If There is something
3 Capítulo 3
Notas iniciais
Depois de algum tempo vegetando no aeroporto, a expedição Estige conseguiu embarcar rumo ao Egito. Havia ainda duas escalas e provavelmente só chegariam ao Cairo no dia seguinte à noite, mas ainda estavam confiantes mesmo que o clima estivesse pesado por conta do que aconteceu. Para complicar mais a situação, Saga movera céus e terras e conseguira embarcar com eles.
Para evitar uma nova briga, os membros da expedição se espalharam pelo aeroporto de Bruxelas evitando os irmãos Laskaris, com Shura também evitando Aiolos. Camus que evitava Milo e todos resolveu sair para a área aberta e fumar sozinho. O frio nem era muito e ele gostou de sentir o vento gelado no rosto.
— Você não precisa se isolar de todo mundo, meio que deu pra perceber que ninguém engoliu essa história de namorado certo? – Aiolia acendeu seu isqueiro no momento em que Camus tirava um cigarro da cigarreira, o grego fitou o objeto com atenção vendo os desenhos em relevo no metal – Ganimedes! Você sabe a história de Ganimedes?
— Ele foi raptado por Zeus que se apaixonou pela beleza do jovem mortal, então Zeus o levou para o Olímpio. – Camus se inclinou aceitando que Aiolia acendesse seu cigarro, admirando intimamente o cavalheirismo do outro. Olhando mais atentamente, Aiolia era muito bonito, mesmo sendo o mais jovem da turma parecia muito maduro também. Seus olhos verdes tinha um brilho jovial e enigmático, bem diferentes dos olhos dos gêmeos. Tudo em Aiolia assim como no irmão transpareciam franqueza e segurança.
— Então você não é só um rostinho bonito! – Aiolia riu de lado acendendo um cigarro também, ambos riram da cantada fraca – Eu pensei que você e Milo...
— Eu também. – Camus deu de ombros soprando a fumaça para cima e o olhar distante.
— Foi bacana da parte do Kanon te adotar, te dar uma vida digna e tudo mais. Ele parece louco por você!
— Que sorte minha então.
— Você não é de falar muito né? – Aiolia estava curioso quanto ao ruivo, queria saber o que havia naquele cara que deixara Milo e Kanon tão encantados por ele. A beleza por si só já contava muito, Aiolia mesmo estava surpreso ao conhecer o ruivo mais de perto. Só que ele não se conformava que fosse apenas por isso.
— Eu sou sociável quando é conveniente... – Camus pousou o olhar sobre Aiolia e depois estalou a língua – Desculpe, é só que costumo mais a ouvir que falar.
— Entendo.
Ficaram fumando em silêncio olhando a movimentação na rua e de vez em quando se observando, Aiolia mais do que Camus já que este colocara fones de ouvido e fumava entretido com a música que saía dos fones. Aiolia chegou mais perto e percebeu a melodia.
— Jealous Guy! Você sabe que a versão original é bem melhor não sabe?
— Eu prefiro o Roxy Music. – comentou Camus tirando os fones.
— Ah não. Como alguém pode preferir Brian Adams a John Lennon?! Assim você me decepciona ruivo.
— Não gosto de Beatles. – na verdade nem desgostava também, era apenas por implicância. Chegou até a brotar um meio sorriso de troça nos lábios vermelhos do francês.
— Definitivamente Camus! Por isso nós não íamos dar certo juntos está vendo? Como pode não gostar de Beatles?!
— Argenkland nós não daríamos certo por muitos outros motivos que não esse. – Camus apagou o cigarro sob o sapato e se preparou para ir embora quando Aiolia segurou seu pulso delicadamente.
— Eu sabia que você devia ter um defeito. Não gostar de Beatles é um defeito grave, mas que pode ser consertado.
— Aiolia melhor arrumar outro pra você porque esse já é meu. – Kanon saíra para a área externa procurando o ruivo depois de reservar uma mesa num dos restaurantes do aeroporto – Você tem dois milhões de euros pra arrumar um assim? Ele é muito caro Aiolia, não é para garotinhos.
— Seu babaca! Nem acredito que você jogou esse chorume assim. – Aiolia revirou os olhos e se dirigiu a Camus, mais baixo – Será que dois milhões valem você aturar esse escroto em tempo integral?
