If We Die Young
2 Capítulo II — In The End
Notas iniciais
Com o destino em mente, a ama prosseguia em seu tardio passo nos longos corredores do castelo; não sabia se bom seria caso fosse confidenciar o que o príncipe anteriormente lhe disse. Tinha medo de que falar algo assim ao monarca traria algum prejuízo ao seu loirinho tão querido.
Ao mesmo tempo, sentia que se não o contasse, estaria traindo a confiança do rei e ao objetivo do seu trabalho. Não sabia o que deveria fazer em uma situação, portanto, durante seu caminho, apenas ponderava a respeito disso para tomar uma decisão justa.
De tão concentrada que estava a serva, não tinha sequer notado que chegara no local, e terminou pateticamente batendo a cabeça na superfície dura da porta e caindo no piso. Antes de perceber, a maçaneta da mesma moveu-se e abriu a porta.
—Em que eu posso ajudar...! Senhorita Michelle...? —falou o velho mordomo, desconcertado com a repentina aparição da secretária caída frente à porta. —Oh, permita-me ajudar-la, senhorita. Segure minha mão, por gentileza.
A ama piscou um par de vezes antes de acordar para a vida e notar na pose vergonhosa que se encontrava; conseguiu até ver pela brecha, o monarca inclinando a cabeça para ver melhor a cena com um semblante, do tipo “What the heck?! O que foi que perdi?” na cara barbuda e anciã dele.
Michelle, sorrindo nervosamente, somente percebeu que o servo estendia a mão para ela depois de alguns minutos constrangedores a se matar mentalmente. Aceitou a ajuda sem olhar nos olhos dele ou do monarca, murmurando um “obrigada” tímido e baixo. O servo fitou-a, um pouco preocupado, mas logo maneou a cabeça e a acompanhou, entrando novamente na sala de antes.
Mal a morena havia entrado pela porta, a princesa que aguardava a presença do príncipe se levantou rapidamente da poltrona e foi em direção a ela.
—E então, ama Michelle?! —indagou a bela garota, com uma ansiedade exposta em seus olhos azuis como o céu. “Lembram-me bastante aos de Alfred...”
—Hn... Do que se refere, Vossa Alteza Real? Eu não estou compreendendo... —franziu as sobrancelhas finas, dando um sorriso nervoso e coçando a nuca ligeiramente.
—Refiro-me ao príncipe Alfred! E-Ele está tardando muito... —apertou delicadamente os dedos cobertos por uma luva, e mordeu o lábio, numa tentativa de acalmar-se. — Por que não veio me conhecer ainda...? Aconteceu algo grave com ele?
—Ah.
Graças a isso, “o cartão de memória” da cabeça dela voltou a funcionar e recordou o motivo dela estar ali agora— ia contar ao rei que o seu filho não casaria com nenhum a mulher que sequer tinha conhecido três dias só por causa do pai. Na verdade, ainda estava em dúvidas se deveria contar realmente, mas já que estava aqui...
Voltando para a situação atual, tinha que encarar outro problema. A morena prosseguia encarando-a, à espera de uma resposta decente que explicasse a demora. Se demorasse mais, ela provavelmente arrancaria as luvas, jogaria estas em qualquer canto e começaria a roer a unha ali mesmo, do jeito que estava ansiosa.
A ama, indecisa de mais para pensar em algo, vagueou com o olhar para todos os cantos do cômodo, menos para a princesa, até parar justamente onde o rei e o servo estavam parados.
O rei franzia o rosto a cada minuto enquanto procurava alguma resposta no rosto dela; e em um pedido de socorro mental, fitou-o de volta e logo retornou a olhar a jovem, para mais uma vez mirar o mais velho, tratando de enviar uma mensagem mental para ele.
Depois de uns dois minutos assim, o monarca suspirou pesadamente, captando por fim a mensagem.
—Então, senhorita Lopez... —limpou a garganta, alto de mais do que o usual, chamando a atenção da princesa. —Meu filho geralmente é tímido e, provavelmente, está nervoso com a possibilidade de conhecer uma mulher tão bela como a senhorita, já que não vê muitas mulheres, além das servas...
—Oh... É por isso...?
