If i remember
11 The universe it's a bastard idiot
O sono de um bêbado era conturbado.
“Vamos beber para nos esquecer” dissera Dawn. No meu caso, só me fez lembrar. Eu meio que esperava por meus sonhos/lembranças. Eles sempre envolviam Harriet. Claro, eu já havia sonhado com outras coisas que não fossem lembranças, mas lembranças eram melhores.
Era 4 de julho. Dia da Independência. Parecia que havia um segundo sol sob nossas cabeças de tão quente que estava. Mas isso não diminuía o ritmo do pessoal que organizava os preparativos para a comemoração a beira do lago, no Parque Hamilton. E claro, Harriet comandava com punho de ferro esse batalhão. Eu carregava bancos de madeira com a ajuda de Mark, que não precisava muito de ajuda. Seus músculos faziam três quartos do trabalho. Mas não gostava de me sentir um inútil. Depois de terminar, procurei Harriet, e a achei a beira do lago. Ela segurava a prancheta com os dedos, vendo se tudo estava em ordem. Caminhei para o seu lado. Ela não parecia muito atenta ao que acontecia ao seu redor, parecia que a prancheta era sua melhor amiga.
– Qual é a próxima ordem, general? – perguntei quando sacudi seu ombro.
Harriet pulou e gritou um pouco alto demais. Eu não pude deixar de rir.
– Não faz isso, Evan! – ela bateu com a prancheta nas minhas costas. – Eu quase tive um ataque do coração!
– Tá bom. Não faço mais isso.
Ela suspirou e revirou os olhos.
– Você já sabe se o Tyler trouxe a lona que ele disse que ia trazer?
Eu meneei com a cabeça.
– De vez em quando o pessoal dessa cidade é tão sem noção! – Harriet disse com tom de desapontamento.
– Isso me inclui? Porque você sabe, eu moro nessa cidade.
– Com certeza! – ela confirmou sem pestanejar.
Eu dei de ombros.
– Não é como se isso fosse uma surpresa para mim.
Harriet botou a prancheta debaixo do braço e passou o outro braço sobre os meus ombros. Ela me olhou com aquela cara de quem não queria nada com nada, com os lábios comprimidos.
– Mas, lembre-se: eu também moro aqui. Então, por extensão, sou uma sem noção tanto quanto você. – ela me sacudiu. – Agora vaza daqui, tenho que resolver outras coisas.
Olhei para o céu, e a cena mudou. Estava de noite. As crianças corriam em meio a gritos e risadas. Do meu lado estavam Harriet e Mark. Eu sentia um gosto doce no céu da boca, chocolate. Os cabelos loiros de Harriet estavam soltos, e ela não usava nenhuma única maquiagem. Vestida com uma regata cinza, um jeans preto cortado até a altura das coxas e um All-Star de cano alto. Ela estava linda. O estalar de dedos de Mark foi o que me tirou do mundo da fantasia. Eu pisquei algumas vezes.
– O que foi? – perguntei.
– A gente tava falando do Star Wars. O nosso caro Mark aqui diz que qualquer outro filme dá de dez à zero naquela obra-prima.
– Eu tô dizendo que o conceito do filme é muito ridículo. – Mark retrucou.
– Os episódios um, dois, e três são um lixo. A trilogia original é a que merece um lugar na história dos melhores filmes de todos os tempos. – eu disse.
Harriet o olhou com aquela cara de “toma cheiroso”. Eu não queria ficar na linha de fogo deles, mas Harriet havia me arrastado para aquilo. Mark revirou os olhos como se já houvesse ouvido aquilo mais de um milhão de vezes. Ele sacudiu a cabeça energicamente e bufou.
– Vocês dois não tem salvação mesmo. – Mark saiu batendo pé.
– Trás uns refrigerantes para a gente! – Harriet gritou para Mark enquanto ficava nas pontas dos pés. Em resposta, ele mostrou o dedo do meio para nós. – Ele é meio sensível com essas coisas. – ela me confidenciou. – Vem. Vamos comer alguma coisa.
Pegamos algodões doces. Não era o melhor dos doces, mas dava pro gasto. Quando a única coisa que sobrou do algodão foi a vareta, ouvimos um estrondo forte atrás de nós. Harriet correu como uma louca para ver o que era. A bomba do castelo inflável tinha quebrado. Harriet ficou maluca, lamentando-se e se esperneando, mas isso era previsível vindo dela. Seu rosto em aflição de repente se acendeu numa idéia. Ela segurou a minha mão e começou a caminhar em passos largos.
