ILHA DOS DESEJOS

28 Capítulo 28 — A última noite de Isabella



A reconstrução levou mais quatro dias.

Paul validou os horários das câmeras fornecidas por Margaret comparando-os com registros independentes.

Havia diferença de três minutos em um dos sistemas.

Corrigida a sincronização, a sequência finalmente começou a fazer sentido.

Edward deixou Isabella pouco depois das onze.

Às 23h41, Isabella ligou para Quil.

Quil se afastou.

Viu o barco ligado a Aro e retornou.

Seu veículo reapareceu às 23h58.

O sedã usado por Charlie chegou pouco depois da meia-noite.

Margaret estava na região.

Charlie confrontou Isabella.

Quil registrou parte da discussão.

Isabella fugiu.

Às 00h37, uma câmera antiga de serviço captou Isabella entrando na trilha interior.

Às 00h52, outro veículo apareceu.

Não o de Charlie.

Não o de Quil.

O carro da Meridian.

À 01h07, Isabella surgiu numa câmera próxima à antiga estação de manutenção.

Viva.

Sozinha.

À 01h13, outra figura apareceu.

Mulher.

Sarah olhou para a imagem.

— Victoria.

Quil não respondeu.

Paul também não.

Precisavam provar.

A imagem foi comparada com fotografias históricas.

Altura.

Postura.

Uma lesão antiga no joelho esquerdo que alterava discretamente a passada.

Victoria Hale.

Compatibilidade forte.

Não absoluta.

Então veio o elemento decisivo.

O carro da Meridian fora localizado anos antes em Nassau e vendido como sucata.

Paul encontrou registros da apreensão.

No interior, preservada em inventário policial jamais conectado ao caso Isabella, havia uma pulseira quebrada.

Jacob reconheceu.

Era de Isabella.


A busca por Victoria durou três dias.

Ela estava em Curaçao sob outro nome.

Dessa vez, ninguém foi confrontá-la sozinho.

Autoridades locais foram acionadas com o conjunto documental.

Victoria foi detida.

E não confessou.

Negou tudo.

Mas o telefone antigo apreendido com documentos guardados por um intermediário de Aro continha mensagens.

Uma delas, enviada naquela madrugada:

Ela correu. Estou trazendo de volta.

Resposta:

Não para a casa. Água.

Remetente associado a Aro.

Outra mensagem:

C.S. perdeu controle. Resolva.

Charlie perdera o controle da situação.

Aro ordenara que Victoria resolvesse.

Não era ainda prova de que Aro fisicamente matara Isabella.

Era prova de uma ordem.

O restante veio de Victoria.

Não numa confissão espontânea.

Durante interrogatórios formais, confrontada com localização, carro, pulseira, mensagens e registros marítimos, sua versão mudou repetidamente.

Até que admitiu ter alcançado Isabella.

Disse que pretendia levá-la ao barco.

Isabella resistiu.

As duas lutaram perto das pedras.

Isabella caiu na água.

Victoria afirmou que tentou puxá-la.

As marcas antigas no relatório de autópsia contavam outra história.

Hematomas nos braços.

Uma lesão na nuca considerada na época compatível com impacto nas pedras.

Água nos pulmões.

Isabella estava viva quando entrou no mar.

Sarah leu tudo duas vezes.

— Então Victoria não necessariamente a empurrou.

Paul respondeu:

— Ainda está sendo investigado.

Jacob estava imóvel.

— Mas deixou ela morrer.

Paul assentiu.

— A evidência aponta fortemente que Victoria tinha possibilidade de prestar socorro e não prestou. E há elementos compatíveis com luta imediatamente antes.

Jacob saiu da biblioteca.

Sarah o encontrou na praia.


Ele estava diante do mar.

O mesmo mar.

— Foi aqui — disse.

Sarah parou ao lado.

— Em algum ponto desta costa.

— Ela estava viva.

— Sim.

— E alguém viu ela cair.

Sarah não respondeu.

Jacob chorou.

Dessa vez sem esconder.

Não por Isabella como noiva perfeita.

Ela nunca fora.

Não mais.

Chorou pela mulher contraditória que o traíra, mentira, tentara corrigir parte do que fizera e morrera antes de conseguir.