A princesa ficara quieta por uns instantes, ponderando mais a respeito disso e avaliando-a. Arrancou o fôlego da serva e do monarca, que ficavam cada vez ansiosos, esperando que caísse nessa. No fim das contas, o rosto da senhorita acabou sendo coberto por um adorável rubor e um sorriso suave.
—Oh...O-Oh!! Então é p-por isso? —cobria o risinho envergonhado dela, juntamente com um alívio escapando. —O príncipe Alfred é tímido? Isso significa que está interessado em me conhecer?!
—Hu, hu... Com toda a certeeeza... —falou o rei mais uma vez, rindo e fingindo um tranquilidade inexistente. —E não sabe o quanto! Entretanto, como dito anteriormente, está envergonhado e ainda está se arrumando na sua habitação. Ele pode demorar bastante e...
—Não se preocupe! Agora que sei disso, sou capaz de esperar o tempo que for preciso para conhecê-lo. —apressou-se a loira, com um sorriso bobo na face e sentando-se na poltrona confortável.
—O que é isso, s... Senhorita Lopez? —por pouco o rei gaguejava e perdia sua postura perante ela, temendo que descobrisse a triste verdade. —Entendo que queira ser tão atenciosa com o seu futuro noivo, contudo, não precisa se forçar a esperar mais. Que tal... Que tal se o meu criado te levasse a um passeio pelos arredores do nosso jardim? Há uma variedade de flores, e acredito que ficaria tão encantada tanto como eu.
—Bom... Se Vossa Majestade insiste, creio que não há nenhum mal em dar uma olhada aos arredores do teu castelo, enquanto o príncipe Alfred não chega...
—Isso, isso. Não há mal algum. —assentiu rapidamente, a fim de acabar logo com a pressão. —James, mostre o jardim do palácio para esta princesa.
—Como desejar, Vossa Majestade. —disse o criado, indo prontamente ao lado da jovem e ajudando-a a levantar-se da poltrona.
Sem comentar ou indagar mais nada, os dois foram em direção à grande porta —obviamente, o servo fez uma breve reverência antes de acompanhar a jovem porta afora— e tudo ficara em um silêncio incômodo entre o rei e Michelle.
—Oh! Hn... Vida longa ao rei! —fez a reverência que tinha se esquecido de fazer antes de entrar, constrangida, e ficou quieta logo depois.
O silêncio prosseguiu por minutos inexatos, antes de o monarca quebrá-lo com um sonoro suspiro, provavelmente de cansaço ou de stress do dia a dia.
—E então...? Por que o meu filho mimado não está aqui conosco? —antes mesmo de a criada pensar em como dizer algo a respeito, o mesmo respondeu a sua própria pergunta, com um sorriso irônico e esgotado. —Ah, permita-me adivinhar. Eu tenho a absoluta certeza, do jeito que conheço o meu filho, de que não tem é nada a respeito de uma baboseira do tipo: “não-vou-me-casar-com -uma- garota-que-nunca- vi-na-vida-e-não-me-importo-se-um-koala-do-mal-assuma-trono-etc-etc”. E obviamente está louco para virar um rei, então no mínimo deve estar tendo uns probleminhas no quarto de banho, não é?
A morena pigarreou um pouco agoniada. Não tinha percebido o tom de sarcasmo usado na voz dele, e acabou concluindo que o monarca acreditava nisso mesmo. Isso a fez ficar em mais um combate mental para pensar se deveria contar ou não, até que se decidiu de vez: iria contar, pois seria o melhor a fazer e, até, pelo bem do futuro do príncipe.
—M-Majestade, eu——!
—Estava sendo irônico. —disse o rei, notando a confusão da ama. Ela soltou um “oh” envergonhado por não ter entendido antes e ter levado tão a sério, para então se calar e abaixar o rosto; mais um suspiro melancólico escapou dos lábios dele e pôs-se a massagear as têmporas. —Meu filho se recusou a vir segundo o que eu compreendi da sua expressão agora a pouco, estou correto?
A ama comprimiu os lábios e limitou-se a assentir, engolindo em seco; não queria ver a expressão que ele fazia, entretanto, não evitou imaginar a tristeza e cansaço que devia ter apoderado no velho rosto.
