Icy moon, bloody sun.
2 E - Mudanças no vento
Notas iniciais
Ela mal tem amigos, e se exclui muito, por favor.
Uma semana depois a casa do vizinho já estava vazia. Evey se sentia no deserto mais do que nunca. O sol batia tão intensamente de dia que baixava a pouca resistência que lhe sobrara da sua falta de nutrição.
Não parecia o Sol usual que a abraçava com seu calor quando ninguém mais abraçava. Evey se sentia isolada numa ilha aonde nada lhe chegava, nem mesmo os raios de Sol porque tentava se esconder deles ou os ventos afinal a temporada havia acabado e o que estava ali permaneceria por um bom tempo, quem sabe até semearia e brotaria?
Porém tal prosperidade era insana aos olhos de Evey.
Paz só se encontra na morte, e quem sabe nem nela?
Finalmente, em um sábado no qual Evey acordou excepcionalmente tarde (quase 4 horas da tarde), o céu se mostrava parcialmente nublado e o Sol só surgia certos momentos e iluminava a parede contrária a sua posição no firmamento, e esta rebatia seus raios na direção de Evey.
Ainda na cama, com a janela aberta, Evey se encontrava sentada encarando-se no espelho. Estranhamente, ela pensava que era a única criatura do mundo que mudava de forma a cada dia. Não que do dia pra noite ela deixava de ter cabelos escuros pra ter cabelos claros, não funcionava assim.
Ela se reconhecia no espelho, porém cada dia era diferente, ela não se conhecia no espelho. Certo detalhe nunca era o mesmo. Ela voltou a mirar a janela, porque sabia que nunca descobriria o que faltava mais a cada ciclo diurno.
O vento voltava a soprar e o ruivor estava instante a instante mais próximo. As folhas caíam das árvores lá fora, embora não devessem ser caducifólias.
De repente, Evey ouviu algo na casa ao lado, ela saiu de seu quarto e foi ao quarto de seus pais, ao lado, que ficava mais próximo do vizinho. Foi até a sacada e observou: uma das janelas estava aberta, os novos vizinhos haviam chegado.
Ela se sentou ali no corrimão da sacada com as pernas penduradas enquanto esperava alguém aparecer no corredor externo.
A noite caiu antes de alguém se mostrar. O crepúsculo evidenciava aquele momento, com as nuvens só o embaçando mais. Os pássaros todos se retiraram para seus ninhos. O silêncio só era rompido pelo arrastar de caixas dentro da casa.
O primeiro a aparecer foi um homem no corredor, Evey se escondeu. Carregava duas caixas gigantes, de forma que impossibilitava a visão de seu rosto.
Ele repreendia alguém com sua voz grossa:
– Você ao menos poderia me ajudar com as caixas.
Subitamente um tom de voz angelical preencheu os ouvidos de Evey, paralisando-a:
– Eu não pedi pra mudar de casa. Queria continuar morando no nosso condomínio. O que posso fazer aqui? Nada!
– Meu filho, você vai arranjar o que fazer. Faça isso pela sua mãe! Ela precisa de um pouco de tranquilidade com a... Você sabe.
– Tá bom, tá bom – disse o garoto em tom de quem já havia engolido esse sapo demais. – Posso dar ao menos uma festa algum dia?
– Se não tiver os seus malditos metals tocando, tudo bem.
–... Valeu, pai. – se distanciou com os passos.
Evey congelou, e seu coração bateu mais quente. Aquela voz, seria a mesma que ouvira meses atrás? Que a encantara? Ela ficou tonta, pontos pretos invadiram seus olhos. Desfaleceu ali mesmo no chão duro aquecido pelo Sol.
Acordou com sua mãe lhe chamando no andar de baixo. Uma luz vinda do vizinho inundava o teto de madeira da sacada. Um garoto alto, magricelo, de cueca preta e sem camisa estava já mexendo no seu facebook do outro lado dos dois muros. Aquela luz cândida e mórbida vinha somente do monitor do computador.
