Notas iniciais
Olá pessoal Caps novo na area, desculpem a demora em postar

Aiolia viu o drama se desenrolar nos fundos da igreja com um misto de apreensão e revolta, até ele parecia culpado participando daquele circo! Quando o amigo chegou ao altar com Shina ele encarou Milo até que o advogado o olhasse, o que não aconteceu então Aiolia sentiu seu sangue ferver. Se Milo não tinha nem a hombridade de olhá-lo nos olhos para sustentar o erro fenomenal que acabara de cometer, ele não tinha nada o que fazer ali. Não se importou que o padre começasse os ritos para descer do altar e então caminhar para o fim da igreja onde estavam seu irmão e amigos.

— Porque simplesmente não vamos embora? – perguntou a ninguém em particular quando chegou próximo ao grupo. Mascherane apontou com o queixo para o ruivo na frente deles e então Aiolia emudeceu, olhando as costas retas de Camus ali que não tirava os olhos do altar e a rigidez dos ombros do francês podia ser vista mesmo com o terno. O leonino pensou que nunca tinha visto alguem tão forte na vida, que já tivesse enfrentado e sobrevivido a tanta coisa!

Foi se colocar ao lado do ruivo que não desviou o olhar até sentir o toque delicado em sua mão e os dedos firmes de Aiolia levantando os seus do aperto firme sobre o banco da igreja em que ele segurava. Seus olhos se desviaram do altar e se fixaram no olhar esmeraldino que o fitava com reverência.

— Ele não merece você. – disse Aiolia apertando sua mão – Quer ficar até o fim para saber se ele fará? Ele vai fazer, é covarde demais para mudar a vida de merda! Mas se você quer ficar até o fim, não deve ficar sozinho.

Um dos cantos da boca bonita do francês se inclinou em um meio sorriso e Aiolia sorriu com todos os dentes o que deixou Camus fascinado. E então se acomodaram ali até o final da cerimônia. Aiolos e Afrodite trocaram um olhar surpreso pela atitude do advogado, os outros se entreolharam aos risinhos, Mascherane não tinha dúvidas que ali estava começando alguma coisa. Shura olhou para Aiolia e Camus mais a frente, juntos com as mãos unidas e sorriu, gostando de saber que pelo menos um amigo o ruivo encontrou em Aiolia.

— Você se incomoda? – perguntou baixinho para Aiolos, indicando com o queixo mais à frente e o outro arqueólogo deu de ombros.

— Jamais! Se me incomodasse eu nem tinha ajudado Afrodite a trazê-lo de volta. Nem sabemos quase nada sobre ele, como acabou nessa vida. Ele é francês, pelo pouco que conseguimos descobrir veio para Grécia ainda criança e já se prostituía. Consegue imaginar um garoto estrangeiro que mal fala nossa língua tendo apenas o corpo como moeda de troca? – Aiolos fitou o irmão com carinho – Aiolia me disse que pensa no quanto Camus passou nessa vida, que admira a fibra do ruivo. Não me admira que sobreviveu ao rio dos mortos, palavras dele.

— Parece que Aiolia está conquistado. – Shura sorriu para Aiolos que assentiu sorrindo também. Esperava que o irmão fosse feliz, não queria pressionar Camus sobre nada porque sabia que o francês amava Milo e demoraria ainda para superá-lo. Mas torcia que ele permitisse Aiolia de se aproximar.

***

Voltaram todos para a casa de Afrodite quando os ritos acabaram e ninguém fez questão de cumprimentar os noivos. Camus ficou em silêncio o tempo todo e quando passou pelas portas da mansão dos Strauss foi direto para o quarto trocar de roupa.

— O que vai acontecer agora? – Aiolia perguntou olhando as escadas – Ninguém me disse que ele tinha acordado.

— Hoje foi tudo muito confuso e a última coisa que podíamos pensar era em você bichano, você não é o centro do universo! – Afrodite se jogou no sofá mais próximo – De qualquer forma culpe seu irmão, ele ficou responsável por avisar você.

