpreendido ao ver o olhar de total apreciação em seus olhos. Ele aprovou.— Muito bom Russell. — Faz sentido o porquê de você também nunca realmente conversar com John sobre sua infância. Mas como alguém que teve um passado tão normal quanto ele próprio poderia compreender os encargos especiais de uma mente tão talentosa e dotada quanto a sua. Entretanto, não devo usar as palavras dele, ou melhor, a falta delas para descrevê-lo então essa parte não conta. Não quero soar indiscreta, mas devo expor que seu passado contribuiu para a decisão de se distanciar do sexo oposto, porém também suspeito que seja porque imagina que seria uma distração. A única parceria extravagante que se deu ao luxo de ter foi a amizade do Dr. Watson aqui. Vi a face de meu amigo vagar por entre a diversão e a afronta, com um suave toque de raiva. Por fim, o rosto dele parou em uma expressão um tanto zombeteira. Ela com certeza se sentiu melhor por tê-lo desconcertado depois da pequena dor ocasionada por ele anteriormente. — Entretanto, não quero me intrometer em sua privacidade mais do que me intrometi. Você se sente extremamente exasperado por mentes inferiores a sua, mentes que nunca entendem porque não foram moldadas da mesma forma que a sua. Você gosta de abelhas, pois elas te lembram da sociedade. Não posso deduzir muito a respeito de você e Watson, vocês me deram muito pouco, além de que confiam mutualmente um no outro cegamente. Pelo estado dos punhos de sua camisa, você gosta muito de fazer experimentos, o ácido acumulado nelas foi um acidente recente que, além das olheiras, me dizem que você não foi dormir cedo noite passada. Você não está fumando, está usando adesivos de nicotina. Fumava desesperadamente para não ter que se drogar, um hábito repudiado por John e alguns de seus amigos e acompanhado de perto pelo seu irmão de quem você claramente prefere distância. O rosto de Sherlock parecia uma tela em branco, não havia expressão ali e aquilo pareceu agradar Mary. Depois de um longo minuto, ele reagiu, dando um sorriso um tanto que caloroso para ela. — Eu pedi por isso, não pedi? — Ela sorriu em retorno deixando-me confuso. Não era um jogo? Ele se inclinou para perto dela. — E você claramente não é umas das mentes inferiores que me cercam. Os dois riram juntos. Era o dia perfeito para ser surpreendido diversas vezes, eu estava estupefato ao ouvi-los começar uma conversa onde ele contava sobre sua vontade de cultivar sua própria colmeia para poder observar abelhas. Com o cair da noite, ainda observando aquela cena sem acreditar — fora a conversa mais longa que eu testemunhei Sherlock ter com outro ser humano. —, quase não percebi que a Sra. Hudson se juntará a mim para observa-los depois de dispor o jantar na mesa da cozinha. Trocamos pensamentos com um olhar. — Espero que ela fique por um bom tempo, nunca o vi assim. Apenas assenti concordando. Um pouco depois de a Sra. Hudson voltar para seu apartamento, Mary expressou sua volição de comer sendo acompanhada até a cozinha por ele, que também pegou um prato e começou a se servir, logo após ela. Vi meu amigo encher seu prato, sentar-se a mesa com Mary, e comer tudo que havia posto no mesmo. Cheguei a pensar de que aquilo só poderia ser um delírio maluco, sem nexo da parte mais incoerente de meu cérebro e decidi ir para casa antes que ficasse pior. — Estou indo embora. Até amanhã? Minha última frase deixou meus lábios como uma pergunta. Eles pareciam estar presos em uma bolha impossível de ser estourada e minha despedida pareceu apenas um sopro que os tirou levemente de um transe. Os dois se viraram e me deram um breve "até" antes de voltarem a conversar sobre livros que ambos haviam lido. (...) Russell— Então, como acabou?Perguntei, Sherlock cruzou os braços e recostou-se em sua cadeira.— A do elefante? Achei que tivesse lido o blog de John.— Parei de ler com o tempo e esse caso não está completo no blog dele.— Por quê parou?Mordi meu lábio inferior pensando em como falar aquilo. — Eu suponho que você saiba que eu estava preparada para odiá-lo. Ele riu. — Oh, sim. Você o ignorou brilhantemente no momento em que o viu, eu esperava isso, mas você é extremamente ruim em... "ser má". Deixe-me ver: você acha que, apesar de ter trabalhado comigo por tanto tempo, o que ele escreve não me descreve de maneira correta. Acha que ele deveria ter aprendido mais em todo esse tempo em que esteve comigo. — Agora vejo o porquê de você mantê-lo por perto. Ele é... bom. Ingênuo, claro, não exatamente brilhante, mas é um bom homem.
