ILHA DOS DESEJOS
20 Capítulo 20 — Para minha pequena
A caixa chegou a Saint Claire às nove e dezessete da manhã.
Sarah sabia o horário porque olhara para o relógio pelo menos vinte vezes desde que acordara.
Não dormira direito.
Jacob também não.
Quando ela se mexia, ele abria os olhos.
Quando levantou às seis e meia, ele levantou junto.
Quando disse que não precisava ser seguida até o banheiro, Jacob respondeu que não estava seguindo, apenas coincidentemente precisava escovar os dentes no mesmo momento.
Sarah não acreditou.
Às sete, tentara tomar café.
Às sete e dez, desistira.
Às oito, já tinha reorganizado duas vezes os documentos sobre a mesa da biblioteca.
Às oito e quarenta, Embry perguntou se ela pretendia abrir um buraco no piso de tanto andar.
Sarah mandou que ele calasse a boca.
Às nove e dezessete, um dos veículos da segurança parou diante da casa.
Sarah ficou imóvel.
Jacob, ao lado dela, não disse nada.
Paul entrou carregando uma bolsa lacrada.
— Ninguém abriu.
Sarah assentiu.
— Obrigada.
Paul colocou a bolsa sobre a mesa.
Ela não se aproximou.
Jacob percebeu.
— Quer ficar sozinha?
Sarah olhou para ele.
— Não.
A resposta veio imediatamente.
Depois olhou para os outros.
Edward.
Embry.
Quil.
Paul.
— Mas quero abrir primeiro sem plateia.
Embry levantou-se.
— Claro.
Edward também.
Quil foi o último.
Antes de sair, olhou para a bolsa.
Depois para Sarah.
— Ele gostava muito de você.
Sarah sentiu o peito apertar.
— Eu sei.
Quil assentiu e saiu.
Jacob permaneceu.
Sarah olhou.
— Você pode ficar.
Ele não respondeu.
Apenas fechou a porta.
Por alguns segundos, Sarah e Jacob ficaram diante da caixa.
Era pequena.
Madeira clara.
Arranhada nas bordas.
Sarah conhecia cada marca.
— Minha mãe queria jogar isso fora quando se mudou — disse.
Jacob olhou.
— E você não deixou.
— Quase tive um ataque.
Um pequeno sorriso.
— Passei uma tarde inteira dizendo que ela podia jogar metade das minhas coisas fora, mas não isso.
Sarah tocou a tampa.
— Eu tinha dezenove.
Abriu.
O cheiro foi a primeira coisa.
Madeira.
Papel velho.
E alguma coisa que não existia realmente.
Memória.
Sarah fechou os olhos.
— Meu Deus.
Jacob permaneceu perto.
Não tocou.
Ela começou a retirar os objetos.
Uma fotografia.
Harry e Sarah numa praia.
Outra.
A mãe de Sarah, Harry e ela numa mesa de Natal.
Moedas.
Um chaveiro quebrado.
Um cartão de aniversário.
Sarah abriu.
A letra torta.
Para minha pequena, que insiste em crescer apesar das minhas objeções.
Ela riu.
E chorou ao mesmo tempo.
Jacob aproximou-se.
Sarah continuou lendo em silêncio.
Depois fechou.
— Ele me deu isso quando fiz quinze.
— Quer parar?
— Não.
Retirou outro papel.
Um desenho infantil.
Sarah ficou surpresa.
— Isso é meu.
Jacob olhou.
Uma casa.
Um sol enorme.
Três pessoas de mãos dadas.
— Quantos anos?
— Seis, talvez.
— Quem são?
Sarah apontou.
— Eu. Minha mãe. Harry.
Jacob olhou para ela.
— Ele guardou.
— Guardou.
A voz falhou.
Sarah colocou cuidadosamente o desenho de lado.
Então viu a bússola.
Bronze.
Pesada.
A rosa dos ventos na tampa.
Ela a pegou.
Ficou olhando.
— Ele me ensinou a usar.
— Funciona?
— Sim.
Sarah abriu.
A agulha oscilou.
Encontrou o norte.
— Disse que, se eu soubesse onde estava o norte, nunca estaria completamente perdida.
Jacob sorriu.
— Bom conselho.
