Icy moon, bloody sun.
7 D - Consulta
Notas iniciais
Logo que chegaram ao Burger King, encheram tanto suas bocas com lanches que nem se importaram com o silêncio constrangedor. Dominik ainda possuía preconceitos contra aquele tal de Nicolas, contudo ao escutá-lo batucando ao ritmo de Something In The Way contraiu um pouco seu orgulho, talvez não fosse tão poser idiota assim.
Nicolas mesmo tentou arrefecer a situação, jogando as batatas de longe para sua boca numa brincadeira infantil e estúpida. Logo Evan necessitava se juntar a ele para fazer Dominik se sentir o único adulto no local. Começaram a intrinsecamente atazanar Dominik.
Nicolas enfiava as batatas entre sua gengiva e seus lábios, tornando-os presas e Evan colocava as caixas de lanche vazias embaixo da camiseta laranja fingindo serem peitos.
- Ai, Dominik – imitava a voz escrota de Isabela – meu môzinho, agora que coloquei meu silicone: me dá um beijo, vai?
Nicolas ria da história e Dominik para parar de ser ridicularizado colocou uma batata na boca de Evan entre seu biquinho de puta.
- Ah, Dominik, boquete na frente de toda essa gente? – fingia tão perfeitamente com aquele biquinho igual ao dela que ele tinha vontade de socá-lo – Aumentou de volume, ein, môzinho?
Evan ia e vinha com a batata no beiço, enquanto Nicolas gargalhava freneticamente. Dominik não devia levar tão a sério, afinal era só o babaca do seu melhor amigo tentando animá-lo. Riu também, e realmente achou graça.
- Desculpa se minha batata é maior que essa sua! – retrucou Dominik roubando uma pequenina batata da bandeja de Evan, indicando sua trajetória até o final: seus dentes.
- Au! – gemeu Nicolas – Nisso eu concordo. – e mostrou uma batata bem longa – Minha batata é a maior de todas.
E riam os três.
Quando as batatas acabaram, voltaram ao carro. Antes de Evan entrar na parte do motorista, Dominik o puxou para fora. Ali encostado no muro decidiu falar algo relevante.
- Evan, ta foda, cara.
- Avá! Para você sempre ta foda, Dom – aquilo irritava Dominik em excesso, Evan deduzir suas teorias psicológicas estúpidas sobre os outros, especialmente sobre Dominik.
- Não é isso, desgraçado. Quebrei a T.V. da minha mãe enquanto ela assistia e fugi de casa, além de tudo estou namorando aquela supérflua da Isabela.
- Cara, para começar por quê?
- Não consigo controlá-la, Evan, ela está por todo lugar, acho que só virando namorado dela para corrigir isso.
- Dom, você não percebe que algumas pessoas nunca mudam?
- Claro que mudam, só ninguém está olhando direito.
- O.K. Continue sonhando, Dominik. E a propósito, queria muito ver a reação da sua mãe quando você quebrou a T.V. – Evan se empolgou e Dominik riu.
- Ah, cara, você nem acredita, eu nem virei para a cara dela, só derrubei a T.V. e saí.
- Mas a gente não ia combinar o dia em que destruiríamos todos os aparelhos televisivos das nossas casas?
- Ia, mas, Evan, você não tem noção, já é ruim demais mudar de casa, agora eu também vou ser acordado pela televisão?!
Evan não dirigiu nenhuma palavra a mais para Dominik, apenas entrou no carro. Sentia-se traído, e irritado com toda a raiva que Dominik carregava nas veias. Buzinou para Dominik, e ele sabia que precisava entrar no carro, entretanto hesitou.
Evan portava um olhar demoníaco, impassível. Nicolas também estava assustado, percebia-se por não mover nem um dedo mindinho enquanto permanecia sentado no banco da frente.
Dominik sabia que aquele poderia ser um dos acessos de morte de Evan e se deixasse por ele, dirigi-los-ia até a morte. Tão egocêntrico que queria o mundo todo para si e mesmo se fosse morrer, levaria todos junto com ele.
Nicolas lançou-lhe o pavor em forma de olhar, Dominik parou de temer e sentou-se no banco de trás do carro. Como podia ser tão misterioso algumas vezes. O carro era baixo, portanto Dominik naturalmente deveria ficar encurvado e assim ficou enquanto via as paisagens passando pelo vidro do carro.
Logo chegaram a seu destino que agora reluzia com a luz do Sol. Estranhamente era a casa de Dominik. Ele abriu a porta do carro, caminhou até o portão da frente e entendeu: Evan queria que ele entrasse lá e se desculpasse com sua mãe.
Evan apontou para a casa e deu um breve sorriso para Dominik. Nicolas apontava a casa ao lado e falava algo parecido com “Minha amiga mora aí” no que Dominik conseguiu distinguir com linguagem labial. Dominik franziu o cenho enquanto gritava em adeus:
- Pare de agir assim como sendo culpa das outras pessoas, te vejo na minha festa.
