Notas iniciais
Boa Leitura!!!

Na manhã seguinte, saímos cedo de Baker Street. Sherlock parecia simplesmente afoito, claramente visando deixar o apartamento antes que sua protegida acordasse. Isso não me surpreendeu. O que me deixou um pouco fora do ar foi o fato de ele simplesmente sair andando ao invés de gritar seu costumeiro táxi. Corri atrás dele com a confusão amarrada em meu sapato.

— Pra onde está indo?

— Ela está me observando.

— Como assim?

Ele dobrou a esquina e se virou para me responder.

— Ela mais do que uma simples... garota que precisa de um tutor.

— Imaginei.

Ele me olhou por um segundo, suspirei.

— Você ouviu o que ela disse noite passada.

Afirmou ele, me restou apenas confirmar. Um carro preto que eu conhecia muito bem parou junto ao meio fio esperando por nós.

— Aonde vamos?

Perguntei mesmo já tendo uma ideia.

— Você sabe para onde vamos. — Sherlock claramente pensará o mesmo. Ele abriu a porta do carro. — Vou atrás de Mycroft para ver quais são as cartas que ele tem e se ele não me contar... Vou ser obrigado a blefar.

Respondeu-me antes de entrar no carro.

(...)

— Olá, meu irmão querido, a que devo sua adorável visita?

— Você sabe muito bem por quê.

Mycroft fez uma careta e me olhou.

— Watson. — Ele me cumprimentou. — Sigam-me, por favor.

Ao passarmos por aquele longo corredor, comecei a me lembrar da última vez que havia estado ali. Era o momento que eu daria tudo para esquecer mesmo depois de Sherlock aparecer vivo, e eu querer mandá-lo de volta a terra dos mortos novamente. Entramos na sala que continha poltronas excêntricas, grandes janelas sempre cobertas por cortinas vermelhas e uma mesa executiva no centro na qual o Holmes mais velho se encostou.

— Pois bem, qual é o problema?

— Você sabe.

Mycroft suspirou pesadamente.

— Por que simplesmente não aceita a situação?

Sherlock sentou-se em uma das poltronas ali.

— Porque não sou obrigado.

— Quer que eu te obrigue a cuidar da garota? — Desafiou o mais velho com um sorriso presunçoso. — Você vai ficar com ela, Sherlock.

— Não.

— Você sabe porquê ela está aqui em Londres, irmão?

— Não, e não me importo. Só quero que vá embora.

— Acredito que já tenha ouvido falar de Sussex, não ouviu Sherlock? — O detetive revirou os olhos e creio que, assim como eu, Mycroft tomou aquilo com uma afirmação. — Pois bem, Mary morava lá. É um condado um tanto rústico, parte da economia ainda é baseada na agricultura, há muitas casas, fazendas e castelos medievais. Mary morava em uma fazenda com os pais, viajava constantemente para vários lugares com a família, e foi em uma dessas viagens que os pais dela e os nossos se conheceram e criaram laços... desatáveis. — ele contou com certo desgosto. — E foi em uma outra viagem que Mary e sua família encontraram a morte nas mãos de um caminhoneiro bêbado. Desse encontro, a morte decidiu que não queria levar Mary e ela sobreviveu.

— Cruzes.

Comentei assombrado pelo modo que Mycroft contava a história.

— Sim, terrível. A primeira pessoa para quem passaram a guarda de Mary foi a tia, o único problema foi a intensa hostilidade entre as duas, logo, ela não poderia ficar lá. Em um único mês com a tia, Mary apareceu coberta de lacerações e machucados de tamanhos inimagináveis.

— Os pais não fizeram um testamento nomeando alguém para reter a guarda?

O Holmes mais velho riu.

— Ah, eles fizeram. Este testamento estava enterrado na fazenda dos Russell e quando o encontraram, lá estava o nome da família Holmes. Imediatamente a menina foi levada para a casa de nossos pais, porém depois de mais um mês improdutivo em que eles esqueceram de pega-la na escola e a perderam no mercado, o juiz do caso deu a eles a opção de escolher um tutor.

— Seria você.

Pronunciei-me.

— Não, mamãe e papai escolheram Sherlock.

Pensei no casal que havia conhecido naquele natal em que ainda estava uma especie de guerra fria com Mary, minha esposa, que na verdade não nascerá com esse nome e que tinha um passado sobre o qual eu não tinha e preferi não ter conhecimento. Aquele mesmo casal, aquele doce e simpático casal, realmente tinha entregado Mary Russell à Sherlock Holmes?