— Eu achava muito profundo aos dezoito anos.
— Continua sendo.
Ela virou a bússola.
A pequena fenda estava ali.
Durante anos, nunca percebera.
— Eu segurava isso e nunca vi.
— Porque não estava procurando.
Sarah olhou para ele.
A frase atingiu mais do que deveria.
— É.
Jacob se aproximou.
— Não significa que ele queria que você encontrasse antes.
Sarah assentiu.
Pegou o papel dobrado que estava sob a bússola.
PARA SARAH CLEARWATER.
A letra de Harry.
Ela reconheceu imediatamente.
As mãos começaram a tremer.
Jacob viu.
— Quer que eu...
— Não.
Sarah respirou.
— Eu consigo.
Abriu.
A primeira linha foi suficiente.
Minha pequena,
Sarah fechou os olhos.
Uma lágrima caiu sobre o papel.
— Droga.
Jacob segurou sua mão livre.
Ela apertou.
Depois continuou.
se você está lendo isto porque ficou curiosa demais para deixar uma bússola em paz, então deveria ter previsto.
Sarah riu entre lágrimas.
— Idiota.
Jacob sorriu.
Ela continuou.
Mas, se alguém lhe explicou que existe algo escondido nela, então provavelmente eu não tive oportunidade de fazer isso pessoalmente.
O sorriso desapareceu.
Antes de qualquer coisa: nada do que está aqui é responsabilidade sua.
Sarah respirou fundo.
Você não deve continuar meu trabalho. Não deve corrigir meus erros. Não deve carregar os meus medos.
Jacob abaixou os olhos.
Billy poderia ter escrito algo parecido.
Mas Harry escrevera para uma adolescente.
Não para uma investigadora.
Não para uma herdeira.
Para a sobrinha.
Sarah continuou.
Eu trabalhei para pessoas que, durante muito tempo, acreditei serem apenas homens ricos fazendo negócios complicados. Descobri tarde que alguns negócios eram mais complicados do que deveriam e algumas pessoas eram mais perigosas do que pareciam.
Quando entendi, fiz o que achei correto: guardei cópias.
Sarah parou.
Jacob ficou atento.
Não para destruir ninguém.
Para ter certeza de que ninguém pudesse simplesmente apagar o que havia acontecido.
Sarah leu mais devagar.
Se você encontrou isto muitos anos depois e nada aconteceu, destrua o que está dentro da bússola e continue sua vida.
Ela parou.
Jacob também.
— Ele queria que você destruísse.
— Se nada tivesse acontecido.
— Aconteceu.
Sarah olhou para a bússola.
Continuou.
Mas, se algum dia alguém chamado Black, Swan, Mercer ou Volturi aparecer na sua vida e começar a fazer perguntas sobre Saint Claire, Nassau ou Northstar, não entregue nada antes de descobrir em quem pode confiar.
Sarah ficou imóvel.
Jacob sentiu o corpo gelar.
Ela leu novamente.
Black.
Swan.
Mercer.
Volturi.
Todos.
— Ele escreveu seu sobrenome — murmurou Sarah.
— Sim.
— Black.
Jacob assentiu.
Sarah voltou à carta.
Não suponha que um sobrenome faça alguém culpado. Também não suponha que faça alguém inocente.
Jacob soltou uma respiração.
Sarah quase sorriu.
— Eu definitivamente gostaria dele — disse Jacob.
— Ele gostaria de discutir com você.
— Então seria recíproco.
Sarah continuou.
Billy Black tentou consertar algumas coisas. Também cometeu erros. Charlie Swan sabe mais do que deveria. Quil Mercer sabe mais do que admite. E Aro Volturi é um homem de quem você deve manter distância.
Jacob ficou sério.
Mas nomes não são provas, pequena.
Sarah parou.
Dessa vez sorriu de verdade.
— Meu Deus.
— O quê?
Ela mostrou.
Jacob leu.
— Isso explica muita coisa sobre você.
Sarah enxugou as lágrimas.
— Talvez.
Continuou.
Se alguém tentar lhe contar uma história completa demais, desconfie. A verdade raramente chega inteira.
Quil.
Edward.
Charlie.
Até Billy.
Sarah sentiu um arrepio.
