If i remember
8 A moment of silence
Não importa o quanto você queira encontrar alguém, sem o endereço dela, não vai achá-la nunca.
Eu estava obstinado a encontrar Haley, mas eu não tinha o endereço dela. Isso me deixou completamente para baixo. Informações. Era isso que ela tinha. Informações da minha vida para ser mais exato. Mas naquele momento, eu teria que esperar. Perguntei para Harry e Victoria se eles não teriam o endereço ou pelo menos o telefone dela, dado que ela era irmã de Harriet. Eles se entreolharam, e disseram que não. Decepções atrás de decepções.
Tentava pegar no sono, quando Harry bateu na minha porta.
– Posso entrar? – ele falou.
– Pode – respondi.
Ele entrou e puxou a cadeira que estava junto ao computador. Aprendi bem rápido que quando alguém faz isso, nas palavras de Dawn Hansen, é porque deu merda.
Harry encarou meus olhos e entrelaçou os dedos.
– Vamos abrir logo o jogo — ele desabafou. – Nós conhecemos Haley O'Brien. Ela era uma amiga sua. Antes do que aconteceu com você, eu digo. Depois que você perdeu a memória ela não quis ir visitar você. Não sabemos porquê, ela apenas disse que tinha que pensar e resolver algumas coisas.
– Se ela era minha amiga, por que não temos o número da casa dela? – perguntei.
– Você não gostava de telefones. Tentamos te dar um celular, mas você o recusou e ameaçou fazer greve de fome caso insistíssemos – Harry se ajeitou na cadeira.
O quê que eu era, meu Deus? Pensei.
– Mas por sorte, você tem o número de um amigo.
– Quem?! – Exclamei levantando da cama.
– Mark Mirthens – Harry mostrou um pedaço de papel que estava entre os dedos.
Sem pestanejar, arranquei o papel de Harry, e li o número da casa dele e o endereço. Não era muito longe de casa. Olhei para a janela, e o sol ainda brilhava forte.
– Talvez ele tenha o número da casa de Haley – Harry agora estava encostado no batente da porta — Volte antes das seis. Sua mãe e a Nat vão fazer lasanha para o jantar – e ele saiu pelo corredor.
Não esperei mais nenhum minuto. Desci as escadas correndo quase caindo, mas eu não estava me importando muito com isso. Um pedaço da minha vida estava a uma ligação de distância.
Tirei o telefone da base e comecei a digitar os números numa velocidade quase inumana. Quando terminei apertei o botão para ligar. O som da espera era irritante. Eu estava para desligar e ir logo de uma vez na casa de Mark quando alguém atendeu.
– Alô? – falaram do outro lado da linha.
– A-alô, Mark? – gaguejei um pouco.
– Esse é meu nome até onde eu sei.
– Oi, é o Evan que ta falando. Evan Rowe.
Dava pra ouvir a respiração dele do outro lado do telefone. Demorou um momento para ele falar.
– Ah! Tudo bem cara? – sua voz era um tanto fina para um cara.
– Sim, tudo bem – respondi.
– Fiquei sabendo do que aconteceu com você. Foi mal não ter ido te visitar no hospital, é que eu tive que resolver algumas coisas – parecia que todo mundo tinha alguma coisa pra fazer nesse meio tempo.
– Tá tudo bem. Escuta, tem como eu ir ai na sua casa? Pra gente conversar?
Outro momento de silêncio.
– Beleza Evan, pode vir sim. Trás um controle do seu Xbox pra gente jogar aqui. Tudo bem?
– Tudo bem. Até mais.
– Até mais – e ele desligou.
Pus o telefone de volta na base. E me sentei no sofá. O que diabos era um Xbox?
Com uma sacola plástica na mão, bati na porta de Mark Mirthens. Ele fugia completamente do que eu pensava ser ele. Mark tinha o porte de um lenhador, assim como a camisa de flanela. Tanto seu cabelo e sua barba rala eram um ruivo natural que mais parecia ser a cor de ferrugem. Olhos azuis pequenos apenas acentuavam o ar de lenhador dele.
