ILHA DOS DESEJOS

19 Capítulo 19 - A mulher sem nome



A fotografia permaneceu sobre a mesa por quase um minuto sem que ninguém dissesse nada.

Isabella caminhava pelo corredor do aeroporto de Nassau quatro anos antes, parcialmente de perfil, os cabelos presos, uma pasta apertada contra o corpo. Ao lado dela, a mulher desconhecida usava óculos escuros e roupas discretas. Não olhava para Isabella. Não olhava para a câmera. Parecia apenas caminhar.

Mas havia o símbolo na pulseira.

E Edward afirmava já tê-lo visto no escritório de Charlie.

Apenas isso.

Sarah fez questão de repetir.

— Antes que alguém transforme isso em uma conclusão: temos uma mulher que Embry acredita ser a mesma pessoa que acompanhou Isabella quando ela saiu de Saint Claire. Temos uma fotografia mostrando Isabella ao lado dela em Nassau. E temos Edward dizendo que reconhece o símbolo da pulseira porque viu algo semelhante no escritório de Charlie.

Jacob estava encostado à mesa.

— Você fala como promotora.

— Falo como alguém tentando impedir vocês de prenderem o primeiro morto disponível.

Embry levantou a mão.

— Tecnicamente, nesta história isso seria bastante difícil. Os mortos não permanecem mortos.

Paul disfarçou um sorriso.

Jacob olhou para Embry.

— Sua cabeça ainda está doendo?

— Muito.

— Posso piorar.

— Violência contra feridos. Sarah, anote.

Sarah sorriu.

Edward não.

Continuava olhando para a imagem.

— Tenho certeza de que vi.

Sarah voltou-se.

— O símbolo?

— Sim.

— Onde exatamente?

Edward fechou os olhos por alguns segundos.

— Num selo.

— Papel?

— Metal.

Quil levantou os olhos.

— Descreva.

Edward apontou para a pulseira ampliada na tela.

— Parecia isso. Um círculo incompleto atravessado por três linhas.

Quil ficou quieto.

— E onde Charlie guardava?

— Numa caixa no escritório dele em Nassau.

Jacob franziu a testa.

— Charlie tinha escritório em Nassau?

Edward olhou para ele.

— Tinha.

A expressão de Jacob mudou.

Edward percebeu.

— Antes que comece: era um escritório jurídico. Não era secreto.

— Para mim era.

— Você não era cliente dele naquela época.

— Meu pai era.

— E Charlie tinha dezenas de clientes.

Sarah interrompeu:

— Endereço.

Edward respondeu.

Paul anotou.

Quil, entretanto, continuava olhando para o símbolo.

— Você disse que precisava ver os documentos do cofre — lembrou Sarah.

— Sim.

— Então vamos ver.


O material retirado do cofre de Nassau ocupava quase toda a mesa da biblioteca.

Jacob havia determinado que nada fosse levado ao antigo escritório de Billy.

Não ainda.

Sarah percebeu que ele evitava entrar naquele cômodo novamente.

Não comentou.

Havia momentos em que respeitar silêncio era diferente de permitir que alguém se escondesse dentro dele.

Paul organizara cópias digitais. Os originais estavam protegidos.

Edward e Quil ficaram em lados opostos da mesa.

Embry apareceu carregando café.

Jacob olhou.

— Você deveria descansar.

— Eu estou descansando.

— Você está andando pela casa.

— Devagar.

Sarah pegou uma xícara.

— Obrigada.

Embry sorriu.

— Finalmente alguém valoriza meu trabalho.

Jacob respondeu:

— Você administra uma ilha.

— E faço café.

— Mal.

— Ingrato.

Quil observou os dois.

Havia alguma coisa estranha em sua expressão.

Saudade, talvez.

Jacob percebeu.

— O quê?

— Nada.

— Quil.

Ele suspirou.

— Billy e eu discutíamos assim.

O humor desapareceu.

Embry baixou os olhos.

Jacob permaneceu parado.

— Meu pai fazia café?

Quil quase sorriu.

— Horrível.

Embry olhou para Jacob.

— Genético.

Sarah riu.

Dessa vez Jacob também.

Pouco.

Mas riu.

E aquilo pareceu aliviar a sala durante alguns segundos.

