Notas iniciais
Antes de mais nada, vou pedir desculpas pela demora. A explicação, por mais simples que pareça, é que fiquei sem internet. Então já viu a merda, né? Mas voltei e o proximo deve sair essa semana ainda

O Sol brilhava suavemente no rosto da mulher que dizia ser a minha mãe. Quando Joseph, o médico, disse que aquelas pessoas eram os meus pais, eu não acreditei. Quero dizer, eram muito poucas as semelhanças entre mim e eles. Tão pouca que poderiam dizer que somos apenas parentes distantes.

– Tudo bem, Evan? – Joseph sacudiu o meu ombro. Eu fitei os seus olhos castanhos.

– Sim, s-sim – eu respondi, assentindo com a cabeça.

– Filho – o homem que dizia ser meu pai se inclinou um pouco – você não se lembra de nós? – os olhos azuis escuros dele tinham um brilho de empatia.

Eu apenas meneei com a cabeça.

– Vou deixar vocês a sós – disse o médico pondo uma prancheta debaixo do braço. Com passos pesados ele saiu da sala.

Olhei para o casal meio descrente. Para mim, naquele momento, falar que eles eram os meus pais, é o mesmo que falar pra você que sou o Batman. Você não acreditaria.

A mulher se aproximou um pouco e tentou segurar a minha mão, mas eu a recolhi para debaixo do cobertor. Olhei para o rosto da mulher, dava pra ver a tristeza e a decepção de seu apelo falhar em seus olhos.

Se aqueles eram mesmo os meus pais, eles tinham que me convencer, e eu concentrado o suficiente para ouvi-los. Coisas que eu não conseguiria fazer naquele momento. Minha cabeça ainda se focava no sonho que tive, e principalmente, Harriet. Se aquele sonho fora realmente uma lembrança, talvez eu também pudesse recorrer a Harriet. Mas eu ainda tinha que saber como ela era. Eu tentava consertar a minha cabeça, mas ela própria me sabotava.

– Evan... – a mulher tentou se aproximar novamente.

– Calma Victoria – o homem segurou ela pelos braços.

– Quem são vocês? – perguntei.

O homem fez Victoria sentar num banquinho de madeira que estava na frente da minha cama. Ela me fitou mais uma vez e enterrou o rosto nas mãos. Eu não me sentia bem com aquilo, era como se eu estivesse fazendo aquele casal passar um inferno por minha causa, e eu ficasse quieto somente assistindo o sofrimento deles. Eu queria dizer alguma coisa que confortasse eles, mas eu não os conhecia. Mas nem mesmo eu me conhecia, não conhecia a minha vida, não conhecia as pessoas. Nem mesmo o meu rosto eu conhecia. Nos dias que eu passei no hospital, eu não me olhava no espelho, tinha medo do poderia ver. Eu sei, é um medo irracional, mas todos têm um medo irracional, quer queira, quer não.

O meu suposto pai puxou uma cadeira de alumínio para perto da minha cama, e se sentou nela. Ele coçou a barba, e me olhou pensativo.

– Acho que é melhor irmos pelo início – o homem esticou a mão em minha direção. – Muito prazer, Evan. Harry Rowe.

Eu olhei a mão de Harry, e olhei para seu rosto. Mesmo com a barba por fazer dele, era difícil para o rosto dele não incitar confiança, mas poderia mudar muito simplesmente de um semblante confiante para um que faria você implorar por sua vida.

Com certa hesitação apertei a mão de Harry.

– E essa, como você já deve ter percebido, é Victoria, minha esposa – ele acenou com a cabeça apontando Victoria, que deu apenas um curto aceno. Ela puxou a manga da blusa, e limpou as lágrimas do rosto.

– E então, como você está hoje? – Harry perguntou. Ele estava tentando estabelecer uma conversa, como se estivesse acabado de me conhecer, o que de certa forma fazia sentido.

– B-bem – respondi. Mesmo dialogando diariamente com a Hansen, ainda tinha certa dificuldade de falar coisas curtas. Isso era estranho e ao mesmo tempo, de certa forma compreensível.

