If i remember
12 Shame, that slippery bastard
Notas iniciais
Minha cabeça estava explodindo de tanta dor. O sol brilhava tanto em meus olhos, que parecia que estava esfregando na minha cara que eu era um alcoólatra. Mas, por mais incrível que pareça, eu não estava me preocupando com isso. No espelho do banheiro, uma coisa despontava no reflexo da minha bochecha, um pouco vermelha com a ponta branca. Tentei espremer, mas com o simples toque dos meus dedos, ela ardeu como brasa. Depois de umas seis tentativas, desisti e fui para o meu quarto. O sol ainda era um idiota. Fechei as cortinas com certa ignorância e suspirei. Olhei para a desacordada Dawn Hansen, e me senti um pouco embaraçado. Vergonha, sua bastarda escorregadia, aí está você. Lembrei-me da noite anterior, e o canto da minha boca se encrespou num pequeno sorriso por vontade própria. Por que eu tô sorrindo? Abaixa desgraçado. Ninguém te chamou aqui! Pensei.
A cada passo que eu dava enquanto descia as escadas, mais a minha dor de cabeça aumentava. Cheguei na sala de jantar, e olhei o relógio. Duas e meia da tarde. Que a escola se exploda, eu não estava em condições de ir pra lugar nenhum mesmo. A mesa estava cheia de comida e principalmente café, graças a Deus pelo café. Em cima do pacote de pães, um pequeno bilhete repousava. Peguei o bilhete e eu o li: “Fomos comprar algumas coisas. Tem aspirina no armário de cima da cozinha”. Passei a mão sobre o meu rosto e joguei o bilhete para um canto. Estava com muita fome para fazer qualquer coisa, até mesmo lembrar o que era aspirina.
O café ajudou um pouco com o mal-estar.
Eu já estava no meu segundo pão, quando ouvi Dawn descendo as escadas. Os cabelos negros cobriam a mão que estava pressionando a testa, e seus olhos estavam espremidos ao máximo. Sua expressão facial indicava que ela acordara mal pra burro.
– Que horas são? – ela grunhiu enquanto se sentava na cadeira.
– Umas três horas da tarde, eu acho.
– O que aconteceu ontem? – ela coçou a cabeça.
– Você não se lembra? – eu engoli um pouco de café.
– Não. Finalmente sei como você se sente. – ela se esticou para pegar a faca de pão.
– Bem vinda a bordo do Expresso Esquecimento.
– O que? Agora lembrou que é piadista?
– Tá, desculpa. Mas você não se lembra de nada mesmo? – eu estiquei o pescoço. Ela não se lembrava do beijo que ela havia me dado?
– Nope. Tá tudo muito bagunçado na minha cabeça agora. E por que você quer saber? Eu fiz alguma coisa? Por favor, me diz que eu não atirei pedras na casa do guarda Willis de novo! – Dawn murmurou.
– Não, você não atirou pedras na casa de ninguém. Digamos que você fez um trabalho mais vocal.
– Do que caralhos você tá falando Rowe? – ela semicerrou os olhos.
– Nada não... irmã Hansen. – eu soltei uma pequena risadinha.
Depois de terminarmos de comer, Dawn me pediu pra ir com ela em sua casa. Ela argumentou que tinha que explicar o porquê de não voltar pra casa na noite anterior. Isso era minha culpa. Eu cocei acima dos olhos e fiz que sim com a cabeça silenciosamente. A garota me disse para por alguma coisa quente, pois o outono havia chegado. Red Hill, um lugar onde o outono consegue ser tão frio quanto o inverno. Pus uma blusa moletom com capuz preto e saímos. Estava mesmo frio.
