If There is something
5 Capítulo 5
Notas iniciais
No dia seguinte quando Shura acordou além de ver o corpo bronzeado junto a si, conseguia ouvir que o acampamento estava ativo e preparando-se para partir.
Os Rijás estavam ajudando os beduínos a arrumar o acampamento, assim que os estrangeiros começaram a sair das tendas, Ikki se dirigiu a eles.
— Preparamos cavalos e uma carroça para transportar o homem ruivo. – o Rijá moreno explicou à Aiolos e Shura – Vou destacar uma equipe e vou pessoalmente escoltar vocês até Cairo, Shaka levará os nossos e nosso guia para casa.
— Os beduínos irão embora também? – observou Aiolos olhando em volta o acampamento ser desmontado.
— Isso, eles são nômades, não ficam em um lugar muito tempo e nem perto de cidades com frequência. Só estavam aqui, por causa dos mercenários.
— E os mercenários? – Mascherane saiu da tenda estalando as costas. Mataria por um banho, estavam naquela confusão há dias, não sabia mais o que era cheiro do deserto, cheiro das roupas sujas, do suor.
— Matamos todos. – Fênix disse de modo simples, deixando a mão descansar na faca longa que usava, gesto não passou despercebido por ninguém do grupo dos arqueólogos – Venham partilhar uma ultima refeição conosco e então nós partiremos, venham Asmitha ainda quer abençoá-los antes de irem.
Saiu na frente esperando que os outros o seguissem, o que fizeram aos poucos e com muito receio.
— Mais cristalino que agua. – comentou Milo contrito, os outros assentiram para ele – Acredito que não iam deixar os mercenários para que eles voltassem e encontrassem o acampamento deles, certo?
— Vamos nos certificar de nunca mais voltar aqui. – Afrodite comentou olhando Fênix pelas costas – Já acabei com minha cota de ser salvo.
— Eu estou aqui para salvar você Bello. – Ettore galanteou para Afrodite e o sueco sorriu deixando-se envolver pelos braços do italiano.
— Peraí o que eu perdi? – Aiolia olhou em volta, seu irmão e Shura andando juntinhos, Afrodite e Ettore abraçados como se tivessem íntimos. Ele e Milo se olharam achando tudo muito esquisito – Ah não, Milo vem aqui...
— Sai fora, eu ‘tô de casamento marcado. – o loiro saiu de perto do Argenkland mais novo antes que lhe desse ideias.
— Fiquei sozinho! Eu não acredito, eu só me fodo. Só alguns dias! Alguns malditos dias e vocês estão apaixonados? Pelo amor de deus, não é possível.
Depois de uma refeição de caldo e pão, lhes foi entregue cavalos e Mu vinha trazendo a carroça onde Camus estava acomodado e dormia serenamente, Afrodite e Aiolia acabaram ficando na carroça, Milo resolveu ir com o cavalo com Ettore e Shura foi noutro com Aiolos. Ainda seria um dia e meio até que chegassem próximo do Cairo, mas quando a noite estava caindo no deserto eles avistaram faróis e os Rijás se prepararam para algum eventual ataque, contudo ao se aproximarem mais os carros, Aiolos e Shura reconheceram uma cabeleira longa e negra voando a ação do vento.
— É o Saga. – eles se olharam e assentiram, os que estavam na carroça se esticaram para olhar o destacamento que se aproximava. Eram muitos carros, provavelmente Saga movimentou meia Cairo para procurá-los.
— Devemos partir antes de eles chegarem, vocês devem falar a eles para não nos perseguir. – Fênix disse a Shura – Estão seguros agora e cuidem dos seus, cuidem do homem de cabelos de fogo se ele acordar. Não o deixe mais cair nas mãos de homens como aquele que o vendeu ao mercenário, guardem as palavras de Asmitha, ele sabe o que fala.
— Obrigado meu amigo, por nos salvar. – Shura desceu do cavalo e abraçou Fênix que também havia descido os outros também desmontando – Deixarei a sua carroça no hotel, para que a tome de volta...
— Deixe-a com o mercador que lhe falei, ele saberá conduzi-la de volta para nós. Tome cuidado espanhol louco, não se meta mais em confusão! – eles se despediram então, Fênix abraçou ainda Ettore e Aiolos e então partiu com seus Rijas, deixando os estrangeiros próximos a carroça.