Camus não respondeu, apenas deu de ombros e continuou andando em direção à Kanon que o enlaçou pela cintura com o olhar de deboche sobre Aiolia. O francês não ia perder seu tempo explicando para aquele garoto rico que perto de outros clientes, a arrogância do Laskaris era algo ínfimo de se aturar. Que prostitutos não tinham escolha porque suas vidas não eram um mar de rosa.
Chegaram ao Cairo com a madrugada alta e na hora do check-in houve uma confusão dos diabos por causa dos quartos. Kanon que havia reservado sua suíte para si e para Camus, não teve problemas, tendo apenas que chegar e pegar suas chaves para seguir para o quarto com Camus quase desfalecido em seus braços.
— Não há como trocar a suíte principal por um quarto com três camas? – Aiolos perguntou exasperado.
— Não senhor, estamos lotados. – o recepcionista disse sem jeito.
— Não vou ficar na mesma suíte que o Saga!
— Eu posso ficar lá Leoni, só não garanto a integridade física de ninguém. – Mascherane tinha um sorriso sádico no rosto.
— Aiolos você pode trocar comigo e ficar na cobertura de dois quartos com o Shura, Milo e o Ettore. – sugeriu Afrodite – Eu vou para a cobertura com Aiolia e Saga.
— Você faria isso Afrodite?
— Não há necessidade disso! Nós podemos muito bem ficar como estávamos. – resmungou irritado Saga.
— Ele tem razão, não há necessidade de ninguém trocar de quarto. É só o Saga arrumar outro quarto! – Aiolia pegou as chaves do recepcionista e jogou na mão dos amigos – Se vira Laskaris, no mesmo quarto que eu e o meu irmão você não fica.
— Isso é um absurdo! Você não pode fazer isso e... Aiolos! – Saga gritou para o ex-namorado e para os outros que já começavam a deixar o hall, até perceber que Shura ficara para trás, permanecendo calado o tempo inteiro – Shura.
— Eu não acredito que teve a cara de pau de vir. – foi tudo que o espanhol disse antes de acompanhar os outros.
Todos foram para os quartos com suas bagagens e resmungando sobre o cansaço e a fome. Aiolia foi o último a subir e ficou atento ao quarto em que ficariam Kanon e Camus, estava intrigado com aquele ruivo. Conhecia o gêmeo de Saga e não gostava nenhum pouco dele então nem queria imaginar o que aquele garoto de programa estava vivendo. Acabou descobrindo que o quarto do casal ficava ao lado do seu e na frente do quarto de Milo. O advogado já estava dentro do quarto vendo Kanon acomodar Camus e Aiolia resolveu entrar também.
— Ele está bem? – perguntou Milo ao ver Kanon ajudando Camus a deitar na cama, o francês estava mais pálido que o usual e reclamando de náuseas desde Bruxelas.
— Agora ele está bem, só precisa descansar. A culpa foi minha, – Kanon riu e Camus da cama lhe lançou um olhar assassino – Nós tivemos que correr para pegar o voo de Bruxelas pra cá e não comemos porque estávamos ocupados no banheiro. – piscou malicioso e Camus suspirou fechando os olhos e virando-se na cama. Estava sentindo que poderia vomitar o estômago e ainda tinha que aturar Kanon sendo um retardado.
— Por Atena Kanon! Ele não é uma boneca inflável caralho!
— Ah Aiolia você sabe que eu ‘tô brincando cara! – Kanon pegou os dois pelos cotovelos e se afastou para a outra sala – Mas vocês sabem que ele não é de fato meu namorado certo?
— Não? – Milo se fez de desentendido, queria ver se Kanon teria coragem de falar na cara dele que assumira um prostituto.
— Não Milo. Ele é meu puto particular. – Kanon disse sem se envergonhar – Eu fiquei louco por ele e um amigo me aconselhou a ficar com ele por um tempo e bancá-lo, é mais seguro manter a exclusividade. Fizemos um contrato e depois que acabar é só deixar o dinheiro e o apartamento.
— E descartá-lo?
— É Aiolia! Melhor que namorar, porque ele é um profissional e não tem complicações, nenhum sentimentalismo envolvido além do prazer. – Kanon riu deliciado indo ao bar se servindo de uma bebida.
— Ele tá com você por causa do seu dinheiro, ele não gosta de você!
— Melhor assim Milo, vai por mim.