— Eu te liguei várias vezes Aiolia, te mandei mensagens! Você nem foi no enterro da Eleonora. – Aiolos deu de ombros puxando Shura para sentar no outro sofá e assim todos começaram a se acomodar também – Nós devíamos levar Camus ao médico, não ao enterro em primeiro lugar. Depois ainda esse fiasco de casamento! Ele acabou de acordar de um coma, por deus!

— Ele está bem, podemos levá-lo para um check-up em breve de qualquer maneira. – Shura interveio – Agora ele vai precisar de apoio e um planejamento do que vai fazer da vida agora.

— Ele vai ficar aqui, comigo ora! E Ettore, nós vamos cuidar dele e ajudá-lo a cuidar de suas coisas... – Afrodite se interrompeu quando viu Camus descer de novo as escadas em um robe negro de cetim e uma cigarreira de prata nas mãos, ele provavelmente remexeu no closet e achou suas coisas. Strauss sempre deixava tudo arrumado e pronto para o ruivo, para quando ele acordasse a qualquer momento.

O francês sentou em uma poltrona vazia na sala e antes de olhar cada um dos presentes, acedeu um dos cigarros da delicada cigarreira em suas mãos.

— Podemos continuar a nossa conversa? Para as partes práticas.– Camus tragou o cigarro e se virou para Afrodite – Porque estou aqui?

— Achei que era o mínimo que podíamos fazer Camus, você foi ferido e vendido, deixado sozinho… Você salvou a minha vida! – Afrodite cerrou os punhos, olhando o francês de forma irritada – Agora você é nosso amigo, Camus!

— Desculpe, de verdade. É que não sou acostumado a isso, não imaginei que ia sair vivo daquele deserto, não foi surpresa a atitude de Kanon… Já encontrei homens piores. – Camus fitou um ponto aleatório na sala e depois tragou o cigarro, cruzando as longas pernas ao mesmo tempo e o movimento abriu o robe ainda mais revelando a pele pálida da coxa bem torneada e grossa. Não houve quem tirasse os olhos e se até o santo Aiolos não conseguiu desviar o olhar, Afrodite resolveu que não bateria em Ettore – Vocês são almas nobres, eu já te conhecia Afrodite e mesmo assim não imaginava que você fosse me ajudar, mesmo com a história do seu primo. Obrigado.

— Ah Camus, eu juro que pensei que o Milo ia repensar. – Afrodite parecia mortificado.

— Eu também. – um meio sorriso amargo moldou os lábios carnudos do francês – Mas Milo nunca enfrentaria a família e a sociedade que ele faz parte por mim, é esperar demais dele. Bem, agora é seguir com a vida, afinal quem ressuscita dos mortos assim? Eu preciso saber o que eu ainda tenho.

— Você tem o apartamento. Nós dissuadimos o Kanon a deixar o apartamento com você e lhe dar uma compensação, – Aiolia foi quem disse – porque ele de repente poderia parar na cadeia ou em um processo milionário sobre abandono de incapaz, tráfico de pessoas…

— Nós não fomos lá ainda, não sabemos o que tem no apartamento e o Kan não tem a chave também, ele ficou furioso quando descobriu. – Aiolos interrompeu o irmão e inclinou na poltrona, apoiando os cotovelos nos joelhos e olhando para Camus com um olhar curioso – Você tem as chaves e os documentos do apartamento Camus?

— Eu tenho. Coloquei tudo no banco antes de viajar, porque se o Kanon se livrasse de mim durante a viagem, eu estava seguro. Fiz tudo antes de viajar, eu não pensei que ele ia literalmente se livrar de mim do jeito que fez, mas eu tinha um amigo avisado se algo acontecesse. – Camus mordeu o lábio lembrando-se de Henri o outro prostituto com o qual dividia um apartamento antes de ir morar com Kanon – Henri procurou algum de vocês?

— Ele veio aqui há algumas semanas, mas não apareceu mais depois que viu que você estava em coma. – Masquerane se absteve de dizer que o “amigo” de Camus teve de ser ameaçado para ir embora e não ficar tentando chantagear Afrodite ou algum dos amigos deles. Aiolia estava cuidando atentamente desse prostituto e um passo em falso o advogado colocaria o prostituto na cadeia.

