I'll Take The Breath Out Of You
10 Aurora
Notas iniciais
Boa Leitura!!!
(...) Russell
Olhei-me no espelho mais uma vez. O vestido com ursos marrons estava, obviamente, mais curto e apertado, mas o que eu esperava afinal? A última vez em que o usara tinha apenas doze anos. Em uma crise de “ciúmes” depois de ver um cara me encarando só de shorts na rua, meu pai decidiu me cobrir, metaforicamente, com uma burca que, no caso, eram as roupas dele. A princípio, tudo foi extremamente engraçado. A crise, as roupas e tudo mais, porém, um ano depois, bati o pé e discuti com ele dizendo que não poderia me esconder daquela forma para sempre. Ele naturalmente notou que estava errado e decidiu me presentear. O vestido me trazia a lembrança de quando ele me acordou naquela mesma noite.— Desculpe o papai, princesa. Disse ele. — Por que você fez isso papai?Ele hesitou passando a mão carinhosamente em meus cabelos.— Quando uma princesa cresce, eventualmente, ela terá que se tornar uma rainha e quando isso acontece muitos príncipes querem reinar ao lado dela, só que nem todos têm boas intenções. Entende? — Assenti ouvindo-o suspirar. — Prometa-me apenas uma coisa Mary. — Fitei-o atentamente esperando. Eu sabia que quando ele me chamava pelo nome, o assunto era de grande importância e não poderia ser ignorado. — Escolha o seu maldito príncipe com cuidado, por favor?Eu ri de sua careta, balancei minha cabeça lenta e positivamente mostrando a ele que havia entendido. — Eu prometo. Ele estendeu a mão fechada em punho. — Tudo bem. Agora, toca aqui, princesa. Bati meu punho contra o dele antes de lhe dar um abraço. — Eu te amo, papai. — Eu te amo, princesa.Fechei meus olhos afastando a lembrança, trazendo o espelho de volta. Olhei para o teto piscando furiosamente para afugentar as lágrimas, respirando fundo ao voltar a encarar a Mary de dezesseis anos no espelho. “O que pensaria de mim agora, papai?”. Suspirei ao passar o rímel incolor e salpicar um pouco de blush nas maças do rosto que agora se assemelhava a porcelana. Eu poderia quebrar fácil dessa maneira? Como porcelana? Não saberia dizer. Vesti um cardigã branco para esconder melhor minhas cicatrizes antes de descer as escadas até a porta de saída onde Holmes já me esperava. Ele digitava algo rapidamente em seu celular, distraído o suficiente para não notar minha presença. Analisei-o de cima a baixo. Ele estava de terno, é claro, mas havia uma mudança: o cabelo, que sempre costumava estar cacheado e perfeitamente desarrumado, estava perfeitamente penteado para trás.Minha boca se abriu, porém não emitiu nenhum som, senti meu ar faltar. Não, eu não estava perplexa, só surpresa. Surpresa por ele nunca deixar aquela elegância arrebatadora de lado, por ele sempre ser essa criatura enigmática ambulante que me deixava frequentemente perplexa. Não que ele nunca tivesse me chamado atenção antes, entretanto, recentemente, sentia algo diferente. Limpei a garganta tentando compelir o ar a entrar em meus pulmões de alguma forma chamando a atenção dele acidentalmente. Ele me olhou de cima abaixo ao guardar o celular no bolso do casaco que segurava em seu braço. Eu conhecia Sherlock Holmes o suficiente para não esperar por um elogio da parte dele, mas, naquele momento, por algum motivo, almejei um.— Está parecendo uma boneca. Pisquei desviando meu olhar do seu por um segundo. — Devo trocar então?Ele me estendeu sua mão. Eu a peguei um tanto incerta descendo o resto das escadas e parando a sua frente. — Não seja absurda, Russell. Está ótimo. Segurei um sorriso sem graça, porém pude sentir minhas bochechas queimarem sutilmente. De certa forma, era aquilo que eu queria ouvir. Ele me ofereceu seu braço antes de sairmos para a noite fria de Londres. Eu prontamente aceitei e foi ali que prometi a mim mesma aceita-lo sem nunca mais hesitar.(...) JohnTalvez Sherlock estivesse certo afinal. Se alguém quisesse me matar, só precisaria colocar veneno em um banquete e me oferecer. Talvez fosse meu terceiro prato, mas eu não tinha certeza. Assim que eu e Mary chegamos, logo fomos “escoltados” para a sala de jantar que continha uma enorme mesa em que caberiam, no mínimo, umas vinte pessoas repleta de comidas exóticas que me fez sentir um tanto mal quando comecei a pensar em quantas pessoas passavam fome enquanto estávamos prestes a nos empanturrar. Era uma mesa um tanto enorme para apenas três pessoas. Estava a ponto de mencionar o tamanho da mesma para minha esposa quando Mycroft apareceu pedindo para que nos sentasse para começarmos a comer. Terminei meu prato pensando em desafivelar meu cinto e abrir o botão da calça que agora mais parecia um obstáculo para minha barriga cheia. — Muito bem. Ouvi Mycroft dizer enquanto eu limpava minha boca com o guardanapo. Recostei-me em minha cadeira.— Então, sobre o que se trata este jantar?Perguntou Mary. — Sim, meu irmão. Como ele vai Dr. Watson?Olhei para meu prato vazio por um segundo e perguntei-me por que sempre hesitava quando não precisava. Eu deveria contar? Olhei-o.