— Onde conseguiu tantas informações sobre mim? Não pode só ter sido o blog dele. Parte foi Mycroft, com toda certeza.Assenti. — E sua mãe. Ele levantou as sobrancelhas.— O que ela disse? — Eu fiquei no seu quarto enquanto estava com seus pais e quando eles decidiram me mandar para cá, sua mãe decidiu despejar algumas informações suas em mim. Ela já tinha falado de você antes, é claro, mas agora era diferente. Aliás, seu quarto é fofo. Sherlock revirou os olhos e insistiu.— O que ela disse? — Muitas coisas, incluindo o fato de que você se vestia de pirata quando era pequeno e que arruinou, por diversas vezes, o jardim dela ao tentar achar um tesouro que só você sabia onde estava. Ele fez uma careta.— Me diz que ela não mostrou o álbum de fotos. — Você quer dizer um álbum azul que tem um barco que foi desenhado pelo talentoso Sherlock Holmes quanto ele tinha apenas sete anos? Uma obra de arte aquilo. O ouvi grunhir algo incoerente e ele bagunçou os cabelos em seguida. — Eu tenho que arranjar um jeito de sumir com esse álbum. Eu ri.— Quem sabe eu não te ajudo? É uma pena, você ficava fofo com aquele chapéu. — Vamos mudar de assunto. — Refreei outra risada que subia por minha garganta. Sherlock me olhou por um longo momento nos olhos antes de falar. — Quão ruim está sua visão? — Não enxergo de perto. Colocar o livro muito perto da cara não é bom pra ninguém. O silêncio entre nós voltou novamente. Havia algo de peculiar naqueles olhos tão absurdamente bonitos. Perguntei-me o que seria dele se aqueles olhos começassem a falhar e ele não pudesse contar mais com eles para observar e deduzir. O que seria de Sherlock Holmes sem aquele recurso que lhe era tão importante? Meus olhos passearam por ele até chegar a seu relógio, ele seguiu meu olhar. — Está tarde. — Sim.Concordei. — Hora de dormir, Russell. Sorri.— Sim, Holmes, está na hora. Boa noite? Estendi minha mão para apertar a dele por sobre a mesa para me despedir e quase a puxei de volta quando ele a levou até os lábios e pousou um beijo ali ao invés de simplesmente aperta-la. Minha respiração parou na garganta, e consegui ouvir a pulsação de meu coração em meus ouvidos. Um grande "por que" se formou em minha mente, mas ele não alcançou minha boca por algum motivo. — Boa noite. Ouvi a voz fenomenal dizer antes de me deixar sozinha e confusa na cozinha.
Notas finais
*Levítico é o terceiro livro da Bíblia, vem depois do livro de Livro do Êxodo e antes de Números . Faz parte do Pentateuco, os cinco primeiros livros bíblicos, cuja autoria é, tradicionalmente, atribuída a Moisés.
**A idade de Holmes é meramente ilustrativa aqui, pois se falo de adaptação do pastiche, porém no mundo da série, me refiro a Benedict Cumberbatch como Sherlock Holmes. No pastiche de Laurie R. King, Holmes conhece Mary Russell aos cinquenta e quatro anos e ela, por sua vez, só tinha quinze. Londres entrava sofrendo as consequências da Primeira Guerra Mundial também, então, as coisas eram um pouco diferentes na época. Sem contar que Sherlock Holmes estava meio que "aposentado" no mesmo período.
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