Evan acelerou até o final da rua sem saída e deu meia-volta com a maior pressa possível. Nicolas continuou quieto só aumentou o som de Serve The Servants e Evan mostrou o dedo do meio ao passar novamente pela frente da casa de Dominik.
Dominik respirou bem profundamente ao pegar a chave extra em sua carteira e abrir o portãozinho de acesso à garagem de sua casa. O chão estava molhado e o terreno ali era em declive, portanto Dominik escorregou e caiu produzindo um estrondo.
- Dominik? – perguntou a voz doce de sua mãe temerosa no interior da casa.
Aquela voz estava tão acabada, derrotada. Enojava-o de uma forma tão passional que seus músculos se tencionavam sobre a água que caíra ali naquela manhã. Como se ela devesse algo ao mundo, que lhe sobrasse. Se ela ainda conseguisse correr talvez devesse mesmo, porém que mulher era aquela com todos os direitos privados por uma doença ainda assim pensando estar no topo do mundo? Dominik só queria reavivá-la, então por que ela não o ajudava a ajudá-la?
Um gosto de felicidade era algo que lhe faltava, sempre tão medrosa. Afrontava o mundo como um discursador de banheiro que se olha no espelho derramando ali seus pensamentos tão clara e confiantemente e quando acarava o mundo abaixava o rosto.
Por isso ele precisava ser duro com ela. Rígido nas lições. Se fosse mole, ela ficaria ainda mais. Principalmente com suas delimitações e falta de cérebro.
Dominik reclinava essa fusão de pensamentos para não fundi-los e talvez tomar outro caminho, especialmente agora que sua repulsa era tanta que ele sentia vontade de vomitar.
A porta da frente se abriu e dali saiu uma mulher amassada, cansada, sonolenta e letárgica em seu andar. Sua mãe apesar de suas privações e recomendações médicas foi até Dominik que já se levantava e lhe dirigia um olhar de desaprovação. Uma mãe sempre seria uma mãe e ela mantinha os olhos azuis-violeta preocupados ao ir de encontro ao filho.
- Estou bem, mãe – cumprimentou secamente, Dominik, nem ousando mais mirar a mãe, apenas auxiliando seu caminho de volta a sala de entrada com a mão em sua cintura.
- Meu filho, fiquei tão preocupada. Onde você se meteu? Com quem você estava? – mesmo com as indagações transtornadas de uma mãe qualquer, sua voz se mantinha calma – Seu pai está uma fera.
Ao fechar a porta da frente enquanto sua mãe já recuperava sua posição no sofá como de costume, Dominik lhe respondeu:
- Pouco me importa. Ainda assim estou certo na questão de você ter que arranjar uma vida, sair desta casa. Encontrar amigos – o semblante da mãe ficou mais cansado e apreensivo ainda, tanto que ela fechou os olhos por alguns momentos e brotou-se uma lágrima por sobre sua bochecha esquerda. Dominik já notou: ela não discutiria, contudo não se convenceria — É o que eu faço, mãe. O que eu acabei de sair para fazer.
Sua mãe fitou o chão, nem se atrevendo a olhar para cima, como se houvesse muito peso no próprio ar sobre sua cabeça de curtíssimos cabelos ralos, suas pálpebras envoltas por olheiras enormes e seus finos ombros pálidos.
- Há quanto tempo você não faz isso?
- ...
- Hein?
Não havia tempo para responder, pois seu pai com aparência irada se mostrara ao entrar pela porta de correr da cozinha com roupas velhas e surradas, uma lata de cerveja na mão e respiração ofegante. Sua estatura grande, músculos razoavelmente definidos, olhos vermelhos e cabelos pretos despenteados lhe davam um ar ameaçador.
Rapidamente da porta da cozinha, já a atravessou e sucedida pela sala até estar cara a cara com seu filho, exalando seu bafo por sobre seu rosto e empurrando com o braço para a parede, impulsionado pelo ódio.
Seus olhos ardiam. Dominik diria-se impressionado, até de alguma maneira orgulhoso. Nunca presenciara seu pai tão dopado e raivoso. Tão revelado. Tão vivo.
Dominik levantou uma de sua bochechas com seu sorriso maroto.
Aquilo era a verdade. De quem era, de quem sua mãe havia criado com seu charme lágrimas e discursos de banheiro. Do que desejava ser, do que tinha de ser, no ponto de vista de Dominik. Aquele homem, da qual a figura paterna havia totalmente se desprendido e esvaído, pressionou seu braço peludo e melado contra o pescoço de Dominik, pretendendo realmente o matar.
Dominik mal podia ouvir, entretanto com visão periscópica notou sua mãe gritando “nãao! Largue meu filho”. Só fitava aqueles olhos carregados de rancor. E aquela voz grave, ah, mas aquilo sim penetrava seus tímpanos, seu corpo todo rendido aos caprichos do que aquele homem quisesse.