— Isso parece coisa de gente escrota como você Kanon. Eu vou morrer e ainda não vi de tudo... – Aiolia balançou a cabeça e depois de acenar pra eles foi embora. Milo ficou ali sem saber o que dizer ainda olhando para o outro cômodo.
— Se você quiser Milo, a gente pode marcar uma festinha a três. Soube que você é chegado num ménage. – Kanon se aproximou por trás, sussurrando no ouvido do loiro de forma sacana.
Milo afastou Kanon com um safanão e foi embora do quarto, era melhor não se meter naquilo e deixar que os dois fossem felizes. Kanon queria continuar sendo enganado que fosse a vida inteira se quisesse!
***
— Aí Camus qual é a do Milo com você?
Camus continuou tomando o café fingindo não ouvir a pergunta de Kanon, que estava no banheiro do hotel. Pelo francês eles passariam o dia ali no ar condicionado, mas Kanon tinha planos de explorar a cidade, contudo para o francês, só a ideia de sair naquele calor escaldante lhe dava vertigem.
— Camie e o Milo? – Kanon veio se juntar ao amante à mesa de café e aproveitou para roubar uma rodela de fruta do prato do ruivo.
— O que tem? Ele é seu amigo, você deveria saber qual é a dele.
— Será que ele tá afim de você? – Kanon enlaçou Camus pela cintura. Sentara no banco largo em que o francês sentava-se – Pelo que eu sei ele é noivo da Shina Jacques, ela é muito linda e o casamento deles vai ser o acontecimento do ano na alta roda! Bem, teve alguns lances nas festas que frequentamos, eu mesmo dei em cima dele várias vezes, mas o Milo sempre disse que era heterossexual.
— Bom ele é noivo então isso explica muita coisa. Explica o porquê ele parece infeliz e tudo. Deve fazer capa pra família, fica no armário e sai de vez em quando.
— Ah verdade. Mas enfim, problema é dele. – Kanon beijou o pescoço do ruivo que inclinou a cabeça para que ele tivesse mais acesso – A gente podia tentar convidar ele para uma festinha, Milo parece interessado em você.
— É esse meu carma de ser irresistível... Está muito interessado nele Kanon, vou acabar ficando como voyeur.
— Uma ideia maravilhosa. – Kanon puxou o lóbulo da orelha do ruivo com os dentes – Termine esse café ruivo ou não vamos sair desse quarto e eu ainda quero te mostrar um monte de coisas.
Enquanto Kanon estava animado para explorar o Cairo, Saga batia na porta da cobertura de Aiolos.
— Ah não! – chiou o arqueólogo tentando fechar a porta que abrira pensando ser Afrodite ou outro membro da excursão.
— Nós precisamos conversar, eu mereço pelo menos a chance de me explicar. – Saga colocou o pé na porta para evitar que Aiolos a fechasse – Por favor, Aiolos! Antes de tudo somos amigos.
Aiolos olhou para Saga, olhou atentamente o rosto tão bonito do agora ex-namorado que parecia pior do que ontem com as equimoses roxas e o lábio partido. Era reconfortante ver aquilo embora nunca fosse admitir. Deixou que ele entrasse e voltou para a pequena mesa da cobertura onde um farto café estava servido, Saga se sentou também olhando em volta a procura de Shura.
— Saiu com Aiolia bem cedo para tratarem da nossa ida para as ruínas de Hamunaptra – Aiolos comentou sabendo quem Saga procurava – Se eu fosse você começaria a falar antes que Shura volte, ele ainda não está feliz em lhe ver assim como eu não estou.
— Como vocês estão?
— Não tem importância tem? Saber que você o destroçou e a mim também nos enganando dessa maneira?
— Ele é muito teimoso. Shura nunca vai admitir que esteja sofrendo e tenho receio que ele não suporte e faça alguma besteira. – Saga largou as mãos sobre as coxas fitando Aiolos que continuava a tomar o café aparentando indiferença. Sabia que seu grande amor era forte, racional e que seu objetivo de provar sua tese não seria eclipsado pelo sofrimento que sentia agora. Ao contrário de Shura que poderia estar agora mesmo furioso e choroso querendo seu sangue ou o seu próprio por ter sido tão ingênuo – Você não tirou o cordão. – observou olhando pela abertura do roupão de Aiolos o presente que ele havia dado.
