Il suo accento italiano
1 Despedida
Notas iniciais
Isso é insuportável! Será que eles não conseguem parar um minuto de gritar um com o outro? Eles ainda lembram que eu moro aqui, certo? Toda manhã é a mesma coisa, papai levanta e monopoliza o (único) banheiro, e mamãe (quando está aqui) fica batendo na porta e gritando como uma louca, eu tenho que ir para o colégio caramba! Sai do quarto pisando forte e bati a porta tão brava que acho que as dobraduras quase cederam, fui ao lado de minha mãe gritar e bater, ao menos a minha escova de dentes eu queria.
– Pai abre a droga da porta ou eu juro que vou rasgar sua camiseta polo salmão com gola marrom da Lacoste! – eu já sabia seus fracos.
– Você não ousaria Cécile! – disse ele abrindo uma fresta da porta.
– É, tente não sair do banheiro AGORA MESMO, Robert. – disse minha mãe já com uma tesoura na mão, provavelmente não era para esse destino a tesoura, mas ela entrou na onda.
Ele saiu bufando massageando suas expressões para não ficar com marcas, aposto cinco reais que ele usou de novo os cremes caros da mamãe que a nona manda de Roma para ela. A dona Genevive já ia entrando usufruindo da minha ameaça e ia fechar a porta.
– Mãe, me da minha escova de dentes, eu também posso prejudicar você. – falei calmamente, pois ela já me conhecia.
– Você é má, Cece. – disse ela rolando os olhos e me entregando a escova.
Fui até a pia da cozinha e mandei ver com a pasta de dentes que eu escondia dentro de uma gaveta para dias assim, escovei os dentes e lavei o rosto, minha mochila já estava pronta em cima do sofá, só faltava uma coisa: Meu fone de ouvido. Não posso ficar sem ele. É o meu ar puro quando estou em casa ou sem a Mel, minha melhor amiga desde que me conheço por gente. Falando nela...
– Oi Mel, to saindo, calma! – falei no celular enquanto avistava meu fone em cima da estante.
– Mel nada, agora é Melissa para você sua atrasada! To aqui na sua porta, CORRE.
Peguei os fones e pulei o sofá, abri a porta e a vi batendo o pé com os braços cruzados, seus olhos demonstravam que sim, ela estava brava, mas não, ela ainda não me odiava, até porque ela melhor que ninguém conhecia a situação da minha família. Eu achava engraçado em como éramos parecidas, a única mudança óbvia era nosso cabelo, ela loira e eu morena, mas nossas feições, nosso corpo, expressões, até mesmo o jeito de agir era completamente igual, acredito que resultado de tanto tempo juntas, eu sorri abertamente já treinando para quando chegasse ao colégio, se você manter as aparências, ninguém sabe que sua vida está de cabeça para baixo.
– WooHoo, vem cá da um abracinho! – falei indo em direção a Mel que agora já cedia com um sorriso de canto.
– Cala a boca Cece, vamos logo. – começamos a ir em direção a parada de ônibus, o colégio não era tão longe assim, mas pra que caminhar né?
Sentamos na parada cada uma mexendo em seu telefone, contudo algo inesperado aconteceu, minha avó havia me mandado uma mensagem via whatsapp, achei que ela nem sabia usar. Basicamente ela disse “Ciao cara mia” o que era “Olá minha querida” em seu italiano charmoso, respondi um pouco desconfiada do recente contato e esperei ela responder. Visualizado. Escrevendo. E mais nada. Ela não mandou mais nada! “Nona?” mandei novamente, mas ela não visualizou mais, o ônibus chegou e subimos, pus uma música lenta para tocar, o típico de musica para dar lugar aos pensamentos e imaginação. Durou pouco, logo chegamos ao Colégio Estadual Joaquim Fagundes dos Reis, minha querida escola onde conheci Mel na primeira série e nunca mais nos desgrudamos.
– Hoje temos a maravilhosa aula de química com a professora Naja. – disse ela olhando o horário.
– Nádia. E ela não é tão ruim, você que é péssima na matéria. – falei rindo.
Entramos e sentamos em nossos lugares habituais, no fundo e lado a lado. Eu amava sentar no fundo, e não era pela bagunça, mas pela visão que eu tinha da porta, eu esperava cada segundo com o coração na mão esperando ele entrar, Nicholas Dinarelli, o cara mais lindo do colégio, meu amigo, e paixão platônica. Quando vi ele entrando prendi a respiração, hoje ele estava usando a camiseta que lhe dei em seu último aniversário, era preta com uma estampa vintage da bandeira dos EUA da marca Beagles, um casaco preto por cima, calças jeans desbotadas e tênis Nike pretos. Seu cabelo loiro areia estava penteado para o lado num corte que virou moda, mas para ser honesta, parecia uma caturrita. Só que nele ficava tão lindo!
Ele sorriu e seus olhos verdes se estreitaram de um jeito tão lindo, que se eu não tivesse prendido a respiração estaria suspirando e talvez até desmaiando, mas a falta de ar me lembrava que o mundo ainda estava ali. Soltei o ar e minha mente clareou, acenei para ele e apontei para a cadeira na minha frente e ele fez que sim com a cabeça, caminhou até nós e sentou na minha frente, após se arrumar no lugar ele virou para mim e me cutucou na bochecha com o dedo.
