ILHA DOS DESEJOS
26 Capítulo 26 — O dia seguinte
Quando Paul determinou que ninguém mais tocaria em uma única caixa, eram três e vinte e oito da tarde.
Tinham chegado às ruínas pouco depois das oito da manhã. A entrada subterrânea fora localizada às nove e vinte e seis. Quase uma hora se perdera apenas verificando a segurança estrutural. Depois vieram a porta, a chave entregue por Margaret, o arquivo, a fotografia de Isabella, as caixas Black, Morrow e Clearwater, o livro de beneficiários e, finalmente, a gravação.
Era informação demais para um único dia.
E Jacob estava começando a sentir isso no corpo.
Ele continuava diante da mesa onde o gravador de Isabella fora encontrado.
Não tocava nele.
Não precisava.
A voz dela permanecia dentro de sua cabeça.
Depois vou falar com Jacob. Tudo. Inclusive Edward.
Sarah aproximou-se sem dizer nada.
Jacob percebeu sua presença, mas não olhou.
— Ela ia me contar.
Sarah esperou.
— Sim.
— No dia seguinte.
— Era o que ela dizia pretender fazer.
Jacob finalmente virou o rosto.
— Você sempre deixa uma saída.
— Porque intenção não é ação.
Ele soltou uma risada seca.
— Eu sei.
Passou as mãos pelo rosto.
— E isso é pior.
Sarah franziu a testa.
— Por quê?
— Porque durante quatro anos eu consegui odiá-la de maneiras diferentes.
A frase saiu baixa.
— Primeiro achei que ela simplesmente tinha morrido. Depois descobri Edward. Depois descobri Charlie. Depois descobri que ela investigava meu pai, Aro, Nassau... Cada vez que aparecia uma coisa nova, eu precisava reconstruir Isabella dentro da minha cabeça.
Sarah permaneceu perto.
— Agora descubro que ela sabia que tinha me traído, sabia que estava mentindo e pretendia me contar no dia seguinte.
A mandíbula dele se contraiu.
— E uma parte de mim quer pensar que isso muda tudo.
— Mas não muda.
Jacob olhou para ela.
Sarah sustentou.
— Ela ainda teve um relacionamento com Edward durante oito meses.
Ele fechou os olhos.
— Sim.
— Ainda mentiu para você.
— Sim.
— E também pode ser verdade que tenha decidido parar de mentir.
Jacob respirou fundo.
— Eu queria uma versão simples dela.
Sarah entendeu.
— Uma mulher que você pudesse amar ou odiar.
— Exatamente.
Ele olhou para a fotografia lacrada.
— Porque odiar era mais fácil depois que descobri Edward.
Sarah não respondeu.
— Sabe o que é pior?
— O quê?
— Uma parte de mim ficou aliviada quando descobri o caso.
Ela se surpreendeu.
Jacob sorriu sem humor.
— Horrível, não?
— Humano.
— Eu tinha passado anos pensando que tinha falhado com ela. Que devia ter percebido que ela estava infeliz. Que devia ter impedido que saísse naquela noite. Que devia ter ido atrás. Quando descobri Edward... pela primeira vez havia alguma coisa que era dela.
Sarah segurou sua mão.
— Uma escolha dela.
— Sim.
Ele apertou os dedos.
— Eu podia estar com raiva.
A voz falhou discretamente.
— Agora escuto aquilo e...
Parou.
Sarah esperou.
— E fico imaginando como teria sido se ela tivesse vivido até a manhã seguinte.
— Jacob...
— Eu teria terminado com ela.
Sarah ficou imóvel.
Ele olhou diretamente para ela.
— Acho que teria.
— Talvez.
— Não conseguiria perdoar aquilo imediatamente. Talvez nunca.
— Você não precisa decidir quatro anos depois uma decisão que não teve oportunidade de tomar.
Jacob abaixou a cabeça.
— Mas ela teria tido a oportunidade de me dizer.
Sarah tocou seu rosto.
— E tiraram isso de vocês.
Os olhos dele se encheram.
Não foi um choro explosivo.
Foi pior.
Contido.
Velho.
Jacob engoliu em seco.
— Eu passei quatro anos lamentando uma conversa que nem sabia que deveria ter acontecido.
Sarah o abraçou.
Ele permaneceu rígido por alguns segundos.
Depois cedeu.
O rosto encostou no cabelo dela.
Os braços se fecharam com força ao redor de seu corpo.
