Icy moon, bloody sun.
9 E - Cuidado com a Lua
Notas iniciais
Quando já estava na rua, viu um brilho no horizonte brotando parte da Lua bem baixa por entre as nuvens de poeira. As estrelas lá em cima também eram obstruídas por essas nuvens. Evey nem se importou de andar sozinha a noite na cidade, virava nas avenidas, contudo quem sentia mais medo eram as pessoas que passavam perto dela.
Escutava até algumas risadas zombeteiras e sussurros na maioria falando “aberração”.
Aberração, aberração, aberração... – ecoava em suas orelhas, com isso tudo se tornava um pouco embaçado e distorcido.
Ela chegou a se deixar tanto levar por aqueles ecos que se pegava de vez em quando não olhando direito para a rua e tropeçando ou esbarrando em alguém. Quando alguém lhe perguntava algo do tipo se ela estava bem, ela apenas colocava a franja atrás da orelha e sorria leve e bobamente continuando seu caminho ainda trocando olhares com a pessoa.
Eça franzia o cenho e suas sobrancelhas, assim, mantinham seu olhar baixo. Começava a passar mal por usar aquele belo vestido gótico e se atrever a andar daquele jeito pela rua, fazia mal às pessoas, lhes causava nojo. Continuando com seu espírito misantropo, ela não queria se encaixar entre eles, mas também não desejava que eles se rebelassem ou ficassem ofendidos.
Ela estava sendo estúpida, portanto colocou as mãos ao redor a da cabeça e a chacoalhou enquanto seguia seu rumo até as proximidades do córrego. Os raios de luz dos postes deixaram-na tonta e fundiam os pensamentos, ela só havia deteriorado a situação de letargia.
Suas unhas se cravaram no couro cabeludo, contudo ali, no meio de toda aquela gente, ela só queria se esconder, muito longe da imensidão embaulada negra ou das falsas esperanças laranja nas ruas cuja semântica eram aqueles postes.
Quando virou a esquina, abandonou também sua máscara, correndo morro abaixo naquela avenida já não tão povoada. Chegaria até a ser desértica, já que de um lado havia terrenos baldios até o começo do bairro bem adiante e do outro uma floresta de pinheiros aspirante a misteriosa.
Evey não poderia parar para sentir o cheiro forte e doce das folhas, necessitava continuar correndo, ninguém a veria ali, se caísse no chão e rolasse até o fim da avenida que se deparava com o esperado córrego, mesmo com ela podendo ver a cidade toda dali do início da via.
Via até mesmo os morros que só pertenciam à zona rural da cidade e nada mais que isso, do outro lado os prédios cintilantes em plena segunda-feira dos bairros nobres, os condomínios na periferia da cidade, os bosques, as largas rodovias, entretanto o que avistava mais claramente era a silhueta no final do horizonte de uma árvore alta e solitária num topo dum morro.
Evey se enxergava em tudo, ainda assim não se enxergava em nada.
Continuou sua corrida a favor da gravidade numa inclinação em que suas pernas nem precisavam se dar ao trabalho no ermo espaço, um buraco negro, no meio da cidade.
Embora seu vestido de mangas largas, revestido por renda fosse não muito atrativo, alguns homens que passavam por ali de motocicleta, assobiavam, fazendo Evey só querer desaparecer.
Suava tanto por debaixo daqueles trajes, mesmo daquele jeito não parava um segundo sequer. Ora porque não pudesse mais impedir seus pés, ora porque aquilo era algo que ela deveria certamente realizar.
Nas bochechas sua maquiagem pingava e dava-lhe um aspecto macabro.
Quase no final da rua, quando já tentava desacelerar seus passos,Evey pensou sentir algo de estranho. Um frio interno atacou sua espinha e ela viu um carro passar bem lentamente ao seu lado, de certa maneira familiar.
Um brilho azulado nos olhos do motorista, no entanto com a escuridão da noite e o insulfilme do carro com obscuridade de quase oitenta por cento, ela não conseguiu identificar. Entretanto no momento em que sua cabeça se tornou a olhar, seu corpo não desacelerou na descida.