Então voltaram aos mortos.


Quil examinou documento após documento.

Blue Horizon.

Northstar.

Empresas intermediárias.

Fundos.

Contratos.

Estruturas fiduciárias.

Sarah permaneceu ao lado dele.

Quase quarenta minutos depois, Quil parou.

— Aqui.

Era um documento aparentemente irrelevante.

Três páginas.

Uma antiga cessão de direitos.

No rodapé da última folha estava o símbolo.

O mesmo da pulseira.

Edward aproximou-se.

— É esse.

Sarah leu.

— Fundação Clearwater.

E parou.

Não dramaticamente.

Não como Jacob parava quando algum nome do passado aparecia.

Foi algo menor.

Mais silencioso.

Os olhos simplesmente permaneceram presos à palavra por tempo demais.

Clearwater.

Seu sobrenome.

O sobrenome da mãe.

O sobrenome que escrevera em provas, contratos, currículos e formulários a vida inteira sem imaginar que algum dia o encontraria no meio de documentos retirados de um cofre secreto em Nassau.

Jacob percebeu primeiro.

— Sarah?

Ela não respondeu imediatamente.

Leu novamente.

Fundação Clearwater.

— Não olhe para mim assim.

— Assim como?

— Como se eu soubesse o que isso significa.

— Eu não acho que saiba.

— Ótimo.

Quil continuava imóvel.

Sarah viu.

— Você conhece?

— Conheço o nome.

Jacob imediatamente se aproximou.

— De onde?

Quil continuou olhando para Sarah.

Ela sentiu um desconforto estranho.

Não medo.

Algo mais íntimo.

Como se aquele homem estivesse olhando para uma fotografia antiga que ela não sabia existir.

— Quil.

Ele respirou.

— A Fundação Clearwater existiu por décadas.

— Fazia o quê?

— Oficialmente? Projetos ambientais. Aquisição de áreas costeiras. Proteção de reservas.

Edward completou:

— E investimentos.

Quil assentiu.

Sarah cruzou os braços.

— E por que vocês estão olhando para mim?

— Porque Clearwater não é um sobrenome comum nesse círculo.

Jacob ficou imediatamente tenso.

— Cuidado.

Sarah tocou o braço dele.

— Eu consigo perguntar sozinha.

Jacob olhou para ela.

Recuou meio passo.

Não foi embora.

Sarah voltou-se para Quil.

— Você conheceu alguém chamado Clearwater?

— Conheci.

— Quem?

Quil demorou.

— Harry Clearwater.

Sarah não respirou.

Foi tão rápido que Jacob inicialmente achou que ela apenas não tivesse entendido.

Então a cor desapareceu do rosto dela.

— Não.

Quil não respondeu.

— Não.

Dessa vez a palavra saiu diferente.

Mais baixa.

Sarah recuou.

A parte de trás de suas pernas encontrou uma cadeira.

Ela segurou o encosto.

— Meu tio?

— Sim.

— Harry?

— Sim.

Ela soltou uma pequena risada.

Sem humor.

— Não.

Jacob se aproximou.

— Sarah.

Ela levantou a mão.

— Um minuto.

Ele parou.

Sarah continuou olhando para Quil.

— Você está falando de Harry Clearwater?

— Sim.

— Meu tio Harry?

— Sim.

— Irmão da minha mãe?

— Sim.

Cada confirmação parecia pior.

Sarah se sentou.

Não porque quisesse.

Porque as pernas decidiram antes dela.

Por alguns segundos, ninguém falou.

Então Embry fez um movimento para se aproximar.

Jacob discretamente balançou a cabeça.

Sarah precisava de espaço.

Ela olhava para a mesa, mas já não via documentos.

Via um homem muito diferente daquele que Quil acabara de colocar dentro da Northstar.

Harry usando uma camiseta velha e bermuda, tentando ensinar uma Sarah de sete anos a andar de bicicleta.

Harry correndo atrás dela pela rua.

Não vou soltar.

— Você soltou!

E você continuou pedalando.

Sarah fechou os olhos.

Outra lembrança.

Harry chegando atrasado no aniversário dela com um bolo torto porque insistira que conseguiria fazer sozinho.

A mãe reclamando da cozinha destruída.

