If i remember
4 With milk or without milk
– Já terminou de por as roupas, Rowe? – a enfermeira Betty perguntou por de trás da porta.
Eu nem havia percebido, e já estava na hora de ir embora do hospital. Parecia que eu era um pássaro sendo expulso de seu ninho, eu não conhecia nenhum outro lugar além do Hospital Memorial de Red Hill, então para mim, era natural falar que ali era a minha casa. No dia anterior, Dawn não parara de falar que eu deveria esperar por ela, para começarmos a pesquisa sobre a minha vida. Eu percebi que ela não iria esquecer sua promessa, muito menos quebrá-la. No tempo em que passamos juntos no hospital, ela me ensinou o que era duplo sentido e coisas desse tipo, para eu não cair na conversa dos outros. Tenha fé em mim, ela havia dito, eu nunca vou te abandonar, ela completou. Eu não sabia em que sentido tomar suas palavras.
Haviam me dado uma camiseta preta, uma bermuda camuflada, e um pé direito de tênis para vestir. Eu sai do banheiro sem me olhar no espelho, ainda não queria ter essa experiência de me encarar. Eu havia esquecido as minhas muletas do lado da minha cama, então a enfermeira Betty teve que me ajudar. Nós havíamos chegado na entrada da sala, e fitei a minha cama, Dawn estava sentada em cima dela, lendo despreocupadamente uma revista em quadrinhos dos X-men.
– Sai daí, Hansen! – Betty gritou. Dawn não se moveu nem um centímetro – Mas que merda!
– Pode deixar – eu falei.
Dawn não do tipo de aceitar ordens de qualquer um. Muito menos de Betty.
Cheguei a minha cama e me sentei na outra extremidade, ficando frente a frente com Dawn. A enfermeira Betty deu uma última longa olhada em nós, se virou e tomou o rumo para fora da sala. Dawn deu uma olhadela para ver se Betty já havia saído, quando confirmou suas expectativas, fechou a revista e a pôs de lado. Ela se virou em minha direção e cruzou as pernas. Ela me lançou um olhar inquisitivo. Um arrepio subiu a minha espinha.
– E então? – ela indagou.
– E então o quê? – cocei a minha nuca.
Num piscar de olhos, Dawn pegou a revista e bateu na minha cabeça com ela.
– Você vai me esperar?
– Mas que violência é essa? – eu massageei a área atingida. Dawn ameaçou me bater de novo – Sim, sim – eu me apressei em falar. – Eu vou te esperar. Satisfeita?
– Por enquanto, sim – ela largou a revista, dando um sorriso agradecido. – Eu vou sair amanhã, então já sabe. Posso contar com você?
– Você sabe que pode – confirmei.
– Ótimo, ótimo – Dawn sacudiu a cabeça. – E então, o que vai fazer quando chegar em casa?
– Não sei – respondi. – Acho que vou conhecer a minha irmã e...
Eu não sabia o que iria fazer depois. Era foda não se lembrar de nada. Desculpa o foda, estou andando demais com a Hansen. Eu não poderia tentar descobrir nada até que Dawn viesse me ajudar, se eu fizesse o contrario... tenho até medo de pensar no que aconteceria. Se eu lembra-se de alguma coisa, uma coisinha sequer, teríamos um ponto de partida. Cabeça de merda. Nem pra se ajudar você presta.
– Rowe, vamos. Tá na hora – Joseph, o meu médico estava encostado na entrada da sala.
Não me virei o meu rosto para Joseph, eu apenas assenti.
Dawn me fitou com tristeza. Ela se inclinou para frente e abraçou o meu pescoço com firmeza, mas com cuidado. Ouvi um chiado lamuriento de Dawn, e ela apoiou o queixo no meu ombro. Aquilo tinha me pegado de surpresa. – Eu estou mesmo saindo – pensei. Também me inclinei um pouco para frente e abracei a garota. O calor de seu corpo era reconfortante. Os cabelos negros de Dawn caíram sobre a minha testa, e fizeram cócegas.
– É pra me esperar ouviu? – a voz dela estava carregada. Normalmente eu assentiria, mas eu quis fazer mais.
– Sim, eu ouvi – respondi. – Você não vai me abandonar?
Dawn deu um soluço de alegria. Senti seu maxilar se mexendo, talvez ela estivesse sorrindo.
– Nunca – ela me apertou mais. – Eu disse que nunca ia te abandonar, e eu não vou fazer isso.
Dawn me soltou lentamente, senti suas mãos quentes deslizarem pelo meu pescoço, e depois descerem um pouco até os meus ombros. Fitei seu rosto e seus olhos castanhos. Algumas lágrimas escorriam, e um largo sorriso fazia sua aparição como evento principal. Senti um calor infernal em meu peito, um frio na barriga que parecia me devorar, mas também me encher por completo. Perguntava-me se aquele era o sentimento de talvez gostar de alguém. Eu não fazia a mínima idéia.
