Notas iniciais
Esqueci de comentar que o Dominik parece ter tipo um complexo de Édipo masok hahaahahahahahahaahahahah demorei mas voltei, esse capítulo ta uma bosta, mas é porque eu estou realmente sem inspiração, logo tem outro da Evey.

O gorgolejar dos pássaros, o céu decaindo seu azul para sua posição final profunda, as folhas verdinhas das árvores farfalhando, e, claro, a ausência de Dominik já havia dois dias em sua casa. Em cima do telhado com a cabeça encostada no parapeito da janela, Evey suspirava enquanto tentava focar sua mente no livro que adquiria em suas mãos.

Qual era o momento exato para sair dali e fazer o que devia?

Ela não sabia. As nuvens lá no firmamento dançando com seus espectros sem mais luz direta do sol a convidavam para ficar mais. O vento batia suavemente mais ainda lhe causava calafrios. O ar parecia seu mar, ela estava imersa e envolta por ele para sempre.

- Zane... – ela sussurrou profundamente enquanto fitava o material bege das telhas e as memórias voltavam a sua mente.

Sendo horário de verão, a noite se assimilava com os dias, mesmo a Lua só surgindo nos céus após a meia-noite. Eterno ruivor daqueles momentos em que se fixavam seus pensamentos. Como esguia cor do céu seria volátil as lágrimas de tristeza que derramaria por aquele garoto ousado a mexer com fogo em brasa.

Pessoas gostavam muito de tocá-la, entretanto não apreciavam nada quando se deparavam com seus dedos cortados pelos espinhos que a percorriam. Tanto quanto as rosas, primeiro os humanos desabrocham e depois murcham. Assim Evey se castigava, ao pensar nos confusos olhos verdes de Zane quando a encontrou atrás da moita a alguns quarteirões de distância.

Ele almejava encontrar a garotinha que um dia fora e nunca mais voltaria a seu ser. Escondendo seus desejos ele apenas tentou escoltá-la de volta a sua casa, colocando o braço ao redor de seus ombros por todo o trajeto, porém Evey não conseguia levantar o olhar do chão, já que o céu não merecia tais olhos vermelhos, cheios de fogo da destruição.

Zane deu-lhe um beijo na bochecha no instante em que chegaram ao portão e se afastou dois passos, mas não se atreveu ir mais longe. Evey sabia que deveria convidá-lo para dentro, contudo não queria mexer com o passado. A história já havia acabado.

Ele só ficou parado a observando abrir o portão, sem mexer um sequer dedo. Sua respiração também se mostrava amedrontada, como se ela fosse sacar uma arma a qualquer momento e matar tanto ele quanto ela mesma. No entanto, ela não o realizou, o máximo que fez foi desejar extremamente se desculpar por tudo e mandá-lo ir embora e nunca mais voltar, todavia aquele minuto se encontrava tão frágil e tenso que se soprasse talvez tudo caísse a seus pés.

Não disse coisa alguma, mesmo querendo com todo o sangue que pulsava dentro de si, já que pareceria forçado também, e suas lágrimas já escassas eram um bem que não poderia desperdiçar meramente.

As luzes de um out-door do outro lado da rua, que estranhamente ainda se acendia mesmo tendo sido pichado, foram acesas e tiraram-na de seu transe. A noite caíra, porém o mundo ao redor ainda tinha seus tons de azul-marinho. Era um holofote que a cegava aquele luzir intenso das ruas consumistas, como se fossem gravá-la para um show de horrores. Evey rastejou para a sombra do telhado, cada vez mais próxima do quarto de Dominik cuja janela, intocada, ainda estava aberta e suas cortinas farfalhavam muito brancas entre toda aquela escuridão.

Apenas um vulto humano podia ser avistado dentro da casa durante aqueles dos dias. Porém naquele exato momento Evey não conseguia distinguir onde estava na casa e o que fazia, contudo desconfiava que andasse bebendo de novo, já que o tilintar de copos com o vidro das garrafas era um som totalmente reconhecível para ela, seus “amigos” bebiam demais, ela só observava.

