Notas iniciais
Olá, quem é vivo sempre aparece^^ E não, eu não desisti da fic e em breve o tempo de espera pelos caps será menor eu juro. Obrigado a todo mundo que tá acompanhando e dando feedback seja por aqui ou pelo fb. Ah, o caps de hoje é a própria tsunami. Estejam avisados

— Não tire isso dos olhos dele!

— Afrodite isso pinica, ele nem pode se defender. – Aldebaran olhou para seu paciente com ceticismo, agora o plácido ruivo de quem cuidava tinha a aparência de um cadáver em decomposição. Seu chefe, estava ali sentado ao lado com os cabelos fartos presos em um coque alto, vestido de camiseta e shorts, muito concentrado em misturar algo em uma vasilha com um pincel.

— Quando ele acordar, vai ficar muito agradecido por eu estar cuidando dele. – Estavam na área da hidromassagem porque estava no dia de "spa" de Camus. Era assim que Afrodite chamava os dias em que tirava um momento para cuidar do ruivo além dos cuidados paliativos – Alde querido, me ajude a virá-lo, por favor.

Aiolia deixou para entrar naquele momento, depois que o mordomo o introduziu até o seu mestre.

— Afrodite você já ouviu falar de abuso de incapaz? – Aiolia chegou perto fazendo uma careta ao ver Camus ali deitado em uma esteira com uma toalha cobrindo os quadris e uma gosma estranha cobrindo o resto do corpo. Ele parecia adormecido como sempre, desde que voltaram do deserto. Já eram semanas e o ruivo permanecia inalterado, adormecido como se tivesse ido dormir apenas. Com uns exames mais elaborados, descobriu-se um pequeno coágulo pressionando uma parte do cérebro ao qual os médicos não acharam viável operar, então estava sendo tratado via remédios. Os prognósticos são promissores, o coágulo agora era apenas uma manchinha e o ruivo poderia acordar à qualquer momento.

— Me ajude a sentá-lo. Alde você pode apoiá-lo enquanto o Aiolia me ajuda a lavar o cabelo dele. – Afrodite tinha terminado sua mistura – Gente o Camus vai acordar a qualquer momento e ele tem que estar perfeito como sempre, não é porque está inconsciente que a pele dele precisa ficar um horror.

— Deixa o Aiolos descobrir que você está tratando o Camus como uma Barbie em tamanho real. – Aiolia puxou Camus para ficar sentado e fez uma careta ao sentir que estava se sujando com a gosma verde que cobria todo o corpo do ruivo.

— Veio para me fiscalizar? Melhor ir embora então! – Afrodite fechou a cara e começou a passar o creme nos cabelos compridos de Camus.

— Alguém precisa colocar um juízo na sua cabeça. Algumas semanas na sua mão e o pobre francês está verde e com um aspecto de morto-vivo. – Aiolia deu mais uma olhada, agora notando além do creme o corpo do francês. Mesmo com a inconsciência e os cuidados médicos Camus ainda estava em plena forma, apenas com a palidez mais acentuada.

— Bobagem. Ele vai ficar bonitão para o casamento do Milo.

— Você sabe que ele não vai poder ir, certo? Só se acordar em dois dias. – os dois colocaram o francês de volta na esteira, ambos olhando Camus como se ele fosse acordar naquele momento.

— Estou confiante, preciso me vingar daquela cretina que fez o Milo escolher você e não a mim para padrinho de casamento. – Afrodite estalou a língua.

— Ah Dite! Se for pensar bem,nem vale a pena. Esse casamento vai ser uma merda!

— Pelo menos o Aiolos chamou a mim e Ettore para ser testemunhas no casamento dele. Como um casal! – Afrodite falou animado – Eu mandei fazer um terno exclusivo para a cerimônia, vou colocar o Ettore num terno! Você não está feliz Aiolia? Seu irmão vai casar e a culpa é toda sua!

— Sim!! Aiolos tem que me agradecer para o resto da vida. – Aiolia tinha um sorriso triunfante.