Todavia relutante, considerou que aquele era o momento perfeito para lhe repassar o que Alfred dissera antes. Tentando não encontrar os olhar do rei, falou tudo claramente; o soberano escutava tudo com atenção e calado.
Quando terminara seu relato, e apenas nesse momento, a morena alçou os olhos e encontrou às íris cerúleas, nas quais não expressavam nenhuma emoção. Provavelmente, já vira tanto caos na longa vida dele que isso seria o mesmo que parar uma briga de criancinhas.
O problema era que a criancinha na qual se tratava era teimosa de mais como para escutar um adulto.
O silêncio permaneceu no cômodo por mais uns instantes, até que o soberano apertou as mãos nervosamente e fechou os olhos.
—Eu estou morrendo, Michelle.
A criada piscou e abriu a boca, porém nenhum som saiu dela, tornando a fechá-la e novamente abrindo, igual a um peixe. Não sabia o que dizer. Estava incrédula.
—C-Como assim...? —disse, finalmente —I-Isso é mais uma brincadeira, ou——
—Eu me comuniquei com o Red Joker há alguns dias. —interrompeu o monarca, notando em como iria acabar isso— Sei que ele não é um aliado nosso, não precisa nem me dizer que já estou ciente disso, contudo, eu estava tão aflito e ansioso com o que poderia vir a acontecer com o reino... Se o meu filho iria pôr um pouquinho que seja de juízo na cabeça...
Permitam-me explicar o que é um Joker, queridos leitores.
Existem dois Jokers — pelo menos, que eu saiba até então— que, cada um, serve dois Reinos: um é o Red e o outro é o Black.
O Red Joker é aliado do Reino Diamond e Hearts; ele possui a capacidade de ver o futuro de qualquer um, mas quando enxerga um futuro totalmente perturbador e não pode fazer nada para mudar-lo, costuma a ficar paranóico.
O Black Joker, mais novo que o anterior, serve ao reino Spades e ao de Clubs; este possui a capacidade de ver o passado de todos e tudo. Ele não é muito procurado pelos reis e pessoas, porém não deixa de ser importante.
Ambos, também, são responsáveis pela criação dos artefatos mágicos que cada Rei, Rainha e Jack carregavam em mãos. Acreditam algumas pessoas que eles mantêm a ordem nos quatro reinos sem serem vistos. Ninguém sabe ao certo.
—Enfim... —prosseguiu ele, depois de uma longa pausa. —Tive uma conversa com esse estranho sujeito, e lembro-me disso como se fosse ontem...
“Ora, não imaginava que algum dia a Vossa Majestade, sempre tão orgulhoso e seguro de si, fosse implorar de joelhos por uma mera previsão minha... Kesesese~!”
“Cale-se, Joker” Rosnou o monarca, com a boca amargando cada minuto que olhava para aquela figura na sua frente “Caso contrário, chamarei meus guardas. Estou começando a me arrepender de ter-te chamado...”
“Você não faria isso.”
Sua risada irritante tinha parado. O rei estranhou aquela seriedade que, embora não o conhecesse muito bem, poderia apostar que não era típico dele. Estavam distantes um do outro, às sós— e quando digo às sós, quero dizer sem nenhum guarda por perto— porém do mesmo jeito poderiam se visualizar.
O Red Joker tinha uma aparência muito única ( pelo menos para as pessoas dessa Era) e moderna: um casaco negro de couro com uma figura vermelha de demônio por trás; uma camiseta —também vermelha— e uma calça resinada negra.
Calçado por coturnos pretos, um cetro e uma cauda de diabo. Além de chifres vermelhos e uma máscara que cobria seu rosto todo, impedindo o monarca de ver a face do estranho e intrigando-o.
Original, não?
O mesmo descrito acima começou a dar passos rápidos em direção ao soberano, e num veloz movimento, segurou o queixo dele e aproximou os rostos.
“Sei que não fará isso porque sua curiosidade não te permitiria fazer. A curiosidade humana é insaciável, e duvido que vá abdicar de uma resposta para uma delas que fica martelando na sua mente. Além disso, seus olhos estão por si próprios te denunciando.” Sussurrou ele, com um tom brincalhão.
O rei, imediatamente que lhe dissera isso, retirou a mão dele do seu queixo e empurrou-o bruscamente, sem se importar se fosse machucá-lo ou algo parecido. O Joker apenas riu com a reação do outro escandalosamente, divertindo-se daquela situação.