O resultado não foi tão catastrófico, contudo a dor urgia em sua cútis do joelho e parte do braço frágil. Tão branca e pálida ficou mais ainda com suas forças sendo instruídas para reconstruir seus tecidos.
Mancou até o final da rua, exatamente onde devia chegar, lá na beira do córrego estava a casa que Cora havia a tanto combinado de invadir e fazer suas festas, todavia Evey desconfiava que começara a viver ali com sua namorada. Toda vez em que perguntavam algo a respeito à Cora, ela respondia apenas:
- Se alguém tem uma casa dessa e não quer viver nela, então que compartilhe com os outros.
E ela não deixava de ter razão. Ainda assim criticava o movimento dos sem-teto, alegando que o governo não moveria nem um dedo para ajudá-los. Sim, não deixava de ter razão, mas saía de perto quando os humanos começavam a ser muito contraditórios, aquilo era algo que ela gostava de avaliar solitariamente, sendo ela a maior contradição ambulante que já houvera.
E entre sua sujeira e sangue, lápis borrado e suor, ela adentrou a festa nos trajes de luto, realmente lutando para se desvencilhar daquela prisão de calor.
Facilmente escalou as trepadeiras escondidas do lado de fora da casa e do outro lado do muro desceu a escada de madeira temporariamente postada. As folhas da mata presente naquela casa agarravam-na e pegavam para si um pouco do calor que ela exalava, porém nem chegando a ser um pouco, deixando assim com ela seu aroma de tragédia.
A Lua já luzia mais para cima no céu, refletida também pelas águas turvas da piscina. Eram torcidas e varridas por todo mísero toque com sua superfície pelicular. Qualquer contato com o mundo de fora e, como uma tomada de ar respirado, se revolvia.
Evey antes de trocar olhares com qualquer de seus amigos, trocou com sua confidente lá em cima, a estrela mais brilhante dos céus, a quem ela havia dado um nome de santo, mesmo sem ser crente, contudo de alguma forma também havia perdido Vicente, pois havia se posto a muito no oriente da abóboda celeste.
Evey suspirou e pareceu assim recobrar todas as suas dores e cóleras corporais. Seu próprio peso a puxava para baixo, derretia o metal na chapa quente e seus pés quentes desabaram no chão.
No instante em que a avistou, Nicolas foi ao seu encontro.
- Ta tudo bem? – perguntou, preocupado.
- Aham. – mentiu ela – Tropecei quando fui descer a escada.
- E veio parar aqui? – realmente estava longe, ela não tinha calculado direito.
- É que eu estou me levantando aos poucos.
Nicolas moveu os lábios como em contentamento e ofereceu-lhe as mãos para se levantar. Evey apertou seus dedos, enquanto puxava seu corpo para cima, sentindo falta do cheiro e da pele macia dele.
- Nem te conto, Evey – já começara com o tom de deboche – As duas estão aqui. E me querem. O que que eu faço?
Evey revirou os olhos e suspirou de novo, observou o farfalhar das folhas lá em cima e os morcegos saindo a sua caça pensando se deveria ou não colocar a verdade em jogo para aquele ser tão burro.
- Sabe, Nicolas, às vezes a gente tem que deixar para o tempo decidir isso.
- Mas, o momento é agora! – insistia, ela nem mais ousando voltar a mirar sua face de garoto afoito.
Nicolas sabia muito bem o que queria, entretanto sua condição de hormônios a flor da pele que a puberdade lhe proporcionava deixava essa sabedora em risco. Há três anos ele queria uma delas, a Paula, e naquela exata mesma noite ainda a queria, Evey realmente deveria opinar? A outra era uma distração para os dias em que o jogo do amor se tornava muito maçante para o galã da história.
- Nicolas, por que você não...
- Se bem que a Laura ta me dando bem mais mole – cortou-a Nicolas, deduzindo por sua cabeça de baixo – Não acha?
- Como eu poderia? Acabei de...
- O.K. – respondeu inalterável – To indo atrás dela. Valeu, Eve.
E o idiota veridicamente foi embora, abandonando-a ali de boca aberta. Ele se arrependeria e muito, Evey já se certificava.