***

— Acho que vou mandar um busto do seu irmão, como os gregos homenageavam seus benfeitores ou alguém importante.

— Ótima idéia Shura. – Aiolos mordeu a nuca de Shura o quadril ondulou devagar e ele posicionou o membro na fenda entre as nádegas do espanhol que soltou um suspiro entre dentes, raspando as unhas no piso encerado – Amor, essa madeira é pau-brasil do século XVIII.

Aiolos voltou a se movimentar sobre Shura, o membro deslizando entre as nádegas enquanto lambia e mordia o pescoço alvo esticado abaixo de seu rosto, roçando vez ou outra a barba por fazer na pele febril do espanhol. Shura fincou as unhas no piso encerado e grunhiu, o pênis duro e gotejante pedia ali deitado – O que acha que faremos com essa sala amor?

— Agora? Que tal foder? – disse Shura em um arquejo, Aiolos se afastou apenas o suficiente para empinar a bunda firme do espanhol para a qual olhou e então lambeu os lábios.

— Não agora, depois. – e então afundou o rosto entre os glóbulos macios fazendo Shura gritar em êxtase.

Depois que decidiram pelo casamento estavam às voltas com a redecoração do palacete antigo que os Argenkland herdaram da família. Como historiadores ambos concordaram em restaurar e não reformar, Aiolos estava tão exultante já que em todos seus planos com Saga o grego só pensava em se mudar para um arranha-céu high-tech. A decisão de casar parecia prematura, no entanto Aiolos ponderou que esperou doze anos por Saga e Shura outros seis. Em resumo, ambos esperaram muito e agora decidiram que não iam esperar mais nada.

Se amavam? Com frequência e em qualquer superfície que achassem boa o suficiente, era como se não conseguissem tirar as mãos um do outro e Aiolia disse que pareciam no cio. Mais de uma vez o leonino flagrou o irmão e atual cunhado em momentos íntimos e a propósito das brincadeiras do mais novo, não foram os flagras que acabaram primeiro, foram as brincadeiras. Shura citou uma vez que o início para o amor era a amizade e o desejo, que talvez fosse bom que eles não estivessem tão arrebatados um pelo outro, o amor viria aos poucos com a convivência.

Havia muita conversa! No começo apenas trocavam impressões sobre os relacionamentos que tinham em comum com Saga, mais de uma vez descobriram que estavam próximos, que o geminiano os manejava ao mesmo tempo e tolos que foram, não se perceberam. Depois eles falavam por horas à fio da sua amada mitologia, suas teses e estudos sobre arqueologia. Aiolia na maioria das vezes se perdia olhando aquelas conversas e amando que o irmão parecia em seu elemento e finalmente feliz de encontrar um igual.

— Aaaah! – Shura se deixou cair de lado no piso e Aiolos o abraçou, colocando as mãos sob a camiseta marrom e mordiscando-lhe a orelha fazendo Shura rir de olhos fechados, sem parar de ir e vir dentro do canal apertado, sentindo Shura se retesar pelo prazer que estava prestes a arrebatá-lo.

— Aqui pode ser sua sala de estudos senhor professor universitário, vai precisar de uma. – Aiolos disse entre ofegos, estava esgotado.

— Hum…

— Isso é um sim? – Aiolos ondulou os quadris, descendo as mãos para a ereção do espanhol que arquejou e gozou – Você é tão lindo gozando.

— Hum… – Shura não tinha nada na mente naquele momento.

***

— Não é irônico que o seu namorado vai casar com o seu amante, Saga? – Kanon passava as notícias na tela do ipad que segurava, estava em todo lugar sobre o casamento do herdeiro mais velho da renomada família de arqueólogos, os Argenkland. Era a sensação da Grécia que o arqueólogo fosse se casar com o também renomado arqueólogo Shura Viegas, o meio acadêmico estava em polvorosa e quem gostava de romance estava espalhando que ambos se apaixonaram depois de serem sequestrados no deserto. Aiolos alimentava aquela fábula dizendo a quem perguntasse que o espanhol lhe salvou a vida lá e agora a sua linda história de amor era o frisson de Atenas. Eclipsando até o casamento do único filho da tradicional família Savalas.