Sarah rindo porque o glacê estava escorrendo.

Outra.

Uma tempestade.

Ela tinha onze anos.

A energia acabara e Sarah morria de medo de trovões, embora jamais admitisse.

Harry sentara no chão ao lado da cama com uma lanterna.

Inventara histórias absurdas até ela dormir.

Outro fragmento.

O cheiro do carro dele.

Café.

Protetor solar.

Papel.

Sempre papel.

Mapas enrolados no banco de trás.

— Ele me ensinou a nadar — disse Sarah.

Ninguém entendeu inicialmente.

Jacob ficou imóvel.

— Sarah...

Ela abriu os olhos.

Estavam molhados.

— Meu tio me ensinou a nadar.

Quil baixou os olhos.

— Eu não sabia.

— Claro que não sabia.

A voz dela não era agressiva.

Era pior.

Quebrada.

— Ele dizia que ninguém devia morar perto do mar sem saber respeitar água.

Sarah riu baixinho.

Uma lágrima escapou.

Ela limpou imediatamente, irritada consigo mesma.

— Eu tinha oito anos. Tinha medo de colocar a cabeça embaixo d'água. Ele ficou quase três horas comigo.

Jacob não conseguiu permanecer longe.

Aproximou-se.

Agachou diante dela.

Não tocou.

Esperou.

Sarah olhou para ele.

E foi ela quem segurou sua mão.

Jacob fechou os dedos imediatamente.

— Ele era meu lugar seguro — disse.

Jacob sentiu alguma coisa apertar no peito.

Sarah voltou a olhar para Quil.

— Não transforme ele em outra pessoa.

— Não quero fazer isso.

— Porque é isso que está acontecendo com todo mundo aqui.

Sua voz aumentou.

— Billy era uma coisa para Jacob e outra nos documentos. Charlie era pai, advogado, mentor e agora...

Ela gesticulou para a mesa.

— Isabella era noiva, amante, cúmplice, investigadora...

Edward baixou os olhos.

Sarah respirou.

— Eu não quero fazer isso com Harry.

Quil respondeu:

— Então não faça.

Ela olhou para ele.

— Você acabou de me dizer que ele trabalhava com você.

— Trabalhou.

— Na Northstar.

— Em trabalhos ligados a ela.

— Qual é a diferença?

— Uma grande diferença.

Sarah esperou.

Quil escolheu cuidadosamente as palavras.

— Harry não fazia parte do núcleo financeiro.

— Como sabe?

— Porque eu o contratei.

Silêncio.

Sarah ficou imóvel.

— Você?

— Sim.

— Para quê?

— Avaliações ambientais.

Ela riu, amarga.

— Claro.

Quil não reagiu.

— Isso combina, não é? — continuou Sarah. — Perfeitamente. É exatamente o que ele fazia.

Jacob apertou a mão dela.

— Então uma parte do que você conhecia continua verdadeira.

Sarah olhou para ele.

Aquilo a atingiu.

— Não faça isso.

— O quê?

— Não tente consertar.

Jacob ficou quieto.

Sarah fechou os olhos.

— Desculpe.

— Não precisa.

— Preciso, sim.

Ela respirou.

— Só... não faça ele virar bom ou mau por mim.

Jacob entendeu.

— Certo.

— Eu preciso descobrir.

— Então descobrimos.

Ela apertou os dedos dele.

— Sem proteger.

Jacob lembrou da carta de Billy.

— Sem proteger escondendo.

Sarah assentiu.

Quil observou os dois.

Depois disse:

— Harry era bom no trabalho.

Sarah levantou os olhos.

— Isso é uma opinião sua.

— Sim.

— Então me dê fatos.

Quil assentiu.

A Sarah que ele conhecera havia poucos minutos parecia voltar lentamente.

Ainda machucada.

Mas de pé por dentro.

— Ele trabalhou como consultor independente em seis avaliações de propriedades ligadas à Northstar.

— Quantas para empresas Black?

— Duas que eu lembro.

— Conheceu Billy?

— Sim.

— Eram amigos?

— Não.

— Se davam bem?

Quil quase sorriu.

— Às vezes.

Sarah sentiu o peito doer.

— Isso parece Harry.

— Ele discutia com Billy.

— Isso também parece Harry.

