If i remember

9 Totally scared sounds better


Parecia que ela ia me matar.

Os olhos castanhos claros de Dawn Hansen poderiam muito bem me carbonizar se ela ficasse com aquela expressão por mais algum tempo. Por sorte, ninguém do refeitório da escola estava interessado em nossa discussão.

– Eu disse pra você não fazer a pesquisa sem mim. – medo não conseguia se enquadrar no que eu estava sentindo naquele momento. Terror completo soava melhor – Mas você tinha que ser cabeça dura, não é Rowe?

Eu havia contado para ela sobre o que tinha descoberto até aquele momento. 98% de mim estavam aterrorizados com Dawn, os outros 2% estavam pensando em como eu iria falar com Haley. Decidi trazer esse restinho pra festa. Se eu ficasse pensando demais naquilo, acabaria ficando louco. Em meio a intervalos entre brigar comigo e se culpar por não estar comigo, Dawn murmurava que iria estrangular Mark Mirthens. Eu queria manter o que aconteceu em segredo, mas Dawn Hansen fez o que ela sabia de melhor: arrancar informações das pessoas. Acabei por contar detalhe por detalhe o que aconteceu na casa de Mark. Mas eu achava que não era culpa dele. Harriet também era amiga dele. Talvez ele não gostasse que a imitassem, ou o jeito dela o irritava, sei lá. Esse era um dos muitos devaneios que eu tive antes de me explicar com Dawn.

– Eu achei que não teria problema. Pelo menos temos alguma coisa pra ajudar o nosso mapa.

Ela abriu a boca para falar alguma coisa, mas logo o fechou. Seus olhos e mandíbula se mexiam inquietamente, como se ela estivesse lendo algumas informações no ar. Por fim ela suspirou, e apoiou os cotovelos sobre a mesa do refeitório. Seus polegares giravam um em torno do outro como se estivessem em órbita, e ela me olhou com pesar.

– Tá, desculpa. – ela soprou uma mecha de cabelo dos olhos – Acho que exagerei um pouco. – Um pouco?, eu pensei. Se for assim, nem quero ver o pior. – Mas... você acha que podemos confiar nesse Mark?

Eu dei de ombros.

– Não que eu esteja julgando ele por apertar o seu pescoço e te ameaçar de morte, longe disso. – o canto da boca dela se encrespou num pequeno sorriso sarcástico – Mas você não acha que seus pais, seus “amigos” – ela fez aspas com os dedos – estejam escondendo alguma coisa de você?

– Eu... eu não sei. – respondi encolhendo os ombros.

Ela suspirou novamente. Parecia que ela queria tirar um peso das costas.

– Bom... parece que tudo gira em torno dessa Haley O’Byen. – Dawn ajeitou a camiseta do Green Day que ela usava.

– O’Brien – eu a corrigi.

– O’Brien, tanto faz.

O sinal tocou, e levantamos em silêncio. Eu fitei novamente Dawn, que fez um movimento de mão circular, que como havíamos definido durante um período livre a muito passado, queria dizer: eu vou te esperar lá fora depois da aula.

Eu checava os meus horários enquanto caminhava para o meu armário. Era de um grande alivio eu conseguir me lembrar dessas pequenas coisas. Inclusive a combinação para destrancá-lo. Levantei meu olhar, e vi Mark encostado do lado meu armário. Eu parei de andar na hora. Os músculos dos braços dele retesaram. Eu engoli em seco. Mark fez um sinal para mim ir até ele, e foi o que eu fiz com certa hesitação. Ele bateu com as costas na parede e deslizou até chão. Botou a mochila entre as pernas e passou a mão sobre os cabelos ruivos. Seu olhar não era ameaçador nem intimidador, mas sim empático. Seus lábios se contorciam como se ele não tivesse gostado do sabor da própria saliva.

– O quê você quer? – eu falei me sentando ao lado dele.

– Me desculpar. Aquele não era eu. – seus olhos azuis buscaram os meus num apelo.

Por mais que eu quisesse sentir raiva dele, eu não conseguia.

– Tá. Eu acho que está tudo bem. – eu disse.

– Ótimo. E aí? Já falou com a Haley?

Eu meneei com a cabeça.

– E qual é o seu lance com a Dawn “Sebo nas canelas” Hansen? – Mark perguntou enquanto se levantava. – Vocês tão saindo juntos?

– Dawn o quê?

– “Sebo nas canelas”. É o apelido dela. Na verdade, foi você que inventou isso. Mas não conta isso pra ela!

Eu acho que eu deveria estar de boca aberta naquele momento, pois o único pensamento que passava na minha cabeça naquele momento era: “Eu era um imbecil”.

– Já tá na hora de ir pra aula. Até mais, Evan. – e ele saiu correndo pra sala.

Depois do choque inicial, respirei fundo e sussurrei devagar meu mantra: se um dia eu fui um merda, não serei mais.