Sem ligar mais tanto para a história de Nicolas, contudo com ela ainda latejando na cabeça, Evey se dirigiu a churrasqueira onde a maioria dos convidados se reunia, assim não passando de mais de meia dúzia de pessoas. Dentre as quais a primeira a notar sua presença fora Cora, sentada no colo de sua namorada, se levantou e veio abraçá-la, jogando seus cabelos coloridos ao redor da cabeça de Evey, fazendo-a só enxergar vermelho ou azul.
Ali estava também um garoto meio acima do peso com corte de cabelo e roupas normais, ocultando-se num canto atrás de seus óculos, Daniel Waters de sua sala, um jovem um tanto alto demais, pálido de cabelos e roupas normais, só um gosto para música excepcional, assim como sua habilidade para tocar violão e uma magreza um tanto incomum para alguém de sua idade. Também se encontrava sua amiga de 21 anos que ainda vivia da renda dos pais só porque se dedicava numa faculdade engenharia bem fácil, Candice era baixinha e adorável, tanto que as pessoas até sentiam raiva, sua pele mais escura havia a feito passar pelas cotas da faculdade o que também era um ponto positivo para ela. Outro amigo de infância de Evey estava ali e era o punk de meia tigela, Tyler que sonhava sempre em fazer um moicano, porém sua mãe não deixava e anda com excesso de peso em bijuterias dark pois sua própria natureza de olhos azuis clarinhos e cabelos loiros não combinavam nadinha com seu caráter.
E, obviamente que havia a namorada de Coraline, Debby, uma garota meio gostosa e gordurosa demais se comparada a Cora, tinha californianas coloridas nas pontas dos cabelos castanhos enrolados, e seu rosto fofo não contribuía nada para com ela quando tentava parecer mais magra. Ainda assim, como Cora tinha uma fisionomia dócil, mas com um toque mais perverso.
Coraline com suas covinhas em relevo e evidência segurou o rosto de Evey com as duas mãos frias, perfurou seus olhos com os dela e perguntou:
- E aí, cadê a vodka? — num to esperançoso, porém muito, mas intrinsecamente, muito louco, parecendo estar bêbada há três dias. E começou a rir quando Evey respondeu:
- Ahn...
De uma forma bem drogada ela a introduziu até os assentos e sentou-se também a seu lado no colo de sua namorada. Evey achou estranho e melhor não comentar, porque deveria estar vendo coisas com sua falta de inanição, entretanto jurou que simultaneamente a seu olhar sendo cruzado com o de Debby esta lhe mandou um beijo pelos ares e uma piscadela suspeita.
Evey franziu o cenho enquanto tornava sua feição ao chão, onde poderia ter permanecido. Aqueles lábios, várias vezes usados por Cora, adornados com brilho labial discreto e um pouco de cerveja desejavam-na?
Por dentro de seu corpo quente e denso, uma friúra leve irrompeu e logo a preencheu, sem sentido ou nexo, deixando-a no mesmo estado.
Candice foi até ela, levantando seu queixo.
- Hey, hey, mano, o que foi? – perguntou toda animada.
- Ah, nada de mais – resmungou Evey.
- Você tem que ver, Eve, – empolgou-se mais – a gente está formando uma banda, já que você sabe que eu toco baixo, Daniel guitarra e Tyler um pouquinho de bateria e teclado. O som vai ficar maneiro e até a Cora contribuiu deixando a gente ensaiar por aqui.
- Legal. – ocultou todo seu tormento atrás de um sorriso animador, esquecendo-se um pouco dele também – Mas, vocês estão com os instrumentos aí?
- Então... – disse Daniel, fora do campo de visão de Evey, revelando-se escondido atrás, do outro lado da varanda, de Candice.
- Mais ou menos... – declamaram em uníssono Candice e Daniel, ambos fazendo uma careta ao falá-lo.
- O muro não permitiu a passagem da bateria, não é? – deduziu Evey.
- Exato – respondeu prontamente Candice. – Mas o resto está aqui embaixo já. Só um pouco no meio do caos e da desordem desse lugar – apontou com o braço curto as mobílias jogadas por ali, acumuladoras de poeira e tombadas de lado para espaçar o local e para dar entrada aos instrumentos tanto quanto desarrumados.
