ILHA DOS DESEJOS
12 Capítulo 12 — A voz dos mortos
Jacob apertou o play novamente.
Sarah não tentou impedi-lo.
Edward também não.
A imagem surgiu.
Escura.
Instável.
A praia.
A antiga casa.
Isabella.
Jacob parou de respirar.
Não era uma fotografia.
Não era uma lembrança.
Não era o rosto imóvel que vira pela última vez no caixão.
Isabella se movia.
Passava a mão pelos cabelos.
Virava o rosto.
Respirava.
Estava viva.
— ...não vou continuar...
Ruído.
Isabella olhou para alguém fora da imagem.
— ...Jacob precisa saber...
A voz masculina respondeu.
Incompreensível.
Isabella recuou.
E então:
— Você matou meu pai.
Fim.
Jacob apertou novamente.
— Jacob — disse Sarah.
Ele ignorou.
Play.
Isabella.
— ...não vou continuar...
Play.
Isabella.
— ...Jacob precisa saber...
Play.
— Você matou meu pai.
Play.
Edward segurou seu pulso.
— Chega.
Jacob virou-se.
O olhar fez Edward soltá-lo imediatamente.
— Não toque em mim.
— Você está fazendo isso há dez minutos.
Jacob olhou para o relógio.
Não havia percebido.
— Preciso ouvir a voz.
Edward ficou imóvel.
Sarah sentiu o peito apertar.
Jacob voltou para o vídeo.
— Esqueci.
A voz saiu baixa.
— O quê? — perguntou Sarah.
Ele não olhou para ela.
— A voz dela.
Silêncio.
— Eu lembrava mais aguda.
Edward baixou os olhos.
Jacob percebeu.
— Você lembrava?
Edward demorou.
— Sim.
A resposta machucou.
Jacob riu sem humor.
— Claro.
Sarah levantou-se da cama.
Aproximou-se.
— Jacob.
— Estou bem.
— Não está.
— Eu sei.
A resposta surpreendeu.
Ele sentou-se na beirada da cama.
Sarah ficou diante dele.
Jacob ainda segurava o telefone.
A imagem estava pausada no rosto de Isabella.
— Quatro anos — murmurou.
Sarah tocou seus cabelos.
— Não precisa assistir agora.
— Preciso.
— Por quê?
Ele ergueu os olhos.
— Porque essa é a última vez que vou vê-la viva.
Sarah compreendeu.
Não tentou retirar o telefone.
Jacob olhou novamente.
— Ela está com medo.
Edward respondeu:
— Estava.
Jacob levantou os olhos.
— Você sabia?
— Não daquele encontro.
— Mas sabia que ela estava com medo.
— Sim.
Jacob se levantou.
— E deixou ela sozinha.
Edward fechou os olhos.
— Eu fui embora porque ela mandou.
— E você sempre obedecia tão bem?
— Não faça isso.
— Fazer o quê?
— Transformar cada coisa que digo em outro motivo para me odiar.
Jacob aproximou-se.
— Você quer escolher meus motivos agora?
— Não.
— Ótimo.
Edward respirou fundo.
— Isabella terminou comigo naquela praia. Disse que ia voltar para casa e contar tudo a você. Eu tentei fazê-la ir comigo.
— Para onde?
— Nassau.
Jacob riu.
— Fugir.
— Proteger ela.
— De quem?
Edward abriu a boca.
Parou.
Jacob percebeu.
— De quem, Edward?
— Eu não sabia.
— Mentira.
— Eu sabia que Charlie não tinha feito tudo sozinho.
— Isso não responde.
— Porque eu não tenho uma resposta!
Edward elevou a voz.
Sarah viu Jacob avançar.
Entrou entre os dois.
— Chega.
Jacob olhou para ela.
— Saia da frente.
— Não.
— Sarah.
— Vocês vão se bater às duas da manhã no meu primeiro pernoite no seu quarto?
Edward quase sorriu.
Jacob olhou para ela, incrédulo.
— Isso é o que você tirou dessa situação?
— Estou tentando evitar que você quebre a mão antes de descobrirmos quem está no vídeo.
Embry surgiu no corredor.
— Por que tem gente gritando?
Olhou para Sarah usando a camiseta de Jacob.
Depois para Jacob sem camisa.
Depois para a cama.
Ergueu uma sobrancelha.
— Ah.
Jacob fechou os olhos.
— Não.
— Não perguntei nada.
— Seu rosto perguntou.