Dentro da bússola há uma cópia de documentos que encontrei durante meu trabalho. Não são suficientes para explicar tudo. São suficientes para provar que existiu algo antes da Northstar assumir a forma que vocês provavelmente conhecem.
Jacob se inclinou.
Sarah continuou.
Existe uma mulher envolvida.
Ela parou.
Os dois se olharam.
A fotografia de Nassau.
— Continue — disse Jacob.
Sarah voltou à carta.
Não vou escrever o nome dela aqui. Não porque não confie em você. Porque papel pode ser encontrado.
Ela tentou impedir que determinadas propriedades fossem transferidas. Falhou. Depois desapareceu.
Sarah sentiu o coração acelerar.
Se ela estiver viva, talvez ainda tenha o original.
Você saberá que encontrou a pessoa certa quando ela disser:
Sarah leu a linha seguinte.
E ficou imóvel.
— O quê? — perguntou Jacob.
Ela ergueu os olhos.
— “A bússola não aponta para casa.”
Jacob franziu a testa.
Sarah continuou:
A resposta é: “Casa é onde alguém espera você voltar.”
Sarah fechou os olhos.
— Ele dizia isso.
— Para você?
— Sempre.
A voz dela quebrou.
— Quando eu viajava com minha mãe.
Harry ficava no aeroporto.
A bússola não aponta para casa, pequena.
E Sarah, criança, respondia:
Casa é onde alguém espera eu voltar.
Ela levou a mão à boca.
— Era nosso.
Jacob apertou sua mão.
— Então ninguém poderia adivinhar facilmente.
Sarah assentiu.
Continuou até o fim.
Se nada disso algum dia tocar sua vida, esqueça.
Se tocar, seja mais inteligente do que eu fui.
E, por favor, não tente ser corajosa sozinha.
Sarah começou a chorar antes da última frase.
Eu te amo.
Harry.
Ela baixou o papel.
Ficou em silêncio.
Jacob esperou.
Sarah tentou respirar.
Não conseguiu na primeira vez.
Na segunda também não.
Então simplesmente se virou.
Jacob abriu os braços.
Ela entrou neles.
— Ele sabia — murmurou.
— Sabia de alguma coisa.
— Sabia que poderia chegar até mim.
Jacob segurou seus cabelos.
— E tentou impedir.
— Não.
Sarah se afastou.
Os olhos estavam vermelhos.
— Tentou me dar escolha.
Jacob ficou quieto.
Ela olhou para a carta.
— Ele não escreveu “faça isso”. Escreveu “se acontecer”.
— Sim.
— Não me colocou dentro.
— Não.
— Deixou uma saída.
Jacob entendeu por que aquilo importava tanto.
— Diferente do meu pai.
Sarah imediatamente segurou seu rosto.
— Não compare assim.
— Sarah...
— Billy também estava com medo.
— Isso não torna certo.
— Não.
Ela acariciou seu rosto.
— Mas também não torna tudo que ele fez errado.
Jacob olhou para ela.
Sarah percebeu a ironia.
— Estou dizendo para mim também.
Ele beijou sua testa.
— Eu sei.
A bússola levou alguns minutos para ser aberta.
A parte inferior girava apenas depois de pressionar simultaneamente dois pequenos pontos na lateral.
Harry havia escondido bem.
Quando a tampa falsa se soltou, havia um cilindro fino de metal.
Dentro:
microfilme.
E uma pequena tira de papel.
Sarah abriu.
Números.
Datas.
Referências a empresas.
E, em quatro linhas diferentes, as mesmas iniciais:
R.M.
Jacob ficou imóvel.
Sarah também.
— Nassau — disse ele.
— Sim.
Eram as mesmas iniciais que haviam aparecido nos documentos encontrados no cofre de Isabella.
Não uma nova pista.
Uma confirmação de que Harry também encontrara a mesma referência.
Sarah chamou:
— Paul.
A porta abriu imediatamente.
— Chame os outros.
Quinze minutos depois, todos estavam novamente na biblioteca.
Quil leu a carta de Harry em silêncio.
Quando terminou, ficou olhando para a assinatura.
Sarah observava.
— Você sabia dessa carta?
— Não.
— Da bússola?
— Sabia que existia um compartimento. Não sabia o que Harry colocou.
— E a mulher?
