Notas iniciais
Boa noite pessoal Aqui vai mais um capítulo, estou bem feliz que estou conseguindo fluir com a fic. Se aproximando da reta final, espero que gostem

Fazia alguns dias que Aiolia não procurava Camus, eles estabeleceram uma rotina e estava tudo bem, mas depois da noite na boate o ruivo não tinha lhe procurado e Aiolia não sentiu que devia insistir. Ainda não, ele precisava entender e pensar no que tinha acontecido, mas ele só conseguia pensar em Camus carregando aquele canivete como se ainda precisasse de proteção. Como se eles não fossem suficientes ou que ele ainda estava tão assustado e traumatizado que não conseguia deixar velhos hábitos para trás.

O mais novo dos Argenkland pensava em um modo de fazer Camus ver que ele precisava de ajuda para sair disso e não sozinho, nas conversas que teve com Afrodite, o Strauss lhe disse que Camus não contou nada do que aconteceu no banheiro e se recusava em comentar sobre isso. Talvez, tudo o que Camus precisasse era extravasar toda aquela raiva e tensão, Aiolia decidiu que ia convencê-lo a ir no terapeuta e que iria levá-lo para a academia de krav maga. Resolvido isso ele mexeu seus pauzinhos e numa noite colocou Afrodite para trabalhar e quando teve a confirmação do pisciano de que ele estava fora com Mask e Hyoga, ele foi enfrentar a fera sozinho.

— Onde ele está, Jhon? – perguntou ao mordomo quando ele veio abrir a porta o introduzindo na casa como normalmente fazia.

— Camus está na piscina. – informou o homem apontando para as portas além, Aiolia estranhou que o ruivo estivesse lá fora a essa hora da noite, fazia muito frio embora fosse apenas outono.

Ao chegar na área da piscina viu o ruivo atravessá-la em braçadas displicentes, ele estava em um momento só dele, Aiolia já havia notado que ele fazia isso às vezes. Como estava sozinho com seus pensamentos, ele não daria atenção a nada, talvez a Hyoga, mas não era o bebê que estava aqui. Então Aiolia apenas procurou uma das espreguiçadeiras da piscina e ficou lá esperando Camus resolver lhe dar atenção.

Demorou um pouco, mas o ruivo saiu da água olhando para Aiolia que parecia como um rei deitado na espreguiçadeira. Camus estendeu a mão sobre a mesa para pegar o roupão que ele tinha jogado lá, mas Aiolia foi mais rápido e o pegou, se levantando para ele mesmo colocar sobre o ruivo.

— O que está fazendo aqui? Pensei que toda a coisa da outra noite tinha feito você recuar definitivamente. – Camus disse, a expressão era a mesma de sempre que nada revelava, mas Aiolia sentiu a mordida no tom.

— Achei que você precisava de espaço. – Aiolia não ia admitir que ele mesmo precisava pensar em tudo, porque seu lado irracional e ciumento precisava ser trabalhado. Ajudando o ruivo com o roupão, ele pegou a toalha para enxugar o cabelo do ruivo – Não que eu agisse como um homem das cavernas e exigindo satisfações. Você viu o quão bem funcionou naquela mesma noite.

— Okay, mas não sei se vai funcionar você sumir por dias sempre que você se deparar com uma coisa do meu passado. – Camus disse e Aiolia não podia ver sua expressão, mas havia uma rachadura em sua voz – Você não precisa admitir, eu pude ver no seu olhar que você estava enojado por ter um vislumbre de tudo que eu tive que fazer para sobreviver até aqui. Naquela noite você pensou em como poderia estar com um puto promíscuo que poderia muito bem, ter fodido com metade dos seus amigos ou quem sabe todos eles? Você sabia que eu e Afrodite fizemos um ménage à trois com Kanon no aniversário dele há uns anos, foi como eu conheci o Afrodite.

— Porque você está trazendo isso à tona agora? – Aiolia deixou a toalha cair entre eles, o discurso de Camus não ajudou a manter sua promessa de ficar frio e tranquilo durante a conversa deles.