Uma lembrança involuntária trouxe um pequeno sorriso.

Harry discutindo com um vendedor porque tentara cobrar mais caro da mãe dela.

Harry discutindo com o diretor da escola porque Sarah recebera punição por responder a um professor.

Ela respondeu porque o senhor estava errado.

Sua mãe ficara furiosa com os dois.

Sarah engoliu em seco.

— Quando foi a última vez que viu ele?

Quil perdeu o sorriso.

— Alguns meses antes de morrer.

A palavra doeu.

Sarah desviou os olhos.

— Meu tio morreu quando eu tinha dezesseis.

— Eu sei.

Ela virou lentamente.

— Como sabe?

Quil ficou em silêncio.

Sarah percebeu antes da resposta.

— Não.

— Sarah...

— Como sabe?

— Porque estive no funeral.

Ela se levantou.

Jacob também.

— Não.

— Fiquei longe.

— Onde?

— Do outro lado da rua.

Sarah ficou encarando.

— Por quê?

— Porque Harry me pediu uma coisa.

— O quê?

— Se algo acontecesse com ele, que eu verificasse se você e sua mãe estavam bem.

O rosto de Sarah se desfez por um segundo.

Ela virou-se.

Jacob viu.

Dessa vez não esperou.

Segurou sua cintura.

Sarah resistiu durante talvez dois segundos.

Depois se virou e escondeu o rosto no peito dele.

O primeiro soluço foi silencioso.

O segundo não.

Jacob fechou os braços ao redor dela.

Ninguém falou.

Ele passou a mão lentamente por seus cabelos.

Sarah odiava chorar na frente de pessoas.

Jacob sabia.

Virou ligeiramente o corpo, protegendo-a dos outros sem escondê-la deles.

Era uma diferença pequena.

Mas importante.

— Ele sabia — murmurou Sarah contra seu peito.

Jacob abaixou o rosto.

— O quê?

— Que podia acontecer alguma coisa.

Ela se afastou apenas o suficiente para respirar.

— Por que ele não contou para nós?

Quil respondeu:

— Provavelmente pela mesma razão que Billy não contou para Jacob.

Sarah fechou os olhos.

— Proteção.

— Sim.

Ela soltou uma risada molhada.

— Estou começando a odiar essa palavra.

Jacob passou o polegar por uma lágrima em seu rosto.

— Eu também.

Sarah respirou fundo.

Afastou-se devagar.

Jacob não tentou segurá-la.

Ela enxugou o rosto.

— Minha mãe nunca falou de você.

— Provavelmente não sabia meu nome.

— Harry contou alguma coisa a ela?

— Não sei.

— A mim?

— Não sei.

Sarah ficou alguns segundos em silêncio.

— O que ele fazia para a Northstar?

Quil respondeu:

— Avaliava propriedades costeiras para aquisição.

— Só isso?

Quil hesitou.

Sarah percebeu.

— Quil.

— No começo, sim.

— E depois?

— Harry descobriu que algumas propriedades não estavam sendo usadas apenas como investimentos.

— Para quê?

— Rotas.

Paul se aproximou.

— Transporte?

— Sim.

— De quê?

— Dinheiro inicialmente. Depois documentos. Pessoas. Ativos que precisavam desaparecer de um país e aparecer em outro.

Sarah ficou imóvel.

— Harry descobriu.

— Parte.

— E?

— Confrontou algumas pessoas.

— Quem?

— Eu fui uma.

— Billy?

— Sim.

— Charlie?

Quil hesitou.

— Acredito que sim. Não presenciei.

Sarah assentiu.

Separando.

Sempre separando.

— E Aro?

— Não sei.

— Então não coloque ele nessa parte.

— Certo.

Sarah respirou.

— Harry tentou sair?

— Ele não precisava sair. Nunca foi membro da estrutura.

Sarah olhou para ele.

Quil continuou:

— Ele tentou parar de trabalhar para empresas ligadas a ela.

— E conseguiu?

— Sim.

Aquilo surpreendeu todos.

— Simples assim? — perguntou Edward.

— Não.

Quil olhou para Sarah.

— Houve pressão. Ameaças indiretas. Perdeu contratos.

Sarah lembrou.

A adolescência.

