Icy moon, bloody sun.
5 E - Passado
Notas iniciais
Assim ela se desencanta com tudo o mais.
A aula tinha acabado. Evey subiu a rampa para a saída da escola, e ficou esperando a chuva parar.
Ela não entendia como, em um final de semana, tudo podia mudar no mundo. Principalmente a temperatura. Suas mãos congelavam enquanto sua cabeça fervia.
As pessoas falavam, os carros passavam, do mesmo jeito ela permanecia. Sentada num banco de costas para a rua, ela observava seus amigos a rodeando e de qualquer forma não a vendo. Um desânimo a abatia. Durante o dia todo não havia trocado mais de 10 frases e elas não passavam de bissilábicas ou monossilábicas.
Os professores nem estranharam, as aulas em que ela interagia aconteciam em outros dias da semana. Sua amiga lésbica de cabelos da altura do ombro pintados, metade da cabeça azul, metade vermelha, ficou a importunando durante o intervalo.
“O que que foi? O que que foi? Fala! Fala! Falaaaa!”
“Nada, Corarile, nada. Eu estou bem.”
“Tem alguma coisa de errado.”
“Ta tudo certo...”
“E eu vou descobrir. He He He.”
“Ai, ta bom. Ta, Cora.”
Ela só continuou encarando a máquina automática de Coca-Cola, e lembrando-se do dia dela.
“Sem graça”, ela pensou.
Tudo depois do olhar do Dominik parecia frio, sem vivacidade. Mesmo parecendo gélidos como a neve, por seu azul de barreira de gelo sobre um lago, eram mais quentes que o próprio fogo.
Até ela reparar um garoto a observando. Não, não era “o” garoto.
Não era um de seus amigos.
Não seria nem um garoto, seria mais considerado um homem.
Ela tinha uma tatuagem no pescoço em formato de uma rosa. Ele deu uma breve acenada pra ela, pelo menos lhe pareceu, para ela se juntar a ele.
Não fazia sentido, ele irradiava uma áurea de confiança e ela absorvia todo o calor perto dela, como se o sugasse. Poderia ser verdade?
Na dúvida, ela saiu andando embaixo da própria chuva com a finalidade de sair de perto. Colocou o capuz e enfiou as mãos nos bolsos, se encolhendo e desviando da água que os carros jogavam na calçada.
A chuva mesmo assim caía como uma brisa, e Evey se hipnotizava pelas purezas cristalina das poças pelas estradas. As folhas caídas no chão pelo outono que passava por ali.
Na metade do caminho, ela sentiu uma mão em seu braço. Congelou.
- Mas que absurdo – uma voz masculina confortante chegou às orelhas de Evey – uma bela dama andando sem ninguém a acompanhar.
Evey odiava aquele tipo de gente. Não percebiam que soavam tão estúpidos? Cheios de confiança como se o mundo pertencesse a eles e todos necessitavam satisfazer seus pedidos. Ela revirou os olhos com raiva.
Voltou à cabeça para aquele mesmo rapaz que estava a observar na saída da escola.
- E eu te conheço? – indagou fingindo confiança. Era bem convincente, ele até levantou as sobrancelhas surpreso e espantado. Não queria machucá-lo, se arrependeu com a grosseria, contudo não poderia fraquejar e fazer mais alguém depender dela.
Entretanto a beleza jovial dele atingiu-a e ela abaixou a expressão raivosa, com olhos tristes. Ele só pareceu sorrir de leve e colocou seu grande braço quente ao redor dos ombros de Evey.
- Calminha, Evey. Só não queria você sozinha, já que pode ser roubada, violentada...
- Para aí mesmo, desde quando eu lhe disse meu nome? – ela estava realmente indignada, de onde surgiu aquele garoto? Por que tanta obsessão? Havia mais alguém a perseguindo? Seu anonimato estava comprometido? Ela empurrou-o para longe e saiu correndo, atravessando a rua enquanto o sinal de pedestres estava vermelho.
- EVEY! CUIDADO! – berrou o rapaz quando um carro quase passou em cima de Evey. Ela quase se paralisou no meio da avenida inclinada pensando ser um fim digno para uma garota indigna, todavia o motorista brecou tão repentinamente que os freios do carro rangeram frenéticos tirando-a de seu transe, fazendo-a mover-se até o acostamento do outro lado da rua.
Se não fosse pelo berro do rapaz talvez a água e a inclinação da avenida teriam contribuído e muito para o atropelamento de Evey.
- NÃO OLHA POR ONDE ANDA, PUTINHA? – xingou o motorista, já se distanciando com seu carro de rodas esfoladas – VOLTA PRA ESCOLA PRA VER SE APRENDE SINAIS DE TRÂNSITO! PUTA QUE PARIU...
O garoto do outro lado da rua ficou pálido. Tinha uma pele azeitonada e cabelos quase pretos cortados no estilo emo sem coragem de deixar o cabelo grande, dos quais havia enorme contribuição para deixar aparente sua palidez. Seu rosto longo e confiante se contorcera em uma careta de susto e medo. Seus olhos verdes oscilavam com seu brilho não decidido após aquela cena.