Quil levantou os olhos.
— Eu tinha uma suspeita.
— Nome?
— Não tenho certeza suficiente para dar um.
Jacob soltou uma respiração impaciente.
— Isso nunca impediu ninguém nesta casa.
Sarah olhou para ele.
— E é exatamente o que estamos tentando mudar.
Jacob levantou as mãos.
— Certo.
Ela colocou a pequena tira de papel sobre a mesa.
— Antes de qualquer coisa, precisamos corrigir uma suposição.
Edward aproximou-se.
Sarah apontou para as letras.
R.M.
— Essas iniciais apareceram no cofre de Nassau.
— Sim — disse Edward.
— Em registros que começavam antes de Billy e antes de Charlie.
Quil assentiu.
Sarah olhou para o nome de Aro em outro documento.
Aro Volturi.
— E Aro é A.V.
Silêncio.
Jacob percebeu imediatamente.
— Então R.M. não é Aro.
— Exatamente.
Sarah apoiou as duas mãos na mesa.
— Em algum momento começamos a tratar Aro como resposta para pistas que ainda não tinham resposta. Não podemos fazer isso.
Edward olhou para Quil.
— Você sabe quem é R.M.?
— Não.
— Nunca conheceu ninguém com essas iniciais dentro da Northstar?
Quil pensou.
— Conheci pessoas com essas iniciais. Nenhuma que eu possa ligar a esses registros com segurança.
Sarah assentiu.
— Então continuam sendo apenas iniciais.
— Sim.
— Pessoa?
— Pode ser.
— Empresa?
— Pode.
— Conta, fundo, código interno?
— Também.
Jacob passou a mão pelo rosto.
— Odeio respostas abertas.
Sarah olhou para ele.
— Mistérios costumam ser inconvenientes.
Embry murmurou:
— Especialmente nesta família.
Jacob ignorou.
Sarah voltou à tira de Harry.
— O importante é outra coisa.
— O quê? — perguntou Paul.
— Harry encontrou R.M. independentemente de Isabella.
Edward compreendeu.
— Em documentos mais antigos.
— Exato.
Sarah colocou ao lado a fotografia dos registros de Nassau.
— Isabella encontrou essas iniciais quatro anos atrás. Harry já as tinha registrado muitos anos antes.
Quil ficou pensativo.
— Então R.M. atravessa períodos diferentes da estrutura.
— Isso podemos dizer — respondeu Sarah.
— E se for uma pessoa...
Ela interrompeu:
— Ainda não sabemos se é.
Quil assentiu.
— Certo.
Jacob observou Sarah.
— Você está gostando disso.
Ela ergueu uma sobrancelha.
— De quê?
— Corrigir todo mundo.
— É terapêutico.
Embry sorriu.
— Para ela.
O microfilme foi digitalizado.
Paul colocou as primeiras imagens na tela.
Contratos antigos.
Mais de vinte e cinco anos.
Antes de Charlie assumir qualquer papel relevante nas estruturas.
Antes de Isabella nascer.
Alguns anteriores até ao envolvimento direto de Billy.
Sarah observava cada página.
A primeira descoberta importante foi um acordo de custódia patrimonial.
Um dos nomes estava legível:
Ephraim Black.
Jacob ficou imóvel.
Outro:
Aro Volturi.
Um terceiro nome estava severamente danificado.
Restavam apenas fragmentos.
Nenhuma inicial suficientemente clara.
Sarah olhou para Paul.
— Não tente completar.
— Não ia.
— Todo mundo nesta casa está desenvolvendo hábitos ruins.
Paul quase sorriu.
O quarto campo também estava parcialmente destruído.
Apenas uma assinatura incompleta.
Jacob se aproximou.
— Então temos Ephraim e Aro.
— Sim — respondeu Sarah.
— E pelo menos outras pessoas envolvidas.
— Sim.
Quil estudava a imagem.
— Isso é mais antigo do que eu imaginava.
Sarah olhou.
— Você nunca viu esse acordo?
— Não.
— Billy?
— Não sei.
— Então não diga que viu.
Quil assentiu.
— Certo.
A imagem seguinte mostrava uma estrutura de ativos.
Empresas.
Terras.
Fundos.
Propriedades no Caribe.