Logo os carros se aproximaram e então Saga desceu de um dos jipes, seguido de homens vestidos de negro e outros com um emblema da cruz vermelha. O empresário correu para próximo dos seus dois amores, vendo-os juntos e sentindo-se aliviado por poder vê-los vivos. Estava quase abraçando-os ao mesmo tempo, mas no ultimo minuto recuou, algo na proximidade entre Shura e Aiolos o incomodou.
— Eu estava ficando desesperado. A polícia não queria vir, apelei para a embaixada e nada. Tive que contratar meu próprio pessoal. – disse olhando para Aiolos e em seguida para Shura, ambos tinham uma expressão fria e indiferente – Eu quase achei que não ia conseguir e quando Kanon apareceu, foi um sinal.
— Sinal... – Aiolos disse com escarnio e Shura sorriu de lado, o mesmo escarnio.
— Não toque nele, não pode carrega-lo assim e se ele tiver com algum osso quebrado? – eles foram interrompidos pelos gritos de Afrodite.
— Seu animal, ele pode estar ferido! Mais cuidado! – Aiolia esbravejava também. Foi quando Saga olhou para a carroça e viu que alguns dos enfermeiros que trouxera estavam examinando alguém que vinha deitado.
— Quem está ferido? – Saga perguntou, mas seus olhos acompanharam Aiolia Argenkland sair da carroça carregando a pessoa, pouco se via além dos cabelos vermelhos – C-Camus? Vocês o...
— Sim, ele foi resgatado. Então seu irmão contou o que ele fez no deserto? – Shura disse para o grego – Pensei que ele não teria coragem.
— Kanon disse que vocês foram sequestrados por mercenários, ele disse que negociou ouro e joias com eles, por isso foi trazido para o Cairo.
Milo começou a rir, era horrível o som porque estava impregnando de escarnio e um tanto de desespero. Talvez agora o estresse de ter sido sequestrado estivesse cobrando seu preço e ele estivesse entrando em colapso.
Aconteceu uma movimentação, os enfermeiros se aproximaram dele e um deles o trouxe para um dos carros, Aiolia foi encaminhado para uma ambulância adaptada com Camus e os demais estavam sendo convidados a entrar no restante dos jipes. Saga passou o braço sobre os ombros de Shura e Aiolos, eles terminariam de conversar no hotel.
Shura se desvencilhou primeiro, entrando em um jipe à direita em que já estava Milo e uma enfermeira. Aiolos o seguiu e então Saga teve de ficar no Jipe restante sozinho com o resto dos mercenários que contratou.
***
Ao chegar ao Cairo tiveram que reportar a policia sobre o sequestro e o grupo de mercenários, foram longas horas de depoimentos que só acabaram porque acidentalmente Milo soltou o nome Fênix na delegacia e então tudo pareceu mudar. O superintendente agradeceu efusivamente aos céus pela graça alcançada sobre os estrangeiros, disse-lhes que a cidade se responsabilizaria por tudo e que voltassem ao hotel. Estava lá o representante da cidade para assegurar que eles não se preocupassem, mas que mantivessem a historia em absoluto sigilo e que tudo fosse perdoado. Assim eles foram dispensados para a indignação de Saga, mas Shura e Ettore entenderam o que havia acontecido e pediram que os amigos ficassem quietos. No fim, estavam livres para ir ao hotel e descasarem.
Camus foi levado ao hospital da cidade para exames, Aiolos e Afrodite não mediram esforços para que ele recebesse o melhor tratamento que o dinheiro poderia pagar.
Afrodite havia ido para o hotel com Mascherane e Milo que aparentemente estava melhor depois do surto e Aiolia o levou para seu quarto e em seguida foi para a cobertura que dividia com Mascherane e Afrodite.
— Eu preciso pegar as coisas de Camus no quarto do Kanon. – Afrodite ajeitou a roupa o melhor que pode e já se dirigia a porta.
— Pensei que você estava louco por um banho! – Aiolia disse estranhando o amigo que estava quieto demais desde o resgate.
— Bello, eu pego isso depois, você pode tomar seu banho agora. – Ettore saiu do banheiro se sentindo revitalizado – Vou buscar as coisas do rapaz para você, se quiser.
— Eu mesmo vou. – e com isso ele saiu e fechou a porta. Não precisou trocar de andar, porque Kanon ainda estava no mesmo quarto, de frente para o de Milo.
— Afrodite? – o gêmeo de Saga se espantou ao ver o sueco na sua porta.