— Ah, certo. Melhor assim talvez, com o dinheiro que tenho no banco em joias e dinheiro vivo, além do apartamento eu posso comprar uma passagem e talvez voltar para a França. – Camus ficou pensando se com o dinheiro ele conseguiria encontrar pelo menos algum dos seus irmãos – O dinheiro pode me ajudar a me estabelecer por um tempo.

— É um bom dinheiro Camus. – observou Shura – Você tem alguém para quem voltar na França Camus? Você está há muito tempo na Grécia, tem alguma pista de algum parente vivo lá ou algo assim?

— Camus, eu posso te ajudar sobre isso. Enquanto você estava apagado, meus advogados junto com Aiolos procuraram sobre seus parentes... – Afrodite trocou um olhar com Aiolos que assentiu e então o sueco respirou fundo e despejou porque não havia uma maneira menos dolorosa de contar – Não encontramos nenhum dos seus irmãos, nem seus pais vivos. Assim como você, seus outros dois irmãos foram vendidos, mas não sobreviveram até a idade adulta. Você foi o único. Seus pais morreram na vila em que vocês viviam.

O silêncio ficou pesado, Camus tragou mais o cigarro e bateu as cinzas no cinzeiro que Masquerane estendeu para ele. Na cabeça do prostituto os pensamentos eram confusos, ele sentia que devia estar sentindo mais pela família, por saber agora que estava sozinho no mundo. Camus nunca tentou ir atrás dos pais ou dos irmãos, o dinheiro era suficiente para sobreviver e depois disso pensou que eles tivessem vencido. Que pelo menos os irmãos tinham se livrado daquele destino terrível, seus pais prometeram que manteriam os irmãos se ele fosse!

— Nós temos os documentos e se você ainda quiser ir lá, posso ir com você. – Aiolos saiu de onde estava e se ajoelhou próximo ao ruivo. Ficou observando o francês e sua fachada indiferente cuidadosamente montada. A aparentemente vulgaridade que ele indicava ao aparecer ali entre eles vestido apenas em um robe era uma mensagem. "Prefiro que me desejem a pena!", aquele homem tinha tantas camadas! – Não consigo imaginar o que pode estar sentindo agora Camus, mas você não está mais sozinho. Somos seus amigos, eternamente gratos a você pelo que fez no deserto salvando Afrodite, mas além disso, orgulhosos e admirados pela sua força. Estamos unidos pelo destino daquela viagem que mudou nossas vidas, queremos que saiba que independente de Milo, nós estamos aqui para você e nunca vamos abandoná-lo! Nunca.

Camus tragou de novo o cigarro e Aiolos percebeu que ele estava trêmulo, o grego tirou o cigarro de Camus que percebeu a imagem do arqueólogo ficar embaçada e ficou surpreso quando o soluço irrompeu de seus lábios. Levando-o a colocar a mão na boca. Aiolos se ergueu e trouxe Camus para junto de si, deixando-o se apertar a ele quando os soluços ficaram mais fortes e depois o francês percebeu que não foi só Aiolos que se aproximou dele. O francês pela primeira vez na vida sentia o calor da amizade, em meio aquele turbilhão de coisas acontecendo ele tinha aparentemente encontrado um porto seguro.

Mais tarde naquele dia Aiolos e Shura se preparavam para dormir, depois daquele longo dia cheio de reviravoltas, estavam cansados.

— Você foi muito sensível com Camus hoje, é maravilhoso o modo como consegue ler as pessoas Aiolos. – Shura se acomodou ao lado de Aiolos na cama, o grego estendeu o braço para que Shura se aconchegasse ao seu corpo, no que foi prontamente atendido.

— Nessas semanas em que ele ficou adormecido, nós tentamos achar alguma coisa da vida dele e o que descobrimos foi tão terrível que eu só consigo imaginar como esse homem sobreviveu a tudo. – Aiolos suspirou – Ele foi vendido ainda menino, jogado em um país que não era seu. Os advogados de Afrodite descobriram que ele se prostitui desde menino, passou por reformatórios quando foi achado na rua, mas nunca ficou neles muito tempo. Ninguém adota uma criança estrangeira! O que ele poderia fazer além de voltar a se prostituir?

