Icy moon, bloody sun.

4 D - Os preparativos


Notas iniciais
Dominik tem raiva, quase o tempo todo.
Não é uma coisa de um dia só, é sempre.

Após ficar observando aquela questão no tumblr atentamente, Dominik colocou seus fones de ouvido no máximo e deixou-se levar pelo ritmo agitado de Metallica.

Leu e releu novamente e de novo a pergunta replicada. Até que finalmente achou prudente não ficar pensando sobre aquilo, pois alguém não poderia ser estúpido o suficiente para ficar sofrendo no mundo real e por isso se fechar no seu “mundinho”.

A vida é dor, é raiva e é luta.

Dor, raiva e luta.

A vida é dor...

A vida é dor... – ecoou em sua cabeça, até bater tão fundo e causar seu adormecimento.

Acordou de madrugada, tonto. Sua janela havia sido aberta com o vento, e os pingos caíam em sua cabeça sem obstrução. Quase como entorpecido, ele mirou o telhado da casa ao lado, e por entre as gotas geladas, conseguiu avistar ninguém.

Tinha de se convencer de que tudo aquilo fora mais lindo sonho ou mais perturbadora assombração. Estranhamente, em pensamento paralelo, Dominik achava ter visto aquele brilho nos olhos ofuscados pela sua própria cor carmesim acastanhado. Mesmo assim não havia sentido ver aquele anjo com olhos demoníacos no telhado de uma casa enquanto chovia.

Ele fechou a janela, porém a imagem da garota ainda inundava sua mente.

Estava de repente sem sono e as gotas de chuva que sobraram em seu corpo evaporavam com a temperatura de seu corpo. Ele notou que sua cabeça latejava, nem conseguia levantar sua cabeça em 10 centímetros. Levou seu braço até a caixa de papelão no canto de seu quarto.

Sua mão alcançou o primeiro livro de todos da caixa.

Laranja Mecânica. Ele chegou à parte em que Alex e seus “druguis” estupravam uma mulher na própria casa dela, na frente de seu marido. Dominik não sabe como, principalmente com a linguagem complicada, mas ficou excitado.

Fechou o livro, preferia não se esforçar muito naquele momento.

Voltava a sua mente, durante todo o tempo, a garota-anjo. O mistério da umidade do ar com a chuva, a Lua lá atrás no firmamento. Qual era o problema com ele?

Estava ficando mais e mais duro. Desejava pular o muro e encontrá-la.

Não. Não aconteceria. Não poderia se permitir.

Checou seu celular com mais de 200 mensagens.

A maioria era de Isabela.

“Môzinho, vc vai msm dar aquela festa na sua casa?

Oq vc acha q eu devia vestir?

Vc vai no cara pra abastece a festa?

Sinto falta d vc, mor.”

Ele gemeu de ódio. Total falta de dignidade. Como se ele “pertencesse” a ela. Idiota, tinha que terminar aquela relação. Se ela não fosse boa de sexo...

Se bem que desde que ele havia oficializado a relação, sua mão trabalhava melhor que ela. Pelo menos a mão de Dominik não tinha preguiça e queria ficar “abraçadinho” o tempo todo.

Ele tirou a mente daquilo que estava piorando sua dor de cabeça. Dominik escreveu uma mensagem no celular e mandou para todos os contatos.

“Festa na minha casa na sexta às 23h”.

No entanto, antes precisava ir ao traficante. Àquelas horas da noite, bem, já não dava mais. Cinco horas da manhã era a hora do Caffy ir dormir, ou pelo menos para a cama. Dominik desistiu de ficar acordado, mesmo sem sono.

Ele ficou fitando os raios de luz que vinha dos furos na janela, eram tão finos quanto um crânio. Pensou em como poderia dar um fim trágico a toda a desgraça que acontecia no mundo. Primeiro sua escola tão similar a um regime militar que o governo até invejava-a, este, sendo o segundo item da lista, era tão corrupto e tão ineficaz que a maioria das pessoas idiotas investia em instituições para ajudar os “necessitados” ao invés de se focarem no problema principal: o governo.