Para a minha sorte, nenhuma das aulas que eu tive naquele dia, envolvia a Garça. Dividi apenas duas aulas com Haley. Eu sabia que deveria ir falar com ela, mas decidi esperar por Dawn. Depois do último sucesso/fiasco com Mark, queria ter algum suporte da próxima vez. Quando sai pelo portão da escola, como esperado, Dawn estava me esperando do outro lado da rua, sentada na calçada, fuzilando Mark Mirthens com o olhar enquanto ele passava na frente dela.

Nossas conversas enquanto voltávamos pra casa não envolviam muito o nosso cotidiano, muito menos falávamos sobe nossos gostos em geral. Nesse dia não foi diferente. O tópico em questão era: Como falar com Haley O’Brien? Bom, se a diplomacia não funcionasse, sempre teríamos Dawn para resolver assuntos pendentes.

– Tomara que a tua irmã faça uns biscoitos! Tô cheia de fome! – Dawn disse empolgada enquanto subíamos as escadas na entrada da minha casa.

– Bom, é com muito pesar que te informo que a Nat está na escola. Então... nada de biscoitos.

– Você adora ser estraga-prazeres, não é, Rowe?

– Valeu por perceber. Eu tento, sabe?

– Cala boca. Só entra logo. – ela me deu um tapinha na cabeça.

Jogamos as mochilas no sofá e desmoronamos no mesmo. É incrível como ficar seis horas num prédio monótono era cansativo. Ainda quando se tinha três livros de uma grossura absurda na mochila (culpa da aula de Literatura Estrangeira), e ficar carregando eles por ai. Não havia sinal de vida em casa, então, Dawn e eu decidimos atacar a cozinha como se não houvesse amanhã. Eu era mais simples, um pão com presunto e queijo já me satisfazia, mas Dawn Hansen era mais ousada. Todo o nosso estoque de bacon e ovos foi parar no estômago daquele monstro. Ainda não satisfeita, ela devorou uma caixa inteira de cereal juntamente com uma de leite. Eu imaginava se ela estava tomando café da manhã naquele momento ou aquele era só o complemento. De qualquer maneira, era eu que iria ter que responder a Harry e a esposa por aquela comilança.

– Isso é represália, por não ter me deixado nenhum biscoito, e ainda não ter me dado a receita deles. – Dawn falou, e limpou o leite que estava escorrendo no canto da boca dela.

– Quando Nat estiver aqui, a receita é toda sua. – eu disse fazendo sinal de positivo com as duas mãos.

Era difícil essa tal lição de casa, ainda mais quando a gente não se lembra de nada, mais especialmente os dez anos de aprendizado sofridos. Mas a questão que me encabulava mesmo não era nenhuma que estava escrita no meu caderno, e sim a que estava cravada em minha mente: Como caralho iríamos falar com Haley O’Brien.

Dawn deve ter percebido, pois ela fechou o caderno com força, o jogou dentro da mochila, e me arrastou para a rua.

– O que foi? Aonde vamos? – Perguntei aos tropeços.

– Pra casa da dondoca Haley O’Hara. Tá com o endereço dela aí?

– Tá no meu bolso. E é O’Brien. – eu a corrigi.

– Tanto faz.

A casa de Haley não era longe da minha. Na verdade, era na rua logo atrás da minha. Eu meio que me sentia um pouco bobo por não saber disso. Algumas das minhas respostas estavam logo a uma rua de distância, literalmente a uma rua de distância. Dawn ficamos lado a lado encarando a casa dos O’Brien por uns trinta segundos antes que ela tomasse alguma atitude. A varanda da casa de Haley era quase idêntica a minha. Antes de Dawn bater na porta, respirei fundo e caminhei até lá. Cada passo era um mais pesado que o outro. A minha amiga me olhou querendo permissão para fazer aquilo, e eu assenti. A cada batida, meus ombros ficavam mais pesados. Dei alguns passos para trás e olhei para a janela. Uma mão branca puxou lentamente a cortina, e olhos verdes buscaram a varanda. Ao me ver, os mesmo olhos verdes voltaram a se esconder rapidamente atrás das cortinas. Na mesma hora, um homem enorme atendeu a porta.

– O que vocês querem? – o homem hesitou por um milissegundo quando me viu.

– Oi, tudo bem? – Dawn tentou saudá-lo com seu melhor sorriso – Viemos ver a Haley. Por acaso ela ta por aí?

Antes dele falar alguma coisa, Haley apareceu puxando-o para trás. Eu dei um passo a frente. O homem se abaixou um pouco e sussurrou com Haley, que assentiu e sussurrou de volta qualquer coisa. O pai dela (eu assumi que ele fosse o pai dela) nos olhou de canto de olho e desapareceu dentro de casa. Haley primeiro olhou Dawn, e levantou uma sobrancelha, que logo se abaixou quando ela me fitou. Eu engoli em seco.

– Oi, Haley.

– Oi, Evan.