— Estou com raiva dela — murmurou.
— Pode estar.
— E sinto falta dela.
— Pode também.
— Eu amo você.
Sarah fechou os olhos.
Ainda não era a declaração que haviam escolhido fazer conscientemente.
Era uma verdade que escapara no meio da dor.
Ela não a transformou em momento romântico.
Apenas o abraçou mais forte.
— Eu sei o que você quis dizer.
Jacob se afastou imediatamente.
— Sarah...
Ela tocou seus lábios.
— Depois.
Ele compreendeu.
Aquilo seria deles.
Não de Isabella.
O restante da tarde não produziu nenhuma grande revelação.
E era assim que deveria ser.
Paul catalogou o material retirado.
O engenheiro voltou a examinar a estrutura.
Duas câmeras foram instaladas na passagem descoberta. A equipe procurou sinais de uma segunda entrada, mas não encontrou nada conclusivo.
Às quatro e cinquenta e três, todos deixaram o subterrâneo.
Às cinco e quarenta, estavam novamente na casa principal.
Paul separou a investigação em três frentes:
1. A noite da morte de Isabella.
2. A origem dos ativos e o arquivo da praia norte.
3. O documento retirado de Nassau e seu depositário desconhecido.
Sarah aprovou imediatamente.
— Nada de misturar evidências porque elas pertencem às mesmas pessoas.
Paul assentiu.
— Hoje eu só organizo.
Jacob perguntou:
— Quando teremos resultados?
— Amanhã, talvez os primeiros. Algumas coisas vão levar dias.
Jacob não gostou.
Mas respondeu:
— Certo.
Sarah olhou para ele.
Ele percebeu.
— Não diga nada.
— Eu não disse.
— Seu rosto disse.
Às seis e quarenta, surgiu apenas uma confirmação.
A ligação feita por Isabella às 23h41 na noite de sua morte realmente existira.
O telefone dela ligara por vinte e dois segundos para o número descartável que Quil admitira usar.
Nada mais.
Nenhum conteúdo.
Nenhuma confirmação de que Isabella dissera o que Quil alegava.
Jacob encarou o registro.
— Então você não mentiu sobre a ligação.
Quil assentiu.
— Não.
— Isso não significa que acredito no resto.
— Eu sei.
Era tudo que tinham naquele dia.
Naquela noite, Jacob não dormiu.
Sarah acordou às duas e dezessete e encontrou o lado dele vazio.
Foi até a varanda.
Ele estava sentado no chão, costas apoiadas na parede.
Ela sentou ao lado.
— Pesadelo?
— Não.
— Isabella?
— Meu pai.
Sarah esperou.
Jacob passou as mãos pelos cabelos.
— Se aqueles documentos estiverem certos, talvez eu tenha herdado coisas que nunca deveriam ter pertencido à minha família.
— Talvez.
— E eu construí empresas em cima disso.
— Você também construiu patrimônio depois de assumir.
— Com uma base que pode estar contaminada.
Sarah olhou para o mar.
— Então, quando souber exatamente o que foi tirado e de quem, você corrige o que puder.
— E se isso custar Saint Claire?
Ela virou-se.
Jacob não estava perguntando como empresário.
Estava perguntando como homem.
A ilha era Billy.
Era infância.
Era Isabella.
Era perda.
Era também Sarah.
— Você quer que eu diga que não vai acontecer.
— Quero.
— Não vou.
Ele riu sem humor.
— Claro que não.
Sarah encostou a cabeça no ombro dele.
— Mas sei uma coisa.
— O quê?
— Se você descobrir que alguma coisa não é sua e devolver, não terá perdido aquilo.
Jacob olhou.
— Não?
— Terá parado de possuir o que nunca deveria ter possuído.
Ele ficou em silêncio.
— Isso é terrivelmente lógico.
— Sou encantadora.
— Às vezes.
Ela segurou sua mão.
Ficaram ali até quase quatro.
O primeiro dia inteiro depois da descoberta do arquivo foi consumido por trabalho.
Paul enviou pedidos de registros, localizou antigos prestadores, cruzou arquivos digitais e determinou que ninguém seria contatado sobre o documento de Isabella até que a cronologia estivesse minimamente reconstruída.
Sarah passou a manhã catalogando cópias.
Jacob participou de duas reuniões de suas empresas e descobriu que ainda existia um mundo fora daquela investigação.