E sua suspeita foi confirmada quando ela já cansada de permanecer ali no telhado se dirigia para a janela de seu quarto, ouviu o quebrar de um copo num chão de pedra rígida e uma voz chorosa gemendo em blasfêmia:

- CA-ROL! Por quê, meu Deus, por quê?! – então o pai de Dominik fizera algo de errado com o resto da família. Interessante.

Mas como sofria. Sua garganta contraída de angústia era perceptível da distância em que Evey se encontrava do homem. Seu choro era indescritível, assemelhando se a um bebê de voz grave que não parava de derramar seus lamentos nem para aspirar ar.

Evey se sentiu mal por ele. Intrinsecamente, olhou-se no espelho e sentiu-se culpada por seu tormento. Seu corpo mesmo voltou-se contra ela e julgou-a dando-lhe dores de cabeça e fazendo sua barriga serpentear. Evey se revirou e avistou uma única gota rolando agilmente do olho até seu queixo através de seu reflexo.

Ela olhava-se, olhava-se e não conseguia parar de pensar que mesmo movendo um braço ali e outro aqui e torcendo-se inteira de dor por dentro, não se movimentava. Não saía do lugar devidamente. Estava presa pelo próprio corpo, sem noção do que seria viver sem lembrar daquilo a todo instante e uma vida assim seria apenas uma antesseção da morte, como se na realidade a vida fosse parte da morte e não o contrário.

Evey abateu-se por essas ideias e imagens de escuridão profanas vindas a sua cabeça, contudo não conseguia parar de acreditar nelas, ver-se nelas. Sentou-se no chão de azulejos brancos do banheiro e sentiu, além de seu mal-estar e calafrios pelo toque instantâneo com as paredes geladas, sua nádega traseira vibrar.

Quem estaria a lhe ligar? Entretanto logo a vibração cessou.

Evey estranhou, colocou a mão no bolso e pegou seu celular. Uma nova mensagem de um número desconhecido. Ela checou e havia também uma chamada perdida dele há duas horas, obviamente sendo o número de Zane.

“Ta melhor?” – como se eu tivesse adquirido alguma doença.

Aquele garoto gostava de mexer com arame farpado, todavia, Evey tinha certeza, ela não conseguiria escalá-lo. Ela começou a digitar:

“Zane acho melhor não” e acabou enviando sem completar a frase, pois vira o que mais ele a mandara.

“Evey só quero cuidar de você, seu bem. Por isso acho que você deveria ir a minha casa nessa sexta, faltando à aula mesmo. Vou dar uma festa.”

“Não sei se posso” – Evey replicou, sentindo-se um tanto intimidada.

Ele respondeu:

“Ah, vamos lá Evey. Cadê a garota que topava até beijar um moleque feio como eu?”

Evey poderia prometer ir à festa, se fosse o que ele queria. Afinal não havia algo tão depravante em fazê-lo, porém ela não tinha mais preconceito com o que fosse também errado. Só que ela não poderia prometer que aproveitaria.

“O.K., Zane, eu vou. E você era lindo, como ainda é.”

“AEEEEE!

Vlw.

Juro que vou te recompensar.”

Não demorou nem um pouco para responder a mensagem, soando realmente animado. Evey até soltou um sorriso entre o rosto manchado pelas lágrimas. Ficou relendo a mensagem até o brilho da tela do celular fadar, e ela ser deixada no escuro.

Com saudade do brilho celeste crepuscular, ela, com o celular na mão, se encaminhou até o interruptor do quarto, acendendo-o, sentou-se na cama e abriu seu tão cobiçado livro.

Sua cama estava fria pelo vento que vinha de fora, embora Evey, com seu calor natural, logo a esquentasse sem se esforçar muito. O coração batia como um martelo a cada termo usado pelo autor descrevendo a vida do jovem e humilde narrador da história.

Este mesmo narrador-personagem perdia suas vontades porque fora treinado que realizá-las só traria mal a sociedade, e sem se abater pela sociedade, faria mal a ele mesmo já que adquirira repulsa de seus atos anteriores, seus desejos mais insanos e profundos.

Evey se viu em cada palavra. Sentiu extrema compaixão por ele, assim como já sentia por todos os seres que habitavam o mundo injusto em que ela vivia. Fechou o livro e levou suas unhas aos braços que ainda ondulavam com o vento, confundindo-o com as profundezas do oceano.