— Ele nunca foi nada além de culto e educado, quando o vi a primeira vez duvidei até que ele fosse um prostituto. – Shura pestanejou se lembrando quando Kanon os apresentou, um dia em um jantar com ele e Saga – Mesmo quando eu o via na Psiri, com Milo ou mesmo outra pessoa eu só me perguntava como alguém tão bonito e elegante estava naquela vida. Quando o vi com Kanon eu realmente não entendi.

— Por falar em Kanon… Você percebeu como os gêmeos estão? – Shura ergueu o rosto para fitar o noivo – Saga parece mais controlado, mas está prestes a ter um colapso. Kanon não parecia estar em si. Eu fiquei pensando sobre o que estavam falando às escondidas e não acho tão extraordinário conhecendo-os do jeito que conheço.

— No início do nosso relacionamento, – Shura se apoiou em um cotovelo para olhar Aiolos diretamente – Kanon sugeriu em uma das nossas noitadas em trio um ménage à trois, ele disse isso rindo e tudo e estávamos bêbados e Saga não disse nada para negar a idéia. Mas eu fui contra, disse que não me sentia à vontade e o assunto morreu… – Shura se interrompeu como se estivesse se lembrando – Em um determinado momento da noite eu estava com Kanon e ele estava me dizendo coisas sem sentido sobre o Saga não me amar, sobre eu não ser nada mais do que uma foda e tudo mais. Que no fim ele só pertencia a uma pessoa! Fiquei puto, nós brigamos e Saga me levou dali e pediu que eu não pensasse nisso… Quando eu descobri sobre você, pensei que Kan estivesse falando sobre isso, mas agora…

— O Kanon me odeia! Ele sempre foi tão contra o nosso relacionamento que eu não entendia, achava que era ciúme de irmão assim como Aiolia. – Aiolos fez uma careta – Porra isso é muito esquisito! E pensar que eu namorei Saga por anos e ele estava… Com o irmão dele!

— Não pense mais nisso! Ele está longe das nossas vidas, estamos bem agora. – Shura se inclinou e começou a beijar Aiolos, tentando afastar aqueles pensamentos venenosos de seu amor – Cariño, estoy loco de amor. – apelou para o espanhol porque aquilo sempre atiçava Aiolos como um incêndio. Internamente ele também pensava como aquilo tudo era louco e que sorte ele tinha de ter encontrado Aiolos em meio aquela confusão bizarra.

***

No outro lado de Atenas, Saga se afogava em ouzo trancado em seu quarto pensando na tragédia que sua vida era agora, parecia como uma maldição que tinha caído sobre si ao se deixar levar por aqueles sentimentos loucos. Foi assim, há quase vinte anos atrás, estava sendo agora e só lhe provou que aquilo era de alguma forma errado. Passou o enterro inteiro da mãe olhando Aiolos e Shura juntos, parecendo felizes com os amigos reunidos e parecendo unidos sob um forte laço. Até o prostituto parecia agora de alguma forma ligado a eles, lhe fazendo questionar mais uma vez o que aqueles homens viveram no deserto que os reuniu daquela maneira. Naquele mesmo dia Saga recebeu de volta os dois estojos com as jóias idênticas que presenteou os dois homens que de alguma maneira amou na vida.

Agora estava sozinho, com aquele peso terrível na consciência.

— Saga, me deixa entrar. – Kanon estava na porta, a voz quebrada pelo tom choroso.

— Vá embora, Kanon.

— E se eu nunca mais voltar, Sá? – ouviu-se o som de baque forte na porta, mas ela estava trancada. Saga fechou os olhos e continuou a beber o ouzo.

— Não volte. Eu nunca mais quero te ver.

Kanon soltou um lamento do outro lado da porta e então começou a se afastar, Saga permaneceu onde estava pedindo aos céus que Kanon ouvisse suas palavras e desaparecesse. Era melhor assim.

***

— Nós vamos precisar de muitas caixas para levar tudo isso Camus.

— Não vamos levar tudo isso Afrodite, nem tenho onde usar a maioria dessas roupas. – Camus passou a mão pelos cabides do closet, com Afrodite no outro lado olhando as peças também.

