ILHA DOS DESEJOS

27 Capítulo 27 — O homem do envelope



Na manhã seguinte à primeira identificação de Thomas Bennett, Paul ainda não sabia onde ele estava.

Levou quase dois dias.

Thomas havia se mudado dos Estados Unidos para as Bahamas novamente três anos antes. Vivia atualmente em Eleuthera, onde trabalhava numa pequena organização comunitária.

Não tinha antecedentes.

Não aparecia em nenhuma empresa investigada.

Não havia ligação conhecida com Margaret, Aro, Charlie ou Quil.

Sarah foi a primeira a dizer:

— Não telefonamos dizendo que procuramos um envelope.

Jacob assentiu.

— Perguntamos por Isabella.

— Exatamente.

Paul fez o primeiro contato.

Thomas ficou em silêncio quando ouviu o nome.

Depois perguntou:

— Vocês finalmente descobriram?

Sarah, ouvindo pelo viva-voz, sentiu o coração acelerar.

Paul não entregou informação.

— Descobrimos o quê?

Outra pausa.

— Que ela estava com medo.


No dia seguinte, Jacob, Sarah e Paul voaram para Eleuthera.

Edward e Quil permaneceram em Saint Claire com Embry e segurança.

Thomas Bennett tinha cinquenta e poucos anos.

Cabelos grisalhos.

Olhos cansados.

Nenhuma aparência de homem que guardara conscientemente um segredo de cento e oitenta milhões de dólares.

Sentou diante deles numa varanda simples.

— Isabella me procurou no dia anterior à morte.

Sarah perguntou:

— Por quê?

— Eu fazia entregas para a clínica. Ela ajudava algumas famílias. Nos conhecíamos havia dois anos.

— Ela lhe entregou alguma coisa?

Thomas demorou.

— Uma caixa de primeiros socorros.

Jacob franziu a testa.

Thomas levantou-se.

Voltou alguns minutos depois com uma velha caixa metálica.

— Disse que era material para uma família que morava no extremo sul. Pediu que eu guardasse até ela confirmar a entrega.

Sarah sentiu o coração bater mais forte.

— Ela confirmou?

— Nunca.

— O senhor abriu?

— Não.

— Durante quatro anos?

Thomas deu de ombros.

— Depois que ela morreu, achei que fossem apenas coisas dela. Eu estava passando por problemas pessoais. Saí da ilha meses depois. A caixa veio comigo. Ficou guardada.

Paul fotografou antes de abrir.

Dentro havia gaze.

Antissépticos vencidos.

Medicamentos comuns.

E um fundo falso.

Thomas ficou branco.

— Eu não sabia.

Sarah acreditou nele.

Mas acreditar não bastava.

Paul registrou tudo.

Sob o fundo havia um envelope.

Dentro:

um documento original.

Os nomes dos três beneficiários.

Rebecca Marianne Morrow.

E duas crianças cujos sobrenomes haviam sido posteriormente alterados por tutela.

Uma delas era ancestral direta de uma família ainda viva nas Bahamas.

A outra morrera jovem, deixando descendentes.

Nenhum Black.

Nenhum Clearwater.

Sarah soltou o ar que nem percebera prender.

Jacob ficou olhando para o documento.

A fortuna não escondia uma revelação melodramática sobre Sarah.

Escondia algo mais simples e pior.

Roubo.

A estrutura original fora criada para proteger patrimônio de três herdeiros menores depois da morte dos pais.

Rebecca, a mais velha, recebera poder temporário de veto quando atingira a maioridade.

Aro e outros administradores haviam usado a confusão criada pela morte de Miriam Morrow — irmã de Rebecca, não beneficiária — para declarar Rebecca morta e remover seu veto.

Ephraim descobrira a fraude depois.

Tarde demais para impedir as primeiras transferências.

Mas cedo o suficiente para participar de outras.

Jacob fechou os olhos.

— Então meu avô sabia.

Sarah leu cuidadosamente.

— Em determinado momento, sim.

— E ficou com propriedades mesmo assim.

Ela não suavizou.

— Algumas evidências apontam para isso.

Jacob ficou olhando pela janela.

— Então eu vou devolver.

Sarah virou-se.

— Primeiro descobrimos o quê, para quem e juridicamente como.

— Mas vou devolver.

