If i remember
10 One, two, three, drink
Isso está mesmo acontecendo, eu pensei.
A pesquisa que Dawn e eu montamos finalmente teria um ponta pé inicial. Enquanto entravamos na casa de Haley O’Brien, tentamos decidir se incluiríamos Haley no time de pesquisa entre cochichos.
– Acho que ela pode ajudar. Mal não vai fazer. – eu argumentei.
– Sei lá, acha que podemos confiar nela? Ela nem ao menos se deu o trabalho de ir te visitar no hospital! Quer mesmo fazer isso? – era difícil negar a lógica da torturadora.
Eu dei de ombros.
– Tá tudo bem? – Haley perguntou com a cabeça inclinada.
– As mil maravilhas, ruiva. – Dawn respondeu com um tom quase indetectável de sarcasmo.
Sentamos-nos nos sofás cor caramelo, com Dawn e eu num lado, e Haley do outro. O pai dela se acocorou no arco que fazia ligação entre a sala e o corredor. Era óbvio que ele queria saber o que nós dois queríamos com a filha dele. Haley colocou uma mecha de cabelo atrás da orelha, e tentou fazer sua melhor cara séria, mas seus olhos a traiam. De vez em quando ela dava uma rápida olhada em mim e fitava o chão enquanto mordia o lábio inferior de maneira nervosa.
Aquela era a casa de Harriet. Eu não podia deixar de me perguntar se ela entraria por aquela mesma porta que eu havia entrado.
– Bom, ruiva. Sentimos muito em interromper qualquer coisa que você estivesse fazendo, mas temos que conversar. Na verdade, é ele que quer conversar com você, mas nesse caso, eu venho junto com o pacote. – Dawn disse apontando para mim com o polegar.
– E o que é que você quer? – Haley perguntou olhando somente para mim. Senti meu rosto esquentando e engoli a saliva acumulada. Não foi nada agradável.
– Que você me ajude a lembrar. Tenho só algumas memórias de você e de todo o resto. – cocei atrás da orelha.
Haley baixou o olhar e mordeu o lábio.
– Eu não sei como eu posso ajudar. – Haley suspirou.
– Só dando algumas informações, ruiva. – Dawn se encurvou. – O trabalho pesado fica com a gente. Seu trabalho seria lembrar as coisas por ele.
– Também tem mais coisa. – eu comentei.
Agora as duas me encaravam.
– Eu preciso que você me ajude a me lembrar de Harriet.
Os olhos de Haley se arregalaram. Seu rosto não demonstrou expressão nenhuma.
– Rowe, quem é Harriet? – Dawn perguntou como se estivesse sendo traída.
– Uma amiga minha. Irmã dela. Eu também tenho lembranças dela. Na verdade, foram as minhas primeiras lembranças.
Dawn jogou o corpo para trás, enquanto assimilava a nova/velha informação. A mandíbula inferior dela estava tensa, parecia que ia explodir. Um sentimento de arrependimento tomou conta e fazia meu tórax ficar mais pesado, como se um liquido estivesse preenchendo-o. De repente, eu não conseguia olhar para Dawn e manter esse olhar. Por que eu tinha escondido isso dela?
– E quando você pretendia me contar isso? – O olhar de Dawn estava um pouco perdido.
– Quando se tornasse relevante, como agora.
Ela comprimiu os lábios e assentiu com as sobrancelhas levantadas, aquilo não era um bom sinal.
– Sabe, de vez em quando, você consegue ser um completo imbecil.
Eu sei, pensei.
– Eu sei. – eu admiti.
– Depois a gente conversa. – Dawn fechou os olhos por um segundo, suspirou e os abriu de novo.
Fitei Haley. Ela se encolheu, com o rosto enterrado entre as pernas. Ela inspirava e soltava um chiado estridente. Inclinei a cabeça sem entender. Eu comecei a lembrar o que Mark havia dito para mim. “Talvez haja alguma coisa que ela não quer que você se lembre”, ele disse. E se a memória que Haley não queria eu me lembrasse fosse a irmã? Se sim, por quê?
O pai dela se sentou do lado dela, e passou um braço por cima dos ombros dela. Eu me preparei para falar, mas Dawn já havia se adiantado.
– Desculpa pelo incômodo. Nós já estamos indo.
Ela apertou o meu pulso e me puxou para fora.
O vento frio trazia pequenas gotículas d’água, fazendo o cabelo repicado de Dawn ficar todo ensopado, assim como o meu. Não havíamos trocado uma única palavra até metade do trajeto para a minha casa. Havia uma tonelada de coisas a se dizer, mas achei que era melhor ficar quieto. Dawn teve a idéia contraria.
– Por quê você não me contou? – ela chegou mais perto de mim.
Eu dei de ombros. Em resposta ela apenas revirou os olhos.
– Você tem que me contar esse tipo de coisa.
– Tipo? – eu comprimi os lábios para dentro da boca e fiz uma cara de atento.
– Tipo... tudo!
Fitei de novo o rosto de Dawn e ela tinha uma cara que era um misto de desatenção com preocupação. Aquilo tudo era culpa minha. Direta e indiretamente.