— Sim, claro. Estamos com um novo caso que já está praticamente resolvido.— Russell ajudou, presumo?Passei a língua pelos dentes olhando rapidamente para minha mulher. — Sim, claro. — Ele não respondeu apenas me encarou fazendo-me abrir a boca poucos segundos depois. — Muito bem, tem alguma teoria Sr. Holmes?— Você sabia que ele e Russell tem se comunicado por mensagens desde que ela entrou na Universidade?— Não, fiquei sabendo há pouco tempo, mas achei que fosse algo recente e não algo que aconteceu quando ela foi para Oxford. — Tem alguma ideia do conteúdo das conversas?— Não, você tem?Mycroft negou.— Não, temos as conversas, mas de nada adiantou; aparentemente os dois desenvolveram algum tipo de criptografia pessoal que nenhum de nós conseguiu decifrar. É um verdadeiro enigma. — Grampeou o celular dele?— Sempre.— Russell e Sherlock inventaram uma criptografia para suas conversas pessoais?Perguntou Mary, sua voz transbordando surpresa. — Sim. Respondeu o viciado em bolos.— E vocês acham que eles estão juntos?Encarei minha esposa. — Eu não diria...— Ainda não.Meus olhos voltaram para o Holmes mais velho. — Acho que não entendi.— Enigmas, Dr. Watson, enigmas. — Ainda não entendi. — Sim, meu irmão acha que você deveria por isso em uma camisa. Ele gosta de enigmas e ele gosta de resolvê-los. Você diria Dr. Watson, que Mary Russell é um enigma?— Dificilmente, uma vez que ele já a deduziu por completo. — Então o que ela tem a oferecer?— Bem, ela é inteligente e ele obviamente gosta disso. Murmurou minha esposa.— E bem humorada. Completei lembrando-me das vezes em que ela o fizera rir, o humor de ambos era compatível. Mycroft assentiu com um pequeno sorriso. — Bem, tudo está claro então.— O que quer dizer?Ele se inclinou em minha direção com um sorriso animado e sussurrou. — Inteligência e bom humor. O primeiro seduz e o segundo desarma. Nocaute.*Mais tarde, depois de ter discutido mais a respeito do detetive e sua protegida, ao entrarmos no carro que nos levaria para casa, minha esposa me questionou. — Acha que é possível?— Não pode ser impossível. Sempre achei essa pose de “emoção opõe-se a razão fria” e outros tantos uma enorme furada. Ninguém pode agir como um robô durante sua vida Mary, e ele é um ser humano. Ninguém é de pedra, nem mesmo Sherlock Holmes. — Você está de acordo com isso então?— Com o quê?— Bem, a diferença entre eles é de vinte anos. — Teme que ela seja nova demais para ele?— Um pouco. — Talvez tenha uma ou duas coisas que eu precise te contar a respeito de uma mulher chamada Mary...(...) Sherlock Holmes —... Russell?— Sim?Eu havia achado alguém que, assim como o silêncio, me compreendia? Não que John não me compreendesse, mas, às vezes, seus ideais não iam de encontro aos meus. O silêncio e a solidão sempre foram meus companheiros, embora admita que sejam necessárias algumas doses diárias de interação com pessoas de verdade, para ter conversas de verdade, antes que sua senhoria pense que você enlouqueceu por que te viu conversando com um crânio. Porém isso é um ato perigoso onde você corre o perigo de ouvir o que não quer, como pessoas que começam a puxar conversas sobre assuntos chatos e entediantes que nunca iriam me interessar. Era um fardo, para falar a verdade.Mas conversar com Russell não era um fardo. Ela sabia que assuntos triviais não me interessavam e eu, de certa forma, apreciava isso. Às vezes , quando ela ainda estava em Oxford, me via querendo retribuir o gesto pedindo para ela me contar sobre como fora seu dia, porém ela sempre era sucinta, só falava o essencial e então entravamos em algum assunto que nos interessava mutuamente. Quando meus dias e partes da noite começaram a resumir-se a conversar com ela, preocupei-me. Não sabia o quanto sua presença em minha vida poderia alterar meu dia a dia. Seu braço se enlaçou ao meu instantaneamente assim que descemos do taxi, não era um sacrifício, não me incomodava e parecia ser algo natural. De fato, sua presença era extremamente reconfortante. Não tínhamos a necessidade de preencher o silêncio com conversas forçadas e inconvenientes. Estar com Russell era presenciar outro modo de estar em paz. O sol começava a se por quando começamos a descer em direção ao cais. Hesitei, precisava pensar no que diria.