Icy moon, bloody sun.
13 D - Supernovas
Notas iniciais
Dominik passou a semana fora de tudo, era o único ninguém que prestava atenção na aula, falava quando não devia, quebrava o coração e a esperança das pessoas. Mas, há tanto já não haviam os perdido? Afinal, só tinham aquele dever consigo mesmos de fingir serem altruístas e bem enquadrados.
Se há tanta corrupção, por que não se rebelam? A elite é uma bolha de água flutuando sobre todo o mundo, sedento, que quando vai contemplar o resto veem apenas um reflexo de si entre as entranhas ossudas do planeta.
Numa aula de sociologia seu professor alegava o absurdo que alguns vândalos fizeram com casas do bairro nobre da cidade. Dominik sorriu por um segundo, depois nem levantou a mão, contestou rapidamente o quanto aquilo soava estúpido: ninguém prestava atenção a seus muros antes e agora sim, o que há de errado nisso?
– Propriedade privada, meu jovem – retornou o professor barbudo e gordo, socialista hipócrita – Se alguém fizesse isso às paredes do seu quarto você gostaria?
– Não só, como pediria o nome do autor da façanha e me tornaria amigo dele.
– Não creio que você esteja entendendo – a plateia se tornou tensa e estática e o professor tentou ser falsamente mais suave com estupefação – Meu jovem: se estes baderneiros quisessem revolucionar algo deveriam ir ao governo e apresentar suas propostas.
– Para que, meu velho? – sadicamente Dominik o imitou – Para receberem um não na fuça e quem sabe até serem presos por heresia? Ora, não fingia que o sistema não continua sendo ortodoxo, porque é e sempre será. Até os animais são assim: o mais forte esmaga o mais fraco e o come. Simples. Meramente fácil é imitar algo natural a qualquer ser respirante, o problema é: nós não somente respiramos, não é?
– Você está invertendo...
– Nós pensamos e isso é o que nos diferencia. Por que, então, não vivemos sendo governados por nós mesmos? Temos cérebros, não temos?
– Garoto, sabe que nem todo mundo concorda com o que você acha do mundo, não é?
– Talvez porque estejam cegos – saiam como um grito histérico, o professor levantou-se e se encaminhou para o assento de Dominik, puxando-o pela camisa – Como professor você deveria me fazer ver a verdade e não me reprimir desta forma.
– Você vai para a detenção, meu jovem – cuspiu o velho homem cansado.
A coordenadora concordou com Dominik em não dar-lhe nenhuma advertência, afinal não fizera algo errado, porém que da próxima vez não se repetisse.
Queriam calá-lo, calá-lo, calá-lo a todo o momento que ele começara a se sentir mal, um nó vir-lhe a goela e não poder falar direito, porém acompanhava de perto seu efeito naqueles que o ouviram.
Evan não conversara com ele desde sábado. Não existia como, ele estudava à tarde e Dominik naturalmente pela manhã.
Queria até ser verdadeiro com quem lhe perguntava sobre suas injúrias, contudo era mais fácil botar um piercing falso no nariz e fingir que o colocador tinha feito um serviço de porco. Nem precisaram perguntar.
No intervalo, ele permanecia na sombra, bem longe de Isabela ou qualquer uma de suas amigas cocotinhas, mais distância ainda de Mateus, via o medo nos olhos deles e principalmente a final amargura por ele estar certo. Lia seu livro e completava-se com o silêncio dos andares superiores do que se assemelhava muito com um presídio, todavia era somente seu colégio.
As pessoas raramente vagavam por ali, se sim andavam como espíritos. Exatamente, o que ele se tornara naqueles momentos.
Quando adentrava sua casa, sentia sua pele descascar do corpo inteiro e andar por lá em carne-viva. Seu pai lhe lançava o ódio pelo olhar, sua mãe continuara com sua decadência, mas sua dor parara. Não aprendera a viver.
Mesmo assim só com dor que realmente se vivia. Dominik sentia até o âmago, no entanto, lá dentro tudo era calmo e ele ainda tinha sonhos com a garota no telhado que desde então nunca voltara a aparecer.
Para o bom convívio, e o bem de sua festa, da qual não desistiria, Dominik abraçou seu pai na noite de sexta-feira, e Ben estando tocado, sussurrou no ouvido do filho:
– Obrigado por levá-la ao hospital.
Como se ele não devesse. Dominik revirou os olhos, entretanto se calou. Apertou os lábios mostrando um sorriso ao pai e lembrou-se de que ele não ficava bêbado a partir da noite de segunda-feira, ainda assim sua ressaca mostrava-se eterna. Não podia se locomover que ele ouvia e reclamava.
Dominik precisava tomar uma providência.
– Alô, sra. Penkins? – Dominik ligou para a colega de faculdade do pai que logo se tornara amiga tanto quanto de sua mãe – É o Dominik. Também é muito bom falar de novo com a senhora. Não há algo errado, não, e aí como vão seus filhos?... Entendo. Escute: que tal dar uma saída com seus antigos amigos pra reavivar o passado? Ótimo! Infelizmente, não poderei estar presente. Mas meus pais vão com certeza! Sexta é um dia perfeito, à noite? Claramente na pizzaria. Muito obrigado, sra. Penkins, tenha uma boa semana também.
Desligou o telefone. Aquela falsidade tinha de valer a pena. Seus pais lhe observavam receosos do balcão da cozinha. Dominik apenas sorriu de volta dizendo:
– Têm um encontro com o casal Penkins na sexta-feira. E nada de dar bolo naquela adorável e pobre mulher.
Carol lhe olhou confusa. Bem franzia o cenho e parecia esperar o pior:
– Se você está tramando algo, saiba...
