Icy moon, bloody sun.
10 D - Morto-vivo
Dominik sentia sua pele querendo cair do corpo, desde o cochilo de sábado ainda não havia dormido, permanecendo do lado da mãe adoecida e com dores no leito hospitalar. As olheiras dele se multiplicaram com as dela e os dois compartilhavam o mesmo tanto. Ao menos por algumas horas, que soaram como uma eternidade, ela conseguiu adormecer.
O som e cheiro lúgubre e celeste do pronto-socorro ficaram impregnados no corpo de Dominik. Ele dirigia o carro de sua mãe ladeira acima na noite de segunda-feira, por incrível que pareça, e ainda faltasse um ano para que ele conseguisse sua licença de motorista era facilmente conduzido pelas mãos cansadas de Dominik. O carro também era automático para auxiliá-lo.
Sua mãe se encontrava na linha tênue entre o sono e realidade, acordando de vez em quando com os trancos do carro, dormitava enquanto tudo estava na calmaria. Privado de sono, Dominik sentia seu mundo igualmente se formando nesta bipolaridade, seus pensamentos concisos e sólidos se mostravam espremidos e eram contidos tão longe dele que somente saía-se dali um líquido que escorria até a cabeça dele.
Respiração ofegante, coração batia forte.
Tudo contido para a mulher que tentava descansar ali do seu lado. Talvez, se fosse assim, ela poderia finalmente viver sua vida após esse ciclo menstrual. Dominik não podia desistir.
Os roncos dela eram suaves, quase o fizeram cair no sono também, contudo abriu os olhos no momento em que avistou uma gótica no embalo da descida na calçada, ela tanto quanto ele quase caíra enquanto corria, porém não parecia ser culpa do sono, ela se mostrava mais triste.
Seus olhos cruzaram com o dela e ele sussurrou:
– Ela é real. – e subitamente vieram palavras conhecidas a sua mente.
“Minha amiga mora aí” – voz hedionda de Nicolas vibrava dentro de sua cabeça.
Dominik freou o automóvel e logo depois se lembrou de que necessitava acelerar por tentar subir um morro. Com o tranco, sua mãe despertou num susto e assim como ele. Parecia acordar de um pesadelo que começara no instante em que achou estar vendo alucinações, exatamente quando a olhara pela primeira vez.
Então a garota vivia mesmo ali. Sua existência passara a o intrigar de uma forma que nenhuma outra nunca fizera isso a ele antes. Ainda mirava o alto do horizonte depois de sua subir a ladeira e a rua desembocar em uma rotatória, Dominik continuou seguindo o curto curso até seu destino fatídico: o lar.
No entanto, obviamente que não ficara impune dos barzinhos pouco agitados por ali perto reunindo os pouquíssimos bêbados declarados todas as semanas integralmente e das músicas que ouviam.
Com sono e em estado delicado-irritadiço ao estacionar o carro na garagem, tudo lhe parecia por breves segundos uma cópia de uma cópia de uma cópia. Provavelmente por se encontrar num devaneio nítido e contínuo.
Fechou os olhos por poucos momentos e quando os abriu se deparou com a imagem da garota impressa em todo seu campo de visão. Piscou várias vezes, até ela sumir de vez. Não que quisesse, mas ela não o deixava escolha. Desceu e deu a volta no carro para acompanhar o corpo mole de sua mãe.
Ela precisou ser acordada por ele se não dormiria até o amanhecer ali mesmo. Ele quase a carregou até seu quarto onde seu pai estava melado de cerveja por seu tronco peludo e com os olhos vermelhos assassinos.
Ah, mas ele não terminou ainda – pensou Dominik, ainda com um senso de esperteza.
Ao depositar o ser frágil de sua figura materna na cama, onde já se encolheu sob as cobertas e cerrou os olhos sonolentos, Ben, seu “tão amável pai”, foi diretamente ao seu encontro e, empurrando-o com o andar pesado e o peitoril estufado e largo para a sala, lhe deu um tapa na cara.
Fechou a porta às suas costas.
Dominik também não era o filho afável que todo o pai gostaria de ter, muito longe disso, era independente até demais, e sentia que talvez seus devaneios estivessem indo longe demais quando Bem lhe socava o corpo e ele relembrava de uma cena da sua infância.
– Seu bastardo inglório – as palavras, para um bêbado, soavam bem.
E simultaneamente vinha a sua cabeça a memória de ser, um dia, um garotinho feliz e estúpido correndo atrás de uma bola e tentando chutá-la para seu pai.
Voltava a si, bem a tempo de ver-se socado na barriga.
– Garoto mimado.
Todavia, ele não conseguia chutar a bola, perto de seus pés aparentava-se haver alguma atração magnética e estática, pois a bola não rolava. O olhar furioso de seu pai desapontado vinha em seguida.
Via de novo, seus membros arroxeados e sangue saindo de seu nariz há tão breve tempo golpeado. E os olhos vermelhos daquele homem desiludido talvez querendo transferir sua culpa para outro ser ou vingar-se.
E aí vinha novamente a relva verde clara de um verão distante e seu pai se aproximando com aquele mesmo olhar no semblante dizendo que ele nunca se encaixaria, e não sentindo nenhum orgulho ao dizer isso e após despejando seu olhar ao chão, desolado, amargurado.
E toda aquela raiva era multiplicada pelo desejo de matar que sentia no presente daquele momento, Dominik sentia o odor de matança pelo nariz e o rancor através do próprio sangue.
Devo matá-lo com minha espada, ou devo matá-lo com minha palavra? – a violência natural para todos os humanos, reavivava cada célula dos músculos de Dominik e seu cérebro latejava com toda informação com as quais poderia atacá-lo.