— Meu rosto é muito expressivo.
Sarah apontou para Edward.
— Mostre o vídeo.
A expressão de Embry mudou imediatamente.
Vinte minutos depois, estavam todos no escritório.
Sarah ainda vestia a camiseta de Jacob.
Jacob havia colocado uma camisa.
Embry tinha café.
Edward parecia não dormir havia anos.
O vídeo estava na tela grande.
— De onde veio? — perguntou Embry.
Edward respondeu:
— Estava numa pasta criptografada no meu telefone.
Jacob virou-se.
— Você disse que encontrou no telefone.
— Encontraram.
— Quem?
— Seu pessoal.
Jacob ficou imóvel.
— Explique.
— Quando copiaram os arquivos, encontraram uma partição que eu não conseguia acessar.
— Como um vídeo de quatro anos atrás entrou no seu telefone?
— Não sei.
— Esse aparelho é de quatro anos atrás?
— Não.
Silêncio.
Sarah percebeu primeiro.
— Então alguém colocou o vídeo ali recentemente.
Edward assentiu.
— Parece.
Jacob cruzou os braços.
— Quem teve acesso ao telefone?
— Ninguém desde que cheguei.
— Antes.
Edward hesitou.
— Algumas pessoas.
Jacob soltou uma risada.
— Excelente.
— Eu estava escondido, Jacob. Não hospedado num resort.
— Nomes.
— Depois.
Jacob bateu a mão na mesa.
— Não existe mais “depois”.
Edward levantou-se.
— Existem pessoas que me mantiveram vivo!
— E existe uma mulher dormindo no andar de cima que acabou de ser ameaçada por causa desta história!
Sarah olhou para ele.
Jacob percebeu.
— Estava dormindo.
— Melhor.
Embry tentou não rir.
Edward esfregou o rosto.
— Vou dar os nomes.
— Todos.
— Todos que importam.
Jacob deu um passo.
Edward corrigiu imediatamente:
— Todos.
— Ótimo.
Sarah apontou para a tela.
— Podemos voltar para Isabella?
Os homens ficaram quietos.
— Obrigada.
Ela aproximou a imagem.
— Quem gravou?
Edward balançou a cabeça.
— Não sei.
— A câmera parece parada — disse Embry.
Sarah observou.
— Não exatamente.
Reproduziu.
A imagem tremia levemente.
— Alguém está segurando.
Jacob sentiu um frio.
— Então havia pelo menos três pessoas naquela praia.
Sarah assentiu.
— Isabella. O homem com quem ela fala. E quem grava.
Edward ficou imóvel.
— Talvez quatro.
Todos olharam para ele.
— Por quê? — perguntou Sarah.
— Porque eu saí daquela praia pouco depois das onze.
— E?
— Vi luz perto das árvores.
Jacob se aproximou.
— Você nunca disse isso.
— Achei que fosse alguém da propriedade.
— Quem?
— Não sei.
Jacob riu amargamente.
— Naturalmente.
Edward fechou os olhos.
— Eu não sabia que Isabella morreria algumas horas depois!
Jacob perdeu a paciência.
— Essa frase não absolve você de nada!
— Eu não estou pedindo absolvição!
— Então pare de agir como se sua ignorância fosse defesa!
Edward se levantou.
— E você pare de agir como se eu tivesse matado Isabella!
Silêncio.
Jacob ficou imóvel.
Edward respirava pesadamente.
— Eu a traí com você — continuou. — Roubei sua confiança. Trabalhei para Charlie. Movimentei dinheiro. Fugi. Escondi coisas. Escolha qualquer uma delas e me odeie pelo resto da vida.
Apontou para a tela.
— Mas eu não matei Isabella.
Jacob aproximou-se.
— Eu ainda não sei disso.
A frase atingiu Edward.
— Você realmente acha que eu seria capaz?
Jacob respondeu baixo:
— Quatro anos atrás eu também não achava que seria capaz de dormir com ela.
Edward perdeu a expressão.
Nenhum dos dois falou.
Sarah não interferiu dessa vez.
Edward assentiu lentamente.
— Justo.
Sentou-se.
Jacob permaneceu de pé.
E pareceu odiar a si mesmo por ter dito aquilo.
Sarah pediu que reproduzissem o vídeo sem som.
Depois com som.
Mais lento.
Outra vez.
— Pare.
Jacob pausou.
— O quê?
Ela apontou para Isabella.
— Mão esquerda.