– Como está a Cece hoje? – perguntou.
– Você sabe, na mesma de sempre. – recordei da manhã conturbada.
– Seus pais continuam cagando contigo? – ficou bravo.
– É, mas tudo bem, parece que a mamãe pretende viajar para Roma ver a minha avó e meu pai vai ir para São Paulo fazer algumas fotos para uma revista, e vou ficar sozinha finalmente. – meus olhos deviam ter brilhado enquanto falava aquilo, pois Nick começou a rir.
– Isso vai ser ótimo. Que tal uma seção de filmes quando isso acontecer? – sugeriu ele, brincando com uma mecha do meu cabelo.
– C-claro, ia ser ótimo. – falei ficando vermelha e abaixando a cabeça para disfarçar.
Ele sorriu de canto e virou para frente, não sem antes soprar no meu rosto afastando meu cabelo e me deixando inebriada com seu aroma de chiclete de menta, tentei me recompor respirando fundo e fazendo um coque com o cabelo devido ao calor que se instalou no meu pescoço e bochechas. A professora Nádia entrou estranhamente animada na aula, diferente da sua cara de tédio geral, ela estava vibrando, vasculhou a sala de aula até seus olhos chegarem em mim, sério, achei que ela fosse me pegar nos braços e me girar no ar.
– Querida Cece, venha aqui por favor. – disse me chamando com as mãos.
Levantei e caminhei até ela, que vergonha todo mundo estava me olhando! O que ela queria comigo? Na frente da aula toda?
– Sim? – perguntei.
– Diga tchau para os seus colegas, afinal, Roma não é tão perto assim.
Como é?
– Desculpe, não estou lhe entendendo. – falei confusa.
Ela me virou de frente para todos. – Gente, os pais da Cece vieram pegar os documentos necessários dela, pois ela vai ir morar em Roma com a avó!
Enquanto a Naja me deixa em exposição como algo fora do comum e exótico, tudo dentro de mim ruía, eles não me perguntaram se era isso que eu queria. Eles só decidiram me mandar para um país totalmente estranho em formato de bota e pronto, aqui estava eu, sendo exposta com uma cara que provavelmente era de horror, medo e raiva, mirando apenas duas pessoas: Mel e Nick. Não posso ficar sem a Mel e sem o Nick. Eles são a única coisa que me mantém viva. E a Sra. Brown claro, gatos são totalmente terapêuticos, e a minha gata era meu ponto de luz quando eu chegava ao fim do túnel.
Alguns dos meus colegas fizeram um “uau”, outros desdenharam, mas Mel estava com os olhos cheios de lágrimas e a feição tão aterrorizada quanto a minha, mas Nick era outra coisa, ele não parecia assustado ou triste, ele parecia raivoso, sabe aqueles animais que vemos em documentários tentando dominar um território? A fúria de Nick passava daquilo, era como se tivesse sangue em seus olhos.
– Não vai não. – foram suas palavras que paralisaram a sala.
Nicholas levantou da cadeira e marchou em direção a diretoria.
***
Tentavam tirar um Nicholas furioso de cima do meu patético pai que estava desesperado por ter desmanchado seu penteado, mas o que mais o enfureceu foi o sangue que manchou sua camiseta depois do soco que levou de Nicholas no canto da boca. Foi tudo tão rápido que não deu para conter, em um minuto eu, a professora e toda a sala de aula corríamos tentando parar o rapaz que correu até a diretoria, ele entrou e viu meus pais com os papéis na mão, em seguida a mão dele quebrou o queixo do meu pai com um super soco. As palavras que vieram a seguir só pioraram a dor no meu peito.
– Vocês não vão tirá-la de mim! Que merda, eu esperei tanto e quando tomei coragem de pedir ela em namoro vocês seus bostas querem manda-la pro outro lado do mundo? – Nick gritava enquanto seus amigos o seguravam e meus pais sem recompunham.
– Você não nos contou que tinha um namorado, Cécile. – disse minha mãe apertando as mãos em punho.
Ignorei minha mãe e fui até a frente de Nick, segurei seu rosto em minhas mãos e olhei em seus olhos, logo ele parou de se mexer e os meninos o soltaram.
– Nick olha pra mim agora, foca em mim. Porque você nunca disse nada? Eu esperei tanto que você falasse alguma coisa! Porque só agora? – perguntei revoltada.
– Eu não sabia se você queria que eu fosse só o seu amigo ou não, eu sou apaixonado por você desde a sexta série! Mas, se você não sentisse o mesmo... Ia estragar nossa amizade.
Arrependimento, essa palavra definia tudo agora. Se eu tivesse falado o que sentia, Se ele tivesse tido coragem, Se eu não estivesse indo para Roma.
– Não vai, Cece. Não vai. – ele disse segurando meu rosto em suas mãos e me beijando.
O beijo que tanto esperei.
O primeiro e ultimo.
– Vamos Cece, você não fica nem mais um segundo perto desse marginal. – cuspiu meu pai agarrando meu braço.
Meu pai me arrastou na frente de todo mundo para a saída do colégio. Os rapazes seguraram Nick de novo enquanto ele se enfurecia. Mel chorava e fazia sinal de que ia me ver mais tarde. Meu celular tocou, era a vovó, ela dizia que ia compensar o que meus pais fizeram com a minha vida, eu duvidava muito.
Fale com o autor