- Você acha certo deixar sua mãe aqui sofrendo? Fazê-la sofrer ainda mais com suas ladainhas de filósofo revoltado?! – Dominik não respondia a seus berros, sentia vontade de retrucar assim como sentia o cuspe em sua face a cada palavra de ódio de seu pai, no entanto, estava tão desprevenido para aquele momento que pegou de boca aberta e sorriso no rosto.
O mal não poderia ser simplesmente expurgado de cada homem. Era sua vontade, poderia ao menos ficar oculto por certo tempo, todavia toda bomba tem sua hora de explodir e aquela explosão havia causado tanta admiração em Dominik que ele se rendeu.
Piscou duas vezes os grandes e esbugalhados olhos azuis e replicou:
- Farei o que for possível, pai... – com voz falhada por não possuir muito espaço na garganta entre a parede e o braço paterno.
Seu pai largou seu corpo ali no frio da parede e Dominik deixou-se abater, até seu corpo bater no chão e sua mãe ficá-lo observando com dó, sem realmente saber o que fazer.
Porém, ele ainda não havia terminado com Dominik. Estava tão dentro de si (melhor que dizer fora) que corruptiu-se ao ato de chutar o filho sem parar. Dominik também não sabia mais seu próximo ato, então só tentou bloquear os chutes do pai.
- Seu merda. Nunca deveria ter feito esse monstrinho egoísta.
Dominik até aquela última palavra estava inatingível, contudo, bizarramente, seu pai ébrio conhecia-o mais do que sóbrio. Pegara naquela palavra idiota da qual todo ser humano era culpado. O egoísmo.
Mas não Dominik. Não daquela vez.
Ele se levantou e elevou o corpo mais que o pai, estando mais alto ainda e irado, sem piscar os olhos ou mudar sua trajetória, Dominik empurrou o corpo do pai maleado pelo tempo sobre o balcão da cozinha. Já que o homem não previra isso, Dominik triunfara naquela batalha e a cabeça dele bateu com um baque estranho sobre o granito.
Porém não havia ganhado a guerra.
Percebeu isso quando virou o corpo em direção à mãe e viu-a mais branca que a neve sob suas roupas leves.
- Mãe? – chamou Dominik não conseguindo conter a voz chorosa.
O resto do que aconteceu ali Dominik nem conseguiu mais perceber, quando recobrou os sentidos se encontrava com os olhos inchados, bochechas salgadas, roupas sangradas e numa sala de espera do hospital a dois quilômetros de sua casa, com um enfermeiro tentando recurar sua razão.
Sua visão estava também meio embaçada, e sua fisionomia um tanto engraçada, já que parecia um bobo.
- Rapaz? Rapaz? Sr. Estevam?
- Sim, sim – disse Dominik assumindo cara séria – Dominik Estavam, enfermeiro.
- Boa tarde – sorriu jovialmente – Sua mãe está um pouco confusa no momento, mas após suas 2 horas de descanso, conseguimos realizar um ultrassom por sobre a sua barriga e temos notícias estranhas.
- Algo de errado com o tumor?
- Então, sim e não.
- Como assim?! – Dominik não poderia se dar ao luxo do desespero, entretanto não conseguia segurar-se.
- Ela está mal pela menstruação – Dominik ficou aliviado, o enfermeiro repreendeu-o – mas ainda assim não é algo bom. Seu útero liberou um pouco de líquido na região abdominal, mais especificamente entre o tumor e o útero e ela está sofrendo várias cólicas e enxaquecas. Não sabemos se é por causa do câncer ou só por estresse, mas a água no abdômen certamente é causada por alguma complicação emocional diária.
- Mas o líquido definitivamente não é devido ao tumor, não é? – o enfermeiro assentiu e recebeu um bip, deu-lhe um aceno com a cabeça enquanto via qualquer quarto precisava de seus cuidados e caminhava até o corredor.
Dominik não sabia o que sentir, aquilo poderia comprometê-la. Aquela briga que deveria ferir somente ou a ele ou a seu pai. Por isso mais ainda, ela necessitava ver a luz do sol, aproveitar enquanto ainda havia tempo.
Tão clichê, no entanto era verdade. Assim que saíssem dali, Dominik compraria sorvete para ela, mesmo que fosse altamente não recomendado, levaria-a ao parque, compraria até um livro para ela.
Assim adormeceu com as pernas entre os braços encolhido na cadeira dura da sala de espera decadente, descascada.
Notas finais
https://encrypted-tbn0.gstatic.com/images?q=tbn:ANd9GcSCX3uJVTNsRSkbSSI6sD06pzaux8DITjPkZRJYM1Yi2AsZqO8dXg
e claro que a mãe dele é ela:
https://encrypted-tbn0.gstatic.com/images?q=tbn:ANd9GcRJJLvwhzg7JbbFZMP3TdpULwfXHqoEIc81eDtcGeCZLEYUL9kg
Fale com o autor