A pele dele era pálida. Ela sentia um aspecto de tenuidade, porém ele levantou-se com tal brutalidade, começando a dançar uma música bem agitada. Evey observava como aquelas omoplatas proeminentes em suas costas se igualavam as de um anjo.
Ela gritou de volta:
– Já to indo, mãe!
Desceu as escadas rapidamente, chegou à cozinha e viu o relógio marcando 11h30min na parede oposta. Este cômodo parecia feito de neve, tudo era branco e reluzia, até as lâmpadas fluorescentes não tinham cor alguma.
Janela a fora um universo paralelo crescia entre a escuridão e a restrição do muro e do toldo. Sua mãe franziu o cenho ao vê-la toda amassada e suja de poeira.
– Onde você estava?
– Eu estava lendo.
– Obviamente que sei disso, mas onde? Quero o lugar.
– Mãe, fala sério. Eu não saí voando e fui a algum beco me prostituir, só estava lendo calmamente. E não é minha culpa se você não explora...
– O.K., Evey, já entendi.
Na mesa havia uma caixa de pizza entreaberta que revelava sobrando apenas uma borda de um pedaço robusto. O resto já fora comido.
– A gente pediu uma pizza e eu te chamei pra comer, mas sabe como é a lei da selva, né?
Ela revirou os olhos e respondeu resmungando:
– O mais forte e mais rápido sobrevive.
– O quê?!
– Ai, nada.
Na casa de Evey aos finais de semana, seu irmão retornava da cidade onde vivia para estudar na faculdade e voltava com uma fome enorme, juntando com seu pai, então, nem poderia se falar. Comida sobrando era quase zero. Embora nos dias úteis, a empregada fizesse comida suficiente para todos e obrigasse Evey a comer.
Evey sentou em um dos banquinhos e deu uma mordida pequena na borda da pizza.
Sentia-se horrível a alimentar um ser como ela. Só criava discórdia, por que deveria existir? Sua mãe não notou sua repulsa para comer e deixou-a sozinha.
Talvez ainda entorpecida pela voz angelical, ela não estava com fome. Os outros deveriam comer, ela não. Se gostasse tanto de tudo talvez não gostasse de nada. Ela pegou a borda da pizza e jogou no prato do seu cachorro.
Desaparecer. Não queria ferir mais ser algum, eram tão belos. Ela foi para o jardim, onde a grama lhe atingia os pés, e ela tentava ao máximo pensar que estava flutuando para não esmagá-la.
Pulava respectivamente para os pontos nus da terra, acocorou-se próxima a uma roseira desbotada, o que lhe fez ser picada em vários pontos. Insetos ainda estavam à solta e pousava em sua pele clara, a fim de sugarem-lhe o sangue e devido à luz que emanava.
O vento voltou a rugir, porém os mosquitos ainda lhe rodeavam. Ela se policiava para não começar a espantá-los e bater-lhes.
Contudo eles a rodeavam e pinicavam e ela queria arrancar sua pele fora e nada poderia viver em cima de outro ser vivo e...
Ela começou a arranhar sua face e balançar os braços para distanciá-los dela. Um veneno líquido ou emocional escorreu-lhe pela goela. Ela não pertencia àquele local, àquela perfeição lunar por entre as nuvens que já se firmava na abóboda celeste.
Estava com raiva de si mesma por não poder andar e pisar apenas na linha, ela sempre tinha de tender a um lado e tender a outro de vez em quando. Não estava certo. A não existência que a diferenciava, que era o que era. Não poderia se perder de novo nos abismos dos dois lados da linha.
Mesmo que se encontrasse ali, estava com medo.
Ela vivia em cima de alguém? Se a Terra acabasse, ela também acabaria.
Antes de se enlouquecer com seus pensamentos, o vento forte e as nuvens carregadas banharam o ambiente. Raios eclodiam aqui e ali de vez em quando. As portas abertas de sua casa bateram quase simultaneamente e ela se encolheu aos sons fortes.