— Onde estão as coisas do Camus?
— E-Estão ali... Vocês... Ele? – o grego perguntou enquanto era empurrado para fora do caminho e Afrodite entrava no quarto começando a catar as coisas que achava que era do francês. Havia pouca coisa fora das malas que ele trouxera, Camus era organizado, pensou Afrodite – Onde ele está?
— Ettore! – gritou Afrodite quando pegou as malas e as fechou, o italiano estava na porta um segundo depois de ouvir seu nome. Afrodite vinha empurrando as malas para ele – As coisas do Camus. Você pode procurar e ver se tá tudo aí? Documentos e tudo mais? Precisamos levar os documentos dele para o hospital. – Ettore assentiu rapidamente pegando as malas e Kanon ficou ali no meio do quarto ouvindo o sueco falar sobre Camus estar no hospital. Então ele conseguiu se safar dos mercenários e estava muito machucado? – Agora vai, se não encontrar alguma coisa aí me avisa.
Antes de Ettore protestar, Afrodite fechou a porta na cara dele e se virou para Kanon.
— Agora nós vamos conversar.
***
Quando o resto da expedição Estige chegou ao hotel, isso significava Aiolos e Shura, havia um alvoroço no andar deles e eles precisaram abrir caminho entre hospedes e funcionários. Aiolia e Ettore estavam em frente à porta de um dos quartos de onde vinha o barulho de coisas quebrando e baques surdos.
— O que está acontecendo?! – Aiolos teve que gritar quase, porque parecia que havia um furacão no outro quarto.
— O... O Dite tá aí! – Aiolia disse olhando para o irmão, a expressão do leonino era assombrada.
— Eu ia avisar que tá faltando... – Ettore falou devagar, ele estava com uma expressão preocupada e todo mundo em volta deu um sobressalto ao ouvir um barulho forte vindo de dentro do quarto.
— A identidade. – Afrodite meio descomposto e ofegante, abriu a porta– encontrei, eu revirei o quarto inteiro, que bagunça!
Afrodite saiu puxando Ettore para o quarto deles e o resto ficou observando o quarto aberto e o grego que estava ao fundo parecendo tão bagunçado quanto o quarto, mas com o acréscimo de sangue no rosto. Afrodite tinha feito um trabalho tão bom quanto Shura fizera em Saga no aeroporto, parecia que havia passado um furacão no quarto e em Kanon Papadopoulos também.
— E eu duvidei quando ele disse que ia bater no Kanon. – Aiolia chegou perto do irmão de Saga e o olhou com um sorrisinho irônico nos lábios cheios. A essa altura já estavam no quarto Aiolos, Saga e Shura.
— Por que ele fez isso? Que diabos aconteceu? – Saga estava amparando o irmão, vendo o rosto dele machucado, Kanon pegou na altura do peito e arfou porque sentiu uma dor imensa.
— Seu irmão perfeito não lhe contou? – Milo apareceu na porta, ele já tinha afugentado todo o publico e agora eram só eles – Porque não contou Kanon que você trocou uma pessoa e alguns milhões pela sua bunda?! Você deu Camus para o mercenário como se ele fosse seu escravo, uma coisa que você comprou e lhe pertencia. Por sua causa ele foi violentado e quase foi morto no deserto!
— Tudo bem Milo. – Shura pegou no peito do amigo, o impedindo de entrar no quarto totalmente – Não merecem, os dois.
— Vamos embora Aiolia. – Aiolos chamou o irmão também ainda lançou um olhar cheio de desprezo para Saga e Kanon e então saiu com o irmão dali. Saga se virou para o irmão que agora não ousava encará-lo.
— Kanon o que eu vou fazer com você?
Algumas horas depois, depois de seu merecido banho. Aiolos estava aplicando antisséptico nas mãos do amigo sueco, ele havia machucado os nós dos dedos na sua “bagunça”.
— Ele merecia mais, meu deus eu podia matá-lo! Eu nem sou rancoroso, mas meu deus do céu injustiça eu não aceito... AÍ AIOLOS!
— Que bom que está doendo bastante. – Aiolos apertou a gaze um pouco mais e Afrodite gritou de novo – O que você estava pensando? Você não é incivilizado, que loucura bater no Kanon daquele jeito e se ele te matasse?
— Que eu saiba o lutador aqui é o Mascherane. – Aiolia comentou de passagem, sem tirar os olhos do celular.