Era realmente complicado enxergar algo no seio daquela bagunça, afinal o ambiente todo só era iluminado ou pela Lua ou pelos cinzeiros de cigarros esquecidos, no entanto mostrando possuírem ainda flamas a fim de queimarem-se.
Evey novamente voltou seu olhar ao refletir da Lua nas águas, cuja integridade apenas dependia de um sopro fraco do vento para se ir, repartindo-se em milhões de pedaços com as pequeninas ondas formadas e assim como uma gota em sua curso para o oceano, precipitava-se e logo se unia de novo, todavia a união era instável e a luz se repartia e doava aos lugares também próximos e não só aquele.
De qualquer forma, a Lua nunca estaria de volta ao sítio em que esteve naquele momento, pois, embora seu movimento fosse rudimentar e imperceptível a olho nu, ela sempre girava em torno de si mesma e da Terra, na atração eterna dos movimentos astronautas.
Tão absorta nos atos da natureza que não se absteve dos próprios e quase caiu de cara no piso mal lavado do cômodo. Somente foi-lhe possibilitada a chance de se segurar pelo ruído do andar forte e confiante de Nicolas que passava por ali de mãos dadas com Laura e falando ao celular desapontado:
- Mas, cara, você prometeu que ia vir. Pode até trazer a Grace... – e sua voz se esvaiu com a distância, já que ele só passava e pretendia ficar próximo a ninguém enquanto quase engolia sua nova namorada pela boca.
Logo Paula, inversamente proporcional ao casal que acabara de ser criado, fora até ali e se aproximou mais do grupo, fechando a boca em apenas uma retorção labial de pena. Evey revirou os olhos, de um ângulo observando a Lua lá no céu e de outro vendo somente uma garota miserável de coração partido, sentiu uma massa grotesca subir-lhe pela garganta internamente e esganá-la, sufocando sua respiração. Ela não poderia deixar de se sentir culpada pelo que havia acontecido entre os dois, afinal revelava a realidade para um garoto tão desesperado com o tempo quanto o Nicolas, deste modo ele consequentemente se arrastou para as profundas, cavando cada vez mais fundo nas camadas sujas de sua vida ocultadora, como fazia naquele exato instante.
Não se poderia por as provas a mesa para alguém do tipo dele, já que ele não a aceitava, precisava-se deixá-lo sedento daquilo que se encaixaria perfeitamente para ele, contudo talvez se colocasse esse plano em prática, talvez não fosse mais ele, porém sim outro espírito a lhe habitar.
A incompatibilidade habitava as duas almas de Paula e Nicolas de um jeito tão magnético que era impossível Evey não querer interferir. Ela até pensou ver uma lágrima singela escorrendo pelo rosto fino e delicado de Paula, enquanto se irritava com aqueles pensamentos.
Embora, daquela exata forma, fosse tão concebível caber-lhes o cargo de estarem juntos para apoiarem-se por um longo tempo. Evey poderia estar vendo de uns olhos muito puros e castos, afinal talvez também fosse melhor daquele jeito: não saberem a verdade sobre si mesmos e assim não se fecharem em seu próprio mundo de amor.
Talvez fosse melhor que não se deleitassem a felicidade em sua cúspide para não experimentarem a tristeza em seu ápice. Melhor o vácuo que se reproduz eternamente no âmago do que um objeto copulador. E o povo falava ali, contudo na margem se encontravam Evey e Paula escutando apenas silêncio.
A carência das carícias de Nicolas era iminente na face atormentada de Paula, mas era tão sutil quanto as estrelas lá em cima sua tristeza. No entanto, o vazio em seu coração a contrariava, Evey poderia lê-la como um livro.
Ela tomaria alguma providência, tristemente o momento não era aquele, contudo quando adequado ela certamente acertaria a vida dos dois. Infelizmente aqueles desvios faziam suas almas vacilarem e seus destinos desta forma perderiam o curso. Manchavam seus membros e revestiam-nos com uma bolha de negação.