– Meu pai tem uma bomba dessas na garagem, talvez sirva. Vamos precisar da caminhonete do nosso querido enfezadinho Mark Ronan Mirthens para trazer a bomba. – Harriet disse com certo alivio.
– E quem vai cuidar das coisas por aqui? – perguntei.
– Haley! – ela chamou. A irmã dela se desvencilhou dando cotoveladas em um grupo de adolescentes. – Pode cuidar das coisas por aqui?
– T-tudo bem. – Haley gaguejou. – Oi Evan. – ela acenou para mim enquanto mordia o lábio inferior.
– Oi Haley. – eu respondi.
Conseguir as chaves de Mark foi difícil. Ele estava mesmo irritado com a gente. Conseguimos depois de muito barganhar. No caminho para casa de Harriet, o que não faltou foi conversa. Ela não parava de comentar como era desnecessário fazer mais um filme de Star Wars. Parecia que discussões assim eram bem ativas entre nós. Uma coisa que eu tinha aprendido rápido com Harriet: ela fala e você escuta.
Quando chegamos a casa dela, fomos até a garagem. Aquela bomba era pesada. Dava pra ouvir os grunhidos de dor de Harriet enquanto levantávamos a maquina até a caçamba da caminhonete. Dei uma olhada em Harriet e segurei o riso.
– O que foi? – ela perguntou. Eu apontei para ela olhar para baixo.
A loira olhou para a regata toda suja de graxa e deu um berro de frustração.
– Vem. Vou ter que trocar de roupa. – Harriet meneava com a cabeça.
As paredes da casa estavam com uma cor diferente de quando entrei na casa antes de ir para o bar. Elas eram laranjas, mas no sonho estavam azuis. Subimos as escadas e entramos no quarto dela. Eu engoli em seco. Minha testa antes seca, agora estava ensopada de suor. Haviam duas camas no quarto, uma no canto esquerdo e a outra no direito, eu fui para a mais de distante de Harriet.
– Se você me olhar enquanto troco de roupa, eu arranco seus olhos fora e nunca mais falo com você. Me ouviu?
Eu assenti com as mãos em frente aos olhos.
Harriet parecia que não conseguia trocar de roupa sem fazer um estardalhaço. Enxergando somente escuridão, resolvi focar somente nos meus ouvidos. Parecia que uma manada de elefantes estava passando por ali. De repente, o silêncio se instalou. Ouvi passos indo na minha direção, e eles pararam assim que estavam diante de mim.
– Pode abrir os olhos agora. – Harriet me avisou e puxou minhas mãos para baixo. Eu só abri os meus olhos uns dois segundos depois. Um sorriso taciturno acentuava o rosto da loira.
Ela estava somente de sutiã e bermuda. Eu cobri meus olhos de novo nervoso.
– Você fica muito bonitinho quando fica nervoso desse jeito. – ela provocou. Ela lentamente foi pondo minhas mãos para baixo.
Seu rosto se aproximou. Um arrepio subiu a minha coluna. Eu tentei falar alguma coisa, mas as palavras ficaram presas na garganta. Os olhos dela encaravam os meus sem temor ou dúvida. Parecia que não havia obstáculos para ela.
– Mas e a festa? – eu perguntei. – Não deveríamos voltar?
– Minha irmã gêmea pode lidar com tudo durante uns cinco minutos. – ela falou tão baixo que quase era um sussurro. – Acho que podemos ficar fora duma festa durante cinco minutos. Você não acha?
– S-sim.
Eu me aproximei, e nos beijamos. Naquele momento, eu havia me sentido tão livre, como se um peso tivesse sido tirado das minhas costas. Mas o universo como sempre, era um idiota completo. Sem mais nem menos, a cena mudou. Nós havíamos voltado à festa. Eu e Harriet estávamos à beira do lago, sentados enquanto observávamos o céu se acendendo em grandes explosões de fogos de artifício. A loira vestia uma camiseta cor vinho que dizia: “Mantenha a calma e foi o Han quem atirou primeiro”. Eu sentia os dedos de Harriet entrelaçados com os meus, apertando a minha mão delicadamente. Sua cabeça apoiada gentilmente sobre o meu ombro, e seus olhos azuis esverdeados liam o céu como um livro. Eu já não estava entendendo mais nada. Harriet era minha amiga, ou minha namorada? Eu pensei.
– Sabe, Evan, – Harriet disse – você sabe que eu sempre sonhei em viajar pelo mundo não é?
Eu assenti.
– Bom, eu vou te contar uma coisa. Eu ainda espero viver o resto da minha vida aqui. E principalmente, eu espero viver aqui com você.
Então o mundo se dissolveu na escuridão.
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