ILHA DOS DESEJOS

13 Capítulo 13 — Os pecados dos pais


Jacob acordou sem saber imediatamente onde terminava seu corpo e começava o de Sarah.

Ela estava de costas para ele, encaixada contra seu peito, uma das mãos repousando sobre o braço que ele mantinha ao redor da cintura dela. Os cabelos negros ocupavam boa parte do travesseiro e alguns fios se espalhavam sobre seu rosto, fazendo cócegas em seu nariz. A luz da manhã começava a atravessar as cortinas, desenhando faixas douradas pelo quarto, e, por alguns segundos, Jacob simplesmente ficou ali.

Sem Isabella.

Sem Edward.

Sem Charlie.

Sem perguntas.

Sem mortos.

Apenas Sarah.

Era uma sensação tão incomum que demorou para reconhecê-la.

Paz.

Jacob olhou para o relógio.

Sete e vinte e três.

Tinham dormido pouco mais de três horas.

Deveria levantar.

Havia um homem ameaçando Sarah, um vídeo de Isabella, um possível assassinato, Edward dormindo no andar de baixo, uma chave desaparecida e provavelmente mais problemas esperando do outro lado daquela porta.

Mesmo assim, ficou.

Sarah se mexeu.

Apertou o braço dele contra a cintura.

— Se continuar pensando tão alto, vou acordar.

Jacob sorriu.

— Já acordou.

— Culpa sua.

A voz estava rouca de sono.

Ela virou-se lentamente dentro dos braços dele.

Jacob a observou.

Os olhos verdes ainda sonolentos, os cabelos completamente desalinhados, o rosto sem maquiagem e a camiseta dele grande demais cobrindo o corpo.

Um sorriso começou a aparecer no rosto dela.

— O quê?

— Nada.

— Mentira.

— Você acabou de acordar e já está discutindo.

— Não estou discutindo. Estou investigando.

— Péssimo hábito.

— Aprendi nesta ilha.

Jacob afastou uma mecha de cabelos de seu rosto.

— Estava pensando que você fica bonita quando acorda.

Sarah piscou.

Depois estreitou os olhos.

— Quem é você?

Ele riu.

— Bom dia.

— Não. Isso é preocupante. Onde está Jacob Black?

— Posso retirar o elogio.

— Nem pense.

Ela colocou a mão sobre o peito dele.

— Vou guardar para usar contra você.

— Chantagem?

— Memória afetiva.

— Parece chantagem.

Sarah sorriu.

E foi então que Jacob percebeu.

Não queria levantar.

Não queria abrir a porta.

Não queria saber o que Edward ainda precisava contar.

Por algumas horas, queria ser apenas aquele homem.

O homem que acordava com uma mulher bonita em seus braços.

Sarah percebeu a mudança em seu olhar.

— O que foi?

— Nada.

— Você faz muito isso.

— O quê?

— Diz “nada” quando claramente é alguma coisa.

Jacob passou os dedos lentamente pelos cabelos dela.

— Estava pensando que talvez pudéssemos ficar aqui.

Sarah olhou para o relógio.

— Para sempre?

— Algumas horas.

— Isso vindo do homem que corre antes das seis da manhã?

— Estou reconsiderando minhas prioridades.

Ela sorriu.

— Gosto dessa nova administração.

Jacob aproximou o rosto.

— Eu também.

O primeiro beijo foi leve.

Quase preguiçoso.

Um beijo de bom-dia.

Sarah sorriu contra a boca dele.

— Isso também é novo.

— O quê?

— Você me beijar sem parecer que está discutindo consigo mesmo ao mesmo tempo.

Jacob soltou uma risada baixa.

— Eu não faço isso.

— Faz.

— Não.

— Faz muito.

— Sarah...

— Está fazendo agora.

Ele a beijou novamente para interrompê-la.

Funcionou.

Por alguns segundos.

Sarah afastou-se apenas o suficiente para respirar.

— Método argumentativo interessante.

— Funcionou.

— Temporariamente.

Jacob a puxou para mais perto.

— Posso tentar novamente.

— Talvez precise de várias tentativas.

— Sacrifício enorme.

Dessa vez, quando se beijaram, não havia a mesma hesitação dos dias anteriores.

Não havia chuva.

Não havia uma discussão que precisasse ser interrompida.

Não havia medo de alguém desaparecer.

Apenas vontade.

Sarah passou os braços pelo pescoço dele, e Jacob sentiu o corpo dela relaxar contra o seu. As mãos dele deslizaram por suas costas, mantendo-a próxima, enquanto o beijo se aprofundava sem pressa.

