Notas iniciais
Boa Leitura!!!

(...) Russell

— Scott Alford.

Ouvi Sherlock dizer. O homem, Patrick, tinha uma de suas mãos ocupadas por um drink e a outra por uma acompanhante. Uma garota, talvez tivesse minha idade, era morena e muito bonita; ela sorria, mas seus olhos eram assustadoramente vazios. Perguntei-me se seria melhor agir como ela para que minha “personagem” parecesse mais autentica, porém, acreditei piamente que mesmo se eu tentasse, não conseguiria retratar nem metade de seu olhar “cadavérico”. — É sempre tão animado assim?

Ouvi o profundo timbre da voz de Sherlock quando ele perguntou.

— Oh, não. Isso não é nem metade do que acontece quando estamos realmente lotados. — Donleavy passou seus olhos por mim. — Bem, claramente não é uma das minhas garotas, então, diga-me Sr. Alford: Qual o nome desta preciosidade que lhe acompanha?

Holmes riu passando um braço por minha cintura.

— Como pode saber? São tantas.

— Se fosse uma das minhas, com toda certeza estaria acompanhando-me nesta noite e também estaria usando algo um pouco mais... Acessível.

Sherlock sorriu.

— Ah, admito que talvez eu seja um pouco... Possessivo e egoísta; não gosto que fiquem olhando o que é meu. É um defeito, mas o que posso fazer? — respondeu dando de ombros — Enfim, esta é Judith.

Patrick sorriu dando um passo à frente.

— Qual sua idade, querida?

Não sei se foi minha mente que já estava em modo automático para atuar ou se foi pelo nojo que já sentia pelo cara que me fez agir como uma perfeita criança desconfiada. Eu recuei, encolhendo-me atrás do corpo Sherlock instantaneamente, usando-o como um tipo de escudo, e não me permiti responder a pergunta.

— Peço perdão, ela é tímida.

Explicou Holmes com um sorriso.

— Ah, não peça desculpas. É uma reação totalmente compreensível e muito boa também. Aposto que não precisou pedir a ela para não contar a ninguém sobre suas brincadeiras.

Os dois riram.

— Falei apenas uma única vez e nunca tive problemas. — “Confidenciou” ele a Patrick que eu encarava por cima do ombro de Sherlock esperando que meu desprezo não se estampasse em meu olhar para não correr o perigo de sermos “desmascarados” — Ela tem quatorze anos.

— Uma preciosidade sua menina.

— Sim, ela é.

Desliguei-me completamente da conversa por alguns minutos ao pensar novamente em todas aquelas garotas e, em especial, a que acompanhava Patrick Donleavy. Será que os pais dela ainda a procuravam? Há quanto tempo ela estava presa ali? Então pensei na pior coisa que poderia pensar: O que acontecia a elas quando não traziam mais lucro? Quando atingiam uma idade em que aqueles homens não as desejariam mais? Voltei a prestar atenção ao ouvir meu “nome” em meio à conversa.

— Talvez sua querida Judith goste.

A voz de Patrick soava sugestiva.

— Não tenho certeza, pois precisamos estar em casa para nos preparar para a noite de natal.

— Ah vamos, não acredito que tenha vindo até aqui só para “conhecer o lugar”. Estou lhe oferecendo algo que não ofereço a qualquer pessoa. Tem minha palavra. Uma noite em um dos melhores quartos do meu navio, onde você e sua preciosidade — ele murmurou gesticulando, com sua mão que ainda segurava o drink, para Holmes e depois para mim — podem se divertir, tudo por conta da casa.

Holmes, depois de parecer ponderar a oferta, assentiu.

— Tudo bem, aceito.

Donleavy sorriu satisfeito e se virou para sua acompanhante entregando a ela uma chave.

— Jessica, leve o Sr. Alford e sua linda Judith até o quarto 406, por favor.

(...)

A garota não abriu a boca em nem por um segundo enquanto nos conduzia ao quarto. Eu sentia uma imensa vontade de aproveitar a parte aberta do barco, agarra-la pelo braço e joga-la no mar gritando: “Vá, depressa, nade até terra firme!”, mas nada fiz. Apenas a segui, ao lado de Sherlock que me segurava firmemente pela mão como se tivesse medo de que, se ele me soltasse, eu pularia.

Não comentei nada, também não creio que poderia naquele momento. Esperaria até ficarmos a sós para poder assegura-lo de que eu não escaparia. O quarto era enorme. Diante do fato de que eu e minha família costumávamos viajar constantemente, eu já havia visto inúmeros quartos de hotéis, mas nada como aquilo.

Era um tipo de apartamento dentro do navio. A minha frente abria-se uma enorme sala de TV com sofás de couro na cor bege e havia uma espécie de varanda ali. A minha direita, uma cozinha que continha um frigobar e a minha esquerda, duas portas roliças enormes que eu tinha absoluta certeza que escondiam o quarto.

