Icy moon, bloody sun.
14 D - Aprendizado
Notas iniciais
Dominik arrastava caixas para cá e para lá. O calor retornara e a noite prometia ser abafada. Pior para quem quisesse fumar, contudo ainda com seu apelo atrativo. Todos seus amigos de fora da escola iriam e os poucos de dentro que ainda o aturavam também.
Depositou sua corrente de relógio com as pílulas de Caffy em cima da mesa na varanda da parte de fora da casa. Aquilo tudo acabaria naquela noite.
Seus cem gramas de maconha já postadas embaixo da pia do balcão conectado à churrasqueira e ao forno à lenha. As nuvens lá em cima estavam tão distantes. Cirrus poluentes somente inibindo a passagem da visão humana para os céus limpos e aumentando a força solar, tornando a cidade ainda mais quente.
Dominik não conseguia mais pensar direito. Naquele mesmo dia fora expulso de duas aulas por “temperamento agressivo”. Ele não tinha culpa se as pessoas eram tão imbecis que despertavam isso dentro dele. Ele gritava por silêncio quando as meninas discutiam sobre esmaltes e o único professor por quem ainda tinha respeito, sendo o de filosofia, ficou irritado e o mandou para fora.
Durante o tempo pelos corredores desertos da escola decidiu ligar para Evan.
“Após o tiro, você já sabe se pode morrer” – Caixa eletrônica como quase sempre, aquele maldito.
Derretendo sobre a própria pele, se aproximou de uma janela no final do corredor mais alto da unidade e a abriu. O bafo quente entrou e Dominik realmente sentiu-se abandonado no deserto, o sol fazendo-o de alvo, flechando com seus raios. Seus joelhos vacilaram e sentou-se encostado na parede.
Levou as mãos ao rosto. Esfregou os olhos cansados, e fechados conseguiram ver pontos amarelados cálidos na visão. Cálidos como os olhos dela entre o vento frio levando seus cabelos embora com suas correntes invisíveis e intermináveis. Seu semblante temeroso juntou-se a escuridão.
Contudo havia sabedoria e idade entre aquela feição, e certamente destoava-se da paisagem. Ela não poderia estar com medo dele, mesmo confiante, era um ponto minúsculo entre as telhas avermelhadas de sua casa.
Ela assobiou para o vento, fadando-se entre ondas sonoras de todos os tipos, num oceano tão lotado como o de uma cidade, ou de um campo em chamas de gelo. Explosões a frio como o universo criara-se.
O vento levava as nuvens embora, o luar ficava mais aparente, e a garota não tinha para onde correr. Portanto respondeu.
Seu assobio aveludado era de uma música tão distante quase radical e primitiva, no entanto, onipresente. Numa canção aguda e afinada, ela cantou de volta:
– I’ll be waiting here, for you...
– Você é real? – perguntou ele, bobo, confuso, entorpecido pela voz angelical dela.
Ela riu por dois segundos e seu rosto fechou-se secamente.
–Você é? – e começou a sua evasiva pela janela de seu quarto.
– Não brinque comigo, sua niilista de merda – respondeu Dominik, brincalhão.
Contudo ela se escondera em seu quarto e Dominik jurava que escutara um choro feminino diferente do de sua mãe. Ao descer do telhado, pela escada de madeira, provisoriamente posta ali, ele ficou pensando no que fizera de errado.
Fora uma piada sem graça, qual o problema? Deveria ter algo de errado com aquela garota.
Em sua cama, os lençóis não esquentavam, e Dominik se remexia, ao tentar seu proteger do ar de fora. Seu peito pesava, quase igual a uma âncora, dentro de um mar de perguntas. Ela era tão frágil assim? Alguém deveria pôr algum senso naquela garota. Mas o que ela fazia ali no telhado todos os dias? Por que não falava quase nunca? Por que sempre parecia triste?
Envolvendo-se em arame farpado por questões sem solução, ele adormeceu tão lentamente que quase não dormiu até a aula do dia seguinte.
Seu dedo cansado, apoiado na perna caída sobre o piso de granito falso da escola, despencou novamente sobre o botão de ligar e Dominik atordoado ouviu tocar chamando e chamando, sem resposta.
Os paredões da parte de fora da escola ferviam sobre a luz fulminante e eram caiadas em azul, entretanto ali dentro eram rebocadas quase plastificadas, absorviam o frio, e o prédio mostrava-se oco durante o horário de ensino. Mesmo com todos aqueles corpos respirando o mesmo ar, o edifício nem se movia.
Ele era o estrangeiro ali, o invasor do recinto. Não pertencia àquele lugar.