Havia alguma coisa.
— Pulseira? — perguntou Embry.
— Não.
Sarah ampliou.
A imagem perdeu qualidade.
Edward aproximou-se.
— Chave.
Jacob olhou.
Isabella segurava uma chave pequena.
— Cofre? — perguntou Sarah.
Edward assentiu lentamente.
— Pode ser.
— A chave de Nassau.
— Talvez.
Jacob olhou para a tela.
— Então ela ainda estava com ela naquela noite.
Sarah assentiu.
— E não estava na caixa que encontramos.
Embry colocou a xícara sobre a mesa.
— Se o assassino encontrou...
— Não sabemos se houve assassino — Sarah corrigiu.
Edward olhou para ela.
— Depois disso você ainda acha que foi acidente?
— Não.
Ela respondeu com calma.
— Acho que há evidência forte de que alguém ameaçava Isabella. Acho que Isabella acreditava que a pessoa com quem falava tinha alguma responsabilidade pelo que aconteceu com Charlie. Acho que alguém está nos ameaçando agora.
Apontou para o vídeo.
— Mas isso não mostra quem matou Isabella. Nem prova, por si só, o que realmente aconteceu com Charlie.
Jacob observou Sarah.
— Você faz isso de propósito?
— O quê?
— Impede que eu pule para a conclusão mais conveniente.
— Alguém precisa.
Edward murmurou:
— Ela faz isso bem.
Jacob virou-se.
— Não fale dela.
Sarah olhou para ele.
— Jacob.
— O quê?
— Eu estou aqui.
Edward quase riu.
— Boa sorte.
Jacob olhou para ele.
— Quer outro soco?
— Não particularmente.
Embry passou a mão pelo rosto.
— Sinto falta de quando meu maior problema era consertar ar-condicionado.
Às quatro da manhã, tinham uma lista.
Não de suspeitos.
De perguntas.
Quem gravou?
Quem falava com Isabella?
Onde estava a chave?
Quem colocara o vídeo no telefone de Edward?
Quem enviara as mensagens?
Quem sabotara a casa?
E o que Isabella descobrira sobre o que acontecera com o próprio pai?
Sarah escreveu a última pergunta.
Jacob ficou olhando.
— Como Charlie supostamente morreu?
Edward respondeu:
— Acidente de carro.
— Onde?
— Nassau.
Jacob franziu a testa.
— Eu fui ao funeral.
— Eu também.
Jacob lançou-lhe um olhar.
Edward corrigiu:
— À distância.
— Claro.
Sarah perguntou:
— Houve investigação?
— Sim — respondeu Jacob. — Disseram que o carro perdeu o controle numa estrada molhada.
— Autópsia?
— Imagino que sim.
— Precisamos dos registros.
Jacob pegou o telefone.
Sarah segurou seu pulso.
— São quatro da manhã.
— Tenho gente em Londres.
— Charlie supostamente morreu nas Bahamas.
— Também tenho gente nas Bahamas.
Ela soltou.
— Às vezes esqueço que você é irritantemente rico.
— Isso ajuda muito.
Edward olhou para ele.
— Seu pai dizia a mesma coisa.
O silêncio caiu.
Jacob ficou imóvel.
— Você conheceu meu pai?
Edward percebeu.
— Sim. Eu o vi algumas vezes.
— Quantas?
— Não sei. Cinco. Seis.
— Antes de trabalhar comigo?
— Sim.
Jacob olhou para ele.
— Charlie nunca me disse.
— Não.
— Você também não.
— Não.
A velha raiva começou novamente.
Sarah viu.
— Isso fica para amanhã.
Jacob olhou para ela.
— Sarah...
— Não comece.
Ela apontou para o relógio.
— Vocês dois estão exaustos. Cada nova informação vira uma arma.
Edward não discutiu.
Jacob sim.
— Não consigo dormir.
— Vai tentar.
— Não sou criança.
— Excelente. Então não preciso carregar você.
Embry riu.
Jacob lançou-lhe um olhar.
— Vá dormir.
— Com prazer.
Embry saiu.
Edward levantou-se.
— Onde eu fico?
Jacob respondeu:
— Quarto de hóspedes no térreo.
— E segurança na porta?
— Sim.
Edward assentiu.
— Justo.
Quando passou por Jacob, parou.
— Sobre seu pai...
Jacob endureceu.
— Amanhã.
Edward pareceu surpreso.
Olhou para Sarah.
Ela sorriu.