— Eu sabia que seria assim. Sabia que você se arrependeria no momento em que você apenas… – Camus se virou para encará-lo, a íris incomum castanho avermelhado parecia em chamas – Vai acontecer de novo, vamos brigar porque você não vai ser esse bom moço compreensivo o tempo todo e vai chegar um dia em que você vai se afastar definitivamente.

Aiolia percebeu agora que seu afastamento poderia ter funcionado muito bem para ele, mas Camus pensara muito e o interpretou de todas as maneiras erradas. Nada estava indo bem ali e Aiolia começava a perceber que talvez não fosse tão simples como ele imaginou que seria a sua reconciliação com Camus.

— Camus não é assim, me perdoa, vamos conversar direito.

— Estamos conversando Aiolia. – o advogado se perguntou se Camus não poderia se tornar um advogado também, ele provavelmente ganharia todas as suas audiências com aquela expressão neutra enquanto Aiolia estava prestes a surtar. Como ele conseguia ficar tão calmo falando sobre um possível término deles. Aiolia gostava de se gabar do seu talento em ler as pessoas, mas ele não conseguia nada de Camus até que fosse tarde demais – Eu não vou exigir mais de você do que posso. Melhor você ir embora.

— Por quê?! – Aiolia pegou o braço de Camus, a raiva tirando o melhor dele – Você acha tão simples só me mandar embora, pensei que estávamos em um relacionamento! Quando um casal briga, eles conversam, discutem sobre o problema e consertam a merda juntos!

— Isso acontece quando um deles não some por dias apenas para esfriar a cabeça e pensar melhor! – rebateu Camus e dessa vez Aiolia sentiu a raiva no tom, mostrando a ele que Camus estava magoado e que ele se sentia abandonado.

— Eu me afastei porque queria pensar no melhor jeito de ajudar a você a libertar essa raiva que está consumindo você! Um jeito de saber se eu sou suficiente para você deixar seus traumas para trás! – Camus ia abrir a boca, mas Aiolia não deixou ele retrucar – Admita Camus! Você precisa de ajuda, você precisa de mais do que só não falar sobre seus medos, sobre o que aconteceu naquele deserto!

— Até onde eu sei, você é advogado, não psicólogo! – Camus se desvencilhou dele entrando na casa e indo para as escadas, mas Aiolia o perseguiu, ele não ia permitir que o ruivo fugisse dessa conversa.

— Você não pode apenas deixar de falar sobre isso!

— EU POSSO! – Camus se virou, eles estavam no meio da escada. O roupão mal o cobria, mas ele pouco ligava. – Eu vou! Principalmente falar com você. Onde você estava naquela noite quando fui encurralado naquela porra de banheiro? Era como se tudo não tivesse passado de um sonho e eu estava naquele pesadelo de vida de novo! Vai se foder, seu merdinha! Você não está em posição de me exigir nada, você não estava lá, nem quando segurou aquele filho da puta! Você nunca vai estar lá quando eu precisar de novo.

Camus correu os lances de escada que restaram enquanto Aiolia ficava no mesmo lugar, machucado pelas palavras dele. Ele imaginava que depois de tudo que eles tinham construído naqueles meses, tudo que Aiolia achava que tinha feito para que o ruivo soubesse que ele o amava!

Aiolia se sentiu cansado, muito cansado. Talvez Camus tivesse decidido o melhor para eles, que eles deveriam seguir caminhos separados.

***

— E então? Como estão as coisas por aqui? – Aiolos perguntou ao irmão alegremente quando o cumprimentou ao chegar na sala de jantar naquela manhã. A lua de mel tinha infelizmente acabado e Shura e ele haviam chegado em casa de madrugada, então só estava vendo o irmão naquela manhã sentado na mesa para o café parecendo alheio.

— Bem. – Aiolia jogou sem nem olhar para o irmão mais velho e Aiolos voltou a olhar atentamente para ele, que ainda permanecia sem olhá-lo. O tom de voz do leonino em uma única palavra traiu tudo.