Para erradicar tudo isso seria necessário uma limpa de mentiras no mundo. Consolações se encontravam em todos os lugares, todavia a sabedoria era esquecida. Esse mundo de merda...

Sonhou com a garota. Ela estava sentada em cima de um túmulo numa praia. A praia estava incrustada por túmulos sem nome, sem identificação qualquer. Apenas pinturas de crânios de todos os tamanhos enfeitavam cada uma das lápides. Todos tinham estranhos tons frios, e sua tinta escorria, mesmo se mostrando fosca.

Ele se encontrava dentro de uma sepultura, mas sua cabeça estava num nível superior ao do mar, portanto poderia avistar todo o horizonte.

A garota estava bem próxima, sua pele reluzia, os lábios estavam mais vermelhos que o próprio sangue, aparentava ter chorado, contudo ainda exibia um ar de superioridade. Vestia um corpete preto e seus cabelos castanhos estavam úmidos até mais que suas bochechas.

Não havia Sol, somente nuvens cinzentas no céu, mesmo assim havia luz. As ondas do oceano de profundo azul acalmavam a tristeza daquele local. A areia cinza emanava um reflexo lúcido da espuma da costa. Dominik encarava as mais distantes oscilações da água salgada.

Isso até a garota começar a pronunciar palavras irreconhecíveis em uma voz de sereia.

Olhava-o com desprezo ao falar aquilo, embora parecesse angustiada por ele. Ele sentia aquilo, havia feito algo para ela o desdenhar. Pequenas criaturas negras surgiram na margem da sepultura e começaram a cavar a areia ao redor a fim de preencher o buraco. Porém, daquela forma, começavam a enterrar o corpo nu de Dominik.

Ele, em si, também se mostrava azulado. Somente a garota angelical irradiava uma áurea avermelhada no âmbito daquele horizonte.

Ela se calou e deu um pequeno sorriso de lado enquanto os monstrinhos negros conseguiam colocar mais e mais areia no buraco, soterrando Dominik. Ele desesperou-se, começou a gritar e berrar com os monstros, mas sua voz não saía.

A garota olhou-o com prazer, mas suas pupilas aumentaram e escureceram seus olhos inteiros e a massa preta da pupila começou a jorrar de seus olhos. Ele não a compreendia.

- Dominik, don’t try to fight the storm, you’ll tumble overboard.

- O que?! – ele gritou, finalmente.

- Souls don’t fit together.

Ela abaixou um pouco sua postura para colocar seu rosto bem perto do dele, suas “lágrimas” foram derramadas no pênis de Dominik. Eram quentes e meladas. Os olhos dela voltaram ao normal conforme se aproximava dele. Observavam-no como uma mira de uma sniper.

Seus olhos se cruzavam e por todo este tempo Dominik esqueceu que estavam a enterrar-lhe.

- Se você quer o suficiente, pode pegar, mas lembre-se, Dominik, de que a felicidade foi feita para contentá-lo.

Assim ela chegou o mais próximo o possível e Dominik sentiu seus olhos se fundindo numa atração bipolar. Sua língua rodeou o perímetro dos lábios dele. Ele tentou avançar mais, porém não tinha forças.

O barulho da T.V. o despertou. Dominik mal podia acreditar. Seu sangue ferveu e irrigou seus membros até da cabeça. Ele colocou as botas militares e uma camiseta qualquer azul desbotado. Botou a carteira no bolso da calça jeans e saiu do quarto num estrondo.

A T.V. na sala estava ligada e sua mãe estava assistindo a ela. Mas Dominik que iria assistir sua mãe a aprender a ter uma vida de verdade.

- Dom, querido, o que foi? Por que essa cara... – ele empurrou a T.V. de plasma com o braço, com a tela diretamente impactando-se com o chão duro de pedra. – DOMINIK!

- Vou sair, não me espere para o almoço – respondeu ele, sombrio, sem olhar para sua mãe, apenas a encara a porta da frente que logo escancarou.

- Que absurdo é esse, MOLEQUE?! – os berros maternos se distanciavam durante sua caminhada até o portão para a rua.