— Será o nosso lembrete, proibi Shura de tirar o dele também. Lembrar que nós não podemos ser tolos de novo.
— Eu queria que tentasse me compreender.
— Compreender? Eu até consigo engolir que você tenha uma trepada ocasional nas viagens que faz, eu o conheço e sei que fidelidade nunca foi seu forte. – a expressão do Argenkland mais velho era de escárnio – Mas quatro anos Saga?! Você o assumiu como namorado lhe deu presentes e viagens de lua de mel. Quatro anos não são quatro meses! E as promessas que fez a ele e tudo mais?
— Como sabe de tudo isso?
— Digamos que eu tive muito tempo para conversar com o senhor Viegas, eu precisava saber sobre o que vocês tinham! Isso só prova o quanto você é louco por manipular a nós dois, por acreditar que em algum momento sabe-se lá o que ia deixar que você vivesse o resto da vida com os dois! Tudo que você disse a nós era mentira.
— Nem tudo! Eu amo muito você Aiolos, você é meu companheiro da vida, o homem que eu quero viver junto pra sempre. Nunca duvide do meu amor por você.
— Então posso crer que se você tiver que escolher, escolherá a mim, Saga?
Silêncio e um riso de ironia dolorosa em Aiolos. Doía saber que o homem que amava estava com o coração dividido, que ele não conseguia saber se amava a ele ou ao outro. Era doloroso constatar que Saga construíra um relacionamento a tal ponto de Shura estar dilacerado pela descoberta da traição. Sentia pena e raiva de Viegas ao mesmo tempo.
— Você o conheceu. Então acha difícil alguém não se apaixonar por Shura? Principalmente quando ele está entusiasmado falando de seus estudos, da família com seu jeito espontâneo. – Saga falou depois de um tempo, passando a mão nos cabelos – O olhar quente que ele derrama sobre você e nem percebe isso... Há quanto tempo o conhece? Foi necessário quanto para que ele o convencesse a colaborar na expedição? Shura pode convencê-lo de qualquer coisa, pode provocar algo inexplicável na gente sem que haja controle.
Aiolos ficou chocado ao ouvir o modo apaixonado com que Saga falava de Shura, era o mesmo tom que usara para descrever porque o amava! Como poderia Saga estar amando os dois tão fervorosamente assim?
— Não sei do que está falando e nem quero saber! Não importa se você está encantado pela embalagem bonita do espanhol, que faz bem ao seu ego ter dois otários aos seus pés. Eu não aceito! Não vou ficar com alguém assim.
— Aiolos não faz assim! Dê-me um tempo, nós podemos resolver isso de algum jeito.
— Que jeito cacete?! – Aiolos se ergueu- se exasperado abrindo os braços – Quer saber? Vai se foder e some daqui! Volta para Atenas e não estrague ainda mais a minha viagem. Vá embora!
— Não vou! – Saga puxou Aiolos para si tentando beijá-lo, mas ele o repeliu, o geminiano usou a força para imobilizar o outro – Eu não vou desistir de você! De algum jeito nós vamos ficar juntos Aiolos, eu amo você e não vou desistir.
Aiolos teve de empurrá-lo e Saga sabia que passara dos limites, resignou-se e resolveu recuar. Não se daria por vencido naquele momento, embora seu ânimo não tivesse dos melhores. Se a conversa com Aiolos fora daquele jeito, com Shura prometia ser uma catástrofe! Tinha que tentar, era insano sabia, mas precisava ter eles de volta porque amava os dois e eles lhe pertenciam.
***
— Agora que vocês resolveram tudo que tinham pra resolver a gente podia visitar aquelas catacumbas estranhas, as pirâmides. O que acham?
— Afrodite nós não estamos aqui há passeio se não percebeu.
— O que vamos fazer o resto do dia? Não seja chato bichano, somos exploradores ou não?
— Vamos Aiolia, já deixamos tudo pronto para amanhã mesmo. – Shura coçou as ataduras, o calor era imenso e elas estavam irritando a pele já machucada, mas era preferível continuar com elas, não arriscaria pegar uma infecção naquele momento – Vá tirar o seu irmão daquele quarto, todos iremos almoçar no restaurante e consigo dois jipes para nos levar as pirâmides.