Evey mais se espantou com o rosto dele do que com sua quase-morte. Por que não podia ir embora logo? Ao invés disso permanecia trocando olhar triste com aquele total estranho que parecia tão próximo, sua voz emanava em sua cabeça, gritando.
Os carros passavam e a chuva caía, no entanto ambos continuavam em suas posições. Evey mordeu o lábio, sua feição se mostrava tão assustada. E com a testa franzida, ela começou a chorar.
Embora continuasse a encarar o rapaz, não conseguia conter as lágrimas.
Ele, agora, era outra razão. Como alguém entrava assim tão fácil, sem mais nem menos? Talvez fosse outro que não diria adeus. Deixava-a daquele jeito. Mesmo sem a fazer feliz algum dia, era uma razão para ela chorar. Quem sabe era porque ela sonhava demais?
Mesmo sem tirar os olhos dos olhos verdes espantados do garoto, ela notou a sinal abrindo por visão periscópica e correu até os braços dele. Ele a abraçou ainda com o semblante inalterado e ela pegou o ombro alto dele para chorar.
Ele esquentava os braços dela e puxava seus cabelos de forma carinhosa ao abraça-la com força. Evey não conseguia parar de chorar. Enquanto isso, o céu chorava sobre eles.
- O que foi isso? – tão fácil de cair a máscara quando Evey falava com alguém. Culpava-se por isso também.
- Desculpa. Desculpa. Desculpa... – era tudo o que ela conseguia sussurrar.
Recomponha-se, Evey – ordenou a si mesma após algum tempo. Ela instantaneamente pôde racionar as lágrimas.
O garoto pareceu notar, afinal sussurrou de volta:
- Ta tudo bem, Evey. Você se lembra de mim, né?
- Não sei de alguém na minha vida no passado que curtisse músicas emocore e se inspirasse no Oliver Sykes.
O garoto a atingiu com um olhar específico brincalhão com um olho mais apertado que o outro, sobrancelhas franzidas e um sorrisinho só de um lado. Aqueles olhos verdes...
- Zane! – ela gritou.
- Hahaha. Oi! Que bom que me reconheceu.
- É, desde a primeira série que a gente não se vê. – como ele ainda sabia como ela se parecia?
- Sinto tanta falta das nossas brincadeiras, Evey. – ele riu – Lembra como nós fizemos um protesto contra a redução do horário do recreio e fomos suspensos?
Evey riu, como esqueceria?
- Minha mãe me tirou da escola por causa daquilo – ela ficou mais séria – Não queria que sua “querida filhinha” ficasse com a ficha escolar manchada.
- Ah, Evey. Ainda me lembro do gosto do nosso primeiro beijo embaixo do salgueiro do colégio...
Evey ficou tensa. Talvez ela estivesse o fazendo sentir-se a vontade demais, ou ele estivesse dando em cima dela, de qualquer forma era uma obsessão intensa, já que Evey não corresponderia. O verde dos olhos de Zane a penetravam e torturavam, ela não queria trazer de volta todas aquelas boas memórias e estragá-las todas.
Porém aquele tom de verde era o exato mesmo das folhas do salgueiro quando se beijaram de brincadeira e correram para se juntar aos outros numa caça ao tesouro. Era um gosto de chocolate vencido, mesmo assim era quente como aquela tarde de verão.
Quente com os braços dele sobre ela se encontravam.
Evey recuou. Aqueles fantasmas nunca a abandonariam e agora havia a chance de estragar outra parte de sua vida prévia.
- Zane... — ele estranhou a seriedade dela – preciso ir.
E assim saiu correndo pelas ruas do bairro de sua casa, sem mesmo querer alcançar sua casa, apenas um beco escuro e solitário para se integrar com algo de verdade.
Zane correu atrás dela, mas ela era bem mais ágil e ele só ficou entoando o nome dela por aquelas bandas como uma criança brincando de esconde-esconde, enquanto ela se protegia por arbustos encharcados.
30 minutos se passaram com Zane chamando por Evey e ela cobrindo os ouvidos para não responder. Não queria torturá-lo mais, contudo ele insistia em se torturar.
Por uns 5 minutos tudo ficou quieto, os passos de Zane já não alcançavam mais os ouvidos precisos de Evey, tudo ali presente era a chuva e a respiração fraca de Evey.
Estava tão frio que ela tremia até o topo de sua cabeça. Precisava voltar para um abrigo, entretanto não poderia se arriscar em ser vista por Zane. Qual era o problema daquele garoto? E por que parecia tão maduro sendo na verdade tão atingível e obsessivo quanto uma criança?
O celular de Evey começou a tocar.
Merda. – ela se xingou mentalmente. Não sabia por que ainda carregava aquele pedaço de plástico idiota.
Um número desconhecido. Ela atendeu receosa:
- Você pode correr, mas não pode se esconder – a voz quente de Zane parecia mais sexy pelo telefone, a respiração dele ofegante estava forte e enchia Evey de desespero.
Ela se arrepiou inteira ao virar-se e deparar-se com Zane atrás do arbusto.
Poderia aniquilá-lo, ao invés disso sorriu com as covinhas para cima e os olhos apertados. Sem dizer uma palavra, virou-se e seguiu o caminho de casa com Zane em seu encalço.
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