Ele nem se importou com o frio que fazia ali fora. Continuou caminhando, sem olhar para trás.

Caminhou pelos três quilômetros que precisava, até que a periferia real da cidade não ficava tão longe. Entrou naquele terreno baldio com mata alta. As folhas pontudas roçavam-lhe os membros, contudo quanto mais ele tentava distanciá-las mais elas lhe atingiam e irritavam.

As ruas que o cercavam eram quase desertas. Só não eram desertadas pela prefeitura por ser um ponto de parada de caminhões, sendo que dois quarteirões dali havia uma parada para caminhoneiros.

Real periferia mesmo. A marginalizada.

Queria se irritar com nada mais depois da televisão, porém o ambiente ao seu redor insistia. Era ridículo ver pessoas ainda precisando viver em tais condições só porque o trabalho delas era ilegalizado. Qual era o problema com drogas? Melhor seria legalizar do que deixá-las como o “fruto proibido” e além de tudo canalizando tráfico de armas e formação de gangues junto delas.

Governo estúpido. Alienado.

Melhor era nem voltar-se ao caso de alienação já que o lembrava da maldita televisão. Ele gemeu de raiva novamente. A garota do seu sonho tinha total razão com “souls don’t fit together”.

Almas não se encaixavam mesmo, já que mesmo sua mãe que compartilhava de condições biológicas similares às dele não compreendia sabedoria alguma que ele dominava. Ninguém naquela porra daquele mundo entendia que viver era criar uma história para si, sendo você mesmo a personagem principal.

Não assistir às histórias alheias. E se fosse ficar apenas observando, que se adquirisse um ponto de vista crítico ou que fosse visto algo de interessante! Tão difícil assim?

Após penetrar parte razoável da mata, através de uma senda quase invisível por entre a grama alta, que começava um pouco depois da conexão com a rua, ele encostou-se a uma palmeira baixa.

Pegou a folha da palmeira mais próxima ao chão e bateu-a três vezes no tronco da árvore.

Silêncio profundo e absoluto perdurou-se. Dominik se atreveu a bater mais três vezes na palmeira com bem mais força. Um som de uma porta se abrindo e grama seca pisoteada invadiu seus ouvidos.

Do meio dos arbustos surgiu um homem. Não qualquer homem, no entanto “o” homem de quem Dominik necessitava. Aquele vestindo samba-canção colorida com estampa de corações.

Com as pernas, braços e peitos cabeludos de pelos eriçados pelo frio que fazia ali fora. O homem mesmo de olheiras enormes e olhos vermelhos. Ele repreendeu Dominik com o olhar ao vê-lo, entretanto indicou o que estava atrás dele e Dominik adentrou sua residência.

Uma casa de tijolos mal construída sem iluminação ou espaço lá dentro e revestida por plantas por fora. Não havia cimento nas paredes, portanto fazia o mesmo frio tanto fora quanto dentro. Dominik sentou na singela mesinha colocada tão próxima a porta que se não fosse delicado ao entrar, ela cairia e quebraria em mil pedaços.

As cadeiras eram aquelas patrocinadas por marcas de cerveja, cada uma da cor específica da marca, todas duras e geladas. O chão fedia a vômito. O teto tinha goteiras que implicavam com o básico sistema de iluminação consistido em vários fios conectados em um cabo, que ia à parede e de lá roubava a energia de um vizinho distante, até uma lâmpada oscilante.

Um colchão carcomido abrigava uma mulher sem sutiã e sua baba no canto do cômodo. Algumas seringas usadas estavam despejadas pela pia e comida estragada ou seja lá o que fosse apodrecia em uma panela de barro no fogão simples.

- O que você quer, pirralho? – sussurrou o homem que congelava de frio – Já não te disse pra não vir de dia? Os tiras suspeitam, idiota!

- Tirando vantagem de uma jovem drogada, Caffy? – Dominik apontou a mulher cujos roncos ecoavam pelo ambiente.

- Ela disse que queria experimentar o céu, meu filho. Mas me diz logo o que você ta procurando e sai da minha frente.

- Só queria 100 gramas de marijuana, Caff.