Chorou pelo homem que fora quatro anos antes.

Pelo casamento que não aconteceria.

Pela conversa que nunca tivera.

Pela raiva.

Pela humilhação.

Pelo alívio horrível de finalmente saber.

Sarah permaneceu ao lado.

Jacob falou depois de muito tempo:

— Eu achei que descobrir quem matou Isabella ia fazer alguma coisa desaparecer.

— E fez?

— Não.

— Não costuma.

Ele olhou para o mar.

— Eu não a perdoo por Edward.

Sarah assentiu.

— Não precisa.

— Mas também não quero odiá-la mais.

— Então não odeie.

Jacob fechou os olhos.

— Adeus, Isabella.

Não houve resposta.

Só o mar.

E dessa vez ele não entrou nele para lutar contra um fantasma.

Virou-se.

E voltou para casa com Sarah.

******

A prisão de Victoria não encerrou o caso.

Abriu outro.

As mensagens ligavam Aro diretamente à perseguição de Isabella.

Documentos ligavam-no à fraude patrimonial.

Charlie continuava desaparecido.

Margaret continuava devendo respostas.

E havia a morte de Billy.

Durante as duas semanas seguintes, as autoridades das Bahamas, dos Estados Unidos e de outras jurisdições começaram a receber cópias formalmente preservadas dos documentos.

Jacob entregou tudo.

Inclusive aquilo que comprometia os Black.

Edward observou quando ele assinou a autorização final.

— Billy teria odiado isso.

Jacob olhou.

— Ótimo.

Edward quase sorriu.

— Também teria orgulho.

— Talvez.

Pausa.

— Não preciso decidir hoje.


Aro foi localizado onze dias depois da prisão de Victoria.

Não em um esconderijo exótico.

Em uma propriedade privada na Europa.

Foi detido por acusações financeiras e por elementos relacionados à ordem enviada na noite da morte de Isabella. A responsabilidade criminal exata pela morte dependeria do processo.

Charlie foi encontrado dois dias depois.

Vivo.

Quando a notícia chegou, Jacob permaneceu parado.

Edward perguntou:

— Quer que eu vá com você?

Jacob olhou para ele.

Quatro anos antes, teria chamado Edward de irmão.

Depois quisera matá-lo.

Agora existia algo entre os dois que ainda não tinha nome.

— Sim.

Edward assentiu.


Charlie parecia velho.

Muito mais do que deveria.

Jacob não lhe ofereceu a mão.

— Isabella morreu achando que você tinha escolhido Aro em vez dela.

Charlie fechou os olhos.

— Eu escolhi.

— Por dinheiro?

— No começo.

— Depois?

— Medo.

Jacob lembrou da carta de Billy.

Homens com medo fazem coisas piores do que homens gananciosos.

— Você sabia que Victoria estava atrás dela?

Charlie chorou.

— Descobri tarde demais.

— Quanto tarde?

— Naquela madrugada.

— E não procurou ajuda.

— Aro ameaçou...

Jacob bateu a mão na mesa.

— Chega de Aro!

Charlie se calou.

— Minha noiva morreu. Sua filha morreu. E durante quatro anos você ficou vivo enquanto todo mundo enterrava Isabella duas vezes: uma no mar e outra nas mentiras.

Charlie não conseguiu responder.

Jacob levantou.

— Eu não vim buscar sua absolvição.

— Jacob...

— Vim olhar para você.

Charlie ergueu os olhos.

— Por quê?

— Porque meu pai escreveu que eu não devia acreditar na sua morte sem ver o corpo.

Jacob respirou.

— Agora vi você vivo.

Virou-se.

Edward permaneceu alguns segundos.

Charlie olhou para ele.

— Ela amava você?

Edward respondeu:

— Não do jeito que você quer que eu diga.

Charlie fechou os olhos.

Edward saiu.


No corredor, Jacob perguntou:

— Por que respondeu assim?

Edward demorou.

— Porque durante anos eu precisei acreditar que Isabella me amava mais do que amava você. Era a única maneira de justificar o que fiz.

Jacob ficou imóvel.

— E agora?

— Agora acho que ela estava perdida. E eu usei isso porque queria ser escolhido.

Jacob assentiu.

— Eu ainda não perdoei você.

— Eu sei.