– Você trouxe o controle – sua voz com certeza não contrastava com sua aparência. – Entra, tem comida ali na cozinha.
Eu não estava com fome, nem mesmo olhei para a cozinha, estava focado demais para isso. Fui direto para a sala de estar. Pus a sacola de lado e entrelacei os dedos como Harry fazia. Já estava começando a pegar os costumes dele como peguei alguns de Dawn. Mark Mirthens deve ter percebido que eu queria conversar com ele seriamente, pois ele não emitiu nenhum som, e se sentou do meu lado. Ele apertou o pulso e apertou os lábios. Eu olhei para ele. Sua voz não condizia com sua aparência, de jeito nenhum.
– Acho que você já sabe o que eu quero perguntar – eu falei.
– Devo ter uma idéia. Me desculpa não ter ido ao hospital te visitar.
– O que aconteceu?
– Depois do seu acidente, as coisas meio que se complicaram – Mark apertou os olhos e suspirou.
– Acho que tudo bem. Tive companhia lá no hospital. Não foi de todo ruim. Exceto a parte de não poder lembrar nada da minha vida. – Se eu fosse envolver ele na minha caçada de memórias, eu tinha que explicar pra ele da minha condição.
Mark me fitou com cara de quem não entendeu e inclinou a cabeça pro lado. Ele me perguntou o que estava acontecendo e eu expliquei. Quando eu terminei, ele se esparramou no sofá com a mão na testa. Após isso, ele não perguntou mais nada sobre a minha memória. Acho que era muito para ele entender. Eu ainda queria perguntar para ele sobre Haley e Harriet O’Brien, mas decidi deixar isso para depois.
“Raciocínio de piloto de aviões, reflexos de gato morto.” É isso o que dizem sobre gente que joga videogames. Era complicado fazer olhos e dedos trabalharem juntos numa rápida sucessão de movimentos, mas peguei a manha bem rápido. Aprendi a jogar Call of Duty mais rápido do que os outros, mas quem não aprenderia rápido os controles daquele jogo, o objetivo maior era apenas matar, curto e grosso, mas é isso aí. Terminávamos a décima quarta partida quando minha tão aguardada pergunta apenas saltou dos meus lábios, sem mais nem menos. Foi nesse exato momento que Mark parou de jogar. Ele não esboçou emoção, apenas levantou do sofá e desligou o Xbox.
– Por que você quer saber de Haley? – Mark perguntou enquanto guardava o controle do videogame. A hora de jogar acabara. Era hora da verdade.
– Acho que ela pode me ajudar com a minha memória. Mal não pode fazer – respondi.
– E você já se perguntou se ela vai querer te ajudar a lembrar? Talvez haja alguma coisa que ela não quer que você lembre.
Normalmente eu responderia, mas decidi ficar de boca fechada. Sinceramente, eu andava pensando somente em mim mesmo e meus problemas, nunca prestava muito atenção nas pessoas ao meu redor. Espero que elas me perdoem por isso.
– Acho que você ta certo. Vou deixar vocês em paz, e apenas continuar vivendo – eu falei já caminhando para a entrada.
Eu ouvia apenas meus passos quando Mark deu um berro.
– Ah, ta! Eu sei que vou me arrepender disso, mas aqui – ele disse escrevendo alguma coisa num papel. – Esse é o número e o endereço de Haley O’Brien.
Ele esticou a mão com o papel. Eu estava quase alcançando quando ele levantou a mão.
– Pensa muito bem antes de fazer qualquer coisa – seus olhos azuis eram sérios. – A família e principalmente ela ta passando por uma pedreira em casa. Então se você for, seja gentil. – ele meu deu o papel.
Eu já estava na varanda quando fui me despedir. Por alguma razão, quis me despedir do mesmo jeito que Harriet fazia.
– Até mais. Que a Força esteja sempre com você – me despedi.
Eu mal havia terminado a sentença, quando de supetão Mark apertou o meu pescoço com as duas mãos, me levantando do chão. Seu rosto era puro ódio.
– Nunca mais diga isso Rowe, ou eu te mato. – ele soltou meu pescoço, e bateu a porta.
O que diabos foi aquilo?
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