– Saber que você está na minha cola desde segunda-feira, muito obrigado, já sei.
A falsidade chegava a um nível sarcástico onde nem Dominik conseguia segurar seu riso. O pai ficou de boca aberta com tamanho absurdo, porém a mãe sacudiu o pulso levianamente.
– Se é isso que quer de nós, querido – o plano ia bem, pelo visto bem até demais.
Contudo havia muito ainda a ser feito. Durante as noites pegava uma peça de roupa por vez do guarda-roupa de seus pais e jogava-as no lixo, já que só a empregada conferia o lixo, nenhum membro da família passaria a saber o que estava acontecendo.
Não poderiam ficar satisfeitos com o que tinham: tudo sumia. Um mistério sempiterno começava a crescer ali naquela casa, pena era que Dominik tinha de sacrificar-se para a vida deles fluir, entretanto não por muito tempo.
Na madrugada de quinta-feira já se encontrava ansioso, nem conseguia dormir. Seria drogas a noite toda, um extremismo exacerbado. Dominik em sua sofreguidão foi à geladeira, fazendo um não devido ruído até demais, também não se importava tanto em tirar os outros de seu sono, se fossem ouvir e aceitar a verdade ali sempre viva e presente dentro dele.
Porém, sua mãe, como se adaptada à escuridão, já se prostrava sentada no balcão da cozinha, girando no banquinho. Ela olhava para o teto iluminado pela reflexão do luar vinda do piso de mármore, portanto recebeu o filho com um susto.
– O que acontece com você, meu filho? – ponderou ela, preocupada.
– O que você quer dizer? – Não era ele quem estava vendo estrelas num vácuo completo no ápice da madrugada sozinho, se bem que não se encontrava numa situação muito melhor.
– Não sai mais com seus amigos, vive brigando, foge de casa... – exasperada as palavras saíam contínuas junto com o ar que respirava ofegantemente.
– Você não me conhece. – ele respondeu duro e seco, fechando a geladeira agilmente ao pegar uma garrafa de qualquer bebida que fosse. Quando se aproximou da orelha dela novamente sussurrou maliciosamente: — e não sou eu quem não liga pra nada ou ninguém só porque está sofrendo.
Todo mundo mente, e realmente porcos satisfeitos devem dormir, no entanto sua mãe não estava nem perto do seu alter ego satisfeito, muito menos ele. Precisava ainda colocar muitas paredes a baixo.
Ali no telhado, Dominik via, ouvia e sentia as coisas queimarem ao seu redor. Na paisagem, os milhares de luzinhas brilhando fingindo serem belos sóis a arder muitos mundos. Mas não iluminavam nem um lar inteiro. No firmamento escuro as estrelas incendiavam, temendo serem deixadas para trás de suas nebulosas em sua própria escuridão.
Não era à toa: a maioria delas já estava morta, só sendo deixadas lá em cima por um lapso de tempo em anos-luz que não chegou ainda aos nossos olhos. E este átimo ainda permitia o céu manter suas brasas. As chamas daquilo que já morreu a muito para buracos-negros nascerem e crescerem por entre as vísceras do vácuo infinito.
As rodas ao longe declarando seu triunfo por sobre as ruas pregadas à terra.
Todavia tão quieto ali em cima. Dominik, porém, não se deixava enganar sabendo direito que todo aquele ócio forçado não produtivo, trazia à tona tanto quanto muitas horas de escravidão para muitos, só que estes eram postos nos calabouços. Enfim não evoluíram bastante desde a época colonial.
Os pecados eram virtudes, embora todos prontamente se negassem a dizê-lo. Ninguém era mais guerreiro de seus próprios pensamentos, por absolutamente não tê-los.
Dominik desprezava tudo. Desejava no mais intrinsecamente explodir todo aquele mundo transformando-o quem sabe na sua própria estrela.
Suspirou ao olhar bem no horizonte um lugar livre de toda aquela falsidade que a modernidade suscitara, como se uma vela acesa fosse protegê-los de toda a escuridão e ali avistava sua própria morte na forma de faróis.
Os ossos de Dominik alinhavam-se perfeitamente às telhas embaixo dele cujo peso continuava as fazendo ranger. Um dia algo ainda traria aquele horizonte ao encontro do teto em que estava deitado assim nem seu alicerce estaria seguro.
Incrível como a vida só lhe existia de dia. A noite trai e enche-se de horrores. Exatamente naquele ponto do horizonte, surgia uma trilha de carros dirigindo em seus próprios rumos, sem parar para pensar sobre estes. Ali onde o céu se fundia com a terra, trocavam eterno beijo no abrigo noturno, havia quem desafiasse aquilo e colocasse limites entre os dois. Os humanos em tão fadado destino, tentam ao máximo não fadar-se.
E Dominik era o mesmo não se deixando levar, temeroso ao máximo de que aquela falta de limites um dia fosse lhe encontrar.
No entanto, ao invés de ter medo sorriu e tornou a imensidão azul em seu rosto para o lado, levantando-se de leve. Ouvira mais do que o vento a soprar e os morcegos a guinchar, escutou o passo da dama sobre o seu enluarado lar.
Contudo não a viu, ela certamente se escondera, desta forma, incitou o jovem há tanto esperando-a acima de todas as cabeças adormecidas daquela noite, em cima do morro mais alto daquela cidade fundada numa depressão, a assobiar as notas de Kingdom Come do The Civil Wars.
E até mesmo o uivo das folhas das árvores próximas, pareceu auxiliá-lo em sua melodia.
Não gostava tanto daquela música, porém mostrou-se apropriada para o momento, assim Dominik teve de recitá-la.
– Run, run, run away – teve de conjurar o espírito da música em seu último verso.
Fale com o autor