Sarah sentiu algo diferente nele.

Jacob não estava fugindo.

Não interrompeu.

Não recuou quando o desejo se tornou evidente.

E talvez aquilo fosse mais íntimo do que qualquer outra coisa que pudesse acontecer entre eles.

Quando se afastaram, Sarah manteve o rosto próximo.

— Você está pensando de novo.

Jacob respirou contra seus lábios.

— Em você.

Ela sorriu.

— Permitido.

— Ainda bem.

Ele beijou seu queixo.

Depois o canto de sua boca.

Sarah fechou os olhos.

— Jacob...

— Hum?

— Você sabe que eventualmente vamos precisar sair desta cama.

— Discordo.

Ela riu.

— Temos uma investigação.

— Embry pode investigar.

— Edward.

— Pode continuar preso no quarto.

— Funcionários.

— Recebem salário.

Sarah abriu os olhos.

— Você realmente está planejando faltar ao próprio mistério?

— Esta manhã?

Jacob passou os dedos pela cintura dela.

— Sim.

Sarah ficou olhando para ele.

— Estou impressionada.

— Com minhas prioridades?

— Com sua evolução.

— Não exagere.

Ela sorriu.

Depois ficou séria.

— Você está bem?

Jacob sabia o que ela perguntava.

Não sobre aquela manhã.

Sobre Isabella.

Sobre o vídeo.

Sobre ouvir a voz de uma mulher morta havia quatro anos.

— Não sei.

Sarah não tentou corrigir.

— Tudo bem.

— Mas agora...

Ele tocou o rosto dela.

— Agora estou.

Sarah sustentou seu olhar.

— Então fique aqui.

Jacob beijou sua testa.

— Pretendo.

E ficou.

Mais tarde, Sarah não saberia dizer exatamente em que momento a brincadeira se transformou em alguma coisa mais profunda.

Talvez quando Jacob deixou de fazer piadas.

Talvez quando ela percebeu que ele a observava como se tentasse guardar cada detalhe.

Ou talvez quando o silêncio deixou de ser desconfortável.

Sarah estava deitada sobre o peito dele, desenhando distraidamente linhas com a ponta dos dedos.

Jacob brincava com seus cabelos.

— Posso perguntar uma coisa?

— Dependendo da pergunta.

— Isso é muito você.

— Aprendi a ser cauteloso.

Sarah ergueu o rosto.

— Há quanto tempo você não faz isso?

Jacob entendeu.

— Acordar com alguém?

— Querer permanecer.

A pergunta mudou tudo.

Ele ficou em silêncio.

Sarah imediatamente se arrependeu.

— Não precisa responder.

— Quatro anos.

Ela não disse nada.

— Desde Isabella?

— Sim.

Sarah começou a se afastar.

Jacob segurou sua cintura.

— Não.

Ela olhou para ele.

— Não estou comparando.

— Eu sei.

— Então por que se afastou?

Sarah demorou.

— Porque às vezes tenho medo de estar entrando numa história que ainda pertence a outra pessoa.

Jacob ficou muito sério.

— Sarah.

— Não é ciúme dela.

— Eu sei.

— É só...

Ela procurou as palavras.

— Eu não quero ser a mulher que apareceu na hora certa para preencher um lugar vazio.

Jacob se sentou.

Sarah também.

Ele segurou o rosto dela.

— Olhe para mim.

Ela obedeceu.

— Você não preenche lugar nenhum.

Sarah permaneceu quieta.

— Isabella tinha um lugar na minha vida.

Jacob respirou fundo.

— E eu vou carregar parte disso sempre. Não porque quero voltar. Não porque estou esperando alguma coisa impossível. Mas porque aconteceu.

Sarah assentiu.

— Eu sei.

— Mas você...

Ele parou.

Sorriu levemente.

— Você invadiu outro espaço completamente diferente.

Sarah ergueu uma sobrancelha.

— Invadi?

— Sem autorização.

— Você me contratou.

— Para reformar a casa.

— Tecnicamente estou reformando várias coisas.

Jacob riu.

— Isso foi terrível.

— Foi excelente.

Ele tocou seu rosto.

— Quando beijo você, não penso em Isabella.

Sarah ficou imóvel.

— Quando acordo com você, não penso nela.

Passou o polegar pela face dela.

— Quando tenho medo de perder você, não é porque perdi Isabella.

— Jacob...

— É porque não quero perder você.

Sarah sentiu o coração apertar.