- Você e suas palavrinhas em inglês – Caffy revirou os olhos ao abaixar-se na frente do armário em baixo da pia.

- Pelo menos eu tento aprender e ensinar alguma merda aqui! – Dominik se irritou.

- Relaxa, parça. – baixou o tom de voz Caffy ao se levantar com o pacote nas mãos — Tudo de boa, flws?

Dominik só tomou o pacote nas mãos, depositou seu dinheiro na mesinha e encarou Caffy com os olhos irados. Caffy de alguma forma compreendeu e desceu novamente ao armário de onde tirou uma antiguidade. Caffy segurava por sua corrente um relógio de abrir.

- Pra que essa porra, Caffy? – perguntou Dominik indignado.

Caffy pegou o relógio nas mãos e se aproximou de Dominik, este sentiu repulsa pelo cheiro dele entrando assim tão repentinamente em suas narinas e recuou. Caffy pressionou o botão na parte de cima do relógio enferrujado e ele se abriu mostrando não as horas, todavia 30 pequeninas pílulas coloridas. Dominik levantou uma sobrancelha.

- O que essa droga aí? – ponderou.

- Dom, não seja idiota. É uma das melhores merdas que eu vendo e eu te dou tudo se vazar da minha casa e prometer nunca mais aparecer aqui e interromper meu sexo gostoso.

- Mas que estupidez... – começou a dizer Dominik, porém Caffy já havia colocado o relógio fechado em suas mãos e empurrado ele para o batente da porta.

- Flws, Dom. – e assim fechou a porta nas costas de Dominik.

- O QUE VAI FAZER SE EU APARECER, BABACA? LIGAR PARA A POLÍCIA?

O nada respondeu, seguido de um par de roncos acompanhando os da mulher. Ou seriam gemidos? Dominik pegou um pouco da maconha enrolou num papel e começou a fumar.

A fumaça saía de sua boca conforme caminhava e ia para todos os lados conforme o vento. Fundia-se com a névoa deixada pela chuva dos dias anteriores.

Dominik precisava esfriar a cabeça como o tempo. Deixar toda aquela merda fluir, afinal arranjaria outra merda de traficante. Fumava, fumava, contudo não adiantava, ficava com mais ódio ao pensar em sua mãe em casa morrendo pouco a pouco sem fazer algo a respeito, ao pensar em nunca mais ver Caffy que com esse ano de negociações até havia virado seu confidente de crimes e todos estragando seus sonhos, primeiro a janela, depois a televisão.

Já alcançara uma parte mais movimentada da cidade e ainda estava com o baseado na boca e pusera o relógio ao redor do pescoço, já que teria uma utilidade por um tempo.

Ele olhava todas aquelas pessoas passando em seus carros, cujas rodas jogavam a água armazenada nas estradas para todos os lados, e pensava em como a maioria delas se dirigia ao shopping e castravam suas vontades reais de fazerem algo de diferencial em suas vidas pelo contentamento que aqueles pequenos materiais lhes traziam.

Como aquela garota havia sintetizado tudo o que Dominik precisava perceber em um único sonho? Ela havia lido sua alma. Repassava todas as expressões dela em sua cabeça ao caminhar pelas calçadas molhadas.

Estava tão perto de casa, mas não podia voltar. Jogou o baseado no chão, apagando-o. Não precisava mais se drogar, não por um tempo. Seu sangue já se encontrava suficientemente substanciado.

Um outdoor mostrou-se em sua frente mostrando propaganda para um shopping: “Nessas próximas férias, que tal passar todos os dias com a família?” e na foto uma família jantava toda sorridente nos bancos da praça de alimentação.

Dominik não se aguentou e pegou uma pedra gigante perto da calçada no terreno e a tacou bem na face da mãe falsamente feliz, assim arrancada.

Ele não sabia para onde ir, só sabia os lugares que deveria evitar.

Notas finais
Dominik + Evey = ♥
He
He He
He
He
He He He
Não confundam o Dominik com o Tyler Durden, por favor! ahsuahsuha (zoeira)
Logo haverá mais de Evey.