— Não acredito que Aiolos levará essa encenação tão longe. – respondeu Saga ao irmão, os olhos na paisagem que se descortinava pela janela de pé baixo à frente do sofá em que ele deixava o corpo descansar.

— Saga… – Kanon riu de lado e deixou o ipad de lado, apoiando a cabeça nas pernas do gêmeo – Você mesmo disse que não é difícil se apaixonar por Shura e eles são tão parecidos! Aiolos está encantado com o espanhol, Afrodite me contou. Você devia aceitar que você é passado para eles agora.

— Eu jamais vou aceitar! – Saga olhou com irritação para o irmão que apenas riu – Você foi ver Afrodite? Ou o seu namorado?

— Ele não é importante Saga, Camus é problema do Dite agora.

— Bela maneira de resolver sua vida. – Saga riu sarcástico tirando as pernas debaixo da cabeça do irmão gêmeo. Kanon nunca ia tomar juízo era isso que ele pensava, não fazia nada para mudar a própria vida enquanto cabia à ele, Saga, assumir as responsabilidades e não decepcionar os pais. Estava começando a se irritar com isso – Você vai ser irresponsável a vida inteira?

— Não jogue suas frustrações em mim. A culpa não é minha você viver dentro de um armário Saga.

Kanon se ajoelhou perto do sofá e subiu as mãos pelas pernas de Saga que usava um short e uma camiseta apenas. Acabara de chegar do trabalho e já trocou a roupa por uma mais fresca, Kanon ainda estava com a roupa que chegou, camisa e gravata. A única reação de Saga para o movimento do irmão foi um arquear da sobrancelha escura. O gêmeo três minutos mais novo repetiu o movimento mais uma vez, terminando-o dessa vez com uma das mãos sobre o penis de Saga.

— Pensei que essa sua tara por mim tinha ficado na adolescência. – disse Saga olhando aquele rosto tão igual ao seu.

— Você não entende que a pessoa ideal maninho é aquela que faria tudo por você, que sempre estaria de joelhos e o adorando. – Kanon lambeu os lábios, pressionando o penis de Saga que para o seu deleite começava a responder à ele. Sempre foi assim, mesmo quando Aiolos estava entre eles.

Saga segurou o irmão pelos cabelos da nuca, um puxão firme e doloroso e o rosto de Kanon estava à centímetros do seu. Com os olhos semicerrados fitou todas as linhas do rosto do outro, era como se vê em um espelho.

— Isso é mais louco que dizer a eles que somos gays. Eleonora morreria. – continuou Saga e Kanon apenas umedeceu os lábios ainda trabalhando no membro de Saga sob o short.

— Foda-me. – disse Kanon se desvencilhou do irmão e se ergueu ficando em pé e Saga podia ver pela calça o contorno da furiosa ereção. Kanon levou a mão à gravata para começar a tirá-la.

— Deixe a gravata. – a voz de Saga era um sussurro e então Kanon riu exultante.

Era uma loucura! Prometeu que não tocaria mais em Kanon, a primeira vez foi na adolescência em que o irmão parecia uma tentação saída do tártaro para lhe tentar! "Eu quero que você seja o primeiro Saga" dissera enquanto enfiava-se em sua cama no meio da noite, desesperado e ansioso. No dia seguinte ao que confessou-lhe que pediu Aiolos em namoro às escondidas, Kanon sumiu no dia em que passou com Aiolos em Creta e a noite também preocupando a família. Quando voltou já era muito tarde e se recusou a dizer onde esteve, a falar com quem quer que fosse inclusive Saga.

— Eu quero você. – Kanon voltou a se ajoelhar na frente de Saga e agora era o rosto que estava sobre a virilha de Saga.

"Eu quero você." fora o mesmo pedido de dezessete anos atrás e assim como antes ele não resistiu a voz grave e sussurrava aquele pedido.