Harry e Victoria estavam me esperando na saído do átrio do hospital. Fiquei entre eles, e os dois seguraram gentilmente os meus ombros me conduzindo até o carro sedan, que estava no estacionamento. Olhei para a janela da porta dianteira do carro, e vi meu reflexo. Nas palavras de Dawn, eu não estava tão ferrado quanto achei que estaria. Cabelos pretos caiam sobre a minha testa, meus olhos eram de um verde quase fluorescente e um nariz levemente empinado, o queixo era um pouco quadrado e os lábios pouco carnudos. Pequenos cortes enfeitavam as minhas bochechas e um maior na ponta do queixo. – Nada mal – pensei. Ouvi a porta do carro abrindo e virei o rosto. Harry acenou para eu entrar no carro.
Red Hill não era nada mal. No caminho para casa fiquei observando o ambiente que envolvia o carro, o céu estava cinza claro com poucas nuvens, sob as calçadas beges, as pessoas talvez fossem ao trabalhos, adolescentes entravam em grupos na lanchonete em meio a risadas. Em certas ruas não andavam carros, mas sim bondinhos coloridos, levando pessoas a seus destinos. Cada prédio era diferente do outro, com seu próprio padrão, com seus tetos chapados ou abobadados.
– O que está achando da cidade, Evan? – perguntou Victoria.
– Bonita – respondi, lutando para não gaguejar. Com o tempo, fui conseguindo parar de gaguejar. Não era tarefa fácil. Joseph, o médico, comentara que a gagueira era colateral da perda de memória, que com o tempo, a fala voltaria naturalmente para mim. Mas a memória não seria tão fácil assim.
Victoria pegou um saquinho de amendoins, e o abriu. Enfiou dois dedos ali dentro e puxou um para fora. Ela perguntou se eu queria um, mas eu respondi que não.
– Sua irmã vai ficar animada – Harry comentou. Ele pediu um amendoim para a esposa, que estendeu o saquinho pra ele – Ela disse que vai fazer biscoitos pra você – ele puxou dois amendoins do saquinho, e os jogou rapidamente na boca.
– Ela tem quantos anos? – perguntei.
– Dez – Harry respondeu. Ele virou para esquerda numa rua feita de blocos de cor areia.
Eu não entendia aquilo. Quem em sã consciência, ensinaria uma menina de dez anos, a fazer biscoitos?
– Como ela sabe fazer biscoitos? – estiquei o pescoço por entre o banco do motorista e do passageiro.
– Hum – Victoria pôs alguns fios de cabelo atrás da orelha direita. – Você ensinou para ela.
Eu estava gostando menos de mim mesmo.
O carro deu uma guinada para a direita, entrando numa rua sem saída, que ao final formava uma grande bola, com várias casas contornando-a.
Paramos em frente a uma grande casa branca, tinha uma elevação feita de blocos vermelhos, e uma escadinha que levava a uma pequena varanda com um banco grande de madeira lixada. Victoria pegou sua bolsa e saiu do carro, e ela me chamou com um aceno. Peguei as minhas muletas e sai do carro. Levantei o pé engessado e dei uma olhada em volta na vizinhança. Não havia ninguém perambulando por ali, nem mesmo crianças brincando.
– Onde tá todo mundo? – cambaleei um pouco mais pra frente.
Harry coçou a barba.
– Acho que estão em casa. Afinal, já já é outono! – ele exclamou.
– O que é outono? – perguntei. Não me recordava o que era outono.
O casal trocou um olhar desconcertado.
– Vamos entrar – Harry apontou para a porta de carvalho branco – Depois te explicamos.
Victoria fora na frente para abrir a porta para nós, enquanto Harry me ajudava a subir as escadas. Saltitei para dentro da casa, quando de supetão, alguém pulou sobre mim, abraçando o meu pescoço, gritando o meu nome para o mundo todo, me fazendo dar uma guinada para trás e cair. – Acho que entrei na casa errada, para me atacar assim?! – pensei. Abri os olhos, ignorando a dor vinda das minhas costelas, e encarei o teto branco. Senti o meu atacante sair de cima de mim, e ergui um pouco a minha cabeça para ver quem era, e vi uma garotinha de cabelos acaju ondulados, pequenos olhos esverdeados sarapintados de marrom e um nariz fino como os seus lábios. Ela vestia uma camiseta rosa clara, e um short preto, ela nada estava calçando.
A pequena menina esfregou o calcanhar esquerdo com o pé direito e me fitou inocentemente com um leve sorriso. Não tinha como ficar com raiva dela, merda, ela era muito fofa. Apostava como ela não ficava de castigo, nem nada do tipo.
