Ice and Darkness
41 This is your fault
Notas iniciais
O dia estava ensolarado naquela tarde. Mas mesmo assim eu sentia frio. Segurei o casaco um pouco mais apertado no meu corpo e olho o caixão sendo coberto pela terra que dois homens jogavam em cima. Passou um vento forte e o cheiro das flores que os familiares do Theo tinham levado subiu para o meu nariz. A mãe de Theo estava do lado da sepultura. Ela limpava as lágrimas com um pano branco enquanto um homem a abraçava. Senti Jack passar a mão pela minha cintura e me puxar um pouco mais para perto, apoiei a cabeça no seu peito e voltei a olhar a cena na minha frente.
No dia que o Theo morreu, todo o acampamento parou o que fazia. Aparentemente, o loiro influenciou um pouco a vida de cada um do local. Os campistas queriam fazer uma cerimonia para ele, assim como para todos os campistas que uma vez se foram, mas quando Quíron foi comunicar para a mãe do Theo, ela implorou para que pudesse enterra-lo perto da sua família. Quíron concedeu o seu desejo. Ela soube como ele tinha morrido e eu pensava que ela iria ficar com raiva ou rancor de mim, já que era para ter sido eu. Mas ela apenas me abraçou e me chamou para o enterro dele. Não tinha ninguém no acampamento lá, apenas eu e o Jack. Não foi por falta de querer. A maioria do acampamento queria ir junto, mas Quíron não permitiu que todos os campistas saíssem, por que o cheiro dos semideuses iria atrair mais monstros do que se um usasse um celular.
Quanto mais o caixão era coberto pela areia, mais pessoas iam embora. Quando terminou restava apenas a sua mãe, o homem que estava com ela, dois garotos e eu e o Jack. Meu olhar se cruzou com o da mãe dele e ela veio em minha direção. O Theo não era nada parecido com a mãe dele. O cabelo dela era escuro e iam até a sua cintura, seus olhos verdes, e uma boca grossa. Quem a visse poderia confundi-la facilmente com uma adolescente. Ela chegou perto de mim e me abraçou. Retribui o abraço e ela se soltou e ficou olhando para os meus olhos.
— O Theo gostava mesmo de você. Ele sempre me falava sobre você quando ia para casa.
Olhei para baixo sem saber o que responder.
— Eu não culpo você. — Ela continuou. — Ele gostava se salvar pessoas, sempre gostou. Eu tinha receio, mas não duvidava que um dia ele fizesse isso por alguém. — Ela riu tristemente.
— Eu sinto muito. — Eu sabia que essa a pior coisa que alguém poderia dizer para você quando algum familiar morre, mas eu não tinha outra frase que se encaixasse naquela ocasião.
— Eu também. — Ela disse, segurou a mão do homem ao seu lado e saiu andando para fora do cemitério.
Virei-me para Jack e o abracei com força. Ele beijou a minha cabeça e eu o apertei mais forte. Olhei para cima rapidamente e vi o sol brilhando como numa antes.
— Acho que o pai dele está lhe fazendo uma homenagem. — Jack disse.
— O Theo gostaria de ver.
Antes de ir para o cemitério eu procurei o Leo para ver se ele queria ir conosco. Eu não imaginava como ele estaria perdendo o Theo também. Mas eu não tinha o encontrado no acampamento. Pensei que talvez ele tivesse no Burker, mas já não tinha tempo para ir chama-lo e eu tinha que ir embora.
Depois de um tempo, eu e o Jack entramos numa sombra e voltamos para o meu chalé. Jack pediu para que eu descansasse um pouco porque fazia alguns dias que eu quase não dormia, e quando fazia era muito mal, mas eu queria ver o Leo antes. Eu sabia que não era a melhor pessoa que ir falar com ele naquele momento, mas eu tinha que ver como ele estava. Eu precisava tentar dar algum apoio para ele. Falei para o Jack que iria descansar, mas que precisava fazer algo antes e sai do chalé.
Ao contrário do cemitério, o clima do acampamento estava frio, como se ele pudesse ver o sentimento dos campistas e refleti-los na forma de clima. Andei até a frente do Burker e hesitei por um momento. O que será que o Leo faria se me visse? Será que ele seria igual à mãe do Theo e entender a situação? Eu achava pouco provável por que até eu me considerava culpado pelo o que aconteceu, o que impedia do Leo fazer o mesmo? Abri a porta do Burker e vi Leo sentado no canto, seus joelhos estavam levantados e seus braços estavam apoiados nele cobrindo os seus olhos.
Eu escutava os seus soluços e cada vez mais aquilo partia o meu coração. Dei um passo em sua direção em silêncio.
— Leo. — O chamei baixinho e ele levantou a cabeça.
Seus olhos estavam vermelhos e inchados, ele passou a mão por cima das lágrimas rapidamente e abaixou a cabeça de novo.
— Não era para ter acontecido isso. — Ele disse baixinho e eu dei outro passo na direção dele.
— Eu sei. — Respondi.
— Não. Você não sabe. Você não entende. Ele era uma pessoa boa.
Não respondi nada e fiquei parado no local, eu não dava mais nenhum passo. Eu não sabia se era o certo a fazer naquele momento.
— Não era para ter sido ele. — Ele disse baixinho e eu quase não escutei.
— Eu sei.
Ele se levantou, mas o seu olhar continuava baixo. Seus cabelos estavam despenteados e suas roupas sujas. Eu fiquei me perguntando quanto tempo ele não tinha saído daquele local. Eu não sabia o que ele pensava, e nem dava para decifrar os seus olhos com ele olhando para baixo. Eu não sabia se isso era uma coisa boa ou ruim. Eu tinha medo de que quando eu soubesse o que ele pensava eu percebesse que aquilo realmente era a minha culpa. Desde o dia da morte de Theo, eu sabia que era o culpado, mas que não falava em voz alta, porque eu tinha medo que se eu falasse, eu não conseguiria mais viver com isso. Mas ele levantou a cabeça. A sua respiração estava pesada e seus olhos demostravam raiva. Uma raiva tão grande que eu nunca tinha visto antes.
— Foi culpa sua. Era para ter sido você! — Ele gritou para mim.
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