Notas de piano tocavam na cabeça de Evey, e não era pura ilusão, Tyler havia começado a tocar seu teclado, conectando-o a uma tomada ali de fora da casa. Uma canção agitada. Evey ficou mais fissurada ao ouvir a intercalação de notas graves e agudas.
- Não conheço essa aí, não Ty – comentou Candice confusa com seu baixo no colo.
Evey foi tomada de súbito por aquela melodia, da qual era simpatizante, e achava muito improvável um punk esforçado do gênero de Tyler gostar tanto dela a ponto de saber tocá-la. O resto do grupo se mantinha calado, só sendo cortado pelas notas agressivas e melancólicas em tom de piano e as expiradas de fumaça de maconha.
O ar estava pesado quando Evey fechou seus olhos, se levantou e tremulou seu corpo de acordo com a sinfonia. Ela abriu a boca brevemente e a letra saiu dela como uma fonte, com uma voz bem feminina e baixa como em sussurro:
- Once I was lost
To the point
of disgust.
Had in my sight
lack of vision,
lack of light.
I fell hard,
I fell fast.
Mercy me,
it’ll never last.
Uma pausa se fez até a próxima estrofe, entretanto até o som do piano havia cessado. Evey com sua visão selada não poderia ver o que acontecera, porém o ar se tornara tenso e as respirações ofegantes. Mesmo assim ela não se permitiu abrir-se até a música terminar.
- Then, in the dust
all the things
we discussed
were thrown to the wind.
So at last,
we begin.
'Cuz we fall hard,
we fall fast.
Mercy me,
it'll never last.
Assim que se encontrou novamente dentro daquela sala, as brasas dos cigarros ardiam até quase a boca entreaberta daqueles presentes que a observavam com tanta atenção. As cinzas, contudo, ainda não haviam caído. Com os olhos arregalados a mirando, Evey sentiu necessitar engolir seu coração ou sairia pela boca. Sua goela se contraiu de novo e ela ficou sem ideia do que fazer em seguida.
O garoto de óculos do outro lado do aposento que mais contribuiu, tossindo um pouco com o cheiro forte que saía daqueles baseados tragados pelo ar e não por eles mesmos, assim quebrando o feitiço de encantamento da atenção. Os outros olharam em volta, entretanto ainda não creram.
Parecia ser contida por aqueles sussurros mais uma vez:
Aberração, aberração, aberração...
Todos os rostos pasmos e assustados, assustavam-na mais ainda. Colocou a mão direita sobre o braço esquerdo caído e fincou suas unhas afiadas. Eles nunca haviam se indagado sobre algo vivendo dentro de Evey e agora iriam.
Ela se arrependia muito a cada segundo que passava. Sua fisionomia estava tão temerosa, enquanto os outros suspiravam de admiração, e Tyler finalmente sacou o silêncio para falar:
- Como eu dizia – Evey se virou na sua direção para ouvir atentamente a cada palavra, não conseguia mais esconder. “Estúpida, estúpida”, brigava consigo mesma, por conseguinte apertava com força intensificada a carne de seu antebraço. – Essa música passa em uma série da televisão britânica, e nossa hardcore Evey a interpretou muito similar ao original.
Aquele punk de meia tigela não poderia ficar calado quanto a ela? Todos já sabiam que ele tinha uma queda por ela e ele não precisava expressar isso, além de tudo, não necessitava atrair a atenção de todos para ela. Tão certinho com suas frases e termos complexos. Ela não era muito diferente, entretanto ele só queria ver o mundo queimar como a maioria dos homens.
- Pois é, Eve – elogiou Candice, com um sorriso – foi tipo... wow.
Todo o resto murmurou em aprovação e durante o que Cora relatava, Evey se encaminhou a onde Tyler se postava:
- Você nunca me contou que cantava bem, sua coisa – magoou-se Coraline.
- Deveria ser a cantora da banda – disse o gordinho de óculos ao lado de Daniel que assentiu.