No trajeto não falamos nada um para o outro. Quando se passa muito tempo pensando, você meio que desenvolve uma visão para o mundo em que você vive. O silencio, às vezes, pode ser o que mais lhe revela. Esse foi o pensamento que caminhou pelo meu cérebro sem lembranças. Devaneios podem ser muito bem vindos de vez em quando. O que você pensou noite passada? Me perguntei. Quando ela meu beijou, dava pra sentir sua confusão e sua determinação em seus lábios. Mas por que ela me beijou, eu não era ninguém, só mais um garoto num infinito mar de garotos. A única coisa que se destacava em mim, era um problema neurológico. Dawn abriu a porta de sua casa com um pequeno chute e um olhar cansado no rosto.
Ela entrou apertando as têmporas com os dedos, grunhindo dolorosamente. Eu a acompanhei silenciosamente.
– A ressaca tá boa? – A voz de Tessa veio da cozinha.
– Cala a boca que te respondo! – Dawn berrou, e logo se encolheu com o som da própria voz.
A menina de cabelos curtos cambaleou e se jogou no sofá maior. Fui em direção do menor e fiz o mesmo, nós dois estávamos acabados, e tínhamos acordado fazia nem uma hora. Dawn passou a mão entre os cabelos e pôs os lábios para dentro da boca. Ela provavelmente sentiu o gosto deles, pois fez uma careta.
– Eu comi alguma coisa ontem? – ela olhou para a luz das janelas e apertou os olhos.
Eu meneei com a cabeça. Acho que é o gosto da minha boca que ela não gostou, pensei. Soprei ar quente na minha mão e tentei sentir o cheiro do meu hálito. Cerveja e amendoim. Ouvi a borracha do pneu da cadeira de rodas de Tessa, e estiquei o pescoço para olhar a cozinha. Dor não descreve o que eu senti no pescoço. Recuei e me encolhi.
– Quando eu disse que vocês poderiam beber por causa da aparência, não quis dizer quase morrerem afogados em álcool na primeira chance que tiverem. – Tessa deu a volta no sofá de Dawn e lhe deu um tapa forte na cabeça, virou e me presenteou também com um tapa igualmente forte. – Principalmente você! – a irmã mais velha apontou para Dawn.
– Por que não? Não como se eu fosse morrer por causa de duas cervejas! – ela murmurou.
– Você sabe muito bem porquê! – Tessa limpou os óculos na camiseta preta.
A Torturadora gesticulou um vai embora, sussurrando um tá, tá, tá, eu entendi.
– Nossa, alguém apaga o sol, ele está nos meus olhos! – passei a mão sobre o meu rosto.
– Não tem como apagar o sol, burro. E se tivesse como, tenho certeza que alguém já teria feito isso.
– Quem, por exemplo? – me levantei, e tentei ficar confortável no sofá.
Dawn levantou o braço com o dedo indicador estendido, como uma criança fazia.
Apoiei o cotovelo no braço do sofá, e deitei a minha cabeça sobre a minha mão. Eu não falei nada, nem pensei em nada. O sol estava conseguindo chegar ao nível de tortura de Dawn. Filho da puta. Desculpe-me por isso, depois daquele dia, adquiri certo desprezo por aquela grande bola de gás em combustão.
Acho que haviam se passado uns dez minutos até que alguém falasse alguma coisa. Foi Dawn quem se pronunciou:
– Temos que começar a pesquisa logo.
Demorou uns dez segundos até que eu entendesse o que ela disse.
– Parece que Haley não vai conseguir nos ajudar. É só tocar no assunto da irmã dela que... – não consegui continuar, o álcool ainda fazia algum efeito no raciocínio.
Dawn levantou, e jogou as costas sobre o sofá. Levantou a cabeça e me fitou com seriedade.
– Eu queria falar com você disso. Essa hist... – seu pescoço se contorceu, girando para trás, e seu corpo começou a tremer descontroladamente, fazendo-a cair do sofá para o chão.
Corri até ela, segurei sua cabeça e seu corpo, inutilmente tentando fazer ela parar.
– Ei, o que está acontecendo? – gritei para Dawn, mas parecia que ela não me ouvia. Ela se debatia, e seus olhos estavam arregalados. – Tessa! – gritei. – Tessa, me ajuda!