***

Eleonora chegou a mansão Papadopoulos e entrou rapidamente sem esperar que viessem lhe abrir a porta. Veio de Creta apenas para colocar Kanon na linha e resolver o quanto antes aqueles boatos sobre o prostituto inconsciente, não ia admitir mais aquele escândalo atrelado à família. Iria falar com os irmãos Argenkland e aquele sueco atrevido, seria melhor mandar aquele ruivo para uma casa de repouso o mais longe possível e logo aqueles boatos desapareceram.

— Onde está Kanon? – a mulher perguntou com sua voz severa, deixando o casaco de peles e luvas com o mordomo e sem parar para olhá-lo.

— Na saleta com o senhor Saga, minha senhora. – o homem recolheu as coisas humildemente não ousando interromper a matriarca dos Papadopoulos, ele sabia melhor do que isso.

— Vá buscar Afrodite, quero falar com ele o mais breve possível! – disse Eleonora subindo as escadas sem esperar para ver se o mordomo tinha ido cumprir suas ordens.

O barulho de carne se chocando contra carne podia ser ouvido no corredor e Eleonora torceu o nariz, imaginando que Kanon trazia seus amantes para aquela casa! Precisava separá-lo de Saga, salvar pelo menos um filho da depravação à qual Kanon se afundou. Agneta que estava certa em casar Milo logo, faria o mesmo com Saga urgentemente!

Abriu a porta da saleta esperando pegar o gêmeo mais novo em puro flagrante, dessa vez ela iria discipliná-lo! Estava pronta a jogar suas recriminações e cima do filho, mas as palavras ficaram presas na garganta assim que a porta ficou totalmente aberta.

Kanon estava no tapete, apoiado em seus joelhos e pelos ombros e rosto que arrastavam na trama macia do tapete persa caríssimo, os pulsos estavam amarrados atrás das costas pela gravata e as mãos de Saga seguravam os quadris do irmão arremetendo nele com força, ambos perdidos no frenesi de peles suadas e friccionadas em êxtase.

— Me foda Saga! Com força! – gritou Kanon ao ouvir a porta abrir e Saga se retesar, mas não se importou quando reconheceu os Jimmy Choo favoritos da mãe.

Alguns segundos de hesitação em que os três personagens daquela cena aguardavam o próximo movimento, aguardando a decisão de Saga que para o terror de Eleonora cedeu ao pedido do irmão. Saga puxou as mãos amarradas de Kanon e o ergueu até que as costas do gêmeo estivessem coladas em seu próprio peito, os rostos idênticos olhavam agora para a genitora e Eleonora arquejou ao ver o desejo cru e profundo em ambos os filhos. Quando Saga afundou nele outra vez, Kanon soltou um grito de êxtase olhando a mãe com rebeldia e Eleonora em sua confusão queria entender como aquela criança que saiu dentro de si a odiava daquela forma?

Eleonora levou a mão ao coração, parecia que ele estava prestes a arrebentar, começou a se afastar da porta, se desequilibrando no meio do caminho e quando percebeu os lances da escada já estavam sob ela…

O clímax dos gêmeos chegou junto com o corpo de Eleonora Papadopoulos ao fim da escada.

***

Afrodite acompanhou Andreas até a casa dos Papadopoulos sem entender direito o que a matriarca queria com ele e quando chegaram lá encontraram uma confusão de paramédicos, empregados devastados para lá e pra cá. Saga e Kanon estavam na entrada olhando apáticos para a maca coberta que saía da casa, não havia muito o que fazer quando os médicos chegaram e num minuto Saga estava em extase pós-orgamo, para no outro descobrir que a mãe estava morta escada abaixo.

— O que aconteceu? – o sueco se aproximou dos gêmeos, estava preocupado ao ver como ambos estavam mal arranjados e amassados, Saga tinha um olhar lunático nos olhos.

— Ela teve um ataque cardíaco enquanto descia as escadas. – Kanon respondeu, ele parecia quase bem apesar do olhar mortiço.

— Você sabe porque ela me chamou aqui Kan?

— Não era nada importante, volte para casa. – Saga disse com um tom apático.