Harry olhou nos meus olhos.

– Evan, você se lembra do quê, antes de acordar aqui? – ele juntou a pontas de dedos em frente a barriga.

– Nada. Absolutamente nada – respondi. Harry olhou para a esposa.

– Nem mesmo de nós? – dessa vez foi a vez de Victoria perguntar.

Eu meneei com a cabeça.

– Onde vocês estavam? – perguntei. Estava na hora de tirar algumas satisfações.

Eles se entreolharam, talvez decidindo quem iria responder.

– Depois do seu acidente – Harry começou a falar – você entrou em coma. Queríamos estar aqui, quando você acordasse. Mas um... imprevisto aconteceu e tivemos que sair um pouco do hospital.

– Nós queríamos estar mesmo aqui – disse Victoria. – Queríamos mesmo, sua irmã até queria acampar aqui e esperar que você acordasse – Ela deu uma risada fraca e uma lágrima deslizou pelo seu rosto.

– Espera – eu falei – eu tenho uma irmã?

Eles assentiram em uníssono.

– E onde está ela?

– Dormindo no carro – Victoria aproximou um pouco mais o banquinho.

Bom, até aqui algumas pequenas coisas tinham sido esclarecidas. Eu tinha pais que se importavam, davam desculpas meio ruins, mas se importavam. Eu tinha uma irmã, ainda sem nome – tomara que ela não seja o demônio – pensei. E por último, mas não menos importante, eu tinha um carro. Era só um carro, mas era um carro.

Eu tinha uma irmã, e pensei em outra coisa quando ouvi isso. Será que eu tinha amigos? Ou era um anti-social? Era meio difícil aceitar essa ultima opção, eu conversava com Dawn, Jerry, até mesmo a enfermeira Betty tava incluída nessa lista. Mas se eu tinha algum amigo, nenhum deles fora me visitar no hospital. Talvez eles não soubessem que eu estava aqui, ou talvez tivessem me esquecido. Era difícil escolher qualquer uma dessas coisas. Mas certas coisas que não podemos mudar, como a natureza humana.

– Eu... t-tenho amigos? – gaguejei. Essa minha dificuldade estava me irritando.

– Sim, sim. É claro que tem – confirmou Harry.

Naquele momento me senti mais tranqüilo. Era como se um peso tivesse sido tirado das minhas costas

Na entrada da sala, irrompeu Joseph, o médico, ainda com a prancheta debaixo do braço. Ele caminhou em nossa direção, coçando sua barba rala.

– Senhores, vamos que deixar que Evan descanse agora. Acho que ele já conseguiu muita coisa pra cabeça dele pensar.

– Mas... – Victoria começou a dizer, mas Harry estendeu a mão num gesto que dizia “chega”. Ela imediatamente se calou.

O casal se levantou e fez uma despedida silenciosa. Harry simplesmente pôs a mão em meu ombro e deu um leve sorriso. Victoria puxou um lencinho de papel do bolso da blusa e limpou o rosto, me olhou uma ultima vez e fez um curto aceno com a mão. Harry pôs as duas mãos sobre os ombros da esposa e a conduziu para fora da sala. Joseph me olhou, tirou os óculos e os limpou com um pedaço de algodão que tirara do bolso do jaleco.

– Seria bom você descansar agora, Evan. Amanhã vamos fazer uma tomografia. E você senhorita Hansen, — ele fitou a cama de Dawn – pare de ficar ouvindo a conversa dos outros.

Dawn levantou o braço, e sua mão tinha apenas o dedão esticado, sinalizando um sim senhor, sargento.

O médico pôs o óculos no rosto e saiu da sala. Encarei Dawn, que já havia se levantado. Ela me olhou com uma cara de desinteressada.

– O quê? Não fiz nada que você não faria – Dawn se espreguiçou.

– Incrível – sarcasmo não era o meu forte.

Além de potencial torturadora, ela era ninja? Aquilo estava ficando cada vez melhor.

Notas finais
Achei ele meio curto, mas não via muito o que poderia acrescentar, o proximo vai ser maior