Harry reclamando que o trabalho estava ruim.

A mãe oferecendo dinheiro.

Harry recusando.

Eu me viro, pequena. Sempre me viro.

Ela apertou os olhos.

— Eu lembro.

Jacob olhou.

— Do quê?

— Ele ficou sem trabalho por um tempo.

Sarah sentou-se novamente.

— Eu tinha quinze anos. Minha mãe dizia que ele precisava parar de ser orgulhoso.

Outra lembrança.

Harry aparecendo com presentes baratos no Natal e fingindo que eram “minimalistas”.

Sarah não se importara.

Nunca se importara.

— Foi por isso?

Quil respondeu:

— Pode ter sido. Não sei.

Ela assentiu.

— Certo.

Sua voz tremeu.

— Certo.

Depois veio a pergunta que ela não queria fazer.

— Meu tio morreu de ataque cardíaco.

Quil ficou quieto.

Sarah olhou diretamente para ele.

— Meu tio morreu de ataque cardíaco.

— Essa foi a conclusão oficial.

— Você acredita?

Quil demorou.

— Não sei.

— Tem prova de que foi assassinado?

— Não.

— Algum exame contraditório?

— Não que eu tenha visto.

— Alguém confessou?

— Não.

— Alguma testemunha?

— Não.

Sarah respirou.

— Então não faça isso comigo.

Quil assentiu.

— Certo.

— Não transforme a morte dele em assassinato porque combina com essa história.

— Certo.

Uma lágrima escorreu novamente.

Sarah limpou.

— Eu enterrei meu tio.

Sua voz falhou.

— Eu vi o corpo dele.

Aquilo silenciou a sala de maneira diferente.

Charlie.

Quil.

Homens oficialmente mortos que reapareceram.

Harry não.

Sarah tinha visto.

— Ele morreu — continuou. — De verdade.

Jacob segurou sua mão.

— Sim.

— E até termos alguma coisa além de medo e coincidência, ele morreu de ataque cardíaco.

Quil assentiu.

— Sim.

Sarah respirou fundo.

— Continue.

Jacob olhou para ela.

— Tem certeza?

— Não.

Ele esperou.

Sarah apertou sua mão.

— Mas continue.


No verso da última página do documento havia uma anotação:

H.C. — auditoria costeira.

Abaixo:

E.B. solicitou suspensão.

Jacob apontou.

— Ephraim Black?

Sarah respondeu antes de Quil:

— Pode ser.

Jacob assentiu.

— Pode ser.

Quil também.

— Precisamos confirmar.

Outro registro trouxe algo mais concreto:

Harry Clearwater — consultor independente.

Sarah tocou o nome.

Dessa vez não chorou.

Passou o dedo pelas letras.

— Ele tinha uma letra horrível.

Jacob franziu a testa.

— O quê?

Ela sorriu, triste.

— Harry. Escrevia como se estivesse brigando com o papel.

Embry sorriu.

— Eu gostaria dele.

Sarah olhou para Embry.

— Gostaria.

A certeza saiu antes que pudesse impedir.

E doeu.

Mas também foi boa.

Porque por alguns segundos Harry voltou a ser apenas Harry.

Não Northstar.

Não documentos.

Não suspeita.

Seu tio.

— Ele me chamava de pequena — contou.

Jacob olhou para ela.

— Mesmo quando eu já era quase da altura dele.

— Você não é exatamente alta.

Sarah virou-se lentamente.

Jacob percebeu o erro.

— Momento ruim?

— Péssimo.

— Certo.

Embry começou a rir e imediatamente segurou a cabeça.

— Ai.

Sarah riu também.

Entre lágrimas.

E Jacob decidiu que ouvir aquele som valia qualquer ameaça posterior.


Então encontraram a lista de propriedades.

Bahamas.

Cayman.

Saint Lucia.

Saint Claire.

Três terrenos na ilha.

A antiga propriedade Black.

A região da pista.

E a praia norte.

Sarah reconheceu imediatamente.

— A casa de hóspedes.

Edward ficou imóvel.

A mesma casa onde ele e Isabella haviam se encontrado secretamente.

A mesma cujas fundações esconderam documentos.

O proprietário anterior estava registrado como:

Fundação Clearwater.

Sarah não falou.