— Não acredito em você.

Proferiu Sherlock. Eu não o culpava. Uma coisa era um juiz nomeá-lo tutor, afinal, que culpa teria ele se nada sabia a respeito desse homem com quem dividi um pequeno apartamento por alguns anos em 221B Baker Street?Outra era ele ser nomeado por duas pessoas que deveriam conhecê-lo bem o suficiente para impedir o juiz de cometer esse erro, mas simplesmente decidiram deixá-la a mercê dele. Ou nesse caso, mercê alguma, pois esquecer uma adolescente na escola e perdê-la no mercado são, atrevo-me a dizer, erros comuns. Mas Sherlock era Sherlock e ele poderia perdê-la em lugares muito mais criativos e de propósito se desejasse.

— É uma pena que não acredite, irmão. Mas se em algum momento você quiser uma confirmação, basta uma ligação para nossos pais.

Sherlock já havia se levantado; estava nitidamente indignado e em poucas passadas já se encontrava na diante da porta.

— Isso é um absurdo.

— Não disse que não era, mas você precisa protege-la, Sherlock!

— Para que?

Da boca do Holmes mais velho saiu uma simples frase que o mais novo — e eu mesmo — considerava um insulto.

— Moriarty.

Os olhos de Sherlock se estreitaram.

— O que tem ele?

Mycroft retirou um envelope do bolso interno de seu paletó e o estendeu para mim. Abri a carta ao ver o selo que Moriarty usará em seu último jogo que levou meu amigo a uma quase destruição.

— O que diz, John?

Meu ar estava preso na garganta, porém tratei de limpa-la.

— "Ahoy, meu velho amigo. Já faz algum tempo, não é mesmo? Venho por meio desta singela carta para, primeiramente, parabeniza-lo pela sua "escapada de mestre". Harry Houdini ficaria orgulhoso. Não sou tão constante quando gostaria de ser, mas prometo que assim que voltar a Londres, você será o primeiro a saber. Raios não caem duas vezes no mesmo lugar, é o que dizem, mas você não é um raio Sherlock. Você é só um homem.

Abraços,

Jim Moriarty

P.S.: Mal posso esperar para conhecer sua nova protegida. Estou surpreso que já tenha superado o afastamento de John, achei que levaria mais tempo."

— Quando isso chegou?

Perguntou Sherlock já ao meu lado arrancando a carta de minhas mãos.

— Ontem a tarde.

Ele analisou a carta minuciosamente e então vi um olhar determinado no olhar de meu amigo.

— Vou ficar de olho nela.

E foi a última coisa que ele proferiu antes de deixarmos a sala.

(...)

— O que vai fazer?

Perguntei a Sherlock ao entrarmos no primeiro táxi vazio que passou. Ele acabará de passar os olhos novamente pela carta de Moriarty antes de guardá-la em seu casaco.

— Vou ficar com ela.

— É assim?

O medo que eu costumava ter por mim mesmo já tinha partido em um trem sem previsão de volta há muito tempo, porém o medo pelos outros ainda estava ali, ainda mais depois daquele dia profético em que o rosto do vilão apareceu em qualquer dispositivo eletrônico que pudesse reproduzir perversidade. O rosto do vilão que deveria estar morto.

— O que?

— Do nada, você decide ficar com ela só porquê Moriarty a quer? Eu acho perigoso demais Sherlock. É melhor você passar guarda dela para outra pessoa.

— Quando forjei minha morte foi para impedir que Moriarty ou qualquer um que trabalhasse para ele machucasse qualquer um de vocês foi porque ele sabia que eu me importava, mesmo que um pouco, mas ainda assim me importava. Ela não. Eu não possuo nenhum sentimento para com esta garota e mesmo assim ele a quer. Por quê? Ela tem algo que ele quer e como tudo o que Moriarty quer é sinônimo de caos; isso não pode ser boa coisa.

Fazia um extremo sentido por ser uma verdade inegável. O objetivo de Moriarty sempre fora o de afundar o mundo, o inaceitável era que ele queria que Sherlock afundasse junto.

Notas finais
Gostaria de agradecer pelos maravilhosos comentários, muito abrigada mesmo. Espero que tenham gostado e até o próximo capítulo. VickSaturn.