E ainda chamava o número de celular de Evan repetidamente, sem qualquer sinal de retorno. Evan poderia estar fazendo aquilo de propósito, após Dominik ser tão direto com ele, afinal Evan possuía problemas com se adequar com seus problemas e criara seu próprio alterego para fazer o trabalho sujo para ele, não conseguia se culpar de forma alguma e Dominik tentou ruir isso.
Como se o silêncio dissesse tudo, ele soube o que fazer.
Voltar para a sala, mostrando seu lado charmoso, pedindo desculpas, realmente sentindo muito por atrapalhar sua abrangência sobre os colegas. Poupando-os dos detalhes e voltando a poder fazê-los ver mais claramente.
Se você quer uma perna de alguém, tem de dar o braço também.
E ele conseguiu quase que completamente, foi à diretoria, pediu sua advertência por estar fora da aula o mais gentilmente possível.
A secretária retardada pelo encanto de avistar Dominik sorrir-lhe de lado, disse espantada:
– Dominik? Você é tão bom aluno! O que aconteceu?
– Ah! Sabe como são esses professores hoje em dia, Sheila. – por consequência, ela levantou uma sobrancelha duvidando atrás dos óculos retangulares, ainda tentando estabelecer uma posição mais alta sendo tão mais baixa que ele – Fiquei pedindo silêncio na sala, e ele me pôs para fora.
– Ai, Dom, você precisa tomar mais cuidado, é só isso.
Ele abaixou um pouco a cabeça, sentando-se enquanto levantava os braços em gesto de dúvida, contudo seus lábios sorriam levemente. Ela estava tão convencida pelas palavras dele...
– Ah, levanta Dominik, que isso! – ele se levantou rindo – Acha que vou ligar para os seus pais por causa disso?
– Você quem decide, Sheila.
– Bah! – aquelas expressões sulistas diferenciavam ela das outras atendentes da escola – Acha que vou deixar um guri tão inteligente fora da aula por culpa de algo tão bobo? Façamos o seguinte – ela pegou um papel autêntico da diretora da escola que tinha sua porta fechada -: como a diretora Maria está ocupada, eu faço uma licença para você retornar à aula se você prometer não arrumar mais confusão.
– Você está me vendo contestar? – ele riu irônico.
Ela preencheu os espaços vazios com o nome dele, seu código na escola, o horário, e as frases “Licença para retornar a aula” e “resolver assuntos particulares com a Diretora”. Dominik apanhou o papel satisfeito e pegou a mão de Sheila beijando-a sobre as pintas pequeninas mais persistentes.
– Obrigado, Sheila. – ela corou.
– Ah. Só fique fora de confusão, Dominik. – tentando recuperar a compostura.
Ele saiu pelos corredores adentro, até sua sala no final das rampas.
Quando entrou, entregou o papel ao professor que desconfiou, mas assentiu com um suspiro cansado. Havia olheiras em sua face e não parecia muito disposto a brigar.
Com sua voz máscula, grave e imponente, o professor continuou:
– Como eu dizia, a filosofia é uma forma de pensar que te recicla, já que sempre deve voltar a si, nunca podendo continuar a mesma. Por isso, anotem o que está na lousa, meus caros alunos.
Dominik deu as costas ao professor e teve de encarar todo o show de horrores de sua classe. Contudo, daquela vez, os colegas o miravam com certa empatia, comiseração. Dominik não entendeu o que fez para merecer ser o novo cachorrinho abandonado da classe, porém não se permitiu não se aproveitar da situação.
Uma das garotas nerds da sala lhe abaixou a cabeça em sua direção e cochichou:
– Foi muito errado o que ele fez com você. Ele sempre está falando coisas para nos provocar e gritar de volta o que achamos e quando alguém faz, ele manda a pessoa embora?
– Relaxa, Bea, eu estava pedindo silêncio. – ela o mandou um olhar de maior indignação ainda, seus olhos esbugalhando-se atrás dos óculos, temporariamente boquiaberta até notar seu desleixo.
– Mas, Dominik...
– Isso não faz sentido nenhum – riu baixo um amigo dela, eu usava um bóton do Bob Esponja todos os dias.
Fora isso o resto da sala permaneceu em silêncio com os olhares oblíquos do professor em cima do palanque. As luzes se encontravam apagadas, portanto o professor poderia fingir que não sabia quem estava falando.
O silêncio realmente reinou. Até o sinal bater e o professor se retirar, pedindo pela tarefa anotada na lousa.
– É para daqui a 15 dias, então, por favor, não sejam respostas de meia-tigela.