— Não me parece bem. – Aiolos resolveu sentar ao lado do irmão e não na cabeceira da mesa como costumava fazer, Aiolia suspirou e finalmente o encarou e ver a expressão do irmão deixou Aiolos emudecido – O que aconteceu?

— Eu terminei com Camus. – Aiolia apenas deu de ombros, como se não fosse nada, mas para Aiolos que conhecia aquele homem como a si próprio sabia que era tudo. Seu pequeno leão estava sofrendo.

— Você quer…

— Eu tenho uma audiência agora. – ele estava já vestido para sair, mas não tinha tocado em nada do café da manhã – Afrodite vem almoçar, ele está louco para saber sobre você. Eu não vou conseguir vir, então aguente a rosa,sim? – Aiolia se inclinou para beijar o irmão e Aiolos o segurou para que eles pudessem realmente se olhar – Nós conversamos a noite.

Aiolos o viu sair e ficou pensando sobre o que poderia ter acontecido para que os dois terminassem. No dia do casamento deles ambos pareciam bem e felizes, parecia que finalmente seu irmão havia encontrado alguém que o amasse. Se alguém sabia de alguma coisa era o Afrodite! Pescou rapidamente seu telefone no bolso e discou o número do pisciano.

— Muito cedo. – ouviu do amigo quando ele atendeu o que o fez rir, era cedo demais para Afrodite Strauss, não para o resto do mundo.

— Acorda seu vagabundo! Eu preciso de informações. – Aiolos começou a se servir do café da manhã – O que foi que aconteceu? Eu viajo por um mês e deixo você cuidando de tudo, para chegar aqui e encontrar o Aiolia praticamente colocando a cabeça no forno!

— Ah Aiolos, a culpa foi toda minha. – a voz de Afrodite estava cheia de pesar – Você está em casa? Eu vou só me arrumar aqui e já te encontro, espero que você tenha algo para me alimentar. Eu preciso da sua ajuda aqui, ficou tudo uma bagunça com o Camus, eu não sei mais o que fazer.

— Estou esperando você. – Afrodite respondeu que estava indo e Aiolos desligou ainda mais preocupado do que antes.

***

Saga aguardava Milo para almoçarem juntos no restaurante favorito dele, mexendo no celular e vendo as últimas atualizações do investigador particular que colocou atrás do irmão. O cara era muito bom, ele já tinha encontrado algumas pistas de onde Kanon se metera, mas não havia se aproximado e o irmão gêmeo tinha sumido de novo. Era surpreendente que Kanon estivesse tanto tempo sumido e não tivesse mexido ainda no dinheiro conjunto que eles tinham, Saga tinha esperanças que ele fizesse isso e assim, pudesse localizá-lo, mas o gêmeo o surpreendeu nesse quesito também. Eles não se separavam por tanto tempo assim desde que nasceram, sempre estiveram juntos para tudo.

— Desculpe o atraso. – Milo sentou na frente dele e o empresário nem tinha notado – Eu tive que atravessar a cidade e o trânsito está um caos! Você já pediu?

— Não, estava esperando você chegar. – ele apontou para o cardápio na mesa e Milo deixou a pasta de lado e o paletó, afrouxando a gravata – Dia cheio?

— Você não tem idéia. – Milo chamou o garçom e quando ele chegou, jogou rapidamente algo sobre o que beber e aperitivos enquanto ele escolhia o almoço – Mas finalmente eu me livrei da Shina! Porra eu preciso comemorar, vou tirar a tarde de folga.

— Então tudo certo? Oficialmente? – Saga tomou sua bebida olhando o amigo e como ele parecia cansado, mas bem mais leve. Como se o divórcio tivesse lhe tirado um peso dos ombros – O que seu pai disse sobre isso?

— Nada. Quer dizer, ele disse e eu não ouvi uma palavra! Eu não preciso mais dele para me dizer o que fazer da vida Saga, não quando eu salvei a bunda dele da falência! – os lábios carnudos do advogado se moldaram em um sorriso de escárnio – Você sabia que ele gastava todo o dinheiro com prostituição e jogos? O filho da puta é um viciado e eu não posso ser gay?

— Não, é inaceitável que o único filho da família Savalas seja gay. – Saga ironizou e ambos reviraram os olhos – E então, agora você é livre como sempre quis, tirou a tarde de folga para comemorar. O que quer fazer? Eu estou aqui só para você. – Saga piscou para Milo.

— É sério que a sua esposa não sabe de nada disso?

— Você é meu melhor amigo Milo, você jamais pensaria em mim assim. – Saga o olhou com sua melhor imitação de ofensa – Helena não tem tanta imaginação assim Savalas, pode ficar tranquilo. Ela vai passar a tarde com as amigas hoje e meu cartão de crédito, o que ela ia querer mais?

— Se eu tivesse encontrado uma esposa como Helena, talvez meus pais tivessem o sonho dourado deles como eles queriam.

— Eu duvido. O seu azar foi ter encontrado aquele prostituto e se apaixonado por ele, Milo. – o garçom chegou com as bebidas e com o aperitivo que Milo pediu, só depois que ele saiu que Saga voltou a falar – E você também não é tão cínico quanto eu.

— O que esperar de alguém que tinha dois namorados. – Milo jogou e Saga riu, concordando.

— Aiolos me devolveu as jóias que eu dei a ele e Shura, as pedras gêmeas que eu tinha pedido para fazer exclusivamente para eles. Foi estranho e ao mesmo tempo engraçado, porque ele foi lá e pediu para falar comigo pessoalmente e então depois de me devolver a joia ele pediu que a Gemini fizesse a aliança de casamento dele e de Shura.

— Porra, mentira?! – Milo o olhou boquiaberto Saga assentiu e o escorpiano riu achando Aiolos fantástico. Era uma coisa que ele faria se estivesse no lugar dele, que talvez Shura pudesse fazer, mas ele nunca esperaria do arqueólogo.

— Ele só chegou lá e disse “Eu estou devolvendo a você, para que você dê a pessoa certa e eu quero algo que simbolize o meu amor com Shura, da mesma forma que estas pedras representando você e Kan”.

Ambos ficaram em silêncio. A relação de Kanon e Saga veio à tona entre eles, mas o dono da Gemini jamais admitiria que amasse o irmão mais do que amor fraternal. Ele passou anos lutando contra isso, mas ele não queria que Aiolos pensasse que os anos de relacionamento deles fosse apenas uma capa para isso, Saga amou Aiolos como ninguém.

— E eu fiz sabe, fiz questão de estar dentro de todo o processo criativo e dar aos dois homens que amei algo único. Eu fui tão idiota com os dois, eles estão melhor juntos e felize, do que comigo – Saga suspirou e então tomou o resto da sua bebida – Mas você pode ter alguma chance de recuperar o tempo perdido, agora você está livre.

— Não sei, talvez não seja justo. – Milo balançou o copo olhando o líquido escuro se mexer lá dentro – Camus está feliz com o Aiolia.

Como se ele tivesse sido invocado só por Milo dizer seu nome, o ruivo entrou no restaurante e não houve poucas cabeças que olharam ao vê-lo passar. Ele estava tão bonito como sempre, mesmo de forma casual com jeans e uma henley, os fios rubros trançados e uma jaqueta comprida. Ele estava com o bebê que Milo o viu no dia do casamento, conversando com a hostess que lhe indicava um caminho para chegar a sua mesa.

— Eu não sabia que ele tinha um filho. – Saga estava olhando o ruivo também – Eu posso falar o que quiser, mas porra esse ruivo faz qualquer um perder a cabeça! Camus é muito bonito, por isso você é alucinado por ele.

— Ele tem e é dele mesmo, uma história maluca pelo que Afrodite me contou. Mas é legal que depois de tudo que passou, ele tenha alguém… Camus não tem ninguém no mundo.

— Ele podia ter você. – Saga insistiu e Milo balançou a cabeça ainda olhando o ruivo se instala em uma mesa não tão longe deles. O restaurante era uma pequena cantina italiana, o ruivo tinha se instalado em uma mesa lateral perto do vidro, colocando o carrinho do bebê próximo a sua cadeira que o garçom havia puxado. Ele era amigável com Camus e até brincou com o bebê o que significava que se conheciam – Podíamos ir falar com ele.

— Não! Sag… – Mas Saga já estava se levantando antes que Milo terminasse e o advogado então apenas o seguiu até a mesa do ruivo.

Camus ergueu os olhos do filho quando sentiu duas pessoas se aproximarem, já pensando nas palavras que iria dizer se fossem ex-clientes. Ele havia se mudado para o outro lado da cidade praticamente, longe o suficiente da psiri e dos bairros caros para não ser incomodado por eles, mas como um carma sempre havia alguém.

Afrodite ainda estava chateado pela decisão do ruivo de se mudar e ir morar sozinho com o bebê, mas Camus fora irredutível e mesmo que amasse o amigo ele já fez o suficiente para o ruivo. Camus queria andar com as próprias pernas agora e cuidar do filho e da vida por si próprio. Ele prometeu não sumir e sempre que Afrodite quisesse ver Hyoga, ele poderia, eles ainda eram melhores amigos e mesmo querendo independência o ruivo não ia se afastar dos amigos. Eram tudo que ele e Hyoga tinham, ele não era tão insensível assim.

— Precisa de ajuda Camus? – perguntou Saga e sorriu ao ver a expressão de surpresa do ruivo. O olhar de Camus foi dele até Milo e ambos pareciam embaraçados, o que deixou o sorriso de Saga maior.

— Está tudo bem, pode deixar. – Camus murmurou se ajeitando na sua cadeira – Vocês estão longe de casa.

— De certa forma sim, mas eu gosto dessa cantina. Venho aqui desde a faculdade, na verdade todo mundo. Costumávamos comer amontoados em uma única mesa e ruidosamente, meus amigos e eu. – explicou Saga se sentando na cadeira do outro lado da mesa – Você também parece longe de casa. Está esperando alguém?

— Na verdade, eu moro no fim da rua, eu venho almoçar aqui de vez em quando. – Camus viu Saga fazer um gesto com a cabeça para a outra cadeira ao lado de Camus, mas Milo recusou e sentou-se ao lado de Saga – Não estou esperando ninguém.

— Você não está mais no Afrodite? – Milo resolveu falar enquanto Camus entregava a mamadeira de suco ao bebê. O garotinho já havia almoçado, Camus se certificava de fazer algo saudável e caseiro para o bebê, mas ele estava meio perdido pela comida do restaurante e resolveu sair um pouco.

— Me mudei há um mês, mais ou menos. Era hora de ter meu próprio lugar. – disse Camus e o garçom chegou para anotar o pedido de Camus e Saga disse a ele que deveria transferir os pedidos da mesa deles àquela mesa e cobrar tudo junto.

— Isso é bem legal. O Dite me disse que você tem um fundo e todo o dinheiro guardado, aqui não é um bairro muito popular e nem perto de onde o Dite mora. Por que não comprar algo por lá?

— O fundo na verdade é do Hyoga, a mãe dele deixou. Eu só gasto com ele e há um pouco para a educação, está tudo reservado. – Camus deu de ombros sem explicar mais nada sobre o dinheiro. Natassia havia deixado um fundo para ele também, mas ele não queria esbanjar nem nada e eram só os dois, ele pode e quis comprar o loft pequeno no fim da rua sobre uma cafeteria apenas para ele e o filho – Estamos bem aqui.

— Afrodite deve estar se contorcendo até agora. – Saga comentou e os três riram. Strauss não estava feliz, mas iria se conformar.

— Tirando o bebê Camus, o que mais você anda fazendo? – Milo perguntou, não resistindo e erguendo a mão para pegar a mãozinha do bebê que falava junto com eles na sua linguagem infantil – Ele é tão fofo, Camus.

— Estou fazendo faculdade a distância de história, alguns outros cursos complementares. Quando preciso ir às aulas presenciais eu deixo o bebê com o Dite ou o Aiolia. – Camus mordeu o lábio na última parte, olhando o filho sorrir e falar com Milo – É, talvez essa parte nós vamos ter que rearranjar Hyoga.

— Porque? Você e Aiolia não estão mais juntos? – Saga jogou a pergunta apenas como uma alfinetada. Contudo, vendo como Camus ficou tenso e não respondeu logo a provocação, o empresário acabou descobrindo que poderia muito bem ser verdade – É sério, vocês terminaram?

— Você e o Aiolia terminaram? – Milo estava em choque – Isso sim é uma grande surpresa. Aquele merdinha era todo “eu sou o homem no topo do mundo, eu vou me casar e bla bla bla” e agora vocês terminaram?

— Acontece. – Camus deu de ombros de forma indiferente, mas Saga observou que o ruivo não parecia feliz com a decisão.

O garçom chegou interrompendo a conversa e trazendo o almoço e os três ficaram entretidos em comer e uma conversa fiada sobre o tempo e as eleições rodeou a mesa, tirando o foco do ruivo. Milo e Saga perceberam que Camus não ia mais dar detalhes do que havia dado e decidiram não pressionar, mas Milo estava meio chocado por saber que Aiolia e Camus haviam terminado porque eles pareciam apaixonados.

Será que era o destino? O advogado pensou que ele poderia ter uma nova chance, ele poderia tentar resgatar o amor do ruivo. Ele fora no seu casamento e lhe disse que o amava, droga! Milo ia fazer tudo certo dessa vez, prometeu olhando o ruivo a sua frente enquanto almoçavam e conversavam animadamente.

Quando Camus saiu do restaurante e se despediu de Saga e Milo na calçada. Ele percebeu que havia um carro parado na frente da cafeteria, ele não se importou muito porque havia alguns fregueses que faziam uma parada rápida por lá, era um bairro de trabalhadores movimentado de qualquer forma. Dessa forma, continuou andando empurrando o carrinho e mexendo com o bebê de vez em quando, Hyoga era um garotinho muito quieto e chamava a atenção pelos grandes olhos “de céu”. Não havia onde ele andasse que não havia alguém que não mexesse com o bebê e mesmo que às vezes fosse aborrecido, naquele momento foi algo providencial.

Um jovem casal havia parado para que a mulher falasse com o bebê e Camus permitiu, tentando ser paciente e simpático. Ele tinha saído de trás do carrinho e se colocado de lado cobrindo o carrinho do bebê da visão da rua. Camus se distraiu com a visão de Shura na porta das escadas que levavam para o loft, acenando para ele. Por isso ele não viu o carro sair da frente da padaria e acelerar.

Camus teve aquele insight e uma voz em sua cabeça gritou cuidado, mas poderia ser Shura, ele não sabia porque tudo que fez foi empurrar o carrinho um pouco mais antes que ele fosse atingido por algo que vinha do carro. O rapaz do casal puxou o bebê, a mulher gritou e Camus caiu na calçada enquanto o carro fugia a toda velocidade e alguém gritava “puta suja!” de dentro dele.

— Camus! Meu deus Camus! – Shura tinha chegado perto deles agora, ofegante e assustado olhando para os lados freneticamente e apalpando as roupas do ruivo procurando se ele estava machucado.

— Shura o meu filho! – Camus piscou e sua visão estava escurecendo, ele sentia como se sua cabeça tivesse sido cortada ao meio – O Hyoga!

— Seu bebê está bem rapaz, vai tudo ficar bem. Estou ligando para a emergência! – era a voz do jovem rapaz, a moça tentava acalmar o bebê e Shura olhou agradecido rapidamente para os dois.

— Oh meu deus, ele está sangrando! Emery, ligue para a polícia! – ela estava tão aflita, Camus percebeu e tudo ficou escuro.

***

Aiolia e Aiolos estavam na sala de espera reservada a eles, Aiolia tinha Hyoga no colo enroladinho com o dedo na boca e adormecido. Afrodite e Ettore Shura estava no corredor falando com os policiais, assim como Saga e Milo que acabaram por ver tudo antes de entrar no carro e vieram ajudar Shura.

— Deja-vu da porra! – Afrodite chutou uma lixeira e praguejou em sueco. Todos assentiram à sua maneira, estranhando que Camus ferido de novo tivesse reunido todos eles.

— Vocês são a família de Camus Saint Morriz? – uma enfermeira entrou na sala e olhou para todos, ela viu o bebê no colo de Aiolia, então se dirigiu a ele – Seu marido já pode receber visitas, ele vai ficar em observação esta noite, mas amanhã estará liberado. O médico está dando mais detalhes do diagnóstico ao próprio paciente, ele está lúcido e bem. Gostaria de vê-lo? – Aiolia apenas assentiu, ainda perdido na palavra marido e no alívio de saber que Camus estava bem.

Aiolia foi com Afrodite e Aiolos resolveu esperar no corredor com o resto, Shura estava voltando da sua conversa com os policiais.Até que ele se aproximasse, ficou um clima estranho com Ettore e Aiolos olhando curiosamente para Saga e Milo, o segundo achando curioso vê-los juntos, mesmo que Afrodite já tivesse contado que eles eram amantes.

— Os policiais virão amanhã pegar o depoimento do Camus, eu os convenci de que ele precisava descansar. Eu já falei com o médico – Shura explicou para todos – e Camus está bem, ele só teve uma concussão devido ao objeto que foi jogado na cabeça dele. Foi feio, mas ele não vai morrer.

— Alguém sabe quem foi? Por que ele foi atacado? – Milo perguntou, ele parecia muito aflito.

— Os policiais conseguiram uma identificação graças a placa do carro que o Saga forneceu. – Shura pegou o telefone e mostrou o rosto na ficha da polícia que eles tinham fornecido. Todos olharam para o homem e Ettore soltou um palavrão em italiano. Saga apertou os lábios de forma apreensiva.

Depois que Camus foi levado na ambulância com Shura, Milo ficou com os policiais ajudando no que podia e falando que era advogado e amigo do ruivo, já exigindo que a queixa fosse aberta e a agressão investigada. Ele inclusive tinha usado o nome do seu escritório de forma influente para que tudo corresse bem rápido, por isso agora havia dois investigadores no corredor pegando o depoimento de Shura que estava mais próximo e tinha visto tudo.

— Vocês conhecem o sujeito? – Shura olhou para Saga e Ettore, a dupla mais improvável para conhecer um arruaceiro?

— Eu não o conheço, mas esse cara importunou o Camus algumas noites atrás quando fomos à Lux, o ruivo teve que partir para agressão para fazer o sujeito entender que ele não estava livre. – Ettore explicou apontando para a foto, Aiolos ficou pálido, porque Afrodite tinha contado a ele sobre o incidente.

— E eu o conheço, porque bem… Ele é Hassen Lykaios, filho do senador Lykaios. – Saga colocou as mãos no bolso pensando rapidamente nas coisas que sabia da família Lykaios – Ele é o único filho até onde eu sei, a mãe é russa, do primeiro casamento do senador. O senador tem mais duas meninas, nenhum filho só esse lunático. O que se sabe é que o garoto é um urânio radioativo, o senador vive para encobrir as merdas que ele faz.

— Nada bom. – Aiolos mordeu o lábio, Shura segurou a mão dele acariciando os nós dos dedos e Saga viu a troca com muita inveja. Eles pareciam quase perfeitos juntos, era angustiante de ver.

— Eu vou voltar para casa e ver o que consigo levantar desse cara meu pai deve conhecer algumas pessoas que o conhecem. – Milo disse já maquinando o que poderia fazer e Shura ia abrir a boca para dizer que ele não se envolver mais, que eles cuidariam de tudo, mas Aiolos segurou seu cotovelo refreando-o.

— Mantenha-nos informado Milo, obrigado. Eu vou avisar você quando Camus estiver em casa também. – Aiolos respondeu e o advogado assentiu, puxando Saga para sair com ele, o geminiano olhou mais uma vez para Shura e Aiolos e seguiu Milo parecendo um cachorrinho chutado.

— Saga e Milo, quem diria! – Ettore bateu as mãos e os três no corredor começaram a rir, mas em seguida o canceriano ficou sério – Aquele escroto sabe onde o Camus mora, ele está perseguindo o ruivo!

— Amor, você pode ir com Ettore à casa do Camus? Pegue o que achar essencial para ele e o bebê, Aiolia se livrou de tudo que tinha em casa. Nós vamos levar Hyoga para casa e amanhã o ruivo vai para a nossa casa, mesmo que ele e Aiolia não estejam em bons termos, não é seguro ele ir com o Afrodite. Esse Hassen pode saber que o ruivo já morou lá, ele estará mais seguro com a gente.

— Tem razão. – Shura beijou Aiolos na testa e o grego deu as chaves do ruivo para o marido, ele estava com as coisas de Camus depois que havia encontrado Shura no hospital.

Ettore e Shura seguiram para a casa do ruivo e Aiolos foi para o quarto do ruivo, ao entrar lá encontrou um clima tenso. Aiolia ainda segurava o bebê e Camus estava adormecido, Afrodite parecia querer matar alguém e Aiolia não era tão diferente.

— Você quer me dar ele? – Aiolos ofereceu e Aiolia concordou, passando o garotinho para o irmão.

— Eu vou dar uma fumada, já volto. – Aiolia saiu do quarto deixando Afrodite e Aiolos com o ruivo.

— Foi o Hassen, aquele maltido filho da puta! Claro que ele não ia deixar barato o covarde! – Afrodite disse entredentes – Eu me sinto, porra! – Afrodite esfregou o rosto, grunhindo baixinho.

— Não é culpa sua Dite, Nós conversamos sobre isso. – Aiolos embalou o bebê inquieto em seu sono – Esse Hassen, ele é um esgoto! Nós agora precisamos proteger o Camus, só isso. O Milo disse que a investigação está em curso e que ele vai fazer de tudo para punir o desgraçado, vai dar tudo certo.

— O Milo… – Afrodite se levantou, chegando perto de Aiolos e falando baixinho – Olos, o Aiolia está gritando por dentro só de ter visto o Milo aqui. O Shura soltou mais cedo que o ruivo estava almoçando com Milo e Saga, pelo menos foi o que o Saga disse a ele para explicar porque eles estavam lá.

— Não é nenhuma grande surpresa, aquele restaurante que o Camus adora é o favorito do Saga. Nós tivemos mil encontros lá quando namoravamos. – Aiolos explicou – O Aiolia precisa aprender a ler as coisas, o Milo está com o Saga!

— Eles são amantes, quem tem que ver as coisas direito é você! O Milo se divorciou da Shina, ele é livre e desimpedido agora e o Saga é casado. – Afrodite cruzou os braços – Pode ter sido coincidência, mas eu duvido que o Milo deixe passar. Principalmente se ele souber que o ruivo e o Olia terminaram.

— Ele vai perder o esforço. O ruivo vai voltar comigo e ficar em casa, perto do Aiolia e quando a gente perceber eles vão estar juntos novamente. – Aiolos acariciou a bochecha de Hyoga com carinho – Eu não vou perder o meu sobrinho pro Milo, nem pensar!

Afrodite soltou uma risadinha, ele também acariciando o bebê. Aiolos estava aqui agora, ele ia arrumar toda essa bagunça.