— Juro que eu não sabia o que ele ia fazer. – Ettore deu de ombros, ele estava comendo na mesa de jantar.
— Eu quero logo ir embora daqui. Eu já liguei para casa, pedi que arrumassem tudo para o Camus e contratei um enfermeiro e tudo mais, provável que o hospital o libere já que ele está bem.
— Você tem certeza disso Dite? Ele pode ficar em casa também. – Aiolos começou a enfaixar a mão do sueco.
— Não tudo bem, pode deixar. Eu o conheço de algum tempo, nós já tivemos alguma intimidade e de qualquer forma minha casa é mais perto se o Milo quiser ir vê-lo. Olha só, eu até sou um anjo deixando o Milo ter uma segunda chance.
— Afrodite baixou a voz para que só Aiolos ouvisse – Se Camus nunca mais acordar?
Aiolos não queria pensar nessa possibilidade, seria terrível demais depois de tudo que Camus passou e para Milo também. O escorpiano se fechara, mas Aiolos sabia que ele estava aterrorizado com a possibilidade de Camus piorar ou até mesmo morrer. Mas o arqueólogo achava que Milo não arriscaria sua vida para cuidar do ex-prostituto.
Depois de terminar o curativo, o Argenkland mais velho foi para o seu quarto que iria dividir com Shura.
— Saga arrumou passagens para todos no voo de amanhã, ele conseguiu um voo com estrutura médica para Camus e tudo – Shura disse quando ouviu a porta bater, tinha acabado de tomar banho e estava se enxugando. Aiolos não pode deixar de percorrer o corpo molhado à sua frente, Shura só tinha uma toalha pequena envolta na cintura – muito eficiente!
— Remorso move as pessoas Shura. – o grego remexeu nas malas a procura de roupa limpa e seu material de higiene.
— Tem razão, vamos deixá-lo penar um pouco. Você vai amar o banho Aiolos, eu já pedi comida e logo chegará, porque não se apressa nesse banho. – Shura se aproximou no momento em que Aiolos ficava em pé e Shura ficou a centímetros de suas costas – Temos tanto que conversar, terminar aquele papo da fogueira.
— Verdade. – Aiolos sentiu o corpo fremir com a proximidade do outro. Afastou-se balançando a cabeça e então foi para o banheiro antes que resolvesse tirar as roupas e aquela toalha do caminho.
Um momento depois quando a comida chegou e Shura foi abrir a porta já vestido com um moletom, ele viu que ela não tinha vindo sozinha.
— Eu preciso muito falar com vocês dois, por um momento. – Shura tinha aberto a porta o suficiente para o serviço de quarto passar e Saga aproveitou a brecha para entrar também.
— A comida chegou? – Aiolos saía do banheiro de roupão e ao ver Saga olhou para Shura com uma sobrancelha arqueada. O espanhol apenas deu de ombros e não disse mais nada.
— Vou ser rápido, prometo. – Saga ergueu as mãos em um gesto de paz, Shura estava agradecendo o rapaz do serviço de quarto e lhe dando uma gorjeta depois ele mesmo empurrou o carrinho até a mesa de jantar – Eu fiquei todos esses dias pensando no que podia dizer a vocês dois, eu estava louco pensando nos horrores que ambos estavam passando naquele deserto nas mãos de bandidos.
Mas pensei também em como vocês poderiam se conhecer melhor e sei lá construir uma relação de amizade lá que não tinham aqui... – Aiolos havia jogado o roupão na cama e vestia um short e camiseta – a voz de Saga foi morrendo ao olhar o corpo do ex-namorado que mesmo com a pele bronzeada estava com marcas. Lembrou-se que eles disseram que nunca foram feridos e que estava tudo bem, mas aquelas marcas escuras na virilha de Aiolos... O arqueólogo seguiu o seu olhar e então sorriu.
— Ele tem uma boca maravilhosa. – disse sacana e olhou para Shura que estava nesse momento levando um pouco de comida à boca, ele não estava prestando atenção na conversa e não entendeu quando sentiu os olhares dos gregos em cima de si.
— Vocês... N-não! Vocês transaram? – Saga parecia que estava tendo um infarto.
— Apenas por falta de uma logística melhor. – Shura engoliu a comida e tomou a agua, parecendo muito calmo – Vem comer cariño.