O murmúrio típico das trocas de aula começou, no entanto, o professor mais imbecil da escola entrou na sala com seu ar de superioridade. Por conseguinte, os alunos realmente não quiseram calar-se, mesmo o professor adquirindo somente duas aulas por semana, o período contínuo de 55 minutos com ele fechados numa sala era insuportável.
– SILÊNCIO! – ele gritou, e a maioria se aquietou, enquanto alguns ainda sussurravam com assombro eminente – Se mais alguém abrir a boca durante a minha aula, vai para fora!
História não era mais a mesma coisa. Não eram os fatos concretos, os as abstrações deles que causavam efeitos, agora era pura e simplesmente o que o professor achava ser, fosse bom ou ruim e qualquer outra opinião estava fora de cogitação. Relatos reais eram inúteis para tentar convencê-lo. Os alunos eram meros objetos que captavam a luz dele, tanto quanto ele sempre constatava, já que aluno é uma palavra derivada do latim, sendo “a” um prefixo de ausência e “luno” ou “luna” significando luz, como a luz da própria Lua, chamando-se “Luna” em espanhol.
Dominik naquelas aulas não almejava mais tirar boas notas. Seu objetivo maior era contrariar o professor, deixando-o sem fala, contudo nunca havia conseguido até ali. A decoreba incessante começava assim que abria sua boca e confinava o ambiente em suas palavras, repetindo não mais que duas vezes rapidamente para os alunos copiarem em seus cadernos.
As opiniões conformadas, enquadrando-se naquele recinto deixavam Dominik louco. E o professor sorria ao ver o suor frio escorrendo pela testa de ser aluno mais desafiador.
– Exijo que tudo esteja bem copiado e com letra legível nos cadernos, pois isto é matéria da prova da semana que vem. E ela é de máxima importância por ser discursiva e valer metade da nota da média de cada um de vocês.
Alguns colegas engoliram em seco, e apressaram-se a copiar tudo o que fora ditado. Abriam cadernos nervosamente, zíperes se fechavam, canetas caíam, borrachas apagavam os erros e Dominik ainda se postava com as mãos atrás da cabeça, querendo assumir a pose de quem não estava preocupado.
E verdadeiramente não se encontrava na preocupação de adequar seus pensamentos corretos sobre as causas da segunda guerra mundial com os delírios e balbucias de um velho com metade da inteligência dele e QI inferior ao de um macaco.
Se lhe perguntassem, seria exatamente o que diria.
No entanto, o professor colocou seu corpanzil entre as fileiras dirigindo-se para o ponto em que a indiferença de Dominik se prostrava.
– Conforme eu dizia, judeus que não se esforçassem nos campos de concentração, como seu querido colega, Dominik aqui, seriam severamente castigados.
Os garotos riram convulsivamente de Dominik sendo encarado pela face gorducha e quase infantil do professor, com os olhos cerrados emitindo ar de humilhação para ele. As garotas soltaram alguns comentários do quilate de “que horror, professor” “quão rude” “deixa ele em paz, velho”.
O papo do velho balançava enquanto ele sorria para Dominik. Este levantou uma sobrancelha para o professor, sem querer arranjar uma briga tão cedo e levar outra suspensão.
– Garotas, não sejam tão utópicas, quando não entenderem os ideais nazistas, pensem bem: seus pais que trabalham dias inteiros para terem seu dinheiro, e alguém invade suas casas e o rouba, acham certo? Banditos bons são os banditos mortos, queridinhas.
Dominik respirou profundamente. Não acreditava que o professor realmente tivesse dito aquilo. De acordo com a história original, não a contada por este homem senil, os nazistas quem roubaram o dinheiro dos judeus, matando-os para obterem fortunas para gastarem com mais apetrechos bélicos, o que os judeus não apoiavam por não serem nacionalistas germânicos, assim não querendo defender a nação em que viviam por doar seus bens para a vitória da população.
– Neonazista de merda, vai logo raspar essa sua cabeça rala – cuspiu Dominik.
– O que disse, senhor Estevam? – perguntou atonitamente o velho, contudo ainda tentando estabelecer seu ar de controle sobre a situação.
– Eu disse para você virar logo um skinhead, já que quer tanto matar judeus, e aproveita e entra numa luta com eles e acabe todo ferido, até parar no seu leito de morte, canalha.
