ILHA DOS DESEJOS
24 Capítulo 24 — Quarenta e sete minutos
Jacob atravessou o caminho entre o hangar e a casa sem dizer uma palavra.
Sarah precisou acelerar duas vezes para acompanhá-lo.
Não porque ele estivesse deliberadamente deixando-a para trás. Jacob simplesmente caminhava como um homem que passara quatro anos procurando uma resposta e acabara de descobrir que alguém sentado à sua mesa durante os últimos dias guardava uma parte dela.
Embry vinha alguns metros atrás com Edward.
Paul permanecera no hangar para coordenar a bagagem, transferir com segurança as cópias dos arquivos trazidos de Nassau e avisar sua equipe de que, até segunda ordem, nenhum dado recebido de Margaret seria tratado como autenticado.
Sarah segurava a alça da bolsa contra o corpo.
Dentro dela estavam a chave prateada entregue por Margaret, a cópia da gravação da estrada da praia norte, os documentos referentes a Rebecca Morrow, a fotografia da mulher desconhecida no helicóptero e a carta de Isabella destinada à “mulher da bússola”.
Mas nada parecia tão pesado quanto a frase de Embry.
Quil admitira que mentiu sobre ter deixado Isabella sozinha naquela noite.
Sarah alcançou Jacob quando ele subia os degraus da varanda.
— Jacob.
Ele continuou.
— Jacob.
Dessa vez parou.
Não virou.
Sarah colocou a mão em suas costas.
— Olhe para mim.
Ele respirou profundamente antes de obedecer.
A raiva estava ali.
Mas havia outra coisa.
Medo.
— Não me peça calma.
— Não vou.
— Não me peça para ouvir como se isso fosse uma reunião.
— Também não.
— Então o quê?
Sarah sustentou seu olhar.
— Só não misture o que sabemos com o que Margaret afirmou.
Jacob ficou imóvel.
Ela continuou:
— Temos uma gravação que ainda precisa ser autenticada. Temos horários fornecidos por Margaret. Temos um carro registrado em nome de Quil entrando na estrada. Temos um carro registrado em nome de Charlie chegando depois. Não temos motorista identificado no primeiro vídeo. Não temos Charlie visível no segundo. E temos Quil dizendo que mentiu.
Jacob fechou os olhos.
— Você consegue tornar qualquer coisa insuportavelmente racional.
— É uma habilidade.
— Estou cansado disso.
— Eu sei.
— Todo mundo sabia alguma coisa.
— Eu sei.
— Todo mundo escolheu por mim.
Sarah apertou sua mão.
— Então não deixe a raiva escolher por você agora.
Ele abriu os olhos.
— Se ele disser que mentiu para me proteger...
— Você pode ficar com raiva.
— Posso bater nele?
— Não.
— Tinha que tentar.
Ela quase sorriu.
— Minha mão na sua.
Jacob olhou para os dedos dela.
Segurou.
— Sua mão na minha.
Entraram.
Quil estava na biblioteca.
Sozinho.
Sentado diante da janela.
Quando Jacob entrou, ele se levantou.
Seus olhos passaram por Sarah, Edward e Embry.
Voltaram para Jacob.
— Vocês viram.
Jacob fechou a porta.
— Vimos uma gravação.
Quil percebeu imediatamente a precisão.
— Margaret?
— Sim.
A reação foi pequena.
Mas existiu.
Sarah viu.
— Antes de qualquer outra coisa — disse ela — você vai contar sua versão sem saber tudo que Margaret nos mostrou.
Quil franziu a testa.
Jacob olhou para Sarah.
Ela explicou:
— Se contarmos cada detalhe primeiro, nunca saberemos se ele está lembrando ou ajustando a história ao que sabe que temos.
Embry apontou discretamente para ela.
— Isso.
Jacob olhou para Quil.
— Sente.
Quil sentou.
Sarah também.
— Comece quando Isabella entrou em contato com você naquela noite.
Quil respirou fundo.
— Não começou naquela noite.
Jacob ficou tenso.
— Então comece quando começou.
— Cerca de três semanas antes da morte dela.
Silêncio.
— Isabella procurou você? — perguntou Sarah.
— Sim.
— Como encontrou?
— Nos documentos de Billy.
Sarah imediatamente lembrou da carta encontrada anos depois no cofre de Nassau.
Se meu pai também estiver morto, procure Quil Mercer. Quil sabe onde começou.
— Então ela já conhecia seu nome antes de escrever a carta do cofre.
— Sim.
— E vocês se encontraram?
— Duas vezes antes daquela noite.
Jacob ficou imóvel.
— Onde?
— Uma vez em Nassau. Uma em Saint Claire.
— Você esteve na ilha sem eu saber.
— Sim.
A mão de Jacob fechou.
Sarah sentiu.
— Continue.
— Isabella queria entender a relação entre Billy, Charlie e Aro.
— Você contou?
— Parte.
Sarah soltou uma respiração.
— Naturalmente.
Quil aceitou.
— Eu ainda não sabia se podia confiar nela.
— E ela em você?
— Também não.
— O que mudou?
— Ela encontrou o cofre de Nassau.
Sarah franziu a testa.
— Cuidado com a cronologia. Dois dias antes da morte ela retirou coisas do cofre. Mas já sabia da existência dele antes.
— