If There is something
10 Capítulo 10
Notas iniciais
— Eu realmente não acho que seja uma boa ideia.
— Você já está ficando grudado nos móveis de ficar dentro dessa casa Camus, uma noite não vai fazer mal a ninguém. – Afrodite continuou na frente do espelho terminando de passar o gloss e conferindo os últimos ajustes da roupa. Não deixando de olhar que Camus parecia desanimado, mesmo que tenha se arrumado para sair.
Afrodite tinha convencido ele a saírem para dançar na psiri, fazia muito tempo em que eles não se divertiam à noite, Camus mal saia de casa e só cuidava do bebê e jantava com Aiolia. O pisciano achava que o amigo precisava voltar a vida social e viver como um jovem normal, sem precisar ficar recluso agora que ele não era mais prostituto. Para Afrodite, Camus ainda vivia como se ele precisasse viver à margem da sociedade.
— Vocês estão prontos? – Ettore entrou no quarto de Afrodite, já pronto para ir ao que parecia e Dite se perdeu um pouco na visão do seu italiano vestido de jeans justo e caro, com uma camisa de malha fria escura moldando o torso musculoso – O Aiolia já está lá embaixo e Dália apostos com o Hyoga. Fiori, você está uma coisa!
— Estou não? – Afrodite piscou para o namorado – Anda Camus, nós temos que ir. – e saiu levando Ettore com ele, esperando que Camus os seguisse.
Camus deu uma última olhada em si no espelho, observando a franja que estava cuidadosamente jogada na lateral e o cabelo na trança apertada. Escolheu uma calça de couro bordô e um suéter grafite com uma gola em “V”, não queria parecer arrumado demais e nem chamar atenção. Ir para a noite de Atenas com Aiolia podia ser tanto uma noite maravilhosa quanto um verdadeiro desastre, então ele queria estar preparado. Já faziam meses e ele esperava que ninguém lembrasse dele, mas algo dentro de si lhe dissera que seria esperar demais.
Os medos de Camus se concretizaram logo na descida do carro, no estacionamento da Lux, a boate LGBT+ mais badalada de Atenas e sua velha conhecida, ele batia ponto fixo lá todas as noites do fim de semana. Ele nem conseguiu passar despercebido na entrada, a hostess e os seguranças logo sorriram ao vê-lo.
— Meu deus Camus! – a mulher se jogou nos braços dele assim que o viu e ele viu que Sebbie e Antônio, ambos os seguranças bateram nas suas costas de forma amigável – Eu nem acredito que você está aqui! Você parece ótimo!
— Obrigado Ellie. – ele deu um beijo no rosto da linda anfitriã enquanto ouvia ela falar que todos na boate souberam da sua história e ficaram preocupados, ao mesmo tempo em que ela pregava as pulseiras vips nos pulsos dele e Aiolia, Afrodite e Ettore.
— Argos tinha me dito que você não fazia mais programas. – ela olhou entre ele e Aiolia, o leonino tinha uma expressão neutra no olhar, mas os ombros estavam tensos por toda a atenção que Camus estava recebendo.
— Ele é meu namorado Ellie. – Camus segurou Aiolia pelo cotovelo e tentou sorrir como sempre, mesmo que por dentro estivesse começando a suar frio – Nós podemos entrar agora?
— Claro docinho, me deixe saber se precisa de algo. Já avisei a Argos que você está aqui, ele vai ficar feliz em te ver.
Eles assentiram e entraram na boate lotada e Camus sentiu o aperto da mão de Aiolia na sua cintura enquanto se misturavam à multidão.
— Quem é Argos? – Afrodite ficou do lado de Camus olhando em volta animado.
— Ele é o dono daqui, é um bom cara.
— Ex-cliente? – Aiolia olhou Camus de lado, a expressão nada boa.
— Isso vai ser um problema? Porque se vai, nós vamos voltar daqui. Eu não estou disposto a passar a noite inteira explicando pra você com quem eu dormi, você sabe o que eu fazia antes. Lide com isso, bichano!
Camus se desvencilhou de Aiolia e continuou andando em direção ao bar, com o leonino no seu encalço e Afrodite e Ettore mais atrás.
— Você acha que foi realmente uma boa ideia tirá-los de casa? Ainda não é muito cedo para Aiolia lidar com todo o passado de Camus? – Ettore ergueu uma sobrancelha para o namorado que apenas deu de ombros e afastou os cabelos fartos.
— Se Aiolia não puder lidar com nada desta noite, pode apostar que amanhã ele não terá nada com que lidar depois que Camus mandar ele se foder.
Aiolia olhava Camus e Afrodite na pista de dança, se mexendo ao som da batida incessante enquanto deixava a vodka descer goela abaixo junto com a gosma ruim que parecia atravessar sua garganta também. Como Ettore não tinha tanta vontade de dançar e Aiolia não conseguia melhorar a cara de poucos amigos, Afrodite decidiu que ele ia arrastar Camus para dançar com ele e foi o que fez. Aiolia não estava feliz porque mesmo que ele soubesse que Camus fosse um ex-prostituto, encarar a realidade disso estava sendo complicado para ele. Camus estava ali e quase todo mundo o conhecia, Argos o dono da boate fez questão de cumprimentar o ruivo e ser muito atencioso com ele. Lembrá-lo que eles se conheciam e mesmo que ele não tenha dito nada explícito, ficou claro que ele e Camus tinham compartilhado uma cama.
Isso estava deixando Aiolia doente!
“Ele agora está com você, pare de ser tão paranóico!” ele continuava a repetir a si mesmo “ Vocês estão juntos!”
— Tem alguém chegando no seu cara. – comentou Ettore de passagem, já se levantando para chegar nos outros dois na pista de dança. Para qualquer eventualidade, não que ele não soubesse que Camus e Afrodite soubessem se defender.
Quando eles se aproximaram, Camus estava conversando casualmente com um grupo de rapazes.
— É uma pena realmente. Assim que eu te vi, pensei que a gente podia sair para uma festinha, como antes. – um dos bastardos disse com um sorriso malicioso, os outros fazendo coro – Você não se divertia também?
— Agora você vai precisar encontrar alguém para fazer isso por você, Hassen. – Camus manteve o tom calmo, mas havia uma borda afiada em sua fala mostrando que ele não estava tão feliz assim com as lembranças que aqueles caras estavam trazendo. Afrodite estava ao lado dele, olhando os outros com hostilidade e quando Ettore e Aiolia chegaram, os outros três ergueram as mãos e começaram a balbuciar despedidas. Aiolia tinha um olhar assassino para o merdinha que tinha falado sobre a “festinha”, sua vontade era bater a cabeça do cara contra o bar.
— Que cara idiota! – Afrodite passou as mãos pelos braços de Camus – Você está bem? Quer uma bebida?
— Acho que poderia usar uma agora. Hassen é um escroto completo, vai por mim. Do tipo, medidas desesperadas! – Camus puxou a franja para trás – Ele é rico, filho de senador e tudo mais e sempre se safa das coisas. Ele gosta da violência.
— E você se meteu com um cara desses?! Porra Camus, que desejo de morte. – Aiolia bufou, um sorriso irônico escondendo sua crescente irritação.
— Desculpe se eu não tenho a sua vida dourada e perfeita! – Camus disparou cortante – Quer saber, eu não preciso me justificar pra você!
— Se você acha que não precisa, você que precisa reavaliar as coisas.
— Me cobrando satisfações? Oh, claro! – os lábios de Camus se moldaram em um sorriso de escárnio e decepção, mesmo que ele já esperasse isso de Aiolia. No fundo ele estava só esperando o momento em que aquele conto de fadas que eles encenavam fosse desfeito quando Aiolia tivesse a real noção do passado de Camus.
O ruivo não disse mais nada, só atravessou as pessoas e seguiu para o banheiro, apenas como forma de conseguir algum espaço entre ele e Aiolia. O leonino praguejou baixinho e então foi atrás dele, Afrodite ia segui-los, mas Ettore o segurou e com um movimento de cabeça o levou para o outro lado em direção ao bar. Era hora de deixar Aiolia e Camus se resolverem sozinhos.
Quando Aiolia conseguiu chegar ao banheiro, Camus estava no canto espelhado do espaço amplo e os três idiotas que o abordaram na pista de dança o cercando.
— Vamos lá Camus, em nome dos velhos tempos! – aquele que Aiolia viu Camus chamar de Hassen disse com uma voz suave, mesmo de costas, Aiolia podia ver que ele tinha a mão dentro da calça. Entre um cara e outro, Camus estava olhando os três e sua expressão era raivosa.
— Vai se foder, se você encostar em mim eu vou cortar sua garganta! – e para provar seu ponto, Camus ergueu o canivete que fez surgir da sua bota fazendo os outros caras recuarem, assustados – Você quer Hassen? Eu vou fazer você gritar, vai ser divertido.
— Sua puta! Eu vou te pegar e bater em você até te deixar desacordado! – Hassen cuspiu e tentou avançar, Camus ergueu o canivete mais uma vez e os outros dois avançaram. Aiolia chegou por trás e puxou Hassen pelo pescoço, num mata leão bem encaixado. A bravata dos outros dois não durou muito mais do que isso, ao verem o amigo preso sob o forte aperto do recém-chegado. Hassen ainda estava tentando tirar o braço de Aiolia do pescoço quando os outros dois escorregaram para fora do banheiro.
— Você vai bater em quem agora? Hã?! – Aiolia disse entre dentes, adorando o sofrimento da merdinha sob o seu jugo – Não parece tão corajoso agora, não é?
— Aiolia, não solta ele! – Camus falou e se aproximou, passando a lâmina do canivete no rosto do outro cara que estava vermelho e começando a ficar desesperado ao se ver preso entre Aiolia e Camus – Se você chegar perto de mim de novo, eu vou enviar essa lâmina na sua garganta! Você está ouvindo?!
Balançando a cabeça freneticamente, Hassen acenou, Aiolia o apertou ainda mais e ele gritou sufocado. Camus ainda estava com o canivete muito próximo e isso trouxe o medo até os limites do outro cara que começou a hiperventilar e então Aiolia o largou, deixando-o cair no chão num baque surdo. Só a expiração sofrida do outro era ouvida no banheiro silencioso, Camus olhava Aiolia que retribuía o olhar e nada era dito. O ruivo estava trêmulo, Aiolia não sabia se era a adrenalina ou o choque de quase ser atacado que o estava deixando assim, mas o advogado não fez qualquer movimento para não assustar ainda mais Camus.
Enquanto Hassen se arrastava no chão, Camus guardou o canivete e cerrou os punhos, foi em um bom timing porque o banheiro foi invadido pelos seguranças e os amigos de Hassen. Mas ele não precisava se preocupar, quando os seguranças viram o filho do senador no chão e que era Camus que estava lá com Aiolia, eles apenas deram de ombros.
— Você de novo seu maldito filho da puta! – um deles resmungou, puxando o cara do chão com uma expressão de desgosto – Vou chutá-lo para fora daqui e Argos vai mandar a conta para o seu pai.
— De novo. – outro segurança disse.
— Vocês estão bem? Precisam que a polícia seja chamada? – o cara grandão que pegou Hassen do chão olhou para Camus, avaliando se ele estava bem – Ele te machucou ruivo?
— Não, ele está bem. – foi Aiolia que respondeu se deslocando para o lado de Camus e então com cuidado ele levou a mão até o braço do ruivo, que se desviou do toque, mas ficou esperando Aiolia para sair do banheiro e foi o que eles fizeram sem olhar uma segunda vez para Hassen.
Quando encontraram Afrodite e Ettore lá fora, Camus apenas disse que estava indo embora e os quatro resolveram que a noite já tinha sido um fiasco completo. Afrodite tinha ouvido sobre a briga no bar e viu quando os seguranças foram ao banheiro, ele estava preocupado que Aiolia e Camus tivessem se machucado, mas ao vê-los sair aparentemente ilesos o deixou aliviado. Mesmo que a expressão do francês não fosse das melhores, mas Aiolia não forneceu mais detalhes e nem Camus então foi em um silêncio tenso que eles voltaram para casa.
Nem bem o carro parou nos jardins da propriedade, Camus saltou dele deixando todo mundo para trás e a atitude do sempre controlado francês deixou Afrodite mordendo o lábio.
— Antes que você comece a se culpar, não. – Aiolia se virou no banco do motorista para olhar para o amigo – Pode não ter sido um momento muito bom, mas não era uma má ideia. Acho que só precisavamos ter conversado sobre as coisas antes de sair, eu fui um idiota hoje também!