Os semblantes ao redor se tornaram extáticos durante suas ofensas e moveram seus lábios lentamente até formarem bicos que assobiavam ou sibilavam semivogais em continuidade. Dominik sentia que não estava sozinho, os colegas nerds o apoiavam, apesar de não quererem enfrentar uma autoridade. As faces velhas e arredondadas do professor ruborizaram-se, enquanto ele tentava manter a calma, no entanto bufava de ódio.
– Quem não dá respeito, não ganha respeito, rapazinho – as palavras saíram em falsetes, como se se segurasse para não explodir.
– Eu só estou seguindo o seu exemplo, senhor. Sendo desrespeitoso ao assumir que não sabemos nada e nossas opiniões são inválidas.
Ignorando o comentário para não dar início ao seu discurso com já muito repercussão e ensaio de “Você acha que sabe mais que eu, senhor Estevam? Eu fiz faculdades, mestrados, teses, trabalhos, pesquisas, e tudo o que você fez foi olhar para o próprio nariz. Não sou eu quem está dizendo, são os documentos! Está datado! (...)”, ele prosseguiu em seu comentário:
– Eu não tenho nada contra judeus, rapaz! Estou só esclarecendo para suas colegas a razão de serem tratados daquela forma! Elas precisam entender!
– Só a sua razão que precisam entender, não é mesmo? Não a razão real dos acontecimentos ocorrerem na história que é, por acaso, o principal fundamento de estudá-la. Não sei se é só sua senilidade que o impede de enxergar como as coisas verdadeiramente acontecem.
O professor chutou a carteira maltratada e pichada de Dominik para o lado e puxou a cadeira dele com o pé, até seus narizes quase se chocarem. Os olhos de Dominik estavam imensos, com seu rosto longo indo em direção ao chão exibindo seu olhar da maior selvagem raiva, já os do professor eram minúsculos, perdidos ou presos entre as rugas engordadas de sua face bronzeada, com o queixo cada vez mais pra cima, como se aumentasse sua estatura como pessoa. Aqueles olhos negros foram enfim derrotados pelos oceanos azuis de nebulosas congeladas que Dominik possuía nas íris.
Com sua trégua travada, o professor suspirou de fronte a Dominik e seu mau hálito penetrou em seus pulmões. Após isto, disse no tom mais amigável que pôde:
– Você é mesmo incorrigível, Dominik Estevam. Deste jeito nunca vai passar nas provas. – e virou seu corpo para continuar a aula.
Dominik com seu desprezo gritou de volta:
– Talvez não nas suas, mas prefiro passar na vida, que passar nas suas provinhas decoreba.
O professor nem virou seu corpo, apenas levantou o braço direito em direção à porta, e permaneceu em silencio. A sala se esfriou, e os corpos ficariam marcados por arrepios fortes após Dominik levantar-se e concluir seu dia escolar com as palavras:
– Eu já tinha saído mesmo, acho mais fácil aprender sozinho do que com suas palavras pra distorcer minha mente, enquanto penso.
E enquanto saía, ele não esperava a surpresa que estava por vir. O olhar de cansaço do professor em comparação a alguém vencido pela dor de tocar em gelo com as mãos nuas; as marcas de Dominik sempre se mostravam intensas. E a cada passo a mais que dava em direção à porta, mais um par de mãos começava a bater palmas para ele.
Bateram e bateram e bateram. Até mesmo quando ele já descia a rampa após o corredor. Continuaram clamando-o, embora o professor estrilasse em procissão inútil que parassem ou também seguiriam-no.
O sorriso de Dominik era o maior que havia dado em toda a sua vida.
Sheila ficou muito desapontada ao colocar Dominik para fora da escola com sua suspensão. Ele tentou ser respeitoso com ela, entretanto não foi possível, pois ela evitava o olhar diretamente nos olhos.
Subindo as rampas da escola se sentiu mais dentro de uma multidão que o levava do que sozinho como realmente se encontrava. As palmas ainda ecoavam dentro dele. Abalado por estes sismos, não prosseguiu até sua casa a pé, sendo tão perto.
Permaneceu ali na saída, próximo ao balcão do porteiro, sentado obedientemente às suas sensações. O sol era forte e ele fervia por debaixo de seu casaco, contudo sem se importar, desdobrou sua gola e a suspendeu pelo pescoço.
Afundou-se em seu casaco bem quente e protegido. Puxando um cigarro do bolso, nem olhou o porteiro ao lado que o xingava por aquilo, indignado. Com seu isqueiro prateado e muito bem talhado ele observou as faíscas se expandirem em uma chama alta e azul, até tornar-se a alaranjada que foi extinguida por acendeu a ponta do cigarro. A fumaça subiu e as palmas ainda batiam. Como se socassem e chutassem sua alma, clamando por salvação. E por trás do cigarro, ele subia um dos cantos de seus lábios, muito satisfeito.