Aiolos se adiantou à fala de Shura e Saga também, ele estava acostumado a ser chamado assim pelo espanhol então foi quase uma reação automática. Contudo foi Aiolos que ele enlaçou pela cintura e deu comida na boca com o garfo, como costumava fazer quando eles estavam juntos.
— Que porra é essa? Que diabos é isso aqui?!
— Saga, se você não veio falar alguma coisa importante aqui, você pode ir embora. – retrucou Aiolos se sentando em uma das cadeiras enquanto Shura fazia o mesmo – Você ainda precisa se decidir sobre qual dos dois ou quer pedir perdão? Não precisa mais, você siga em frente. Nós já fizemos isso.
— Eu achei que alguns socos iam ser informação suficiente. Mas acho que preciso ser mais especifico. – Shura olhou Saga com um olhar duro – Cai fora!
— Vocês não podem... Shura não eu acredito que fez isso comigo! Você sempre disse que me amava, Aiolos e você?! Nós nos conhecemos desde os sete anos de idade, nós temos uma vida inteira de relacionamento.
— Pelo amor de deus Saga! Você transou com Shura por quatro anos! E enquanto estávamos juntos, não pode cobrar nada de mim agora. Nós não temos mais nada eu posso fazer o que eu quiser, inclusive com o seu amante. – Aiolos estava achando a indignação de Saga um absurdo.
— Eu estou me sentindo meio objeto aqui. – Shura comentou de passagem.
— Um objeto delicioso querido, vem aqui. – Aiolos riu sacana e Shura foi se sentar no colo dele.
— Dá pra acreditar? Vocês estão fazendo isso só por vingança! Eu não acredito que desceram tão baixo. – Saga estava furioso, sentindo-se traído.
—Peraí. Então quer dizer que você podia transar com Aiolos nas minhas costas – Shura parou de beijar Aiolos e olhou para Saga – Transar comigo sem o Aiolos saber, mas eu e o Aiolos não rola? É isso?
— Claro! Vocês são meus, não um do outro, não tem cabimento vocês se envolverem sem mim porque eu sou o centro de tudo!
— Egocêntrico do caralho! – Aiolos começou a gargalhar.
— Sai agora daqui Saga ou eu vou deixar você igual o Kanon! Vai ficar pior do que no aeroporto, juro que eu posso te matar agora. – Shura se levantou e puxou Saga para fora do quarto, o grego tentou resistir, mas Shura não deu margem – Sai daqui filho da puta! E pensar que eu me apaixonei por você!
Shura jogou Saga fora do quarto e bateu a porta, Aiolos ainda estava rindo e ao ver isso Shura acabou por rir também.
— Você está rindo, mas estava com ele a mais tempo que eu.
— Como fomos idiota, por deus! – Aiolos estava sem folego já.
***
Em Atenas havia um pequeno comitê de boas-vindas para recepciona-los quando chegaram. Jornalistas, familiares espremidos no hall do aeroporto ávido para saber sobre os “sobreviventes do deserto”, como ficaram conhecidos depois do sequestro. Foi uma boa oportunidade para colocar os olhos nos pais dos gêmeos Papadopoulos para Shura, não como ele sempre imaginou, mas ainda sim Eleonora e Hermes Papadopoulos estavam ali para recepcionar os filhos e o espanhol viu muito no casal com ar aristocrático e elegante. Eles jamais o aprovariam, constatou com pesar.
Cumprimentaram a todos polidamente, mas de forma fria e só aos filhos houve algum lampejo de emoção e isso foi uma pergunta preocupada de Eleonora querendo saber por que ambos os filhos pareciam um pouco machucados, principalmente Kanon.
Dos Argenkland, havia tio Leopold em lágrimas ao abraçar os sobrinhos e os encontrar bem e com vida, desfiando-se em agradecimentos ao Panteão por ter cuidado dos seus meninos e lhes devolvê-los são e salvos. Foi tio Leopold que concedeu as melhores entrevistas para desalento de Aiolos, mas ele estava em pé de igualdade com a ex-modelo sueca Dominique Strauss, mãe de Afrodite que estava verdadeiramente indignada que seu precioso filho ficou dias no deserto e os consulados da Grécia e da Suécia não haviam pressionado o suficiente. Seu lindo príncipe ficou por dias em mão de terroristas sem que nada fosse feito, uma vergonha! Dominique era ex-amante do irmão mais jovem de Ulisses Savalas, pai de Milo e o único sobrinho que se tem noticia é fruto de um relacionamento escandaloso que o irmão tivera com a modelo. A tradicional família grega Savalas tinha essa pequena mancha em sua arvore genealógica perfeita de gregos. Para azar de Ulisses, o irmão se matara de forma inconsequente e todo o dinheiro a que ele tinha direito ficou para o jovem sueco, a mãe era milionária também e mesmo que os Savalas renegassem seu filho, ela tinha dinheiro e renome no show business pelos dois!