— Tenho uma pergunta.Disse ela passando em minha frente dando-me tempo para pensar.— Pergunte. Nossas vozes não passavam de um sussurro, nossos passos podiam ser facilmente ouvidos no cais de madeira.— Lestrade sabe disso?— Sim. Precisamos de evidências concretas para poder prender o homem por trás desses sequestros, então disse a ele que conseguiria. E, a propósito, acharam Ashley. — E como ela está?— Traumatizada e fadada a passar horas com um terapeuta. — Imaginei. — Russell...Chamei-a novamente depois de mais alguns segundos de silêncio. Hesitei mais uma vez, porém eu precisava saber se ela realmente estava ciente e de acordo com tudo aquilo. Parei de andar fitando-a da mesma forma atenta com que ela me olhava.— A partir do momento em que entrarmos naquela lancha para ir até aquele barco, eu não serei eu e você não será você. Você também entende que, estando disfarçados, agiremos de forma diferente um para com o outro, não sabe? Sob estas circunstancias, e diante dos olhos de cada um que estiver nos observando lá, você será uma garota e eu serei...— Um pedófilo. Relaxe está tudo bem. No momento em que você falou “passeio de barco”, imaginei o que aconteceria. Não vou sair correndo e espero que você pare de esperar que isso aconteça. Sorri. Por que eu ainda perguntava? Por algum motivo do qual ainda não tinha conhecimento, eu sabia que ela me seguiria e que ficaria do meu lado caso eu precisasse. — Só estava checando. — Por quê? Você quer desistir?Desafiou-me. Sorri malicioso e peguei sua mão voltando a andar pelo cais. — Não diga loucuras mulher!Sussurrei ouvindo-a rir levemente.— Acha que estou apta para um caso de tal magnitude?— Bem, posso dizer que você fez um ótimo trabalho ao se caracterizar, pois pode facilmente se passar por uma garota de quatorze anos. Quanto à atuação que teremos pela frente... Lembre-se daquilo que você tanto me pedia dois anos atrás.Ela riu.— Eu nem pedia tantos assim. — Foram muitos os euros gastos com cacau. Fingi pesar em minha voz. — Mentiroso. — E leite também. Eram tantos litros de leite que pensei em comprar uma cabra. — Nossa, mas como é exagerado. Alias como pensar em chocolate vai me ajudar na parte da “atuação”?— É simples: na dúvida sobre o que responder, desconverse. Peça um doce. Rimos juntos enquanto continuávamos nosso caminho por entre as embarcações. — Você sabe qual é a lancha?— Perdeu a fé em mim, Russ?— Isso significa que deduziu qual é?— Significa que depois de sairmos de Scotland Yard, o homem disse a Lestrade e ele me mandou os detalhes por mensagem, mas é evidente que eu poderia deduzir qual é a lancha. — Muito bem, então, qual é?— Aquela. Apontei. Logo ali, atracada ao fim do cais, encontrava-se uma lancha escura como a noite e grande o suficiente para, no máximo, dez pessoas e, de fato, havia quase dez dentro dela no momento. Todos eram homens e, em sua maioria, de idade avançada vestidos em ternos caros. — Ei, o que procura amigo?Perguntou um homem saindo da cabine que só poderia ser Henrique. Passei meu braço ao redor de Russell ao notar que todos a olhavam interessados. — Você deve ser o Henrique. Os olhos dele vagaram de mim para Russell desconfiados. — Sou eu mesmo, em que posso ajudar?— Eu queria levar minha querida Judith para um passeio. Ela é um pouco tímida e achei que um passeio, onde ela pode fazer algumas amizades, poderia fazê-la se soltar um pouco. — Você é o pai dela?— Tutor. — Ah, muito bonita ela. Passei meus olhos pela loira ao meu lado. — Sim, de fato. — Russell se encolheu em meu abraço aparentemente incomodada por tantos olhares. — Enfim, me disseram que não havia lugar melhor que Aurora. — Sim, de fato não há. — Espero. Ele sorriu presunçoso.— Bem, então subam a bordo, estamos prontos para partir. (...) RussellAurora não era bem o que eu imaginava. Tinha certa elegância e, de certo, havia sido recém-pintada de preto, com duas faixas vermelhas ao longo de sua extensão, suas chaminés, também pretas, continham uma faixa branca em cada. Esperamos enquanto os homens subiam a bordo do grande navio. Ao chegar nossa vez de embarcar, Holmes me pôs em sua frente para que eu subisse primeiro.