Seu corpo oscilava enquanto ela arranhava seus braços egoístas. As lágrimas juntavam-se a água marinha, acrescentando mais um caído num campo cheio deles. De sua pele não saía sangue, apesar de usar toda sua força, suas unhas não penetravam e assim não sangrava.

Seu desespero foi silenciado quando alguém abriu a porta de seu quarto num estrondo. Evey agilmente levou as mãos ao rosto, fingindo estar coçando os olhos. Sua mãe caminhou até sua frente com uma cara de irritação.

- O que foi, mãe? – perguntou Evey em voz muito baixa, até tendo de recobrar a voz em pigarreio.

- O que foi que eu estou tentando te chamar há um século lá embaixo e você não me responde.

- Mas o que foi? – sua mãe lhe estendeu a mão com o telefone sem fio.

- Sua amiga, Coraline.

Evey agarrou o telefone e ouviu:

- Já ta com a vodka?

- Ahn?

- Como assim “ahn”, sua anta? – Evey franziu o cenho – Esqueceu que hoje é dia de festa?

- Ah, é – Evey se desanimou mais ainda – a segunda-feira “divertida” – apenas repetiu as palavras que a amiga usara antes no mesmo dia.

- Ah, qualé, Eve. Sai dessa e vem logo pra cá. Até o Nicolas já chegou.

Nicolas nunca comparecia a esses eventos estúpidos que Cora subitamente marcava. Talvez todos já estivessem lá e Evey só estivesse atrasando. Talvez ela nem devesse ir, para não marcar mais ninguém com sua estupidez.

- Você vem, né? – demandou Coraline, lendo sua mente.

- Vou. – respondeu seca, suspirando profundamente.

Desligou o telefone e já pulou da cama, tirando a roupa. Abriu o armário, pegando um vestido preto de renda. Tinha de sair fazendo o mínimo de barulho possível. Encheu uma meia alta com outras meias e colocou-a debaixo de várias cobertas jogadas pela cama, também recheadas por travesseiros que colocava agora.

Evey borrou suas pálpebras com lápis pretos em excesso e passou um batom preto também. Estava de luto pelas almas de todos os quais morriam, morreram e morrerão, menos si mesma por não merecer este gênero de bajulação.

Sua garganta se encontrava tão seca e inflamada que escovar os dentes não resolveria. Calçou os coturnos, pegando seu dinheiro sobre as pilhas de livros na estante do lado de sua porta, mas também suas chaves da casa.

Desceu as escadas esguiamente. Suas botas de combate eram bem eficientes quando se tratava de não produzir som algum, o problema era passar pela sala lá embaixo onde se encontrava seu pai no computador a maioria do tempo. Para sua sorte, seu pai estava na cozinha se banqueteando de mais alguma porcaria que o deixaria ainda mais gordo.

A porta da frente rangeu, portanto ela teve de entrar no escritório que ficava do lado da porta de entrada e pular da janela, já que lá fora ninguém conseguiria ouvir sua aterrissagem e seria mais fácil chegar até o portão de entrada.

Jogando seu corpo do alto da mesa de ofício a grama mal aparada, Evey sujou-se um pouco. Ali no meio finalmente natural cheirava com desgosto os frutos podres do lixo de sua própria criação. Os galhos das roseiras sibilavam, estas mesmas murmuravam com o vento tênue ali presente o nome de Evey e transformavam o ambiente para sua letargia, para mantê-la ali para sempre.

Mesmo se intoxicando e drogando com o perfume dos jardins, Evey decidiu sair dali rápido antes que alguém dentro da casa notasse. Pulando para o caminho de ladrilhos do jardim, sem querer ferir as plantas, ela foi até o portão, sem hesitação, abriu-o com o máximo de zelo.

Ainda fez barulho, porém quando o fechou já era outra história, ela já estava do lado de fora e poderia muito bem fingir não ter algo a ver com aquela casa ou quem vivia nela.

Abandonava-os, embora não se sentisse tão mal por isso, afinal eles não notariam, ela ainda ficava receosa e esta força que ela sabia que a traria de volta a casa.

Notas finais
Então é isso, comente se quiser e por favor queira.