Apenas ficou olhando.

Jacob se aproximou.

— Quer parar?

— Não.

— Sarah...

— Não.

Ela tocou o documento.

— Meu tio esteve aqui?

Quil respondeu:

— Sim.

Sarah levantou os olhos.

— Em Saint Claire?

— Pelo menos duas vezes.

— Quando?

— Muito antes de você.

Ela respirou fundo.

— Ele nunca falou dessa ilha.

— Não.

— Levava fotos para casa de todo lugar onde trabalhava.

Sarah sorriu tristemente.

— Tinha caixas.

Olhou para Jacob.

— Centenas.

— Fotos?

— Fotos, mapas, cartões-postais. Ele me mostrava tudo.

— Menos Saint Claire.

— Pelo menos eu não lembro.

Quil continuou:

— Harry supervisionou parte da avaliação ambiental da praia norte antes da transferência.

Sarah olhou para o lugar onde a casa de hóspedes havia ficado.

— Então ele caminhou naquela praia.

— Sim.

Ela fechou os olhos.

Era uma coisa tão pequena.

Mas atingiu de maneira absurda.

Ela havia caminhado ali.

Investigado ali.

Encontrado a caixa de Isabella ali.

Sem saber que, décadas antes, Harry estivera no mesmo lugar.

Jacob tocou suas costas.

Sarah permitiu.

— Isso não significa destino — disse ela.

Jacob quase sorriu.

— Eu não disse nada.

— Seu rosto disse.

— Meu rosto não fala.

— Fala muito.

Ela respirou.

— É coincidência até existir prova de outra coisa.

— Certo.

— Mas é uma coincidência muito irritante.

— Muito.

O contrato mostrava Harry Clearwater como consultor da operação.

Agora não era lembrança de Quil.

Era documento.

Sarah ficou olhando para a assinatura do tio.

Conhecia aquela assinatura.

Tinha visto em cartões de aniversário.

Cheques.

Bilhetes.

Para minha pequena. Não gaste tudo em livros. — Harry

Ela tocou o papel.

— É dele.

Jacob perguntou:

— Tem certeza?

— Sim.

Dessa vez Sarah podia afirmar.

— Essa assinatura é dele.


No início da noite, Paul voltou com o resultado da investigação sobre a contratação de Sarah.

— O processo começou com uma indicação.

Sarah ficou imóvel.

— De quem?

Paul colocou o notebook sobre a mesa.

— Uma mulher.

A fotografia apareceu.

A mesma mulher que acompanhara Isabella em Nassau.

Sarah se aproximou.

— Ela?

— A indicação veio de uma identidade usada por essa mulher.

— Nome?

— Helen Moore.

Quil soltou uma respiração curta.

— Nome de cobertura.

— De quem? — perguntou Sarah.

— Não sei. Foi usado em operações antigas da Northstar por mais de uma pessoa.

Sarah leu a troca de e-mails.

Considere esta candidata. Ela é competente, não tem ligação conhecida com Black e possui exatamente o perfil necessário para permanecer na ilha durante a obra.

Outra linha:

Não informe à candidata que houve indicação.

Sarah sentiu o chão mudar outra vez.

— Ela tinha meu currículo.

— Sim — respondeu Paul.

— Como?

— Ainda não sabemos.

— Sabia quem era meu tio?

— Não sabemos.

Sarah fechou os olhos.

Jacob ficou ao lado.

Não tocou.

Esperou.

Ela abriu os olhos.

— Eu consegui esse trabalho.

Jacob franziu a testa.

— O quê?

— Eu consegui.

— Sim.

— Não quero que isso mude.

Ele compreendeu.

— Não muda.

— Uma mulher me colocou na lista.

— Sim.

— Mas eu fiz as entrevistas.

— Fez.

— Eu apresentei o projeto.

— Sim.

— Você me contratou.

Jacob fez uma expressão.

— Depois de me comportar como um idiota.

Sarah quase sorriu.

— Depois disso.

Ele aproximou-se.

— Eu contratei você porque era a melhor candidata.

— Tem certeza?

— Absoluta.

— Mesmo esperando um homem?

Jacob fechou os olhos.

— Você nunca vai esquecer isso.

— Nunca.

— Justo.

Sarah respirou melhor.