— Olha o Kanon e o Camus! – Afrodite acenou para os dois que chegavam ao hall do hotel nesse momento. Todos passaram a manhã fora menos Aiolos e Saga, agora retornavam para o almoço.
Foram todos para o restaurante e Aiolia subiu para chamar o irmão, Kanon muito à vontade foi se juntar ao resto do pessoal. Não estava preocupado com o problema do irmão. Por ele Saga tinha se resolvido há muito tempo, contudo Saga gostava de aparentar o filho perfeito o homem de sociedade então ele que resolvesse suas encrencas sozinhos. Camus alegou que precisava de um banho gelado e trocar de roupa e subiu para o quarto junto com Aiolia.
— Então está gostando do Cairo? – Aiolia puxou conversa dentro do elevador, achava esquisito como Camus conseguia ficar em silêncio por tanto tempo, alheio a tudo.
— Sinceramente?
— Ok já vi que não gostou. – riu o leonino – Não me admira muito vindo de alguém que não gosta de Beatles.
— Você não vai conseguir me convencer. – o ruivo riu de lado e a franja caiu sobre o rosto deixando os olhos parcialmente encobertos.
— Você não vai almoçar? Devia comer, soube que estava passando mal por não se alimentar.
— Comemos uma porção de besteiras pela rua agora de manhã, eu só preciso agora de um banho. – Camus puxou todo o cabelo para cima ajeitando-o numa espécie de coque – Pelos deuses estou derretendo!
— Está sim Mr. Iceberg. – Aiolia se aproximou usando as mãos para limpar o suor da testa alva do ruivo e do rosto – Veja, a geleira está derretendo. – e mostrou a mão levemente molhada.
— Pare de me provocar, não é sensato. Você quer provar aos outros seus amigos que sou um puto promiscuo que se vende ao primeiro tostão à vista? – Camus o olhou sério, não estava gostando da proximidade de Aiolia e nem daquele repentino interesse. Para Camus todos eles não passavam de filhos ricos e mimados, dispostos a pisar nele sempre que a oportunidade surgisse.
— Quanta hostilidade! Eu só estava brincando.
— É o que todos geralmente fazem Argenkland. – o elevador parou e abriu e Camus saiu do elevador, nem era seu andar, mas subiria o resto de escada.
Aiolia deu de ombros, não podia recriminar Camus por ser tão esquivo porque não imaginava a vida que o ruivo levava. Sabia que a profissão de Camus não tinha tanto glamour como no cinema, era uma vida dura. Tentava imaginar como um homem como aquele francês fora acabar ali.
Não sabia também o que o levava a tentar se aproximar dele, concordava com Camus que não era sensato.
***
Partiram logo depois do almoço para as pirâmides, havia certa animação no ar e Aiolos pensou de novo que aquilo parecia mais uma excursão e não uma viagem de pesquisa. Contudo ponderou que se estivesse naquele momento tão ruim longe dos amigos não conseguiria continuar. Olhou para Shura Viegas que agora mais do que nunca tinha o seu interesse! Tentava ver no espanhol o que fizera Saga se apaixonar, mas não era difícil perceber algo além da beleza selvagem do arqueólogo. Shura era sério e por vezes rude, mas tinha um raro sorriso caloroso e os olhos negros diziam muitas coisas.
Estava abatido e havia perdido um pouco o brilho nos olhos era verdade, mas nunca deixava de ser cavalheiro com nenhum dos companheiros de viagem. Desatava a conversar com Aiolia e Afrodite sobre o que conhecia do Cairo enquanto Mascherane e Aiolos trocavam algumas informações práticas. Por vezes os dois se pegavam olhando para Kanon que estava ali um pouco à parte, ele sendo o guia especial para Camus que permanecia em silêncio ouvindo tudo de forma atenta. O gêmeo trazia à Shura e Aiolos a lembrança dolorosa de que compartilhavam o mesmo homem, pensando nisso que Aiolos resolveu quebrar o gelo com o outro.
— Como estão suas mãos? – Aiolos se aproximou de Shura num momento em que o espanhol se afastou de todos, haviam entrado em um piso inferior em uma antiga construção mais afastada das pirâmides. Houve um pouco de relutância em ir lá, por parte de Mascherane e Shura, mas o entusiasmo de Aiolia e Afrodite acabou vencendo.
— Estão bem, o médico do hotel aconselhou manter as ataduras por causa da areia e sujeira e possíveis infecções. Mas só até cicatrizar bem.