Perdido, o soberano não sabia o que falar ou ao menos, o que pensar a respeito do homem, mas de uma coisa sabia: estava amedrontado com o poder que esse simples rapaz exercia. Obviamente, seu orgulho nunca o admitiria em voz alta.
“Brincadeiras a parte...” O albino quebrou o silêncio, todavia falando com o tom jovial e despreocupado dele “O que queres saber sobre o teu futuro? Algo a respeito sobre o teu reino? Se a colheita será produtiva a essa época? Se será capaz de administrar tudo por mais tempo? Se haverá uma batalha interna daqui para frente? Se o reino Clubs irá planejar destruição? Ou... Quando dará seu último suspiro?”
Seus lábios se curvaram em um sorriso silencioso ao pronunciar a última, mirando a reação do ancião por trás da sua máscara; o mais velho piscou e engoliu em seco. “Algo está errado... O senhor não é um aliado do meu país... E embora tenha ‘te convocado’ para vir e fazer essa feitiçaria tua...Como posso ter certeza que não espalhará o que previu para meus inimigos, ou quem sabe...!!”
“Hey, não se preocupe quanto a isso. Não estou a fim de uma guerra que acabe com a minha paz por enquanto, então, mesmo sendo aliado dos outros Reinos, prefiro não contar nada. Principalmente, se a previsão for fofocada até o Reino Clubs... Ugh! O rei de lá é assustador...!!” explicou. Sentiu seu corpo estremecer ao recordar o terrível Ivan daquele lugar, e o sentimento não foi diferente ao monarca de Spades. Afinal, quem não temia aquele monstruoso soberano tão frio e calculista?
Na verdade...
[Tinha uma pessoa que não o temia...]
Mas isso é outra história que mais adiante saberão.
“Nesse caso, tudo bem.” Disse o mais velho, embora na sua voz não demonstrasse tanta certeza do que falava. Ajeitou-se no grande trono e tornou a suspirar “Eu tenho tido umas indagações que, realmente, não saíam da minha cabeça. Indagações nas quais, como você mencionou anteriormente, tinham a ver com o Reino, com o meu futuro e... A de Alfred.”
“Alfred? Queres dizer o assassino procurado do país de Diamonds? Wow, não sabia que eram amigos... Ou conhecidos... Eu ouvi fofocas de que encontraram um corpo sem vida no lago de lá sem marcas de agressão, e há a suspeita de que tenha sido ele quem matou a pessoa.” Comentou o Joker, descontraído “Se quiseres uma previsão rapidinha sobre o futuro da criatura, apenas digo que vai morrer daqui a 7 dias.”
“O qu—— Não!! Estou falando do meu filho, seu biruta!!!” falou o mais velho, batendo a mão na testa “Além disso, o nome desse assassino, segundo o que meus súditos disseram, é Pototo. POTOTO! PO-TO-TO!! Como alguém pode confundir esse nome com outro que não tem nada a ver, meu Deus?!”
O Joker segurou a gargalhada com muito esforço, como se sua vida dependesse, apenas por um pouco de respeito pelo rei; caso contrário, já estaria rolando no chão de tanto mangar dele, e se duvidasse, o rapaz rolaria até o quinto dos infernos e ainda estaria rindo.
“C-Certo, perdoe-me o engano. Hn, somente disso querer s-saber?” disse o Joker, todavia segurando o riso; o mais velho assentiu silenciosamente— seu rosto velho estava levemente franzido pelo ocorrido anteriormente — e dessa forma, o outro se aproximou do trono, ficando de frente ao seu cliente “Já que é assim, fique quieto e o resto, eu faço... Por gentileza.”
O soberano ficou receoso em deixar seu futuro nas mãos daquele estranho, mas como queria saber demais sobre o que viria a ocorrer, ficou quieto. O rapaz—que até então não tinha mostrado seu rosto— tirou finalmente a sua máscara, mostrando um rosto jovial e, sinceramente, bonito.
O monarca nunca acreditaria que o albino tinha 389 anos, se alguém lhe falasse alguma vez.