— Pelo menos você reconhece. – acrescentou Ettore na conversa, a expressão presunçosa. Mas então ele ficou sério olhando para o namorado e o amigo – Eu acho que vocês e eu tô falando de você Afrodite tentando fazer o Camus ter uma “vida normal” e o Aiolia tem que se conciliar aí com o passado do ruivo. Você sabia onde estava se metendo, você sabe que ele era um prostituto. Agora deixe o Camus em paz. O cara ainda não está pronto, ele ainda está lá naquele deserto e talvez uma parte dele nunca vai deixar aquelas águas. – Ettore virou o rosto para a casa onde Camus tinha sumido – Eu não sei se alguém supera toda essa coisa que aconteceu com ele.
— Ele ia matar aquele cara no banheiro hoje. – Aiolia disse em um murmúrio assustado – Se ninguém estivesse lá, ele o mataria. Camus tinha um canivete na bota, porque ele ia sair armado assim com a gente? Ele estava com a gente, eu ia cuidar dele!
— Ah, eu vi o modo como você cuidou dele! Você o deixou sozinho lá para ser abordado por aqueles caras, você ficou na sua miséria de ciúme e não estava nem aí! – Afrodite apontou para ele e Aiolia desviou o olhar porque o sueco estava certo – Você poderia pelo menos ter tirado a cabeça da bunda! Ele nunca mais vai deixar você entrar.
Agora foi a vez de Afrodite deixar o carro e Ettore olhou para Aiolia pensando em dizer alguma coisa, mas tudo que fez foi apertar o ombro dele e sair também. O advogado respirou fundo e então ligou o carro para sair dali, ele ainda tinha muito em que pensar para poder conversar com Camus. Mas ele não estava pronto ainda para desistir do ruivo, não sem lutar, nem que fosse contra ele mesmo.
— Shura, porque não ir para Barcelona? Ainda temos dez dias.
A pergunta de Aiolos recebeu o silêncio como resposta e o grego fitou o marido sentado naquele pequeno café parisiense, aparentemente entretido com um jornal francês, com atenção.
— Tudo bem, não…
— Acho que deveríamos ir então. – eles falaram ao mesmo tempo, então Aiolos se calou para deixar Shura continuar. Ele não queria impor nada, mas acreditava que eles deveriam ir ver a família do espanhol, sabia que o homem sentia falta das irmãs e sobrinhos – Quando você puder ver do que estou falando, você vai parar de tentar se aproximar deles.
O grego segurou a mão de Sura sobre a mesa e não disse nada. Aiolos não conseguia imaginar que eles não quisessem ver Shura depois de todos esses anos, não era possível que mesmo vivendo com o dinheiro dele ainda não o quisessem em sua vida!
Uma vez que Shura tomou a decisão, eles não permaneceram mais em Paris, chegando em Barcelona no dia seguinte com um sol escaldante! Rapidamente eles fizeram seus registros em um hotel e então Shura procurou alugar um carro para que eles pudessem passear livres pela cidade. Shura contou entusiasmado suas histórias de adolescência naquelas ruas movimentadas e ver o espanhol em sua terra natal era muito bom.
Depois do almoço eles pegaram a estrada para a área rural e eles percorreram as estradas em um silêncio tenso, a tensão de Shura era quase palpável e Aiolos se sentiu mal que estivesse impondo isso ao marido. Mas antes que ele abrisse a boca para dizer que estava arrependido, Shura parou o carro em frente a uma pequena fazenda.
— Chegamos. – ele disse em um fio de voz e então abriu a porta do carro, parando próximo a cerca de madeira e olhando para o espaço amplo até a casa no fim de uma trilha de pedra. Havia um celeiro mais ao fundo e Aiolos podia ver um pequeno galinheiro, ao fundo algumas vacas pastavam, mas era só. A fazenda não parecia próspera e Aiolos duvidava que sua produção fosse mais do que para subsistência.
No terreno havia um varal onde roupas e lençóis secavam ao sol com algumas crianças pequenas correndo por eles.
— ¡Sal de allí ahora! ¡Mancharás las sábanas!— uma voz feminina gritou de dentro da casa e logo passos rápidos e determinados foram ouvidos pelo caminho de pedras.