Evey com raiva nos seus olhos apenas pegou a tomada do teclado e puxou-a com a maior força que possuía. Empurrou Tyler de leve ameaçando-o com as unhas pontiagudas:
- Desde quando o senhor punk ouve indie? – questionou com a testa franzida e a boca demonstrando sua falta de satisfação. Não queria feri-lo, todavia ele a confundira tanto e mesmo assim não era culpa dele, se não dela.
Tyler apenas respondeu com uma piscada de olhos estranhando. Sua carcaça havia caído e ele ficara sem chão. Evey olhou ao redor, tentando solucionar o que ocorrera, corrigindo seus atos, desta forma disse:
- Eu resolvo para vocês o problema da falta de batida no som da banda.
Deixou um rastro iminente de pegada por sobre o pé de Tyler com seu belo e pesado coturno, se dirigindo para a janela da casa, postando os dedos longos sobre o vidro.
- O que você vai fazer, Evey? – enquanto em uma orelha ouvia a grossura do vidro, já que encostara o ouvido numa das repartições dele, na outra escutava essa pergunta apreensiva de Candice.
- Relaxa, Candice. Daqui a pouco eu volto – dito e feito, ela se desapoiou da parede e socou a superfície de vidro da janela, portanto este craqueou-se bastante, mas ainda não quebrou, com o punho latejando descalçou-se e jogou um dos bicos de aço do coturno contra a janela e assim partiu-se em milhares de pedaços pequeninos.
Evey enfiou o braço ali dentro e como previra a chave estava exatamente na fechadura, rapidamente a girou e abriu a janela. Deu um pulo alto que transpassou a altura do parapeito e daquela forma adentrou a casa.
Sobre os pés descalços tocando o chão gelado, se esquivou por entre os móveis bem distribuídos pela sala, temendo haver algum tipo de alarme.
Sua meta era uma mísera chave.
Seu coração batia acelerado, e ela ainda se arrependia do que havia acontecido lá fora.
- Não devia estar fazendo isso – disse uma voz de cima da escada que a gelou totalmente por dentro, tanto que fraquejou por sobre seus joelhos, seu corpo se espalhando pelo piso.
- Você também não – ela retrucou ao reconhecer a voz de Nicolas. A luz de um quarto lá em cima estava acesa, só era barrada pelo cabeção de Nicolas espiando entre as vigas do corrimão.
- O que? – Evey apenas se encaminhou a cozinha esguiamente, evitando contato visual com Nicolas. Ele certamente continuara confuso, entretanto voltara para cima, para sua cama agitada e quente com Laura.
Igual a sua casa, o armário de remédios no começo da cozinha também retinha a caixa de chaves. Apanhou-a, andando rápido dentro da casa, temerosa do que poderia estabilizar naquele escuro. As chaves tintilavam enquanto ela mantinha seu passo rápido até a janela.
Ali a escalou de novo, de encontro com seus amigos que esperavam ansiosamente o retornar de sua presença. Ela passou antes a caixinha, arremessando-a na mão de Daniel, dizendo:
- Agora já podem abrir seus portões e passar seus instrumentos.
Ele agradeceu com um sorriso. Tyler nem havia saído do lugar onde Evey havia lhe encostado e Cora já se apressou para tirar o que lhe pertencia das mãos dos olhos. Candice e o garoto de óculos a olhavam com muito orgulho e estranhamente Debby também não se locomovera de sua cadeira lá fora, parecendo amargurada.
Contudo no momento em que Evey, com os pés postados no parapeito e postura já para mergulhar para fora, foi sair, tropeçou em alguma fundação de madeira da janela, perdendo o equilíbrio e chocando-se com barulho alto e intensidade no parapeito de fora.
A parede de tijolos tremeu um pouco, mas não tanto para resultado imediato, apenas no momento em que se ergueu ali no parapeito de fora para dar um pulinho baixo e aterrissar no quintal que os morcegos ocultos em seus ninhos dentre as telhas, saíram a caça e rodearam sua cabeça, amedrontando-a.
Evey gritou e sacudiu os braços espantando-os, todavia alguns, sem culpa, ela já sabia, haviam a ferido com suas garras e assas grosseiras. Evey se sentia pior por achar que eles queriam a ferir e feri-los tanto quanto.
Encolheu-se ali no chão no meio do dilema.
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