— Então seguimos.

Quil observava.

— Talvez tenham escolhido você por causa de Harry.

Sarah olhou.

— Talvez.

— Harry copiou documentos quando percebeu o que estava acontecendo.

— Você viu?

— Alguns.

— Onde estão?

— Não sei.

— Ele disse?

— Apenas que criou uma garantia.

Sarah ficou imóvel.

Uma lembrança surgiu.

Não como raio.

Devagar.

Harry ajoelhado diante dela no aniversário de dezesseis anos.

Duas semanas antes de morrer.

Uma caixa pequena nas mãos.

— Não.

Jacob percebeu.

— O quê?

Sarah fechou os olhos.

A lembrança ficou mais clara.

Isso é seu, pequena. Mas sua mãe vai guardar até você fazer dezoito.

Sarah rindo.

Por quê? É dinheiro?

Harry sorrindo.

Com a minha conta bancária? Sonhe.

Ela engoliu em seco.

— Ele deixou uma caixa para mim.

Quil ficou imóvel.

— O quê?

— Quando morreu.

Sarah apertou os braços ao redor do próprio corpo.

— Minha mãe me entregou quando fiz dezoito.

— O que tinha?

— Coisas dele.

A voz dela ficou menor.

— Fotografias. Cartas. Algumas moedas. Uma bússola.

Quil levantou-se.

— Como era?

Sarah olhou.

— Bronze.

— Tampa com uma rosa dos ventos?

Ela sentiu frio.

— Sim.

Quil fechou os olhos.

— Harry me mostrou.

— Quando?

— Meses antes de morrer.

Sarah se aproximou.

— Por quê?

— Disse que tinha criado uma garantia que ninguém procuraria porque parecia uma lembrança sem valor.

Sarah sentiu raiva.

— Sem valor?

Quil percebeu.

— Para outras pessoas.

Ela respirou.

— Para mim não era.

— Eu sei.

— Não sabe.

A voz falhou.

— Eu levei aquela bússola para a faculdade.

Jacob olhou.

Sarah sorriu tristemente.

— Ficava na minha mesa quando eu estudava.

Passou a mão pelos olhos.

— Quando eu sentia falta dele, eu segurava aquela coisa.

Quil não falou.

— E agora você está me dizendo que era esconderijo?

— Acho que sim.

— Ele colocou alguma coisa nela?

— Não vi.

Sarah riu baixinho.

— Claro.

Jacob aproximou-se.

Ela olhou para ele.

— Até minhas lembranças têm compartimentos secretos agora.

Aquilo quebrou alguma coisa nele.

Jacob a puxou.

Sarah foi.

Enterrou o rosto no pescoço dele.

— Eu não quero perder quem ele era.

Jacob segurou-a com força.

— Não vai.

Ela se afastou.

— Você não pode prometer.

Jacob ficou quieto.

Sarah respirou.

— Desculpe.

— Pare de pedir desculpa.

Ele segurou seu rosto.

— Então vou dizer outra coisa.

— O quê?

— O que descobrirmos não apaga o homem que ensinou você a nadar.

Sarah fechou os olhos.

— Mesmo se ele fez coisas ruins?

— Não.

Ela abriu.

Jacob continuou:

— Se descobrirmos que fez coisas ruins, elas também vão ser verdade.

Sarah sentiu lágrimas novamente.

— Isso foi surpreendentemente saudável.

— Não conte para Embry.

Ela riu.

Jacob beijou sua testa.

— Podemos descobrir quem Harry era sem decidir antes.

Sarah assentiu.

Era exatamente o que precisava ouvir.


A equipe de Paul foi enviada discretamente até a casa onde os objetos de Sarah permaneciam guardados.

Sarah não ligou para a mãe.

Não ainda.

Quil alertara que qualquer pessoa observando comunicações poderia reagir se percebessem interesse repentino pela caixa de Harry.

Sarah odiou concordar.

Mas concordou.

Horas depois, já no quarto, estava sentada na cama.

Jacob saiu do banheiro.

Ela ainda segurava uma fotografia antiga no telefone.

Harry.

Sarah aos nove anos em seus ombros.

Os dois molhados.

Rindo.

Jacob sentou ao lado.

— É ele?

— Sim.