No instante posterior, as mãos do albino tocaram a face do mais velho e ajoelhou-se, para as íris rubis dele serem capazes de ver tudo e mais um pouco do homem. O seu olhar era intenso, mas tão intenso que parecia que ia sugar a alma do rei.
Quando o silêncio se instalou entre eles, o Joker se sentiu cômodo para falar o que conseguia enxergar.
“Eu vejo... Conflitos internos não existirão por enquanto... Spades crescerá mais do que nos outros tempos... A economia também, e mais crianças nascerão... Não há, ainda, nenhuma guerra com outros Reinos...” murmurava, embora audível o suficiente para que o cliente fosse capaz de escutar. Sua voz não falhava.
“E quanto a mim...?” indagou, tragando a saliva inconscientemente.
Ao escutar a pergunta, as sobrancelhas do menor franziram e suas exóticas íris vermelhas escureceram, enquanto o coração do monarca palpitava com mais força.
Ansioso, os segundos pareceram milênios e quietude proposta não lhe agradava mais. Será que viu algo mau? Ou será apenas uma brincadeira de mau gosto dele?
Mas se o menor estivesse brincando com o rei...!
“Quanto o senhor...” começou o Joker, depois de uma longa pausa. Os olhos do soberano grudaram nele instantaneamente. “Perdoe-me, mas não vejo futuro em ti.”
E então, com essas palavras, parte do mundo dele desabou.
Isso significava que ele iria morrer hoje?Ou, talvez viesse falecer em poucos dias? O monarca, obviamente, sabia que um dia desapareceria e seu legado viraria lenda para Spades... Porém, não contava que tão cedo isso ocorreria...
Os olhos do albino fecharam-se, e franziu o cenho rapidamente, semelhando-se estar com dor de cabeça. Um efeito comum em Jokers depois de enxergar algo além do que ainda não foi escrito no destino, ou que há muito tempo existiu.
Ergueu-se de onde estava antes ajoelhado, voltando a mirar a tensa figura do rei. Suspirou silenciosamente.
“Eu irei morrer em breve?” questionou o mais velho. O rapaz assentiu, com um semblante sério. “E-Então... Do que virei a falecer?”
“Não sei. O que vi foi apenas de como morrerá, não do que.” Respondeu simplesmente. Os ombros do rei se encolheram e torceu ainda mais os lábios, em desgosto e aflição. Imediatamente, o albino rememorou de algo. “Por curiosidade... Vossa Majestade viajou recentemente ao Reino Hearts?”
O mais velho estranhou a pergunta, mas não deixou de respondê-la.
“Sim. Tive negócios a tratar com o Jack de lá. Por que a pergunta?”
“E...Hn...Está se sentindo bem esses dias?”
“Joker, quer ir direto ao ponto? O senhor é bizarro, porém essa conversa não está melhorando nada sobre o seu respeito.” Cortou o soberano, secamente.
“Ah, dane-se a formalidade!! A questão é que eu acho que o senhor contraiu a doença da epidemia que se alastra por lá, depois que me disse que visitou o reino.” E acrescentou logo depois “Além disso, o que vi não era um acidente, ou um homicídio, apenas um homem velho morrendo sem nenhum traço de sangue em seu corpo.”
O rei ficou com a garganta travada, parado na mesma posse e com a face pálida, como um giz de cera; após recuperar-se do choque, endireitou-se no seu trono começou a massagear as têmporas.
“É verdade... Tenho sentido dores, como se estivesse sendo rasgado ao meio... Pensei que era apenas produto do meu stress diário. Pelo visto estava equivocado.” Murmurou, mais para si do que para que o outro escutasse; comprimiu os lábios e sentiu o cansaço lhe invadir. “Bem, e quanto Alfred? Meu filho, tu sabes?”
O albino fitou-o demoradamente, para então seus lábios curvarem em um singelo sorriso. Volteou a cabeça e pôs novamente a máscara em sua face, ocultando-o mais uma vez.
“Claro, claro, depois do chilique que fizeste sobre a diferença entre —PUFFFT — Pototo e Alfred, como me esqueceria? Enfim, não tenho nada que dizer sobre o futuro dele. O incrível eu manda um beijo e boa sorte.~” Deu as costas sem mais nem menos, e então começou a caminhar em direção à grande porta. O monarca se levantou do trono.