– Desculpa – a menina falou enquanto me ajudava a levantar. Ela agachou mais uma vez para pegar a muleta que estava no chão.
Victoria, que estava logo atrás de mim, se pôs ao lado da menina.
– Evan, essa é Nathalie. Sua irmã – Victoria me diz como se fosse a coisa mais natural do mundo, o que para mim não é. Primeiro, apareceu duas pessoas dizendo que são meus pais, e agora queriam me empurrar uma irmã? Eu sentia o mundo rodopiar a minha volta.
– Mãe, por que você ta falando assim? – Nathalie perguntou – Você sabe quem eu sou, não sabe, Evan?
Logo atrás de mim, ouvi Harry resmungando baixinho, e perguntou a esposa se já tinha contado a filha sobre a minha “condição”. Ela protestou que não, que ainda não era hora. Nathalie, que estava à parte na discussão, se esgueirou até chegar perto de mim. Ela puxou de leve a minha bermuda e apontou a sala de estar com o dedão, falando para eu seguir ela. Eu não estava muito afim de ficar vendo Harry e Victoria discutindo sobre quando é a hora certa, então decidi seguir a menina.
Ao chegar na sala, vi que Nathalie já estava sentada num sofá de três lugares, bem no meio. Fui me apoiando nas muletas até chegar ao sofá, me sentei ao lado menininha, e ela me lançou um olhar inquisitivo. – Droga droga droga droga. Tomara que ela não seja igual à Dawn – supliquei em meus pensamentos.
– Com ou sem leite? – Nathalie tinha um ar intimidador.
– O q-quê? – gaguejei. Ela estava começando a parecer vagamente com Dawn.
– Os biscoitos – sua voz assumiu um tom que contrastava com o olhar agressivo. Agora eu rezava para ela não enfiar uma faca na minha mão, caso eu gaguejasse de novo – Com ou sem leite? – o olhar se intensificou.
– L-leite – merda. Dane-se a minha mão, agora eu tinha receio pela minha cueca que deveria estar marrom e pesada a essa altura.
– Muito bem – Nathalie se afastou. – Vou buscar. Que bom que você voltou – ela fala enquanto se levantava do sofá.
Achava que era só impressão minha, mas Nathalie se parecia assustadoramente com Dawn com uma mistura de Magneto dos X-men no meio. Você deve estar se perguntando: como ele sabe o que são os x-men? No tempo em que estive no hospital tive que reaprender a ler, e como ponto de partida, comecei por quadrinhos, então foi relativamente fácil para mim. Eu já sabia ler, só tinha que tentar lembrar de como fazer isso. Ainda tenho certa dificuldade, mas todo mês eu ainda ganho um livro para eu praticar. Isso é algo que aprecio bastante.
Quando Nathalie voltou com uma bandeja de biscoitos e um copo de leite, eu estava meio desligado do mundo, pensando em como Dawn estaria no hospital naquele momento, talvez estivesse batendo papo com Jerry, o contador de historias, ou quem sabe, xingando a enfermeira Betty e como seus cabelos loiros lembravam-na titica de galinha. É, somente Dawn Hansen poderia fazer esse tipo de comparação.
Senti Nathalie puxando a barra da minha camiseta preta, e me virei para olhá-la. Ela apontou os biscoitos, e acenou para mim pegá-los. Me encurvei, peguei um biscoito e pus na boca. – Deus, isso é muito melhor que a comida do hospital! – pensei.
– O que aconteceu com você? – Nathalie me encarava com um olhar curioso – O que o pai e a mãe disseram... era verdade? Você não lembra de nada?
Eu meneei com a cabeça, com a boca cheia de biscoito moído e leite.
– Nem de mim?
– Não. Desculpa. Eu queria poder me lembrar de você – respondi engolindo o biscoito.
– Ah, tudo bem – ela falava isso, mas dava pra ver que não estava nada bem. – Mas você vai lembrar? – ela se permitiu um pouco de esperança.
– Talvez – não queria torturar Nathalie, a fazedora de biscoitos fodasticos.
– Queria que Harriet estivesse aqui também... – Nathalie se lamentou.
Espera... Nathalie conhecia Harriet? Então ela era real, e não merda da minha cabeça. Aquilo me deu certa esperança, sabe? Saber que alguém mais alguém me ajudaria. Mas por quê Harriet não tinha ido me visitar no hospital? Talvez a minha paranóia estivesse certa, e eu fosse um idiota que ninguém se importasse.
– Onde ta essa tal de... – eu fingi não lembrar o nome dela, estalando os dedos. Seria estranho para Nathalie eu lembrar de uma garota, mas não da própria irmã – Harriet? Você sabe?
Ela balançou a cabeça.
– Disseram que ela ta viajando.