— Carmem! – Shura gritou da cerca e Aiolos observou que ele não havia encostado na cerca, o corpo todo em preparação para sair dali a qualquer momento.
— Rafael! – a mulher veio correndo para a cerca e então o portão, abrindo-o para que pudesse se jogar nos braços de Shura e enchê-lo de beijos murmurando em espanhol e pela alegria dos dois, Aiolos sabia que não se viam há muito tempo.
— Carmen, esse é meu marido, Aiolos Argenkland. – Shura apresentou depois que deixou a mulher no chão. Aiolos observou como os irmãos eram parecidos, Carmem uma cópia feminina do seu espanhol.
— Prazer senhora. – Aiolos respondeu em espanhol, aceitando o abraço de Carmem, que depois o afastou ainda pegando-o pelos ombros – É muito bom conhecê-la.
— Oh Rafael, veja esse homem! Entrem, o marido do meu irmão não pode dizer que não há uma pessoa educada pelo menos nos Viegas! – ela os trouxe para dentro, falando em espanhol sempre e gritou para as crianças que convergiram para o tio, que logo foi bombardeado por abraços e gritos extasiados. Derreteu um pouco o coração de Aiolos ver Shura e os sobrinhos juntos.
Após Carmem dispensar os garotos para alguns afazeres, eles foram para a cozinha onde a espanhola os serviu de refrescos e ela e Shura engataram uma conversa sobre as novidades do casamento de Shura e Aiolos. Havia uma alegria melancólica em Carmem ao ouvir que o irmão se casou em uma festa linda, mas que ela não estava lá para ver.
— Onde estão? – perguntou Shura quando aconteceu um silêncio na conversa.
— Papa foi à cidade com Anita e o novo marido dela, foram vender a colheita. Raul é um bom homem, trabalhador e justo… Não é violento e ama os filhos dela como seus. – Carmem explicou – Agnella foi entregar a roupa lavada.
— Os garotos estão crescidos! Está tudo bem, estão na escola e estudando direitinho? Nada falta?
— Não se preocupe Rafael, está tudo bem agora, o último dinheiro que mandou ainda está no banco. Estou guardando para quando o bebê de Anita nascer, Raul é um bom homem, mas é tão pobre quanto nós. Agora me conte de você meu irmão, veja esse rapaz maravilhoso! Você sempre foi melhor para escolher seus homens, do que nós.
— Oh Carmem, nós estamos na lua de mel, não comece com as histórias vergonhosas. – os três começaram a rir, Carmem mais divertida.
— Você tem que lembrar que nós temos o mesmo dedo podre – Aiolos apontou entre eles o que fez a morena arquear uma sobrancelha – oh, Carmem! eu poderia lhe contar uma história.
— Agora eu preciso saber! Abra… – mas ela se interrompeu quando ouviu o barulho, Carmem correu para a janela sobre a pia e xingou em espanhol, depois olhou apreensiva para Shura – Madre de Dios!
— É a nossa deixa. – Shura pegou a mão de Aiolos e se levantou, Carmem ia indicar a saída dos fundos para que eles não tivessem que se cruzar com os outros, mas Shura saiu em direção à porta principal e saiu para a entrada como tinham entrado. Havia uma caminhonete velha estacionando na grama próximo ao varal, três pessoas saiam dela conversando alegremente.
Alphonso Viegas olhou para o único filho que não via há trezes anos, primeiro com uma expressão de surpresa e em seguida a velha fúria se instalou na face marcada e bruta do homem. Anitta e seu novo marido Raul se colocaram ao lado do patriarca dos Viegas observando os dois homens que caminhavam para fora da casa deles. A irmã do meio de Shura parecia aflita entre ir até ele e olhar para o pai, Raul apenas olhava tudo em expectativa. Observando como o cunhado estava bem vestido e parecia rico, assim como o homem que ele trazia pela mão, a aliança de ambos brilhava no sol da tarde.
— ¡Fuera de aquí, asqueroso! Asqueroso maricón, no contamines mi casa. ¿Cómo tuviste la audacia de aparecer aquí? ¡Rua tú y el maricón que trajiste! (Fora daqui, seu imundo! Viado nojento, não contamine meu lar. Como teve a audácia de aparecer aqui? Rua você e o viado que trouxes-te!)