“ESPERA!! O QUE QUIS DIZER COM ISSO?? NÃO ESTÁS PERMITIDO A SAIR ATÉ ME DISSERES!!! ”Vociferou o mais velho zangado.
Red Joker apenas olhou-o pelo canto do olho, a dois passos de estar perto da saída. Vendo como o outro o mirava cheio de expectativa, julgou não ser correto dar no pé naquele momento e rodou os calcanhares.
“Entenda o seguinte: Eu posso, sim, ver o futuro. Mas não posso fazê-lo de pura vontade e em qualquer momento; preciso da pessoa desejada para tal aqui. Não posso prever o futuro de um pobre de outro reino usando o futuro de uma costureira daqui, posso? Cada um possui o seu próprio destino a ser traçado. E não importa quão próximo do seu filho o senhor seja, no fim, seus caminhos tomarão rumos diferentes. Entende?” Confidenciou o Joker.
“E-Entendo...” murmurou o soberano, cabisbaixo e abobalhado. Logo, ergueu a cabeça para ver pela última vez a figura com a máscara sorridente. “Ao menos, poder-me-ia dizer quando morrerei...?”
“Claro. Será...”
Os “Tik taks” do relógio ressoavam inquietamente no cômodo, enquanto a brisa gélida passava por ali; o mais velho tinha terminado seu relato e agora se ocupava a mirar para a enorme janela ao seu lado.
—Então... Os sintomas que tens são... —murmurou Michelle, sem saber como agir diante de toda a informação e se atrapalhando com as palavras.
—Sim... E ao parecer não há salvação para mim... —sorriu amargamente, com o olhar distante e melancólico.
—M ...Mas! Mas ele pode estar te enganando, fazendo uma brincadeira de mau gosto contigo, talvez...!
—Não. Ele não mentiu quanto ao que disse. —disse com a voz firme. A criada se arrepiou levemente, e olhou-o com um quê de confusão. —Sei disso porque quando olhei nos olhos rubis dele, não encontrei nenhum indício de mentira, apenas uma concentração intensa para realizar o seu trabalho. E como tu sabes, Michelle, tenho bastante habilidade em encontrar a mentira na palavra de alguém.
Não era uma conclusão sem bases que o rei tinha feito, e com os anos que Michelle tinha passado ao lado dele também não negavam essa afirmação. O monarca era muito dificilmente enganado por palavras aparentemente gentis, porém cuidadosamente ocultas e obscuras.
Talvez seja por essa capacidade que o Reino nunca sofresse por alguma escolha errada do rei; afinal, nunca se permitiu enganar pelos sorrisos falsos de pessoas corruptas que ofereciam propostas aparentemente “certas para o desenvolvimento do lugar”.
—E q-quanto seu f-f-filho...? —questionou a morena, quase num sussurro. Mesmo que fosse próxima do seu soberano, obviamente não podia deixar de temê-lo pelo poder que ele carrega em mãos. Imagine se ela falasse algo indevido? Além de receber um chute no traseiro, iria para a forca, seria jogada aos tubarões, e seus restos mortais seriam mandados para as cucuias (provavelmente, algo parecido com o exílio).
E não teria herói que a salvasse.
A não ser o que sua alma gêmea decida fazer uma super aparição na hora e praticamente se jogar no meio da multidão, esbofetando quem estivesse na frente, e então gritando coisas melosas a ponto dos guardas e o povo não aguentarem mais os berros e decidirem soltá-la para calar a boca do seu Romio.
E então viveriam felizes, em um lugar parecido com o Havaí, tomando água de coco e ela —COF COF com a fase terminal da barriga d'água COF COF COF — grávida. Dois meses depois se casavam, mais dois meses se divorciavam; e assim casavam de novo e viravam dois velhinhos corcundas que...
"Ok, viajei geral." pensou a criada, afastando esses pensamentos alheios e voltando a se focar na situação atual.
—Alfred... Bem... — articulou desconcertado, e após um longo tempo refletindo sobre, pousou calmamente seus profundos olhos azuis na figura da mulher. —Na atual situação que me encontro, tudo que eu posso fazer é rezar e esperar pelo que vir a frente no futuro do meu reino e no do meu filho. Não existe algo que possa fazer, além disso.