Ulisses com sua esposa Agneta receberam Milo nos braços felizes e aliviados, coube à Shina as lagrimas e show de emoção por reencontrar o noivo. Jogou-se nos braços da estatua grega e poderia estar mesmo beijando o Apolo de mármore pela falta de entusiasmo em Milo, mas pareceu não importar para Shina. Explicou mais tarde em uma rede social que a apatia do noivo se devia ao trauma.
— Passo à noite na casa do Milo para lhe ver? – Aiolos se despediu do espanhol no saguão com um beijo delicado. Ele não ligava para os flashs que pipocavam e Shura se sentiu um tanto emocionado por isso, por ver que Aiolos não tinha vergonha.
— Não vamos para lá, os pais dele estão aqui e seria embaraçoso. Eu vou arrumar um hotel, o cara de pau do Mascherane vai com o Afrodite. Ele e o sueco inventaram uma historia mirabolante para a mãe do Dite e agora ela quer beijar os pés do Ettore, esse safado!
— Então venha comigo também, meu tio não se importa e ele nem mora com a gente. – Aiolos acariciou a nuca do espanhol com carinho – Nem preciso inventar uma história mirabolante sobre você ter nos salvo, já que você o fez mesmo. Mesmo que os Rijás não tivessem aparecido, você ainda ia conseguir.
— Eu tento o meu melhor. – havia um sorriso presunçoso no rosto do espanhol que espelhou no rosto de Aiolos – É assustador o quanto estamos nos dando bem, será que vai continuar assim depois de tudo? Nós estávamos no deserto, em tensão e com raiva da mesma pessoa. – Shura desviou o olhar para Saga que ainda estava junto dos pais e mesmo que estivesse no meio de um monte de jornalistas, ele ainda disparava olhares para Aiolos e ele – Mas e quando isso passar?
— Não pense muito no depois, aproveite o momento. Nesse exato, por exemplo, eu quero terminar a nossa conversa na fogueira então seria maravilhoso se você aceitasse meu convite de ir para a minha casa. Depois, se você quiser ir embora, tudo bem, não vou forçá-lo. Meu palpite para saber se nós vamos dar certo ou não é o sexo, se não der seguiremos a vida não é assim? Você é adulto, eu também sou e gostamos de praticamente as mesmas coisas. Nós até nos apaixonamos pelo mesmo cara, porque não podemos nos apaixonar um pelo outro?
Shura ficou um minuto parado olhando para Aiolos absorvendo as palavras dele e pensando como poderia ser tão pratico daquela maneira. Eles tinham se conhecido a apenas algumas semanas, passaram por tanta coisa e Aiolos ainda era aquela rocha firme de força e confiança sem se desesperar jamais. Shura o via como um líder, não era a toa que o irmão o seguia sem pestanejar e que Saga tenha se apaixonado por ele.
Ele também podia.
— Eu aceito ir para a sua casa, mas vou arrumar alguma coisa definitiva em breve, já que provavelmente não vou sair mais da Grécia. – Shura segurou Aiolos pela nuca, o polegar acariciando a sombra da barba por fazer – Tenho muitos motivos para ficar aqui.
— Fico feliz em ouvir isso.
Foram se despedir dos outros, Aiolos e Aiolia prometeram à Afrodite que iam com ele ao hospital para o qual Camus havia sido transferido. Depois de acertar tudo eles se separaram Milo já tinha ido com os pais.
— Aconteceu algo entre vocês e os Argenkland? O herdeiro dos Strauss parece distante também, melhor assim aquele rapaz é contaminado. – comentou Eleonora olhando para o filho Saga que tinha os olhos em Shura e Aiolos – Você e Aiolos brigaram? São tão amigos.
— Aiolos deve estar com raiva de Saga não aprovar sua nova conduta, se ele começa a se desvirtuar dessa forma com homens, melhor que ele e Saga se distanciem. – Hermes bateu de leve no ombro do filho um minuto mais velho – Vamos embora que vocês precisam descansar.