Shura apertou a mão de Aiolos e apressou-se pelo portão, debaixo das piores coisas que o pai falava cheio de fúria. Chegaram ao carro e dentro da casa Raul e as mulheres conseguiram levar Alphonso para dentro, Aiolos ainda pode ver os olhos assustados dos meninos que brincavam no terreno livre e Carmem que chorava na janela vendo eles quando partiram a toda velocidade.
Aiolos olhou para Shura com um pouco de apreensão e um tanto assustado também, ele nunca tinha presenciado tal ódio! Até Eleonora apesar de reprovar, era muito discreta e nunca disse uma palavra desagradável sobre ele nos encontros das famílias, mesmo após a morte dos pais de Aiolos. Shura ao seu lado aprecia um fio desencapado prestes a entrar em curto circuito, as mãos no volante tinham um aperto firme sobre o couro, os ombros rígidos de tensão e o pé fundo no acelerador. Tinha sido tudo horrível e Aiolos estava tão profundamente arrependido de ter insistido em vir!
— Pare o carro Shura. – pediu Aiolos voltando a sentar, mas Shura continuou sem lhe dar ouvidos. Aiolos se aproximou devagar e com a voz mais firme que conseguiu, porque ele estava assustado e ferido também pelas coisas que ouviu, ele pediu – Por favor amor, encoste.
O espanhol foi diminuindo a velocidade até encontrar um acostamento, ao estacionar, Shura grunhiu e começou a socar o volante, extravasando a sua dor e raiva ao ver que nada mudou em treze anos. Ao ver seu amor passando pelas mesmas coisas que ele passou quando decidiu dizer aos pais que era gay, estava furioso ao perceber o tom choroso de Aiolos, saber que sua família havia assustado Aiolos àquele ponto! Aiolos conseguiu alcança-lo em meio a fúria e o abraçou e ambos se ancoraram, com Shura chorando permitindo que todos os sentimentos ruins fossem colocados para fora.
— Ele nunca aceitou. Minha mãe? Ele disse que ela ficou doente e morreu por culpa minha. – Shura explicou mais tarde, enquanto eles jantavam em um restaurante aberto em uma das praças menores de Barcelona. O espanhol tinha levado Aiolos ali para distraí-lo e contar sobre sua briga de família – Ele me expulsou de casa depois de me dar uma surra e nunca mais falou comigo ou permitiu que alguém falasse, eu fui para o centro de Barcelona e fiquei na casa de um amigo. Um louco chamado Ettore Mascherane, você conhece ele.
— A gente pensa que atualmente é mais fácil, a verdade é que eu nunca tinha… – Aiolos se interrompeu, perturbado e então um sorriso triste moldou seus lábios – Que patético! Em que lugar estou para falar algo? Minha vida foi superprotegida, ser gay na alta roda não é tão ruim, quanto mais dinheiro você tem, mais você não dá a mínima! Mas veja você, Camus ou até mesmo Ettore, ele já contou sobre como ele se tornou lutador das rinhas, para ser forte o bastante para se proteger. O que nós sabemos? Eu, Afrodite ou mesmo Aiolia? Eu fiz de tudo para proteger o meu irmão de tudo isso e eu achava que era muita coisa, mas comparado ao que você passou… – Aiolos pegou na mão de Shura, levando-a aos lábios – Eu te amo tanto Shura, nunca se esqueça disso. Sei que parece de repente, mas nem a sua família vai me fazer me arrepender de tê-lo na minha vida.
— Eu também te amo, amor.
Shura deu um beijo casto em Aiolos e ambos se acomodaram na mesa, eles já tinham jantado, mas haveria uma apresentação de dança que eles estavam aguardando. Era um final do dia bom apesar do que tinha acontecido, ao contrário do que Shura temia, Aiolos não saiu correndo depois de descobrir o lado feio do seu passado. Eles estavam mais fortes do que nunca e ele amava aquele grego.
A lua de mel deles estava no fim e agora era voltar para casa e cuidar dos seus, pensou Aiolos. Ele tinha que ver como estava Aiolia, sua última chamada no telefone não tinha sido das melhores e pelo que Afrodite contou, Camus também não aprecia bem. Aquele relacionamento tinha muitas arestas ainda, seria complicado ainda. Só esperava que os dois superassem tudo antes de desistir.
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