— Camus, você anda comigo agora, eu sei onde você pode usar a maioria dessas roupas. – Afrodite retirou alguns cabides olhando a roupa do ruivo e gostando do que via. A maioria era alfaiataria fina e marcas famosas, como tudo naquele apartamento milionário. O sueco riu de lado pensando no amigo Papadopoulos que achou ser uma boa ideia colocar Camus ali naquela gaiola de ouro, como um bicho de estimação exótico cercado de luxo.

Era claro para ele a alma vazia que Kanon possuía e tentava esconder naquele mar de inconsequência.

— Eu só preciso de alguns objetos pessoais e roupas e acessórios, o comprador comprou o apartamento com a mobília. – Camus continuou falando alheio ao distanciamento de Afrodite – Ele ficou maravilhado pelo apartamento, cobriu a oferta que Aiolia fez sem problemas. Fiquei impressionado.

— O bichano é implacável em negociações, advogado, como não poderia deixar de ser, certo? Então você entende bem como é a coisa toda. – o sueco puxou algo do armário e colocou na sua frente arqueando uma sobrancelha para Camus que sorriu.

— Roupa de trabalho. – explicou o ruivo tirando o cabide de Afrodite e colocando sobre si. Era uma roupa de látex, negra e muito justa. Camus olhou para o sueco vendo que ele estava borbulhando de perguntas, mas hesitando em fazê-las.

— Eu tinha uma cliente regular, quer dizer, mais ou menos porque eu só a vi poucas vezes e quando estava na Grécia. Nunca descobri o que ela fazia, só que viajava muito e não era daqui. – o francês alisou a roupa lembrando da mulher que gostava daquele tipo de fantasia – Ela era muito boa na maioria das vezes, mas gostava de perder o controle fora da cama. Eu não era totalmente um dominante, nem ela uma submissa, mas ela era fetichista. Acho que no fim ela só era alguém tão controlada na vida lá fora que gostava de ousar entre quatro paredes e com alguém que era um estranho.

— Você se relacionava com mulheres também? – Afrodite tinha a boca aberta em um "o" perfeito.

— Não muitas, mas havia. Geralmente mulheres que escolhem garotos de programa abertamente gays é para inversão, ou apenas voyeurismo, há muitas que gostam de ver sexo entre homens. Mas Natassia era diferente, não sabia o que a motivava – Camus franziu o cenho pensando naquela mulher peculiar – A gente nunca sabe o que realmente motiva alguém a sair por aí com um garoto de programa certo?

— Foi sempre ruim? – Afrodite segurou no antebraço do ruivo e sua voz era um murmúrio, ele queria demais que Camus se abrisse e contasse sua vida para ele. Queria ajudar Camus a ter uma vida melhor e isso incluía um relacionamento real, uma vida com amigos e um trabalho decente.

— Nem sempre. Na maioria das vezes eu só precisava esquecer o dinheiro, não a noite. – o sorriso de Camus era tão forçado que não enganava ninguém. Doía no sueco pensar que ele privilegiado como era, mesmo sendo gay poderia sonhar em uma família e filhos, amor… Quais seriam os sonhos daquele ex-prostituto? – No começo… Foi horrível, eu não entendia o porquê. – Camus enfim confessou, era Afrodite ali e ele se sentia tão à vontade com o sueco. Depois de todo aquele tempo sendo cuidado por ele e estando morando na casa dele – Eu não sabia porque tinha que fazer aquilo, mesmo que eu já fosse adulto o suficiente para ajudar meu pai no campo. Em algum lugar na minha cabeça eu sabia que estava muito errado.

— Quantos anos você tinha? – Afrodite não conseguiu refrear a pergunta, as mãos segurando os punhos torcidos do francês, que tinha um olhar torturado como se lembrasse de tudo.

— Acho que era treze ou doze, não sei ao certo. Quando fui apresentado na casa de madame Bovary ela disse que eu tinha quinze anos, mas eu sabia que era apenas pelas aparências. Meu primeiro comprador disse que era apenas formalidade, aos quinze seria aceitável perante ao salão, mas havia gente que gosta de garotinhos. – Camus pestanejou, então indo sentar na poltrona dentro do closet e começando a tirar os cabides – Éramos pobres demais para aniversários.