— Entendo... E como você está Viegas?
— Não melhor que você, mas entre nós é você que está levando isso muito bem.
— É o melhor a fazer e devia fazer o mesmo Viegas, Saga não merece suas lágrimas. – Aiolos colocou a mão no ombro de Shura em um gesto de compaixão – Ele veio falar comigo esta manhã e pediu perdão, mas ele não consegue disfarçar que ama você. Se estiver sendo doloroso assim quem sabe...
— Se há alguém para quem Saga deve voltar esse alguém é você Aiolos, eu que me meti entre vocês, mesmo que eu não soubesse de nada. Sei que se Saga for escolher entre nós dois, ele escolherá você. – Shura repuxou as ataduras sem encarar o grego – No fundo eu desconfiava daquela felicidade, não fui feito para isso. Eu... – Shura lambeu os lábios pensando que não era justo fazer aquilo, mas Aiolos era uma boa pessoa e se amava Saga há tanto tempo merecia tentar novamente – Acho que você devia perdoá-lo Aiolos, tentar mais uma vez porque sete anos e uma vida inteira de amizade não se jogam no limbo desse jeito.
— Ele é apaixonado por você também!
— Não é verdade. Ele só está encantado com a possibilidade de ter duas pessoas, está fugindo um pouco da realidade. No fundo o que Saga sente é fascínio... E você é a pessoa mais adequada para ele. Vocês têm o mesmo padrão de vida, os mesmos amigos e interesses. Certamente você será um companheiro que os pais de Saga aprovariam.
Shura chutou uma pedra e em seguida saiu andando na direção dos jipes deixando Aiolos chocado. Por um mísero momento o grego estivera disposto a odiar Shura, por ele ter fascinado Saga a ponto de fazê-lo acreditar que o amava! No entanto, o espanhol agora dera uma reviravolta em todas as resoluções de Aiolos, nem com muito esforço conseguiria odiar alguém como Shura. Não depois daquela demonstração de altruísmo e amor. Shura se relegara em favor de Aiolos pela felicidade de Saga, mesmo que estivesse em frangalhos.
A raiva de Aiolos agora era toda direcionada a uma única pessoa. Saga não os merecia e principalmente não merecia Shura.
— Meu deus aí dentro é sufocante! Lembre-me de nunca mais entrar nessas coisas. – Afrodite respirou profundamente ao aparecer pela entrada do fosso que levava há um andar inferior nas ruínas em que estavam – Acho que podemos ir não? Já está tão tarde! Onde estão os jipes?
— Venham todos. Está muito tarde mesmo logo vai escurecer e estamos muito longe da cidade, não é seguro. – Ettore falou ajudando Afrodite a subir pelas escadas.
— Eu ouvi os árabes conversando sobre alguns ataques de mercenários por aqui, eles sequestram turista para trocar por armamento e dinheiro.
— E você fala árabe Bello? – o italiano olhou admirado para Afrodite, mas não deveria porque o sueco era riquíssimo, poderia apenas estudar por prazer e aparentemente era o que fazia porque era muito culto e inteligente, conhecedor de várias línguas.
— Não devia se surpreender, mas eu sei o efeito que causo nas pessoas. – Afrodite sorriu charmoso. Aquele explorador de relíquias era o tipo de homem totalmente errado, que mataria sua mãe do coração. Mas, era terrivelmente tentador para o belo sueco.
— Onde estão Camus e Milo? – Aiolos percorreu o pequeno grupo a procura do amigo e do ruivo namorado de Kanon, este vinha por último saindo do fosso limpando as roupas claras – Kanon?
— Eu... – O empresário olhou em volta e constatou que o ruivo não estava consigo – Mas que... Eu podia jurar que ele estava atrás de mim?
Aiolia já estava no jipe, mas voltou com Shura para a abertura do fosso enquanto os outros se acomodavam nos jipes e pareciam nervosos. Shura ficou a escuta e então desceu as escadas apressado com Aiolia em seu encalço, o ar pesado e bolorento lhe causou desconforto, mas ambos continuaram correndo. Só havia seu pequeno grupo lá agora aquele não era um lugar que os turistas costumavam visitar.