Uma das coisas que mais gostei no jantar que tive na casa de Dawn e Tessa era que tive meu primeiro contato com bebidas alcoólicas. Vinho, para ser mais exato. Bebemos o bastante para apenas termos uma sensação boa no estômago. “Bebemos não apenas para mostrarmos que somos crescidos, bebemos porque nos convém em certas ocasiões, como essa”, Tessa me dissera. Olhei para o céu que estava ficando escuro, e me decidi. Aquela era uma ocasião para bebermos. “Vocês dois não devem ter problemas para comprarem umas cervejas, ou qualquer coisa do tipo. Nem cara de adolescentes vocês tem”, Tessa comentou em meio uma golada e outra. Segurei a mão de Dawn e a puxei para o outro lado da rua.
– Rowe! Pra onde você está me levando? – ela indagou enquanto tentava se soltar.
– Red Hill Bar.
O Red Hill Bar era grande. Tinha uma decoração modesta, mas tinha seu charme. Sentamo-nos no barzinho, e um garçom logo veio nos atender. Ele nem se deu ao trabalho de ver se tínhamos idade para beber algo além de refrigerante, ele logo foi perguntando o que queríamos. Dawn e eu nos entreolhamos, eu não sabia muito bem que tipo de bebida tinha a disposição ali. Eu dei de ombros.
– Trás umas doze doses de tequila. – Dawn disse apoiando os cotovelos no balcão.
O garçom levantou as orelhas e logo foi encher os copos.
– Rowe, beber até cair é uma das formas de não se lembrar de nada no dia seguinte. Pronto para se esquecer de novo?
– Sim, senhora.
O garçom trouxe a bandeja com as doses. Pegamos um copo e brindamos.
E a noite se passou assim. Terminávamos uma dose e logo partíamos para outra. Depois de seis doses, já me sentia um pouco zonzo. Mas por algum motivo, eu queria mais. Era boa aquela sensação de quente no peito. Dawn chamou o garçom mais uma vez, e dessa vez pediu dois copos de Bourbon. Aquilo que era bebida forte. E assim se repetiu. Terminávamos um copo, e logo os enchíamos de novo. Chegou um momento em que eu já não tinha mais noção de profundidade. Meu humor irradiava confiança. Dawn estava tomada por uma onda inebriante de prazer. “Coragem líquida” ela chamava cada copo que tomávamos. Em algum momento, eu me vi em cima duma mesa com Dawn, enquanto ela fazia uma espécie de discurso para quem estivesse afim de ouvi-la, o que por sinal eram muitos.
– Álcool. Talvez o maior presente que Deus já nos deu. Bebemos não apenas para mostrarmos que somos crescidos, bebemos porque nos convém em certas ocasiões, como essa. – somente naquele momento eu via alguma afinidade que Dawn tinha com Tessa. Elas tinham o mesmo gosto para monólogos. – E bebemos hoje para nos sentirmos bem, e para esquecermos as cagadas que fizemos no passado! A esquecermos as nossas cagadas, irmãos!
– Aleluia! – o público entoou enquanto levantava seus copos e canecas para cima.
Somente quando estávamos indo embora, eu recobrei algumas das minhas faculdades mentais. Já não me sentia bêbado, mas com uma sensação boa sobre tudo e a todos. Já Dawn, ainda estava em seu momento iluminado, com uma garrafa de cerveja na mão, e sua coragem na outra. E claro, eu tive que levar a bêbada para casa. A casa dela era muito longe, então decidi levar ela pra minha. Harry não ia gostar nada. “Um, dois, três, bebam” foi a nossa frase do dia. Nós meio que bebemos como se não houvesse amanhã.
Chegamos em casa, e nenhuma das luzes da casa estavam acesas. Achei que eles já tivessem ido dormir. Entramos silenciosamente, e subimos as escadas na ponta do pé. Olhei o relógio em cima do criado mudo, ele marcava meia noite e dois. Já haviam passado tantas horas assim? Deitei Dawn na minha cama, e tirei seus tênis. Ela se encolheu, chegando a quase parecer uma menina normal. Peguei um cobertor e joguei em cima dela. Quando eu já havia me deitado na cama auxiliar, vestindo uma camiseta e um short velho, percebi que Dawn estava acordada. Ela caiu em cima de mim num baque surdo, me fazendo expelir todo o ar dos meus pulmões. Dois segundos depois, ela pôs a mão em cima da minha barriga.
– Dawn... o que você tá fazendo? – os olhos expressivos dela me fitavam como se ela estivesse sonhando.
Ela trouxe o rosto dela para perto do meu, fazendo algumas mechas de cabelo caírem sobre o meu rosto. Dava pra sentir a respiração dela. Ela pôs a mão direita sobre a minha bochecha e a orelha, e pôs seus lábios sobre os meus. Eu fiquei sem reação. Dawn fazia todo o trabalho ao movimentar a boca e entortar a cabeça para o lado, enquanto eu estava estático. Ela parou de me beijar, e levantou o rosto. Dawn me lançou um olhar sério.
– Se você esconder coisas de mim de novo, eu mesma te castro. – ela soluçou. – Entendeu?
Eu assenti.
– Ótimo. Agora cala boca, porque quero dormir. – ela se aconchegou no meu peito.
O gosto daquele beijo ficou na minha boca até de manhã.
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