Ela se aproximou.

— Essa decisão é sua.

— É.

Thomas observava os dois.

— Isabella disse uma coisa antes de sair.

Jacob olhou.

— O quê?

— Que talvez perdesse tudo quando contasse a verdade.

A voz dele falhou.

Thomas continuou:

— Eu perguntei por que não fugia. Ela disse: “Porque fugir foi o que todos fizeram antes de mim.”

Jacob abaixou a cabeça.

Sarah segurou sua mão.

Dessa vez ele não chorou.

Mas também não se protegeu da dor.


Naquela noite, já de volta a Saint Claire, Paul comparou o documento com o microfilme de Harry.

As referências coincidiam.

O documento de Isabella preenchia lacunas.

Não solucionava sua morte.

Mas solucionava a origem patrimonial.

R.M. era, naquele núcleo documental, Rebecca Morrow.

Margaret dissera a verdade sobre isso.

Pelo menos nisso.

E agora precisavam encontrar Rebecca.

Foram necessários cinco dias para confirmar que a mulher fotografada em Miami era realmente Rebecca Morrow.

Não apenas pela fotografia.

Paul localizou registros médicos antigos autorizados por ordem judicial ligada à investigação patrimonial, assinaturas, uma cicatriz descrita em documentos de juventude e, finalmente, uma impressão digital preservada num registro migratório muito antigo.

Rebecca estava viva.

O encontro aconteceu no sexto dia.

Margaret estava lá.

Sarah não gostou.

— Você sabia onde ela estava.

Margaret respondeu:

— Sabia como chegar até ela.

— Não é a mesma coisa?

— Não.

— Para mim é perto o suficiente.

Rebecca apareceu antes que a discussão crescesse.

Oitenta anos.

Frágil.

Mas lúcida.

Olhou primeiro para Sarah.

Depois para Jacob.

— Um Black.

Jacob respondeu:

— Sim.

— Você se parece com Billy.

Ele ficou tenso.

— Conheceu meu pai?

— Conheci.

— E meu avô?

— Também.

Rebecca sentou.

Durante duas horas contou uma história que os documentos posteriormente confirmariam em grande parte.

Aro administrara parte da estrutura.

Ephraim entrara depois.

Descobrira a fraude contra Rebecca.

Tentara impedir algumas transferências.

Mas aceitara outras em troca de proteção para negócios Black.

Não era herói.

Nem arquiteto original.

Era um homem que descobrira um crime e decidira lucrar parcialmente enquanto tentava limitar os danos.

Billy descobrira isso décadas depois.

E quis corrigir.

Charlie ajudara inicialmente.

Depois percebeu quanto dinheiro poderia controlar.

— E Harry? — perguntou Sarah.

Rebecca sorriu.

— Seu tio era insuportável.

Sarah quase riu.

— Isso parece ele.

— Fazia perguntas demais.

— Também parece.

Rebecca contou que Harry a encontrara em Saint Claire dezesseis anos antes.

Ela estava tentando recuperar documentos.

Harry ajudou.

Depois percebeu que estavam sendo observados e insistiu para que Rebecca desaparecesse novamente.

— Ele morreu por isso? — perguntou Sarah.

Rebecca ficou séria.

— Eu não sei.

Sarah sentiu alívio por ela não inventar certeza.

— Obrigada.

— Por quê?

— Por não transformar suspeita em resposta.

Rebecca sorriu.

— Harry teria gostado disso.

Sarah sentiu os olhos arderem.


Jacob perguntou:

— Meu pai morreu porque tentou sair?

Rebecca olhou para Margaret.

Depois para ele.

— Não sei quem matou Billy Black.

— Então acha que foi assassinado.

— Acho suspeito. Não tenho prova.

Jacob assentiu.

Era doloroso.

Mas aceitável.

— E Isabella?

Rebecca fechou os olhos.

— Essa eu sei que não matei.

Sarah percebeu a formulação.

— Mas sabe quem estava procurando por ela?

Rebecca olhou para Margaret.

— Aro.

Margaret completou:

— E Charlie.

— E Victoria? — perguntou Sarah.

Rebecca ficou imóvel.

— Victoria Hale trabalhou para Aro durante muitos anos. Recuperava documentos.

Finalmente.

Uma função.

Não uma assassina automática.