Uma lágrima percorreu-lhe a face e pouco depois se formou uma calmaria.
Uma calmaria exótica quase artificial, as sombras ficaram estáveis e não a tocaram por um momento. Ela também se acalmou.
Após isso, o vento saiu de seu estado letárgico e arrastava as folhas secas pelo chão, numa sinfonia agonizante. AS folhas se juntaram no canto onde Evey estava recostada, ela se assombrou.
Franzindo o cenho e com a face ruborizada, os pingos riscaram o gramado.
As únicas luzes eram borradas pela chuva, aquelas oriundas de postes laranja cuja cor nem lhe dava esperança mais, só tentavam. As folhas das árvores próximas, com aspecto de halloween por causa da energia elétrica dos postes, farfalhavam sem restrição.
Logo os raios atingiram uma das árvores que Evey fitava paralisada. As luzes se fundiram com aquela descarga eletromagnética. Evey pensou estar cega.
Só avistava branco, branco e branco, com algumas faixas de preto profundo que se moviam e perseguiam suas pupilas. Como se fantasmas tivessem a acalentado, ela saiu correndo para o seu quarto e se trancou com um estrondo.
Chorou. De desespero e de raiva, chorou.
Durante um bom tempo deixou-se ser uma fonte de água salgada como o mar.
Entretanto as lágrimas não conseguiam transmitir tudo o que ela sentia, então parou. Aquilo lhe enchia de abstinência, então finalmente deixou-se abrir os olhos.
Não existia mais luz alguma. Nem de poste, nem da Lua.
Nem raios a rasgar as nuvens. Somente escuridão.
Quase não conseguia ver as formas dos móveis. Ela intensamente apalpou tudo presente no quarto e não se permitiu parar até saber que tudo estava no lugar devido. Atravessou os limites do quarto pela janela.
Mal podia ver as gotas lhe atingindo os olhos enquanto mirava o que lhe causava aquela inundação. Viraram gotas grossas.
Ela não se refugiou, porém, desta vez. Deixou-se atingir. Só não sabia se poderia mais se atingida. Já que era assim, ela cansou-se de se molhar por algo que era tão seco quanto ela.
Atravessou o telhado mais perto da beirada da sacada e recostou-se no único ponto em que a chuva não caía. A única luz que não vinha do céu barroso, era uma luz tênue que inundava o teto da sacada, mas logo se apagou.
– Merda! – Evey ouviu lá de baixo, e depois uma perna atingindo um móvel e algo se estraçalhando no chão. – Sempre que preciso as coisas não funcionam.
Ela olhou na direção do rapaz quando ele foi fechar a janela, no exato momento um raio caiu tão perto que Evey pensou que fosse morrer queimada. Ele a viu ali em cima, mesmo quando inundada pela escuridão, ele ainda estava a observá-la. E ela também não despregou os olhos dele.
Não era possível, era Dominik.
O olhar era frenético, estranho e magnético. Era duvidável se os dois polos sairiam algum dia daquela posição. Aqueles olhos era descabíveis de tão azuis, gelaram-lhe a barriga e o coração. Os cabelos cor de carvão, dos tantos corações que ele já queimara.
Infelizmente, com uma rajada de vento a janela de Dominik bateu, machucando-lhe a face, interrompendo o fio tecido pelos olhares.
Evey não fazia ideia do que fazer depois daquilo, perdeu toda a força nas pernas, deixando-se levar pelos dedos irrequietos arranhadores de braços.
Todavia, de súbito, se interrompeu e levou a mão ao bolso de onde tirou um pedaço de papel enrolado e um isqueiro. Levou o papel a boca, permitiu-se aspirar-se por ele e pela pequena chama que colocava em sua face oposta.
O vento tomava seus pensamentos, seu corpo, tudo. Contudo ela ainda estava ali, tragando-se.
Notas finais
Muito obrigada por ter lido.
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