— Talvez nunca do jeito que você quer.

Edward sorriu tristemente.

— Talvez o problema tenha sido eu querer coisas que não tinha direito de pedir.

Jacob estendeu a mão.

Edward olhou.

Depois apertou.

Não eram irmãos outra vez.

Talvez nunca fossem.

Mas também já não eram inimigos.

*****

Margaret voltou a Saint Claire três semanas depois.

Dessa vez não houve mensagem misteriosa.

Telefonou.

Pediu permissão.

Sarah quase recusou.

Aceitou porque ainda havia uma pergunta.

— Foi você quem me colocou aqui?

Margaret não tentou fugir.

— Eu indiquei seu nome à recrutadora.

Sarah ficou imóvel.

— Por quê?

— Porque Harry confiava em você.

— Eu tinha dezesseis anos quando ele morreu.

— Não para investigar. Para chegar à ilha.

— Você mexeu na minha vida.

— Abri uma porta.

Sarah riu sem humor.

— Não use essa frase como se melhorasse.

Margaret abaixou os olhos.

— Não melhora.

— Jacob poderia não ter me contratado.

— Sim.

— Eu poderia ter recusado.

— Sim.

— Então você não controlou tudo.

— Não.

— Mas manipulou uma oportunidade.

— Sim.

Sarah respirou.

— Obrigada por finalmente dizer sem transformar em missão de Harry.

Margaret assentiu.

— Harry nunca pediu que você continuasse.

— Eu sei. Ele deixou isso muito claro.

— Eu deveria ter respeitado.

— Deveria.


— E a fotografia no portão? — perguntou Sarah.

Margaret levantou os olhos.

— Não fui eu.

— O barco?

— Eu.

— O áudio?

— Eu.

— A fotografia nossa?

— Não.

Sarah sentiu frio.

— Então havia outro observador.

Margaret assentiu.

— Acredito que fosse alguém de Aro.

Mais tarde, Paul confirmaria que um dos homens usados por Aro para vigilância estivera em Saint Claire naquele período.

Era também compatível com a descrição do homem que atacara Embry.

Outra linha finalmente se fechava.


Margaret contou ainda a verdade sobre Harry.

Não era sua irmã.

Não era amante secreta.

Não era parente escondida.

O sobrenome Clearwater fora utilizado profissionalmente por alguns administradores ligados à antiga fundação, mas Harry realmente descendia de um ramo familiar associado àqueles representantes.

Margaret adotara o sobrenome durante o período em que trabalhou com a fundação.

— Harry era meu amigo — disse.

Sarah ficou olhando.

— Só?

Margaret sorriu.

— Em algum momento eu quis que fosse mais.

— E ele?

— Harry tinha o irritante hábito de me amar exatamente do jeito que não me servia.

Sarah riu apesar de si mesma.

Aquilo parecia Harry.

Margaret entregou uma carta.

Não secreta.

Não explosiva.

Uma carta que Harry escrevera para ela anos antes.

Sarah leu apenas uma linha.

Sarah não deve herdar nossos medos.

Os olhos dela se encheram.

Margaret disse:

— Foi onde eu errei.

Sarah dobrou a carta.

— Sim.

— Pode me perdoar?

— Não sei.

Margaret assentiu.

Sarah guardou a carta.

— Mas pode parar de decidir por mim.

— Posso.

— Comece por aí.


Naquela noite Sarah levou a carta até a praia.

Jacob foi com ela.

Ela chorou pelo tio.

Não pelo investigador.

Não pelo homem da Foundation Clearwater.

Pelo homem que fizera um bolo torto.

Que prometera não soltar a bicicleta e soltara.

Que sentara ao lado dela durante uma tempestade porque uma menina de onze anos tinha medo de trovões.

— Eu estava com medo de perder ele — disse.

Jacob segurou sua mão.

— Para essa história?

— Sim.

— Perdeu?

Sarah olhou para a carta.

— Não.

Sorriu entre lágrimas.

— Ele continua sendo meu tio idiota que fazia bolo horrível.

Jacob beijou sua cabeça.

— Então acho que você ganhou.

— Não é competição.

— Você realmente estraga minhas frases.

— Talento.

Ele riu.

E ficaram olhando o mar até escurecer.