Afrodite se jogou nos braços de Camus e o apertou forte enquanto as lágrimas marejaram seus olhos, o sueco dava vazão à sua tristeza mesmo que Camus não o fizesse. Para o ex-prostituto chorar ao relembrar aquelas coisas não adiantava nada e ele já tivera sua cota de mártir! Depois de dar alguns tapinhas de conforto nos ombros de Afrodite, ele murmurou algo sobre separar as coisas logo para terminarem cedo e que Afrodite iria perder seu jantar romântico com seu italiano. O sueco enxugou os olhos e foi para os armários tentando controlar aquele pesar porque sabia que o ruivo não ia mais tocar naquilo, era muito autossuficiente para se lamuriar sobre sua vida difícil.

Ficaram entretidos em arrumar as coisas até que o celular de Camus começou a tocar insistentemente. O francês deslizou o dedo para atender e deixou no viva-voz porque estava com as mãos ocupadas, não reconheceu o número, mas isso pouco importava.

— Alô?

— Camus… Poderíamos nos ver? – Afrodite olhou para o telefone como se ele fosse uma cobra peçonhenta, Camus mordeu o lábio e não disse nada enquanto ouvia a respiração de Milo alta e clara. Ele parecia nervoso – Por favor.

— Eu não faço mais programa Milo. – o tom de Camus era frio e indiferente e Afrodite pensou no quanto o ruivo era bom nisso, em fingir.

— Não quero um programa, quero apenas… Ver você, conversar.

— Nós não somos amigos, porque eu deveria ir e me encontrar com você Milo? Você não ouviu o que seu pai disse? Me ajude aqui, me ajude a ficar longe de você ou vou ter que dizer ao seu tão orgulhoso pai que o filho dele não pode resistir a um pau.

Afrodite arquejou e Milo ficou mudo em choque por um minuto inteiro, Camus permaneceu parado, os ombros tensos de raiva reprimida à espera de que Milo desligasse depois do aviso ácido.

— Camus… Eu sei que você me odeia agora, eu mesmo não estou muito orgulhoso de mim agora. Mas eu queria que você tentasse me entender, eu não posso…

Foi Afrodite quem desligou o telefone, ele não ia deixar que Milo tentasse se justificar pelo telefone, não quando não havia nada que justificasse sua atitude covarde. — Ora vá se foder! O que ele espera que você entenda? Que ele é covarde para enfrentar o próprio pai?! Que mesmo depois do que vivemos no deserto e de quase te perder ele ainda escolheu o que lhe era confortável?!

— Você parece bastante chateado. – comentou Camus guardando algumas roupas em uma das malas.

— Você não? – Camus riu da expressão de indignação do amigo e antes que ele expressasse isso o telefone voltou a tocar – Eu juro que se for o Milo, eu vou…

— Alô? – não era, Camus reconheceu o número, achando curioso que justo ela lhe ligasse naquele momento.

— Oh mon petit, j'ai besoin de te voir ( Oh meu menino, preciso vê-lo). – uma voz firme e melodiosa se fez ouvir fazendo Afrodite franzir o cenho.

— Cher ami, Je ne fais plus de programmes (Querida amiga, não faço mais programas). – o seu sotaque soou forte e o sueco achou lindo e sexy. Estava curioso sobre a mulher no telefone. O francês estava sendo amável e doce, algo que Afrodite ainda não tinha visto – Je ne sais pas si j'ai entendu parler de mon accident (Não sei se soube do meu acidente)...

— Par Dieu que je savais! (Por Deus eu soube). – ela arquejou e então começou a falar muito rápido e muita coisa, deixando Afrodite e Camus aturdidos até que algo que ela disse fez Afrodite soltar uma praga em sueco.

— Ela disse um filho?! – Afrodite guinchou e Camus ainda estava mudo de espanto mesmo após a mulher ter desligado. – Essa mulher é louca ou o que? Quem é ela Camus?

— Natassia. Nós estávamos conversando sobre ela agora pouco… – Camus se deixou escorregar até o chão do closet, balançando a cabeça sem acreditar no que ela tinha dito – Como assim um filho cacete?