— E isso me assusta mais do que deveria depois de oito dias.

Ela sorriu.

— O calendário novamente.

— Oito dias, Sarah.

— Oito dias e muitas crises.

— Isso não melhora.

— Para mim melhora.

Jacob balançou a cabeça.

— Você é impossível.

— E ainda está me segurando.

— Esse é o problema.

Sarah aproximou-se.

— Talvez seja a solução.

Jacob sorriu.

Então a beijou.

E, dessa vez, não houve mais conversa por algum tempo.

A manhã se estendeu preguiçosamente ao redor deles, feita de beijos demorados, carícias, risadas abafadas e uma intimidade que crescia justamente porque nenhum dos dois precisava provar nada ao outro. O mundo permaneceu do lado de fora, e Jacob se permitiu algo que não fazia havia anos: não controlar o minuto seguinte.

Quando finalmente se levantaram, o relógio marcava quase dez.

Sarah entrou no banheiro primeiro.

Jacob ouviu o chuveiro.

Ficou sentado na cama.

Olhou para o lado onde ela havia dormido.

O travesseiro ainda guardava a marca de sua cabeça.

Alguns fios negros estavam sobre o lençol.

Jacob sorriu sozinho.

— Isso é ridículo.

— O quê? — Sarah gritou do banheiro.

Ele riu.

— Nada!

— Mentiroso!

Jacob levantou.

Foi até a porta.

— Você sempre escuta tudo?

— Quando falam comigo.

— Eu estava falando sozinho.

— Primeiro sinal de loucura.

— Conviver com você está causando efeitos.

Sarah colocou apenas o rosto para fora do box.

Os cabelos molhados grudavam em sua pele.

— Está reclamando?

Jacob ficou olhando.

Sarah percebeu.

— Jacob.

— Hum?

— Meus olhos ficam aqui em cima.

Ele sorriu.

— Sei.

— Então?

— Estou considerando minhas prioridades novamente.

Ela começou a rir.

— Vá fazer café.

— Essa é a forma como trata o dono da ilha?

— Esta manhã, sim.

— Abusiva.

— Café.

Jacob saiu rindo.

E percebeu apenas no corredor.

Estava feliz.

A palavra parecia quase estranha.

Feliz.

Mesmo com tudo.

Talvez justamente porque, pela primeira vez, o que existia de ruim não conseguia apagar completamente o que havia de bom.

Encontraram Embry na cozinha.

Ele olhou para o relógio.

Depois para Jacob.

Depois para Sarah.

Depois novamente para o relógio.

— Dez horas.

Jacob abriu a geladeira.

— Sei ver horas.

— Você costuma correr às cinco e meia.

— Hoje não.

Embry olhou para Sarah.

Ela pegou uma xícara.

— Não me envolva.

— Eu não disse nada.

— Seu rosto novamente.

Embry sorriu.

— Estou feliz por vocês.

Jacob virou-se.

— Termine essa frase e você volta para o continente nadando.

— Só disse que estou feliz.

— Embry.

— Certo.

Sarah começou a rir.

— Ele fica constrangido.

— Não fico.

— Fica.

— Sarah.

— Muito.

Embry assentiu.

— Muito.

Jacob olhou para os dois.

— Eu odeio esta casa.

— Mentira — disse Sarah.

Ele olhou para ela.

Ela sorriu.

— Você está começando a gostar dela novamente.

A frase fez Jacob parar.

Porque era verdade.

Não pela reforma.

Não porque a ala oeste tinha sido aberta.

Não porque começavam a entender Isabella.

A casa estava mudando porque agora continha novas lembranças.

Sarah rindo na cozinha.

Sarah molhada de chuva.

Sarah sentada à beira da piscina.

Sarah dormindo em sua cama.

Sarah usando sua camiseta.

Sarah dizendo que ficaria.

Jacob aproximou-se.

Beijou rapidamente sua testa.

Embry arregalou os olhos.

— Quem é você?

Jacob apontou para a porta.

— Fora.

Embry começou a rir.

— Agora.

— Estou indo.

Ele saiu.

Sarah olhou para Jacob.

— Você acabou de demonstrar afeto em público.

— Embry não conta como público.

— Vou registrar a evolução mesmo assim.

Jacob colocou café em sua xícara.

— Aproveite. Não vai acontecer novamente.

Sarah recebeu.

— Mentiroso.

Jacob sorriu.

— Provavelmente.

Por alguns minutos, tomaram café em paz.

Então passos surgiram no corredor.

Jacob fechou os olhos.