Parei no meio daquela “casa” marítima sem conseguir esconder minha cara de maravilhada enquanto Sherlock dispensava Jessica pedindo a ela passasse a Patrick seus cumprimentos pela fantástica hospitalidade. Assim que ouvi a porta se fechar em minhas costas, antes que pudesse me virar para falar com ele, ofeguei alto.

Holmes colou-me em seu peito abraçando-me pela cintura com um braço enquanto que o outro subiu. Sua mão acariciou meus cabelos antes de levar as mechas até o rosto onde ele as cheirou. Forcei meus pulmões a puxar um pouco de ar para perguntar o que diabos ele estava fazendo, mas engoli minhas palavras quando senti seus lábios em meu pescoço.

— Lembra-se daquela música que fez para mim em meu aniversário?

O quê? Eu não me lembrava de mais nada naquele momento. Espera, não havia música alguma, pensei em dizer, porém algo me dizia para “seguir a maré”. Assenti atordoada fechando os olhos. Ele começou a balançar nossos corpos levemente e logo ouvi sua voz.

— “Não tenha medo, pois estou aqui com você, estarei sempre ao seu lado, seguindo seus passos. Quando te ‘vejo’ sinto meu coração pulsar e quando te ‘escuto’ sei que estou segura”.

De súbito entendi o que se passava. Era uma encenação, é claro. Imaginei desde o principio, entretanto não pude deixar de sentir-me um tanto chateada. Abri os olhos discretamente esperando identificar uma câmera ou alguma escuta. Nada vi, mas Sherlock tinha uma percepção melhor que maioria para esses tipos de coisa, então, não fiz nada além de deixar-me levar pelo detetive.

Tremi quando ele subiu uma das mãos para abrir meu cardigã somente para atirando-lo no chão em seguida. Esperei que ele entendesse minhas reações como uma ótima atuação, um desemprenho digno de atores e atrizes de Hollywood. Sem nenhum aviso, ele me virou. Desejei não ter deixado meus óculos em casa.

Ele pegou meu rosto com suas mãos e aproximou o seu do meu. Meu fôlego ficou ali, preso em meus pulmões, inescapável. Ele não fez o que pensei que faria, eu sabia que ele não ultrapassaria seu próprio limite comigo. Mas eu queria poder quebrá-lo . Ele estava tão perto.

— Que tal um banho? — Sua voz era extremamente sedutora, o que tornava sua proposta completamente irrecusável. Assenti, certa de que nada que saísse de minha boca formaria algo coerente. Ele sorriu piscando para mim. — Vai na frente, eu posto que tem uma banheira pra gente se divertir.

Fui até as duas portas que escondiam o quarto abrindo-as. Eu vi aquela enorme cama ali, porém estava tão atordoada pelo que tinha acabado de acontecer naquela sala entre mim e meu tutor que preferi ignora-la e marchei para a única porta que havia ali naquele cômodo.

O banheiro era grande assim como todo o quarto. Sherlock estava certo, como sempre. Realmente havia uma banheira ali, ladeada de doces e pirulitos. Agi como se ainda estivesse na companhia de Holmes, pois não estava em condições de procurar dispositivos escondidos naquele banheiro.

O que faríamos agora sabendo que estávamos sendo observados? Será que teríamos de... Não. Não me permiti pensar naquilo. Não queria saber o quão fundo esse poço era. Sentei-me a beira da banheira perdida em pensamentos. A porta abriu num rompante revelando um Holmes só de calças e camisa branca parcialmente aberta. Ele olhou ao redor por um segundo antes de andar até o chuveiro e abri-lo.

— Há câmeras e escutas na sala e no quarto.

Assenti.

— Aqui?

Perguntei mesmo sabendo a resposta que receberia.

— Não.

— Acha que há câmeras em todos os quartos?

Ele fez uma careta pensativa.

— Há duas possibilidades. Ou ele gosta de filmar, o que é duplamente problemático, ou só desconfia de nós. Acho que a segunda é a mais provável.

— Tá, então o que vamos fazer?

Ele me olhou por um segundo.

— Achei que fosse óbvio.

— E é?

— Sim. — Levantei minha sobrancelha esperando que ele notasse que eu precisava de esclarecimentos. — Bem, eu não costumo falar isso, mas dadas as circunstâncias, creio que é a que mais se encaixa no momento.

— O quê?

— Vamos fazer amor, Russell.

Notas finais
Eu gosto de considerar os capítulos pequenos, pontes para coisas importantes. Então, tá pequeno, mas o próximo capítulo vai sair mais trabalhado e já estou escrevendo ele. Espero que tenham gostado e até o próximo capítulo!!!