No centro aparecia:
CLEARWATER FOUNDATION ASSETS.
Sarah sentiu o estômago apertar.
Jacob se aproximou.
— Sarah.
— Estou bem.
Dessa vez era mentira.
Mas ela continuou.
— Fundação não significa família.
— Não.
— Pode ter sido criada por qualquer pessoa.
— Sim.
Ela olhou para Quil.
— Harry sabia disso?
— Não sei.
Sarah continuou passando as imagens.
Então encontrou uma anotação escrita pelo tio.
Reconheceu a letra imediatamente.
Os beneficiários originais foram removidos dos registros posteriores. Descobrir quem eram.
Sarah ficou parada.
Depois soltou lentamente o ar.
— Ele não sabia.
Jacob olhou.
— Não.
— Harry estava tentando descobrir.
— Sim.
Aquilo estranhamente a aliviou.
Seu tio não surgia como guardião de uma fortuna secreta familiar.
Era um homem investigando documentos que não entendia completamente.
Exatamente como ela agora.
Edward observava outra página.
— Aqui.
Uma coluna de referências.
Datas.
Transferências.
Ao lado de três operações:
R.M.
Sarah aproximou-se.
— Outra vez.
Paul comparou com a tira retirada da bússola.
As datas coincidiam.
— Harry copiou diretamente essas referências — disse Sarah.
— Parece — respondeu Jacob.
Ela olhou para ele.
— Agora pode usar “parece”.
— Estou evoluindo.
Sarah quase sorriu.
Quil apontou para uma das datas.
— Essa é anterior à entrada de Charlie.
Edward verificou.
— Bastante.
— E posterior ao primeiro acordo com Ephraim — disse Jacob.
Sarah assentiu.
— Então temos uma janela temporal.
Paul anotou.
— R.M. já aparecia enquanto Ephraim e Aro estavam ativos na estrutura.
— Isso — disse Sarah — é fato.
Quil continuou olhando.
— E Billy pode ter herdado essa relação sem saber quem estava por trás das iniciais.
Jacob virou-se.
— Pode.
Quil assentiu.
Sarah percebeu o pequeno progresso.
Ninguém transformara hipótese em certeza.
A mulher da fotografia continuava sem nome.
Mas agora havia uma coisa nova.
O código deixado por Harry.
Sarah voltou a olhar para a imagem dela.
— Se encontrarmos essa mulher...
Quil completou:
— Você pergunta pela bússola.
— Não.
Ele franziu a testa.
— Não?
Sarah balançou a cabeça.
— Harry disse que ela precisa falar primeiro.
Jacob sorriu discretamente.
— Certo.
— Se eu oferecer a frase, qualquer pessoa pode responder.
Edward assentiu.
— Então precisamos colocar Sarah perto dela sem explicar o código.
Jacob respondeu imediatamente:
— Não.
Sarah virou-se.
— Jacob.
— Não.
— Acabamos de ter uma conversa inteira sobre isso.
— E nenhuma parte da conversa me obrigou a gostar de usar você como isca.
— Eu não disse isca.
— Parece muito com isca.
— É contato controlado.
Embry murmurou:
— Isca com relações públicas melhores.
Sarah apontou.
— Ninguém perguntou.
Jacob cruzou os braços.
— Não.
Sarah cruzou também.
— Sim.
— Sarah.
— Jacob.
Quil olhou para Embry.
— Eles fazem isso sempre?
— Constantemente.
— E quem vence?
Embry sorriu.
— Ela.
Jacob lançou-lhe um olhar mortal.
Sarah aproximou-se.
— Não vou correr atrás de uma desconhecida sozinha.
— Ótimo.
— Nem encontrar ninguém sem segurança.
— Melhor.
— Mas se Harry deixou uma frase que só eu reconheceria, existe uma razão.
Jacob ficou quieto.
— Eu preciso participar.
Ele fechou os olhos.
— Odeio quando você está certa.
— Deve ser cansativo me amar.
Silêncio.
Sarah percebeu primeiro o que havia dito.
Embry arregalou os olhos.
Edward desviou o rosto.
Paul encontrou subitamente grande interesse no computador.
Quil ergueu uma sobrancelha.
Jacob ficou absolutamente imóvel.
Sarah sentiu o rosto aquecer.