—Majestade...
—Por muitos anos eu estive preparando-o para um momento como este... Na verdade, sequer fui eu que o preparei, senão os profissionais que contratava para dar aulas que todo o futuro Rei necessita para governar com sabedoria. Todos esses anos, eu impus a minha vontade acima da dele, obrigando-o casar com qualquer princesa, obrigando-o a nunca sair do castelo, isolando-o... Embora tenha feito tudo que até hoje fiz pelo bem dele. Por amor. Agora chegou o momento de crescer; como irei morrer em breve, não poderei mais segurar meu filho pelas rédeas e guiá-lo sempre que se esquivar do caminho correto. Ele terá de aplicar tudo que aprendeu desde menor e assumir o trono, assumir a responsabilidade de seus atos e, desta forma, evoluir ainda mais. Agora, o meu filho é quem fará seu próprio futuro, não eu.
Depois do longo discurso, tomou um trago de ar e desviou, mais uma vez, seus olhos dos castanhos da serva e apoiou a cabeça em suas ásperas mãos. Sentia o cansaço lhe dominar mais a cada dia e seu corpo que sentia às vezes espasmos de dores, começou a ser frequente. Tal como o Joker lhe falou, o monarca não duraria muito tempo.
—E quanto o casamento de Alfred? —a morena franziu as sobrancelhas, surpresa pela resposta inesperada do seu soberano.
—Já te disse: não farei mais nada. Deixarei de forçá-lo a conhecer possíveis pretendentes; se ele recusa tanto a casar-se com alguma delas, que seja. O que posso fazer no estado na qual estou? Ah... Mas ele sabe que, para ser reconhecido como um rei nos quatro Reinos é obrigatório casar-se com alguma mulher e torná-la rainha. Se não o fizer, será pressionado pelo povo a fazê-lo, mesmo que não deseje isso. —disse calmamente, sentindo suas pálpebras pesarem um pouco.
A ama abriu a boca para perguntar algo, porém, estancou no mesmo instante e deixou de lado. Estava sinceramente, e com todas as palavras, estupefata com o fato de ver frente a si aquele rei que sempre fora rígido e decidido, agora, com uma aparência tão destruída e melancólica. Quanto tempo será que ele tinha para viver? Seria uma invasão de privacidade se perguntasse isso?
—A julgar pelo seu súbito silêncio, parece que é tudo, não? —perguntou o mais velho, suspirando em sua frase; encabulada, a criada assentiu rapidamente e tornou a apertar a barra do vestido. —Certo. Agora que me recordo... Aquela princesa está passeando todavia no nosso quintal... Michelle, poderia pedir para Alfred que ao menos vá cumprimentá-la? Ela parecia tão animada com a idéia de ver-lo que fiquei com pena...
—Oh! C-Claro! Como vossa Majestade desejar. —respondeu a serva prontamente. Justamente quando rodou os calcanhares e se preparou para sair do cômodo, o rei a interrompeu.
—Mais uma coisa, Michelle. —disse o rei. O semblante dele tinha assumido uma reação mais séria e ameaçadora. Michelle engoliu em seco inconscientemente. —O que conversamos aqui, morre aqui. Não quero fale uma letra sequer sobre esse assunto para meu filho, ou para qualquer pessoa de qualquer lugar. Fui claro?
Sabia que sua obrigação era ficar quieta e simplesmente aceitar as ordens do mais poderoso, mas a sua ingênua curiosidade e aflição não permitia realizar tais feitos. Por isso, acabou por questionar a ordem dele.
—Por quê?! Seu filho, ao menos, merece saber o que está prestes a ocorrer!! Principalmente, com o que acontecerá com seu pai!!! Precisa saber sobre isso antes que seja tarde de mais!! Embora Alfred faça birra e vós brigueis, ele te ama! E como achas que ele se sentiria ao ver seu pai morto, sabendo que poderia ter aproveitado o restante de tempo que tinham para descontrair e passar uns momentos em família?! —sem querer, ela acabou por aumentar o volume da sua voz enraivecida. — Ainda que doa, ele precisa saber disso; será muito melhor do que ele descubra mais tarde e então——
—Michelle. —cortou o monarca, com calma e suavizando sua expressão. A criada parou de reclamar e então sentiu seu coração ir para a boca, ao perceber a merda que tinha acabado de fazer. —Eu entendo toda essa sua aflição, e fico até enternecido pelo carinho que tens pelo meu pequeno. A questão é que não quero que tu ou qualquer pessoa contes para ele, porque planejo contar para Alfred eu mesmo. Eu. Acredito que seja melhor para ele compreender se eu falasse para ele, pois pode ser que interprete errado e em vez de ir para melhor, ir para pior. Entende?