Lembrei-me, no meio da escada, que estava de vestido, e ao pensar na possibilidade de o homem que me seguia pela escada estar vendo algo me fez ruborizar de vergonha, mas depois pensei “qual a pior coisa que ele poderia pensar?”. Na verdade, como um bom cavalheiro, ele não deveria nem pensar em olhar e não era como se eu estivesse esperando um elogio pela escolha de roupa de baixo. Dentro do navio, fomos levados pelos corredores em direção a um salão. Todo lugar possuía um requinte e luxo tão grandes que, por um momento, peguei-me comparando Aurora a um naufrágio famoso: O RMS Titanic. Porém, quando as portas daquele salão se abriram, revelando meninas em roupas mínimas e homens observando-as com lasciva, tive ânsia de vomito. A música lenta, porém alta só me deixou mais atordoada com a situação e a iluminação baixa me deixou tonta. Holmes notou aquilo porque me puxou para um tipo de sofá ao canto do enorme salão a onde ele se sentou e, talvez para começar a encenação, sentou-me em seu colo. Pousei minha cabeça em seu ombro. — Russell?— Eu... Eu estou bem, só me de um segundo. Se perguntarem, não me dei bem com o balanço do mar. — Respire fundo. Quando me acalmei, decidimos “passear” pelo salão. Admito que me surpreendi com algumas coisas, como o fato de um dos senhores chorar no ombro de uma das garotas até cair no sono, ou quando vi um deles dar uma boneca a uma somente para vê-la brincar. Após rodar o salão, Holmes e eu fomos em direção a uma mesa repleta de doces, bebidas e quitutes. Bebidas que iam do champanhe ao simples refrigerante; quitutes dos mais chiques como caviar a simples batata-frita. Os doces, no entanto, não mudavam. Estendi um a Holmes depois de partir-lo no meio e ver o licor azulado. Ele cheirou. — O que tem aí?— LSD.Ele encarou o doce por um segundo.— Larga o bombom, Holmes. Ele bufou, mas largou o doce na mesa. Olhei para o outro lado deparando-me com uma tigela cheia de comprimidos. Eu sabia o que era e Holmes também. — Ecstasy. Dissemos juntos. Estendi minha mão para a tigela curiosa, porém Holmes segurou-a e a afastou da mesma. — Bem, claramente nada que se encontra nesta mesa é saudável, muito menos comestível. Olhei para suas mãos nas minhas. Dedos de violinista, longos e calejados, feitos para acompanhar as notas complexas de partituras. Engoli em seco ao pensar no quanto invejava aquele sortudo violino que sempre tinha aquelas mãos divinas arrancando-lhe melodias como um homem arranca suspiros de sua amada. Como poderia deduzir algo sobre alguém se mal conseguia deduzir o que estava sentindo? Por que estava sentindo aquilo? Por que eu queria sentir aquelas mãos arrancando suspiros de mim? — Vocês são novos aqui. Virei-me para a voz. Alto, cabelos escuros penteados em um topete, muito bem vestido, jovem. Não me pronunciei. — Sim, somos.O homem estendeu a mão para apertar a de Sherlock com um sorriso simpático. — Patrick Donleavy. Bem vindos a bordo do meu adorado navio Aurora.
Notas finais
*Não sou autora desta frase.
OBS.: Judith é o nome do meio de Mary Russell.
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