— Vocês estão bem? Posso ajudar em alguma coisa? – Afrodite mordeu o lábio e olhou de novo para os gêmeos.

— Vá embora Dite! E diga para Camus parar de aparecer em meus sonhos! Eu não consigo dormir, ele não me deixa em paz. – Kanon se contorceu e colocou as mãos na cabeça, Saga se moveu para confortá-lo, mas acabou mudando de ideia e parou no meio do caminho.

Afrodite girou e saiu quase correndo de lá, um arrepio gelado percorreu sua espinha ao lembrar do que Kanon lhe disse, parecia absurdo, mas eles não tinham visto o rio dos mortos? Não tinham visto o cavalo morrer e aqueles homens da magia no deserto? Tudo era possível!

Chegou em casa, ofegante e assustado quase trombando com Mascherane que estava saindo naquele momento.

— Que houve mi fiori? – o arqueólogo segurou o namorado pelos ombros e os grandes olhos azuis de Dite estavam arregalados e seu rosto pálido.

— A mãe dos gêmeos morreu Ettore! Ela mandou me chamar lá e bateu as botas Mascherane?! O que diabos está acontecendo?! – Dite segurou os antebraços do italiano para se firmar – Os gêmeos estão estranhos, Kanon disse que Camus o visita em seus sonhos! O que significa isso?

— Não tenho ideia bello! Ele lhe disse isso? – Ettore arqueou a sobrancelha, mas seu lindo sueco estava perturbado demais para deixar passar aquela informação.

— Disse! Meu deus e se ele virou um fantasma e está se vingando deixando Kanon louco?! Você nunca viu nada assim naqueles livros velhos que você lê?

— Isso são coisas de filmes de terror, Dite. Camus está doente, ele vai acordar em breve e não há nada sobrenatural nisso. – Ettore queria acalmar o sueco, mas ele parecia muito assustado com aquela possibilidade.

— Porque ele visitaria Kanon nos sonhos? E se a alma dele não consegue voltar… – Afrodite ergueu o olhar sobre o ombro de Mascherane e um rápido flash de vermelho no alto da escada lhe chamou a atenção.

Quando Afrodite focou o olhar havia uma figura no alto da escada e o sueco saiu da sala aos berros.

***

Ettore entrou no quarto, agora iluminado pelo sol da tarde e como todo dia olhou para a cama, mas ela estava vazia porque o ruivo que se encontrava nela estava sentado na frente da penteadeira chique do quarto. Camus virou-se a entrada do italiano e então Ettore engoliu em seco ao ver o brilho daquele olhar avermelhado incomum.

O italiano foi escolhido para subir e ver Camus, escolhido não é bem a palavra, já que eles tinham tirado no palitinho e Ettore perdera. Ninguém tinha coragem de subir depois do que Afrodite dissera.

— Por que todos estão com medo de mim? – os dedos ágeis de Camus trabalhavam nas mechas ruivas que pareciam fios de sangue entre os dedos pálidos. Ettore nunca o achou tão etéreo, tão vindo dos mortos como agora! Ele não conseguia tirar da cabeça que aquele ruivo tinha caído no rio dos mortos e agora ressuscitou.

— Não sabemos como agir. – foi tudo que o italiano disse, Camus voltou de novo aquele olhar profundo sobre ele e Ettore recuou, o que levou um leve sorriso ao prostituto.

— Eu quero ir ao enterro. Acha que pode me levar? Ao casamento também, curioso como esses dois acontecimentos estão acontecendo hoje e em ambos há um sentimento pungente de perda... Não é curioso Ettore? – a voz de Camus era uma melodia aveludada e tranquila como se ele fosse o sábio cego que eles encontraram no deserto.

— Mais do que você acordar e já saber tudo isso, impossível! – e ele estava sendo muito sincero.

— Eu ouvi vocês comentando, sobre a mãe dos gêmeos e o casamento. Afrodite estava aqui falando que eu precisava acordar e ver o casamento de Milo. – Camus se ergueu e começou a vir na direção dele. Havia vestido um roupão negro que encontrara no closet próximo e parecia quase normal agora com o cabelo trançado e aquele robe de cetim.