Ele observou.

— Você parece feliz.

Sarah sorriu.

— Eu era.

Passou o dedo pela imagem.

— Ele me jogou na água cinco segundos depois dessa foto.

— Estou começando a gostar dele.

— Eu fiquei furiosa.

— Agora gosto mais.

Sarah apoiou a cabeça no ombro dele.

— Sinto falta dele.

— Eu sei.

— Faz anos que não digo isso.

Jacob beijou seus cabelos.

— Então diga.

Sarah fechou os olhos.

— Sinto falta dele.

Silêncio.

— Muito.

Jacob segurou sua mão.

Sarah chorou novamente.

Dessa vez sem tentar esconder.

Não era o choro violento da biblioteca.

Era mais quieto.

Antigo.

De uma menina de dezesseis anos que enterrara alguém importante e aprendera a seguir em frente porque não existia alternativa.

Jacob não tentou consertar.

Não disse que ficaria tudo bem.

Apenas permaneceu.

Quando Sarah finalmente respirou melhor, murmurou:

— Você está ficando bom nisso.

— Em quê?

— Ficar.

Jacob beijou sua têmpora.

— Tive uma professora irritante.

Ela sorriu.

— Bonita?

— Muito.

— Inteligente?

— Insuportavelmente.

— Parece ótima.

— Estou pensando em pedir para ficar comigo depois do contrato.

Sarah levantou o rosto.

O sorriso surgiu apesar dos olhos vermelhos.

— Ouvi dizer que a tendência dela é dizer sim.

Jacob a beijou.

Devagar.

Com cuidado.

Sarah segurou sua nuca.

Quando se afastou, encostou a testa na dele.

— Continua sendo.

Jacob sorriu.

— Bom.

O telefone vibrou.

Os dois olharam.

Sarah fechou os olhos.

— Eu odeio nossos telefones.

Jacob pegou.

Era Paul.

Uma fotografia.

A caixa de Harry.

Ainda fechada.

Dentro dela, as moedas.

As fotografias.

As cartas.

E a bússola de bronze.

Sarah pegou o aparelho.

Por alguns segundos, não viu um possível esconderijo.

Viu as mãos de Harry entregando aquilo.

Isso é seu, pequena.

Ela tocou a tela.

— É ela.

Outra fotografia chegou.

A parte inferior da bússola.

Uma fenda quase invisível.

Exatamente como Quil descrevera.

E, sob a bússola, havia um pequeno papel dobrado.

A equipe não tocara.

Três palavras estavam visíveis.

PARA SARAH CLEARWATER.

Sarah ficou imóvel.

Jacob observou seu rosto.

— Quer que tragam?

Ela demorou para responder.

Dessa vez não pensava como investigadora.

Pensava como sobrinha.

Harry tinha escrito seu nome.

Não H.C.

Não Clearwater.

Não um código.

Sarah.

— Sim.

Sua voz falhou.

Ela respirou e tentou outra vez.

— Quero.

Jacob assentiu.

Sarah continuou olhando para a fotografia.

— Mas ninguém abre.

— Ninguém vai abrir.

— Nem você.

Jacob ergueu as mãos.

— Nem eu.

— Eu abro.

— Você abre.

Sarah apoiou o telefone no colo.

Então olhou para Jacob.

— E quero você comigo.

A resposta veio sem hesitação.

— Vou estar.

Sarah assentiu.

Deitou novamente contra ele.

Jacob a abraçou.

E naquela noite, pela primeira vez desde que o nome Clearwater aparecera entre os documentos, Sarah permitiu que Harry existisse em sua memória sem Northstar, sem Charlie, sem Aro e sem Billy.

Apenas Harry.

O homem que correra atrás de uma bicicleta prometendo que não soltaria.

O homem que fizera um bolo horrível.

O homem que sentara no chão durante uma tempestade porque uma menina de onze anos fingia não ter medo.

O homem que lhe ensinara a nadar.

O homem de quem ela ainda sentia falta.

A verdade sobre Harry poderia mudar muitas coisas.

Mas Sarah decidiu que não permitiria que mudasse aquilo antes de descobrir se tinha motivo.

E, quando a bússola chegasse a Saint Claire, ela abriria o último presente do tio com as próprias mãos.