— Eu quis dizer...
Jacob se aproximou.
— Não.
— Jacob.
— Não corrija.
— Foi uma expressão.
— Não me importa.
Ela tentou manter a dignidade.
— Você é infantil.
— Muito.
Ele estava sorrindo.
Um sorriso verdadeiro.
Sarah apontou para ele.
— Se repetir isso...
— “Deve ser cansativo me amar.”
— Jacob.
— Gostei.
— Eu retiro.
— Tarde demais.
Embry começou a rir.
Sarah cobriu o rosto.
— Odeio todos vocês.
Jacob segurou sua cintura.
— Não todos.
Ela olhou para ele.
A brincadeira desapareceu lentamente.
Havia algo nos olhos dele.
Algo que nenhum dos dois estava pronto para dizer de maneira séria.
Ainda.
Jacob beijou sua testa.
— Não vou impedir você de participar.
Sarah relaxou.
— Obrigada.
— Mas não vai sozinha.
— Nunca pedi isso.
— Eu vou.
Ela sorriu.
— Eu esperava.
Naquela noite, Sarah levou a carta de Harry para o quarto.
Leu novamente.
Depois uma terceira vez.
Jacob estava deitado ao lado.
— Encontrou palavras novas?
Ela olhou.
— Está roubando minhas piadas.
— Conviver com você causa efeitos.
Sarah sorriu.
Dobrou a carta.
— Ele sabia seu sobrenome.
— Sim.
— Antes de eu conhecer você.
— Sim.
— Isso é estranho.
— Muito.
Sarah olhou para o teto.
— Quando cheguei aqui, achei que meu maior problema seriam três meses trabalhando para um homem arrogante numa ilha.
Jacob virou o rosto.
— Arrogante?
— Insuportável.
— Você me beijou.
— Depois.
— Rapidamente.
— Foi um erro momentâneo.
Jacob se aproximou.
— Posso refrescar sua memória.
Sarah sorriu.
— Talvez.
Ele a beijou.
Devagar.
Quando se afastou, ela ficou séria.
— Jacob?
— Hum?
— Se descobrirmos que Harry fez alguma coisa ruim...
— Descobrimos.
— E se descobrirmos que Billy fez?
— Descobrimos também.
— Charlie?
— Também.
— Edward?
Jacob olhou para ela.
— Já descobri algumas.
Sarah tocou seu peito.
— Você sabe o que quero dizer.
— Sei.
Ele ficou em silêncio.
— Não vou proteger ninguém da verdade.
Sarah assentiu.
— Nem eu.
Jacob segurou sua mão.
— Combinado.
Ela se aproximou.
Deitou a cabeça no peito dele.
— Harry escreveu para eu não tentar ser corajosa sozinha.
— Homem inteligente.
— Muito.
— Então obedeça.
Sarah sorriu.
— Não exagere.
Jacob beijou seus cabelos.
— Durma.
Ela fechou os olhos.
— Fique.
A palavra saiu sonolenta.
Jacob apertou os braços.
— Estou aqui.
Sarah adormeceu.
Na biblioteca vazia, o computador continuava processando as imagens do microfilme.
Página depois de página.
Contratos.
Registros.
Transferências.
Até que o sistema terminou a restauração parcial de uma folha danificada.
Uma linha antes ilegível apareceu com maior nitidez:
AUTORIZAÇÃO EXTERNA — R.M.
Abaixo:
A.V. não possui autoridade para revogar unilateralmente.
Ephraim Black aparecia como testemunha.
Nenhum nome completo.
Nenhuma explicação.
Apenas aquelas duas iniciais.
R.M.
Agora havia uma coisa que podiam afirmar.
R.M. não era uma anotação casual de Isabella.
Não surgira com Charlie.
Não começara com Billy.
E não era Aro Volturi.
A referência existia antes de quase todos os acontecimentos que haviam destruído aquelas famílias.
Sarah dormia nos braços de Jacob sem saber que, no andar de baixo, o computador acabara de confirmar algo que Harry tentara descobrir muitos anos antes:
Aro Volturi podia ser poderoso.
Mas, em algum momento da história da Northstar, existira alguém — ou alguma coisa — cuja autoridade nem mesmo Aro podia simplesmente apagar.
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