— Ela estava em Saint Claire naquela noite? — perguntou Jacob.

Rebecca respondeu:

— Isso vocês terão de provar.


Antes de partirem, Rebecca assinou autorização para que seus documentos fossem comparados aos registros do arquivo.

Também fez algo que Jacob não esperava.

— Não quero Saint Claire.

Ele ficou imóvel.

— Se parte dela lhe pertence...

— Não quero uma ilha.

— Isso não resolve.

Rebecca sorriu.

— Não. Mas talvez você possa resolver de uma maneira melhor do que seus antepassados.

Jacob olhou para Sarah.

Ela não respondeu por ele.

Nunca faria.

— Vou encontrar todos os sucessores — disse Jacob. — E corrigir o que puder ser corrigido.

Rebecca assentiu.

— Então talvez Billy tenha conseguido alguma coisa no fim.

Jacob ficou em silêncio.

Não absolveu o pai.

Mas pela primeira vez permitiu-se sentir orgulho dele sem precisar apagar seus erros.

Voltaram a Saint Claire no dia seguinte.

Quil estava esperando.

Sarah colocou diante dele a imagem apresentada por Margaret.

23h58.

O veículo ligado a Quil.

— Agora — disse ela — você vai nos contar o que aconteceu nesses quarenta e sete minutos.

Quil fechou os olhos.

— Eu voltei.

Jacob levantou-se.

Sarah segurou seu braço.

Não para protegê-lo de Quil.

Para lembrar o acordo.

Perguntar antes de concluir.

— Você disse que foi embora.

— Eu fui. Depois voltei.

— Por quê?

— Vi o barco de Aro entrando.

— E não contou.

— Não.

Jacob falou baixo:

— Por quê?

Quil olhou para ele.

— Porque encontrei outra pessoa.

— Quem?

— Margaret.

Silêncio.

Sarah sentiu o estômago apertar.

— Margaret estava em Saint Claire naquela noite?

— Sim.

— Você tem prova?

— Não.

— Então continue.

Quil contou.

Voltara para avisar Isabella.

Encontrara seu carro vazio.

Vira Margaret saindo da direção da antiga casa.

Discutiram.

Margaret disse que Isabella havia encontrado Charlie e precisava de alguns minutos.

Quil não acreditou.

Foi até a praia.

Não encontrou Isabella.

Às 00h04 viu o sedã usado por Charlie.

Pouco depois viu Charlie.

— E Isabella?

— Ouvi os dois discutindo.

— Viu?

— De longe.

— Depois?

— Isabella correu.

— Para onde?

— Interior da ilha.

— E você?

Quil fechou os olhos.

— Fui atrás de Charlie.

Jacob explodiu:

— Em vez dela?

— Sim.

A culpa no rosto de Quil era antiga.

— Achei que Charlie era a ameaça. Queria impedir que fosse atrás dela.

— E conseguiu?

— Não.

Charlie desapareceu entre as árvores.

Quil voltou para procurar Isabella.

Então viu o barco de Aro próximo da costa.

À 01h aproximadamente, encontrou Margaret outra vez.

Sozinha.

Ela afirmou que Isabella estava segura.

— E você acreditou? — Sarah perguntou.

— Por dez minutos.

— Depois?

— Percebi que ela estava mentindo.

Quil voltou a procurar.

Àquela altura, Isabella desaparecera.

— Por que escondeu isso por quatro anos?

— Porque Margaret me fez prometer proteger Rebecca. Porque eu trabalhara para Aro depois da morte de Billy. Porque ninguém confiaria em mim. Porque eu achei que conseguiria descobrir sozinho.

Jacob soltou uma risada amarga.

— Meu pai fez isso. Harry fez isso. Charlie fez isso. Você fez isso. Todo mundo decidiu que esconder a verdade era proteção.

Quil abaixou a cabeça.

— Sim.

Jacob aproximou-se.

— E Isabella morreu no meio de todos vocês protegendo alguma coisa.

Quil não respondeu.

Jacob poderia tê-lo atingido.

Sarah viu.

Ele também.

Mas não fez.

— Eu não perdoo você — disse Jacob.

Quil assentiu.

— Não espero.

— Mas ainda preciso da verdade.

— Então terá.

Era a primeira vez que Quil parecia entender que confessar metade já não bastava.