— Acabou.

Sarah olhou para ele.

— O quê?

— Nossa manhã.

Edward apareceu na porta.

Estava com uma folha dobrada na mão.

Sua expressão dizia tudo.

O passado tinha voltado.

Jacob colocou a xícara sobre a bancada.

— O que aconteceu?

Edward olhou para Sarah.

Depois para Jacob.

— Preciso falar com você.

— Sobre?

Edward demorou.

— Billy.

A felicidade não desapareceu.

Mas recuou.

Jacob olhou para Sarah.

Ela segurou sua mão por um segundo.

Um gesto pequeno.

Suficiente.

— Certo — disse Jacob.

E então se voltou para Edward.

— Vamos conversar.

Edward estava na varanda do escritório quando eles chegaram.

Não sentado.

Não tomando café.

Andava.

Jacob entrou primeiro.

Sarah veio logo atrás.

Edward olhou para ela.

Depois para Jacob.

— Podemos conversar sozinhos?

— Não.

Edward suspirou.

— Jacob...

— Ela fica.

Sarah olhou para ele.

Não discutiu.

Embry entrou por último.

— Eu também fico — disse.

Edward soltou uma respiração.

— Ótimo. Uma plateia.

Jacob cruzou os braços.

— Meu pai.

Edward ficou imóvel.

— Sim.

— Então fale.

Edward olhou para a folha sobre a mesa.

Jacob pegou.

Nomes.

Muitos.

Leu.

Não reconheceu a maioria.

Até chegar ao último.

Billy Black.

Jacob parou.

Não houve explosão.

Sarah já começava a entender que os momentos em que Jacob ficava completamente imóvel eram piores.

— Por que o nome do meu pai está aqui?

Edward demorou.

— Porque você pediu todos os nomes de pessoas ligadas a Charlie.

— Meu pai conhecia Charlie. Isso nunca foi segredo.

— Não era apenas uma relação entre cliente e advogado.

Jacob ergueu os olhos.

— Explique.

— Billy e Charlie faziam negócios juntos.

— Que negócios?

— Não sei todos.

Jacob soltou a folha.

— Não.

Edward franziu a testa.

— O quê?

— Não vamos fazer isso novamente.

— Jacob...

— Você aparece, solta metade de uma informação, diz que não sabe o resto e espera que eu monte o quebra-cabeça.

Ele se aproximou.

— Se escreveu o nome dele, sabe alguma coisa.

Edward assentiu.

— Sei.

— Então diga.

Edward respirou fundo.

— A Blue Horizon não foi a primeira empresa que Charlie abriu nas Bahamas.

Jacob esperou.

— Havia outras.

— Quantas?

— Pelo menos seis.

Sarah se aproximou da mesa.

— E Billy aparecia nelas?

— Não diretamente.

Jacob riu sem humor.

— Então por que estamos falando dele?

Edward olhou para ele.

— Porque algumas receberam dinheiro de empresas do seu pai.

Silêncio.

Jacob franziu a testa.

— Legalmente?

— Eu não sei.

— Quanto?

— Milhões.

— Quantos milhões?

— Não sei o total.

Jacob apertou a mandíbula.

— Você trabalhava para Charlie.

— Eu era um garoto de vinte e poucos anos fazendo o que mandavam.

— Isso não responde.

— Porque eu não tinha acesso a tudo!

Edward elevou a voz.

Depois controlou-se.

— Eu via transferências. Criava empresas. Levava documentos. Fazia assinaturas circularem. Charlie não sentava comigo para explicar a origem de cada dólar.

Sarah perguntou:

— Billy sabia que você trabalhava para Charlie?

Edward olhou para ela.

— Sim.

Jacob virou-se.

— Como?

Edward ficou em silêncio.

Jacob entendeu.

— Você conheceu meu pai através de Charlie.

— Sim.

— E quando veio trabalhar para mim...

— Billy já sabia quem eu era.

Aquela resposta atingiu.

— Meu pai aprovou sua contratação?

— Sim.

Jacob ficou olhando para ele.

— Charlie disse que tinha recomendado você.

— Recomendou.

— Mas meu pai também sabia.

— Sabia.

Jacob soltou uma risada vazia.

— Mais uma coisa que todos sabiam menos eu.

E Sarah percebeu que a pausa daquela manhã terminara exatamente no momento certo.

Porque Jacob entraria naquela conversa carregando algo que não possuía na noite anterior.

Não apenas perdas.

Agora também tinha alguma coisa — e alguém — para quem voltar.