Com um tempo de resposta impecável, Tessa veio desesperadamente até a irmã, desgrenhando os cabelos, gritando o nome da irmã.
– Segura ela. Ai, meu Deus. Vou chamar a ambulância! Ai, meu Deus! – Tessa discou o número do hospital, desajeitada.
– O que tá acontecendo, Tessa? – perguntei entre gritos, mas ela não me ouvira, tampouco como Dawn não me ouvia.
Eu nunca me imaginei voltando para o Hospital Memorial de Red Hill. Ainda mais naquelas condições. Fiquei observando a tampa do café com leite que haviam me dado, enquanto estava sentado na sala de espera. Tessa tinha ido conversar com um dos médicos, me deixando a deriva em meus próprios pensamentos. Lógico, o primeiro deles foi: Isso é culpa minha. Eu não deveria ter arrastado ela até o bar. Eu não sabia se o álcool fazia uma coisa daquelas com uma pessoa. Havia algumas poucas pessoas ali na sala de espera, então não podia exprimir todas as minhas emoções. Engoli o choro de culpa e tomei um pouco de café com leite. Não melhorou em nada meu humor que já estava uma bela duma merda.
O som característico do pneu da cadeira de rodas de Tessa chegou aos meus ouvidos, me fazendo levantar de supetão. Uma idosa que estava do meu lado, teve um leve susto. Quando vi a irmã mais velha, caminhei a passos largos em direção a ela.
– O que aconteceu, ela tá bem? – muito bom trabalho em amenizar a urgência, Rowe.
– Sim, agora ela tá bem. Ela só teve um pequeno ataque. – Tessa tirou os óculos, e limpou os olhos com a mão direita.
– Nossa, que bom! Isso é uma boa noticia não é? – apertei um pouco a embalagem do café com leite.
– Sim, é sim. – Tessa riu fracamente, e colocou os óculos de volta.
– Eu posso ver ela?
– Ela está dormindo agora. Tendo o abençoado sono dos bêbados. Ela só vai ficar em observação uns dois dias, só pra ter certeza. Vai pra casa, amanhã você fala com ela, tá bom?
Decepcionado, eu assenti. Tudo aquilo estava muito confuso para mim.
Não quis olhar pra cima no caminho de casa. Não estava muito empolgado com o mundo. Meus pensamentos estavam um pouco mais interessantes. O que Dawn queria falar sobre Harriet? Parecia que o universo não queria ninguém falando dela. Mas Harriet era a última de minhas preocupações. Minha cabeça estava no hospital, pensando em Dawn. Parecia que Tessa não estava me contando tudo sobre a condição da irmã. Mas não tive cabeça nem tempo para pensar naquilo. Cheguei ao beco da minha casa, vi uma Haley agasalhada de uma blusa azul marinho, e uma touca preta, sentada no balanço da minha varanda. Levei 10 milésimos para constatar que era ela. Caminhei com os ombros meio pesados, puxando mais ar que o normal. Ao chegar na entrada, subi as escadas e me sentei ao lado de Haley. Passei a mão por entre os meus cabelos e fitei ela. Seus olhos verdes acharam os meus e se fixaram lá. Ela mordia o lábio inferior nervosa, acompanhando as batidas compassadas do seu pé na madeira.
– Olha, Haley... Me desculpa por ontem, seja lá o que aconteceu, mas agora não é uma boa hora para...
– Eu quero ajudar! – Haley me interrompeu. Ela tinha conseguido a minha atenção.
– Com a pesquisa?
– É, com a pesquisa. – seu nervosismo era quase palpável.
– Tá, acho que isso vai ser bom. Só que eu tenho que falar com a Dawn e... – eu não acreditei que eu havia esquecido de Dawn por um segundo.
– Evan, o que foi? Aconteceu alguma coisa com a Dawn? – Haley perguntou.
Fitei ela. Eu também não sabia o havia com Dawn.
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