***
Na casa dos Savalas, Milo estava rodeado pela família que continuava a falar sem parar, mas ele os ouvia como se realmente não tivesse ali, como se estivesse dentro de uma sala de vidro espesso. As vozes não chegavam até ele e tudo que ele pensava era “Você tem que acordar!”.
— Meu amor, você está bem? – Shina segurou seu braço, mas ele não conseguiu falar com ela porque tudo ficou escuro de repente.
Quando abriu os olhos novamente estava em seu quarto e via a mãe tirar da sua testa uma toalha molhada.
— Shiu... Fique quietinho, você precisa descansar querido. – Agneta murmurou acariciando o rosto do filho, Milo percebeu que os olhos da mãe estavam marejados.
— Mama. – acariciou a mão pequena com a sua, se sentando na cama para olhá-la.
— Fiquei tão preocupada querido, não dormi por dias pensando que você podia estar machucado ou pior...
— Eu estou aqui agora, já passou. Eu estou bem. – eles se abraçaram com carinho, a mãe lhe apertando forte.
— Meu filho quem é Camus?
Milo enrijeceu nos braços da mãe e Agneta sentiu uma sensação estranha de perceber que o filho lhe escondia algo, aquele nome sussurrado no sono inquieto do filho parecia agourento para seus planos de ter uma nora e netos. Sabia que esse era o nome do rapaz que viera desacordado do sequestro, o namorado do escandaloso filho dos Papadopoulos. Por que seu Milo, seu precioso filho estava chamando aquele nome entre sonhos tempestuosos? Quem era aquele homem na vida do seu Milo?
Parecia que Milo estava de novo naquela parede de pedra e seu ar estava faltando. Afastou a mãe para que ela não sentisse a rigidez com que controlava seu interior em conflito, o sorriso que deu quase parecia verdadeiro.
— Só... Fiquei muito impressionado pela coragem dele, mãe. Ele se sacrificou para proteger o Dite, ele enfrentou os mercenários sozinho e aquilo foi forte... Mas é só, Camus só é corajoso.
— Ah claro, pena que agora ele está em coma. Talvez não acorde nunca, eu ouvi. – a bela senhora grega balançou a cabeça – Isso é apenas uma prova de que a vida é muito curta meu querido, não devemos mais esperar para o seu casamento. Já está na hora de você e Shina casarem, ela o ama tanto e sei que você também a ama não é Milo?
— Claro. – Milo podia sentir o gosto da bile subindo pela garganta.
***
— Não há nada de errado com o amigo de vocês, todos os exames mostraram que ele está em excelente estado e nenhum coagulo ou concussão para explicar o coma. – o médico entregou os laudos para Afrodite e Aiolos que estavam ali para pegar o boletim médico de Camus – Não há nenhuma enfermidade que explique a inconsciência do seu amigo.
—Entendo. – Aiolos e Afrodite se entreolharam – Podemos tirá-lo do hospital então?
— Se tiverem o aparato necessário. Ele está inconsciente, precisará de alimentação intravenosa, acompanhamento e limpeza.
— Pode liberá-lo então doutor, eu já cuidei de tudo e contratei um enfermeiro e tenho comprado todos os equipamentos que ele precisará. – Afrodite disse pegando a pasta dos laudos – Eu o tratei para fazer exames sempre que precisar ou se houver alguma mudança, fazer avaliação todo mês se necessário. Esse rapaz salvou a minha vida no deserto, vou fazer de tudo para ajuda-lo a se curar.
— Você é muito generoso senhor Strauss. – o médico assentiu e levantou-se para tratar da liberação de Camus, deixando os outros dois sozinhos.
— Dessa forma é bom que Milo se case então, – comentou Afrodite – Por que Camus... Se ele nunca acordar Aiolos?
— Quem pode saber Afrodite? Estou começando a achar que deveríamos ter deixado ele no deserto com os Rijás, garanto que aquele guia saberia o que fazer.
— Mas não podemos nos livrar dele, Aiolos!
— Você tem alguns feitiços ou algum dom extraordinário que o faça voltar dos mortos? – Aiolos disse baixinho e Afrodite grunhiu, estava com tanta raiva que poderia bater em alguém. Seu primo se casaria em alguns dias e ele sabia que Milo não amava Shina, se Camus acordasse, eles talvez pudessem se acertar. Ele amava o primo demais para vê-lo preso em um casamento de fachada e infeliz.
Fale com o autor