– Bastardo inglório é você, querido pai – disse educadamente Dominik enquanto recuava dos braços tensos dele – que vive à sombra de uma mulher que há muito tempo não passa de uma sombra!
– Não se atreva a falar da sua mãe...
– Atrever-me? Como poderia se não há o que falar? Decadente, meu querido pai, muito decadente.
– A vida é decadência! – cuspiu rigidamente Ben, engrolando-se com a sentença.
– Sempre tendo coisas de merda: uma casa de merda, uma esposa de merda, um filho de merda, um emprego de merda. Uma vida de pura bosta. Tudo isso pra quê? – Dominik abaixou seu queixo levemente e levantou uma sobrancelha a seu pobre e confuso pai – Pra manter um status? Pra priorizar que a raça humana não é capaz de nada a mais? Idiota estúpido! Não abaixe a cabeça! – passou sermão por ele já se render ao que o filho dizia – Lute, seu verme.
– Você é doente... – Ben balançou suavemente a cabeça, durante a aproximação do corpo já moribundo do filho estendendo os braços, deste jeito pedindo mais.
– Então a vida é uma doença. E a mamãe não é a infectada.
Com isso, Dominik não poderia convencê-lo mais, Bem transferiu toda sua força da dor para seus punhos e massacrou o tronco pálido e machucado do filho. Porém, logo não conseguia mais articular seus braços para atingi-lo, ficara totalmente catatônico dentro de seu próprio mundo.
– Algumas pessoas não aguentam a verdade – a voz de Dominik ficara um pouco desfigurada pela batida no nariz.
Sua confiança foi transformada em total ultraje quando foi à porta de seu quarto e avistou um olho feminino observando tudo o que ocorria. Pele morena, cabelos castanhos, muita maquiagem, o que, pelos infernos, Isabela estaria fazendo ali?
Ela arregalou seu único olho à mostra no momento em que ele se aproximou, por fim, abrindo a porta. Entre a bela e mascarada face, uma feição assustada, entre os dedos enodados embalagens de filmes tipicamente comédias românticas medíocres. Ele rufou para ela, entretanto ela continuou ali fixa com os joelhos vacilantes e o rosto com medo sendo mostrado.
– Você é um monstro – ela murmurou entre dentes que não queriam se movimentar.
– Não tanto quanto você – talvez aquilo a atingisse.
Talvez não porque aquelas lágrimas de crocodilo escorrendo por seu rosto e levando a maioria de sua beleza embora não o enganavam. Estranhamente, embora ela ainda chorasse por culpa do medo, ela chutou a porta atrás de Dominik e começou a tirar a roupa.
Era bem provável que viesse a espalhar a notícia do ser monstruoso que ele mostrava ser e difamasse-o também alegando que havia a estuprado, no entanto, muito bem não haveria provas e ele aparentar-se-ia mais violentado do que ela.
A dor escorria sob ele enquanto em cima de Isabela sobre seu leito, ele subia e descia, contudo vivacidade vinda dela ele não sentia em nada. Só suas lágrimas geladas tocando seus hematomas.
Nem se deixou ser levado pelo impulso carnal de apertá-la inteira até nos peitos, porque, simplesmente, ela não merecia. No entanto, tardava-se em gemer embaixo do corpanzil de Dominik. Também se escondia por debaixo das manchas de plasma que caíam da pele dele.
Sequer segurava-a, apoiava-se apenas no colchão, e a dor perpassava-lhe por inteiro ardendo em todos os hematomas, até mesmo seus olhos latejavam.
No momento em que se pegou chorando pelo sofrimento corpóreo, desmontou-se da vadia chorona, logo seu pênis tanto quanto se des-excitou com a dor. Tanto prazer naquilo, dor transpirando por seus poros, mostrando sua verdadeira face e rapidamente trocando ela inteiramente, sempre com sentidos diferentes, pungindo.
AS cortinas de sua janela fulgiam com o pouco vento ali fora, assim o permitindo avistar a única gata negra da noite à tênue luz do luar, e era tão ardido. Seus olhos se encontraram e ele podia dizer que ela em si também sentia dor, as sobrancelhas, no rosto belo de coração frágil, franzidas e os dentinhos da frente à mostra com sua boca carnuda brevemente aberta.
A mesma lágrima, ao mesmo momento, mais quente que o fogo caiu sobre o rosto dos dois, até o vento puxar a cortina de volta para fora, e apesar disso ele ainda conseguir vê-la tornando o rosto ao outro lado.
Muita gente chorando. Muita gente se revelando, ou relevando.
Isabela estava no outro canto da cama sentada, linguagem corporal envergonhada. Ela já colocava a manga de sua camiseta que vestira por baixo para cima, tremendo um pouco.
Não era quer desconhecida, quer prazificada. Hesitante, ela levantou-se, tendo ainda dificuldade em andar até a porta. Não olhou para trás:
– Acho que tenho que ir.
Dominik se encontrava absorto demais em seu sono e devaneios particulares, portanto não se respondeu, e, mesmo que prestasse atenção, não daria o luxo a ela de ser respondida. Certezas, tudo o que queria e não mais receberia, ao menos que se fechasse demais como já fizera.
Contudo ninguém pode esconder o que não sabe possuir.
Dominik pousava o olhar no teto branco e era tudo o necessitava. Até a escuridão lhe preencher por completo, e nem o teto parecer mais real. O choramingo de seu pai mantinha-se audível até aquele ponto.
As telhas do vizinho rachavam-se um pouco por serem o piso de uma garota muito curiosa.
Pungindo, embora num colchão macio como as nuvens, ele adormeceu no choque da dor.
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