Ah... Então era isso...
"Parabéns, Michelle. Acabou de entrar na lista dos maiores recordes como 'a- criada-que-mais-faz-burrada-na-frente-do-rei'! Siga assim, e terá um futuro brilhante e esplêndido sendo engraxate nas ruas!!" comentou ironicamente a consciência da serva.
—Ahah... —riu constrangida, incapaz de olhá-lo nos olhos. —E-Entendo... Queira me perdoar pela minha rudez com Vossa Majestade... Eu não presto...
—Deixe disso, claro que presta! —disse com gentileza, exibindo um fraco sorriso. —Todo mundo erra alguma vez... Ou duas... Ou três... De qualquer forma, não necessita se desculpar. Acredito que essa sua sinceridade e preocupação é o que me faz gostar bastante de ti.
A serva ficou estática, sem piscar, por alguns minutos até voltar a respirar. Ele tinha dito que gostava dela? O rei? Isso era alguma classe de sonho? Ela nunca tinha escutado essa classe palavras em toda a sua vida, então supostamente seria bizarro se as ouvisse agora e, estas, viessem de seu soberano.
Ela tornou a olhar, com timidez, à face do rei; ele continuava sorrindo gentilmente para a morena e seus olhos azuis não mostravam estar mentindo.
O rosto de Michelle de começou a esquentar, e quando percebeu, já estava parecendo um pimentão de tão vermelha de vergonha estava.
—E-E-Eu... Hn...Er... —ajeitou as mechas do cabelo, sem encontrar as palavras corretas e, embaraçada. Não suportando mais ficar constrangida, decidiu dar o fora dali. —Ah! T-Tenho q-que f-falar com Alfred s-sobre a princesa que está j-jardim! Oh, quase m-me e-e-e-esquecia!! Com v-vossa permissão...! —fez uma breve e rápida reverência, antes de quase bater a cara na porta e sair.
E desta forma, o mais velho se encontrou sozinho mais uma vez no seu cômodo. Sozinho.
Como sempre esteve desde que “ela” partiu.
Seu sorriso se desmanchou, e o que sobrou foi apenas tristeza — a tristeza que por tantos anos estivera dentro de si e sempre tratara de esconder com um semblante de um orgulho falso ou um sorriso.
Só que desta vez, ela viera com mais força, perfurando seu peito sem dó, nem piedade.
Provavelmente, seja outro sintoma da doença que adquiriu.
Sem pensar muito, levantou-se da poltrona e andou em direção para a grande janela; tocou a superfície com a ponta dos dedos — estava um pouco fria —e então, descansou a cabeça sobre ela.
“...Embora Alfred faça birra e vós brigueis, ele te ama!”
O mais velho riu amargamente.
—Como ele pode amar um pai que nunca o abraçou na vida, Michelle...? —murmurou para si com a voz embargada e dolorosa. —Ah... Sempre me pego pensando no quão péssimo pai fui... Gostaria de ter sido um pai mais presente, que pudesse brincar com sua criança, rir com ela, vê-la crescer...
Ele claramente podia escutar o som de gotas pingando no vidro da janela. Provavelmente estaria chovendo agora...
—Mas já é tarde. Quando menos percebi, o tempo escapou das minhas mãos e agora estou com dias contados. —mordeu o lábio inferior com um pouco de força, mas nada se comparava à dor latejante na sua cabeça. —Ah, Amélia... Ele seria capaz de me perdoar...?
Eu depositei minha confiança em você
Fui até onde eu pude ir
E para tudo isso
Há só uma coisa que você deveria saber
Eu tentei tanto e cheguei tão longe
Mas no fim, isso não tem mais importância
Eu tive de cair, perder tudo
Mas no fim isso não tem mais importância.
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