O que levou Shura a correr foram os sons abafados de respiração entrecortada e alguns baques surdos como se alguém estivesse batendo em uma parede. Ele e Aiolia seguiram os sons temerosos do que encontrar, estavam sozinhos ali e Camus ficara para trás com Milo... Aiolia quase parou Shura quando conseguiram chegar a um corredor e viram parcialmente o cabelo ruivo de Camus e suas costas.
— Mas aqui? – Aiolia tinha uma expressão de divertimento no rosto.
— Acho que não é o que você tá pensando. – Shura puxou Aiolia para ganharem o pequeno corredor.
Camus tentava empurrar a parede com muito esforço, estava se desesperando já enquanto ouvia o barulho abafado da respiração de Milo atrás dela. Estava quase gritando por ajuda quando percebeu Shura e Aiolia chegando e isso lhe deu um alívio imenso.
— Ele... Ele caiu aí! Ela abriu e em seguida fechou com Milo lá dentro, ele está ficando sem ar!
— Rápido Aiolia, suba e vá chamar um dos árabes motoristas e chame Ettore também. Vamos precisar de muita força para mover a parede! – demandou Shura e Aiolia correu para fazer o que ele dissera – Camus vocês tocaram em alguma coisa? O que estavam fazendo aqui?!
— Nada! Eu já estava na escada quando vi que Milo tinha ficado para trás – Camus estava assustado. Vira o momento em que Milo fora engolido pela parede e voltou correndo para ajudar o grego, sem pensar que deveria ter chamado ajuda primeiro – Não sei o que aconteceu.
— São armadilhas. Algo muito comum nas construções egípcias por causa de todo o ouro que estão nestas catacumbas, ele provavelmente tocou em alguma coisa que acionou a parede. – Shura tateava a parede a procura de alguma vibração, uma textura diferente – Milo pode me ouvir? Fale comigo Milo!
— Estou sufocando. – ouviu o escorpiano dizer com alguma dificuldade.
— Ele tem claustrofobia, vai morrer se ficar aí dentro Viegas! – Camus tentou mais uma forçar a parede que não cedeu. Shura percebia a aflição do francês e conseguia vislumbrar muita coisa ali. Sorriu triste, Camus também parecia um desafortunado no amor – Cadê os outros?
Camus não esperou sua resposta e foi ele mesmo atrás de Aiolia, correndo meio afoito pelas ruínas antes que Shura pudesse impedi-lo.
— Camus volta aqui! Você pode se perder! – ouviu a corrida dos outros que vinham, além de Aiolia e Ettore e os motoristas, vinham também Kanon e Aiolos.
Foram necessários todos para forçar a parede a subir de novo. Apesar de muito antiga era muito pesada e resistente, houve várias tentativas até conseguirem uma brecha para que o ar pudesse passar e quando conseguiram subir ela até a metade, tiveram que puxar Milo de lá que estava desmaiado por conta do pânico e da falta de ar. Kanon e Ettore carregaram o jovem advogado e todos começaram a subir de volta do fosso. Para se assustarem mais uma vez.
Havia muitos homens armados em volta, com panos tapando seus rostos. Camus e Afrodite estavam amarrados e amordaçados ajoelhados na areia, eram muitos não tinham como se safar.
Shura observou o grupo de mercenários, não tinha dúvidas quanto a isso. Eram muitos e estavam fortemente armados, falando em um árabe repuxado o que significava que não era a língua deles. Alguns os empurravam para junto de Afrodite e Camus enquanto outros matavam os motoristas e abriam os tanques dos jipes. Ettore e Aiolia tentaram lutar e foram espancados, os outros levantaram as mãos para a cabeça que era o que o líder deles parecia querer.
— Contei uns quarenta caras, fuzis israelitas. Queria saber como um grupo de mercenários no deserto está armado até os dentes! Vi que eles têm submetralhadoras também. – disse Ettore quando foi jogado perto de Shura.
Kanon começou a gritar em árabe que tinha dinheiro que era muito rico e poderia lhes dar a quantia que quisessem se o libertassem. Afrodite o olhava querendo esganá-lo, mas não podia mandá-lo calar-se. O líder dos mercenários, que era um homem com roupas cinza e verde oliva, o lenço em volta do rosto só deixava descobertos os olhos negros. Era muito alto e largo, parecia um tanque e tinha a sua atenção voltada para o que Kanon dizia, em seguida ordenou que os prisioneiros fossem levados para os camelos.
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