Camus passou por ele e saiu de novo para o corredor, Ettore só pode acompanhá-lo até a sala onde todos os amigos estavam reunidos. Afrodite acabou chamando todo mundo, todos estavam surpresos que Camus finalmente acordou sozinho e sem precisar de ajuda, nem parecia que ele estava há semanas em coma.

O que ninguém sabia é que o ruivo tinha despertado, trazido de volta por uma força inexplicável. Quando abriu os olhos a primeira coisa que viu foi uma figura de branco ao seu lado, os dedos cálidos tocaram sua testa e o ser falou em uma língua diferente, então ergueu seu olhar cego para Camus e desapareceu. Aquilo o deixou tão assustado que o fez sair da cama aos tropeços, até encontrar Afrodite e Mascherane na sala embaixo e o sueco sair de lá aos gritos!

— Porque está todo mundo aqui? Quando voltamos do deserto? Onde estão as minhas coisas? – Camus parou ao pé da escada vendo que todos o olhavam de forma estranha.

— Você anda aterrorizando as pessoas nos sonhos Camus? – Afrodite soltou antes que a cotovelada de Aiolos o acertasse.

— Pelo amor de deus! Eu nem sei que dia estamos, quanto tempo eu dormi? – Camus franziu o cenho, levou a mão a cabeça que ainda estava dolorida, um dos lados estava raspado e uma leve penugem começava a nascer – Porra, o que fizeram na minha cabeça?!

— Oh querido! – Afrodite correu e abraçou Camus, já completamente esquecido que quase infartou de susto por causa do francês — Venha, vou contar tudo, vamos sentar.

***

— Afrodite acha que é de bom tom vir para o casamento do seu primo todo de preto? – Milo tentou gracejar quando viu o primo se aproximar do altar e cumprimentá-lo.

— Não sou o único, tivemos que vir do enterro de Eleonora direto pra cá, não deu tempo de trocar de roupa. – Afrodite abraçou o primo e em seguida a tia – Mas quem se importa? Com esse clima de funeral nesse casamento, nem parece que trocamos de evento! Gostou do meu terno tia Agnetha?

Agneta Savalas recebeu os beijos do sobrinho tentando não gritar.

— Olhe para o fundo da igreja. – Aiolia disse à Milo baixinho. Era o padrinho junto com a melhor amiga da noiva, Marin Saab então estava de fraque igual a Milo.

Milo viu os amigos se reunindo ao fundo, já tinha achado surpreendente que o primo tivesse vindo e sabia que todos os outros não concordavam com o casamento. Mas não podia desistir agora, não quando não tinha esperanças de que um certo ruivo…

— Camus! – e Milo ficou boquiaberto.

O temido nome que Agnetha ouviu uma vez dos lábios do filho e ela virou-se na mesma direção em que o olhar de Milo estava, vendo enfim a pessoa a qual Milo não conseguia esquecer.

Agnetha viu o filho descer os degraus do altar e praticamente correr para os fundos da igreja sem se importar que sua noiva estava prestes a chegar, ela interrompeu sua conversa com os pais de Shina e ia sair atrás do filho, mas foi chamada pelo padre, tendo que voltar para o seu lugar e explicar porque o filho não estava ali aguardando a noiva. Milo tinha o coração batendo descompassado e não tirava os olhos do ruivo que parecia uma miragem do deserto em um terno preto de corte perfeito, o cabelo vermelho em um penteado lateral que mostrava o lado raspado. Milo tinha ouvido de Afrodite que eles tiveram que raspar por causa do coágulo, para uma pequena intervenção, como tudo naquele ruivo, o corte acabou o deixando ainda mais exótico!

— Que bom que vieram. – Milo cumprimentou a todos, mas seus olhos não deixaram Camus em nenhum momento. Agora de perto, ele parecia abatido e muito pálido, mas ainda tão bonito quanto o grego se lembrava – Você finalmente acordou.

— Sim eu estou aqui Milo. – Camus se aproximou, olhando Milo de alto a baixo, achando-o arrebatador naquele fraque – Vamos embora daqui, juntos.