– Tudo bem – me encostei na cabeceira do sofá. – Acho que eu vou dormir, eu to muito cansado. Amanhã a gente conversa mais, tudo bem?
Ela apenas assentiu com a cabeça. Acho que esse costume é de família.
Subir as escadas era um trabalho difícil. Duas muletas de cada vez, e depois a perna. Eram dois lances de escada. Achar o meu suposto quarto, foi fácil. Ele tinha paredes azuis escuro, com vários pôsteres de filmes. A minha cama estava desarrumada, talvez do jeito que eu tinha deixado antes de perder a memória, e um computador pegando poeira num canto do quarto. Pus as muletas encostadas no criado mudo no lado da minha cama e me joguei na cama. Pegar no sono foi fácil.
Era o segundo sonho que eu tivera desde que acordei no hospital. Já estava começando a me acostumar com isso, a começar a me lembrar sozinho sem ajuda. Mas era muito lento, eram apenas pedaços, nada que eu pudesse escolher. Minha mente seria um péssimo toca discos.
O cheiro fraco de giz no ar era característico, assim como o cheiro da borracha de... balões? Abri os meus olhos e me vi no meio de um corredor de escola tumultuado, com gente andando com pressa, segurando coisas de festa, dois caras levando um arco e outras coisas assim. Mais a frente, dava pra ouvir alguém gritando ordens para deixar tal coisa em tal lugar. Avancei um pouco para ver quem era, e de certa forma, não me surpreendi com quem achei. Harriet segurava uma prancheta transparente e escrevia nela com ferocidade. Ela começou a observar em volta, e quando me viu, começou a caminhar em minha direção. Tentei recuar, mas eu esbarrei numa garota um pouco mais baixa que eu.
– Aí está você! – o rosto de Harriet agora não era mais um borrão, era tão nítido quanto água poderia ser. Ela tinha o rosto um pouco comprido, olhos azuis esverdeados, um queixo fino e lábios pequenos. – Maddy já te falou que horas a comida vai chegar?
Como não sabia o que estava acontecendo, decidi dançar conforme a música. Eu meneei com a cabeça.
– Mas que merda, já era pra eles terem chegado! – ela puxou um celular do bolso direito e digitou um número de telefone furiosamente.
Enquanto Harriet descarregava o inferno sobre a pessoa do outro lado da linha, observei o lugar a minha volta. A escola iria dar uma festa, isso era óbvio, até pra mim que não sabia direito o que era uma festa. O pessoal não estava com cara de satisfeito, e fuzilavam Harriet com toda a artilharia que tinham.
– Ei! Fica comigo – Harriet sacudia o meu ombro.
– O q-quê? – Fica comigo? Em que raio de sentido deveria tomar aquilo?
– Vem, me ajuda com isso – ela pedia enquanto se preparava para levantar um banco grande de madeira. Me agachei um pouco e ajudei ela a levar o banco pro pátio.
Percebi que os balões eram vermelhos e tinha o formato de corações. Aquilo me confundiu um pouco.
– A festa é do que? – perguntei.
– Dia dos namorados, dã! – ela respondeu. Eu apenas assenti, sem nem mesmo saber o que era aquilo. – Você vai com alguém?
Dei de ombros.
– Não! Eu tô ralando pra fazer uma festa, e você vai aparecer sem ninguém? – ela protestou.
– Mas e você? Vai com quem?
– Hm – Harriet olhou para baixo, pensativa. – Ah! Vai se ferrar! Não preciso te responder.
Apenas dei de ombros.
Ela deu uma olhada rápida na folha na prancheta, e voltou a colocá-la debaixo do braço. Harriet me deu uma olhadela, e acenou com a cabeça para segui-la.
– Como sua irmã está? – ela perguntou quando consegui ficar ao lado dela.
– Bem, eu acho.
– Você acha? – Harriet me fitou com olhos bem abertos – É por isso que você não tem ninguém pra ir com você no baile – ela gargalhou.
– E qual a sua desculpa? Você também não tem ninguém pra ir com você.
D – Ah, sei lá. O Mark já se prontificou para me acompanhar – ela levou dois dedos para os cabelos e pôs alguns atrás da orelha. – Mas, sei lá... o que acha de irmos juntos, mas só como amigos. Ta tudo bem pra você?
– Acho que sim – Harriet franziu as sobrancelhas. – Sim, tudo bem. Mas o Mark não vai ficar ressentido?
– Não, acho que não – ela olhou para o chão. – Eu explico que o meu melhor amigo não pode ir sozinho numa festa! – Harriet me deu um soco fraco no ombro.
Fiquei parado, apenas vendo Harriet sumir no meio da multidão, dando ordens para um grupo de alunos asiáticos. Deus, se meus amigos são assim, o que viria a seguir?
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