O mundo que poderia queimar naquele momento e ele não viria.
Só as palmas ouviria.
A ignição de algo grande, ele sentia. Mais que sentia desejava. Algo grande estava por vir, e ele não se esconderia mais ou se esquivaria. Deveria reencontrar todos os que ficaram pelo caminho, reuni-los e saudá-los, pedindo auxílio. A revolução que Dominik tanto ansiava, seria isto?
Notou que tragara demais, sem expirar. Abriu sua boca e observou o ar se espiralar.
A fumaça levanta-se cada vez mais, até desaparecer.
Seus dedos gelados furavam os nós de nuvens no ar, seu cigarro terminava de consumir-se enquanto ele ouvia a última palma consecutiva.
Algumas palmas ainda emanavam na atmosfera de Dominik enquanto ele esperava todos saíram da aula para anunciar sua festa.
Obviamente que Mateus não conseguira enviar o convite para todo mundo, principalmente para ninguém. Com certeza ficara deitado assistindo pornô, ou rolando a página inicial de seu facebook enquanto conversara com ele e não gravara que tinha algo a fazer para contribuir com a festa.
O sinal bateu e o chão começou a tremular assim que parou. Os passos apressados de uma multidão aliviada, assim Dominik conseguindo até ouvir seus pensamentos: Ah, finalmente final de semana!
Pessoas do oitavo e nono ano berrando ao falar com seus colegas, correndo para os carros, pedindo para as mães dinheiro, comprando refrigerantes nas máquinas, mas, sobretudo querendo sair dali o mais rápido possível.
E sobre esses pés de manadas de elefante, passou como num flash em seus olhos quase todos os alunos da sala de Dominik amontoados num canto da torrente de almas purgadas prontas para pecar novamente.
Essa escola está longe de atingir uma catarse em qualquer um.
Os que viram Dominik apontaram e acenaram para ele, portanto respondeu com um sorriso. Todos pareciam maravilhados com sua presença, mesmo alguns não suportando gritaram para ele “Dominik! Você foi demais!” como se fosse uma estrela de rock acabada de sair de um show.
Os olhos cheios de energia e esperança o miraram enquanto o atingiam com os braços dando abraços amigáveis e apertos de mão merecedores. Dominik havia virado um herói aparentemente. Quem estava ao redor da massa de alunos da sala de Dominik não entendia e passava reto, afinal era um bolo de gente gritando para apenas um garoto.
– Dominik, queria ter sua coragem! – berrou a menina nerd que comentara antes.
– Cara, como assim? Foi muito foda o que você fez! – disse um colega.
– Foi muito injusto o que ele fez, cara!
– É, verdade, aquele velho é um babaca. – todos tinham uma opinião a dar.
Dominik ouvia até eles se calaram ao perceber a expressão de serenidade que ele portava no semblante. Foram se silenciando aos poucos, cortando palavras, abismados em como ele poderia estar calmo.
Ele estendeu um braço com um cigarro parcialmente tragado para o ar, quase como se esperasse a vez para falar:
– Ele é um imbecil mesmo, gente, mas o que a gente pode fazer? Semana que vem preparamos um abaixo-assinado declarando as asneiras que ele fala e pedindo a demissão dele. Mas agora é sexta-feira e acho que vocês curtiriam ir na minha casa hoje à noite para inaugurar aquela desgraça, não é, Mateus? – Mateus engoliu em seco, envergonhado — Alguém topa?
– Claro – alguns responderam, outros desconfiaram do cigarro em sua mão, conhecendo a fama de “drogado” de Dominik, o que achavam que justificava suas ideias “diferentes”. Dominik sabia que não compareceriam todos, porém não custava tentar.
Passou o braço pelo ombro de Mateus e guiou seu corpo magricela e baixo para a rua. Os colegas já se dispersaram, sabendo que poderiam perguntar detalhes do local da festa depois. Bagunçou o cabelo loiro-escuro do amigo e disse:
– Que tal você já ir pra lá comigo e com o Evan para já darmos uma ajeitada em tudo e eu te emprestar alguma roupa que não anuncie a marca diretamente?
– Ah, não sei, não, Dominik... – parecia assustado com o corpo alto do amigo o envolvendo por cima. Quase um vulto negro ao seu lado que ele evitava ao máximo olhar.
– Qual é, cara. Vai ser divertido. — Mateus precisava aprender a se soltar um pouco mais criativamente, e com isso prendeu-se nos olhos de Dominik, aceitando.
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