À tarde, Paul conseguiu confirmar que o veículo vinculado à Meridian e mantido por uma prestadora em Saint Claire havia sido autorizado anos antes por Charlie Swan.
Também descobriu que o carro fora enviado para Nassau dois dias depois da morte de Isabella.
A autorização de transporte tinha o nome Evelyn Morrow.
Sarah foi categórica:
— Não sabemos se tem qualquer parentesco com Rebecca.
Paul concordou.
Nenhuma teoria foi construída.
No final daquele dia, a análise preliminar da fechadura do arquivo indicou manutenção nos meses anteriores.
Não dias.
Meses.
Alguém continuara tendo acesso.
Quem, permanecia desconhecido.
Na manhã seguinte — dois dias completos depois da descoberta do arquivo — Paul finalmente conseguiu reconstruir parte do dia anterior à morte de Isabella.
Ela estivera no vilarejo pela manhã.
Depois, às 14h12, saíra novamente.
Passara pela marina.
Em seguida fora à pequena clínica local.
Não havia atendimento médico registrado.
Ficara onze minutos.
— Então ela pode ter entregue o documento ali — disse Jacob.
Sarah respondeu:
— Pode.
— Ou na marina.
— Pode.
— Ou na primeira ida ao vilarejo.
— Sim.
Jacob suspirou.
— Eu odeio investigação.
— Você gosta de respostas.
— Muito.
— Investigação é o caminho desagradável até elas.
Paul interrompeu:
— Vou precisar localizar quem estava trabalhando naquele turno.
— Quanto tempo?
— Talvez um dia. Talvez mais.
Jacob abriu a boca.
Sarah olhou.
Ele fechou.
— Estou aprendendo.
Foi apenas no final da tarde daquele mesmo dia que Paul conseguiu falar com uma antiga enfermeira.
Helena Brooks.
A mulher lembrava de Isabella.
Não de todos os detalhes.
Mas de uma coisa.
Ela chegara carregando um envelope grande e perguntara por um voluntário chamado Thomas Bennett.
Thomas chegara enquanto Isabella ainda estava ali.
Os dois conversaram do lado de fora.
Helena não vira Isabella entregar nada.
Não sabia o conteúdo do envelope.
Paul encerrou a ligação sem sugerir nenhuma resposta.
Sarah aprovou.
— Agora temos alguém que ela procurou.
Jacob assentiu.
— Não necessariamente o depositário.
— Muito bem.
— Não pareça tão surpresa.
Paul descobriu ainda naquela noite apenas informações básicas.
Thomas Bennett trabalhara como voluntário, levando medicamentos e mantimentos a moradores idosos ou sem transporte.
Deixara Saint Claire aproximadamente seis meses depois da morte de Isabella.
Passara por Nassau.
Depois fora para os Estados Unidos.
Nada indicava Northstar.
Nada indicava Black.
Nada indicava Swan.
Nada indicava Clearwater.
Nada indicava Aro.
Era exatamente o tipo de pessoa que Isabella descrevera.
Mas ainda era apenas uma possibilidade.
Naquela noite, Sarah encontrou Jacob na varanda novamente.
Dessa vez ele estava esperando por ela.
— Hoje não tem cadáver — disse ele.
Sarah olhou ao redor.
— Ainda.
— Não estrague.
Ela sorriu.
Jacob aproximou-se.
— Ontem eu disse uma coisa.
Sarah sabia.
— Disse.
— No pior momento possível.
— Quase.
— Não quero que fique daquele jeito.
Sarah ficou quieta.
Ele tocou seu rosto.
— Isabella faz parte da minha vida. Vai continuar fazendo. O que aconteceu com ela me mudou. O que ela fez comigo também.
Sarah assentiu.
— Eu não quero apagar isso para conseguir amar você.
— Nem deveria.
— E não quero amar você como prêmio por ter sobrevivido ao que aconteceu com ela.
Os olhos de Sarah arderam.
Jacob respirou.
— Você não é depois de Isabella.
Pausa.
— Você é Sarah.
Ela sorriu.
— Finalmente aprendeu.
— Demorei.
— Bastante.
Ele aproximou o rosto.
— Eu amo você, Sarah Clearwater.
Dessa vez não escapou.
Foi escolhido.
Sarah segurou seu rosto.
— Eu amo você também.
Jacob fechou os olhos.
Quando a beijou, não havia passado competindo com presente.
Havia apenas dois adultos sabendo que o passado continuaria existindo.
E escolhendo, apesar disso, o que fariam com o futuro.
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