— Está aprendendo.
Edward foi embora.
No corredor, Jacob segurou a mão de Sarah.
Ela olhou.
— Está me levando de volta para seu quarto?
— Sim.
— Ordem de segurança?
— Claro.
— Naturalmente.
Entraram.
Sarah deitou.
Jacob permaneceu junto à janela.
— Jacob.
— Hum?
— Cama.
— Daqui a pouco.
— Agora.
Ele olhou para ela.
— Você manda muito.
— Aprendi com você.
Jacob fechou a cortina.
Deitou-se.
Sarah virou-se para ele.
— Venha aqui.
— Estou aqui.
— Isso é geografia. Estou falando de distância.
Jacob aproximou-se.
Ela colocou a cabeça sobre seu peito.
O braço dele envolveu sua cintura.
Ficaram quietos.
— Sarah.
— Hum?
— Quando você disse que eu estava tentando corrigir Isabella através de você...
Ela levantou a cabeça.
— Eu fui dura.
— Foi verdadeira.
Sarah esperou.
— Não quero fazer isso.
— Eu sei.
— Se eu tentar...
— Eu aviso.
— Provavelmente gritando.
— Certamente.
Jacob sorriu.
Sarah voltou a apoiar a cabeça.
— Posso perguntar uma coisa?
— Pode.
— Você acreditou em Edward quando ele disse que Isabella ia voltar para contar tudo?
Jacob demorou.
— Não sei.
— Quer acreditar?
Silêncio.
— Sim.
Sarah sentiu.
— E odeia querer.
— Muito.
Ela passou a mão pelo peito dele.
— Não precisa decidir hoje quem Isabella era.
— Ela me traiu.
— Sim.
— Mas talvez estivesse tentando me proteger.
— Talvez.
— E talvez tenha descoberto que o próprio pai...
Ele parou.
Sarah ergueu os olhos.
— É muita coisa.
Jacob riu sem humor.
— Isso é uma avaliação profissional?
— Extremamente técnica.
Ele sorriu.
Depois ficou sério.
— Sabe o pior?
— O quê?
— Quando vi o vídeo...
Sua mão apertou levemente a cintura dela.
— Durante alguns segundos, eu quis entrar naquela tela.
Sarah ficou quieta.
— Quis avisá-la.
— É natural.
— Depois olhei para você.
Sarah levantou a cabeça.
Jacob tocou seu rosto.
— E percebi que não queria voltar quatro anos.
O coração dela bateu mais forte.
— Jacob...
— Eu queria trazer Isabella até aqui.
Sarah ficou imóvel.
— Para que ela pudesse me contar. Para que eu pudesse perguntar. Para que ela estivesse viva.
Ele passou o polegar pela face dela.
— Mas eu não queria trocar agora por antes.
Sarah não conseguiu brincar.
— Tem certeza?
— Pela primeira vez.
Ele a beijou.
Suave.
Sem urgência.
Sarah fechou os olhos.
Quando o beijo terminou, permaneceu próxima.
— Isso foi perigosamente romântico.
— Não conte para ninguém.
— Sua reputação?
— Arruinada.
Ela sorriu.
Jacob a abraçou.
Alguns minutos depois, a respiração de Sarah tornou-se regular.
Jacob percebeu que ela dormira.
Ficou olhando para o teto.
Isabella.
Edward.
Charlie.
Sarah.
O passado ainda estava ali.
Mas já não ocupava tudo.
Jacob fechou os olhos.
Edward não dormiu.
Sentado na cama do quarto de hóspedes, olhava para uma folha de papel.
Havia começado a escrever os nomes que prometera entregar.
Pessoas que o ajudaram.
Pessoas que trabalharam para Charlie.
Pessoas que poderiam saber alguma coisa.
Dezessete nomes.
Parou no décimo oitavo.
Ficou olhando.
Não queria escrever.
Mas prometera.
Sem mais segredos.
Escreveu.
Billy Black.
Ficou imóvel.
O pai de Jacob.
Morto havia sete anos.
Edward fechou os olhos.
— Merda.
Porque explicar Charlie já seria difícil.
Explicar Isabella seria pior.
Mas nada seria comparável a dizer a Jacob que, muito antes de Isabella, Edward ou Blue Horizon entrarem naquela história, Billy Black e Charlie Swan já faziam negócios juntos.
E que Edward tinha começado a suspeitar de que tudo o que acontecera depois talvez tivesse começado com eles.
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