Depois de conversar com Afrodite e os outros, saber que o que tinha acontecido no deserto fora semanas atrás e que estava praticamente voltando dos mortos, acabou mudando algumas perspectivas para Camus. Era agora ou nunca, ele estava dando-se uma chance e esperava que Milo lhe desse também.

— Milo! Diga alguma coisa! – Afrodite pediu e Aiolos segurou o ombro do sueco para contê-lo, já tinham feito tudo que podiam e não poderiam forçar Milo. Era uma situação muito delicada e o advogado tinha que pesar no que estaria perdendo se decidisse seguir o ruivo para fora dali.

Antes da resposta de Milo a marcha nupcial começou a ecoar pela igreja e as portas foram tomadas pelas madrinhas em seus vestidos e a linda noiva em cetim branco como a neve de braço dado com o pai.

A noiva interrompeu o cortejo ao ver que seu noivo não estava no altar e sim, ali perto da entrada olhando-a atônito.

Parecia a Camus que ele tinha voltado a tenda do mercenário, amarrado e amordaçado à espera do que o homem faria com ele. Ele sentiu as mãos de Aiolos e Shura em si, lhe sustentando e o clima pesado que se instaurou em volta. Ver que Milo estava hesitando entre ele e Shina estava lhe matando.

— Vamos querido, fale com seus amigos depois. – disse Shina com um sorriso doce.

— Milo Savalas! Não nos envergonhe. – Ulisses se meteu na frente do filho, tinha vindo do altar para arrastá-lo dali.

— Milo eu te amo. – Camus se aproximou, tentando passar por Ulisses, mas o patriarca Savalas estava atento e deu um empurrão no ruivo que só não caiu por causa dos amigos.

— Fique longe do meu filho seu invertido imundo! Aproxime-se de Milo e eu o matarei! – Ulisses tentou alcançá-lo de novo, mas Mascherane e Shura agora protegiam Camus, o italiano estava pronto a desferir socos.

— Papa, vamos, por favor! – Milo puxou o pai antes que tudo piorasse e tentou ignorar o olhar ferido de Camus sobre si – Vamos o casamento precisa começar.

Milo queria gritar, mas forçou-se a se controlar e tirar o pai dali, voltar para o casamento porque era tarde demais para voltar atrás e também porque era covarde demais para largar tudo assim.

O cortejo começou e Milo deu um último olhar a Camus deixando-o ver todo o arrependimento que ele sentia, o olhar castanho de Camus estava marejado, mas o francês não deixou que as lágrimas caíssem. Ele respirou fundo e esfregou os olhos se arrumando e ajeitando o terno para voltar a sua pose altiva, os amigos o cercaram.

— Vamos embora, esse casamento já deu! – disse Aiolos, estava tão decepcionado com Milo.

— Eu vou ficar, quero ver até o fim. – Camus disse e deu um passo a frente se aproximando do último banco da igreja.

— Por que Camus, em que isso vai te fazer bem? – Afrodite perguntou. Sentia o sofrimento do francês e não acreditava que Camus queria impor mais isso a si mesmo, já se sentia muito culpado por ter desejado tanto que o ruivo acordasse a tempo do casamento do primo. No fundo tinha esperanças que Milo fosse sim largar tudo para ficar com o homem que amava, todo mundo sabia disso, porque ele não admitia?

Camus não respondeu, ficando atento a cerimônia que se desenrolava. Shina estava radiante agora que tinha Milo ao seu lado e seu pai entregava-a ao seu futuro marido. Os pais de Milo olhavam o ruivo com desdém indisfarçado, mas o francês não desviava o olhar, mesmo que ele sentisse que estava morrendo de novo ao ser rejeitado daquela maneira. Mas ele não morreu naquele deserto, não depois de ter seu corpo violado e espancado por aquele mercenário, não morreu por correr no deserto gelado e parar naquele rio escuro de miragem. Ele sobreviveu ao rio dos mortos, ele sobreviveria a Milo Savalas.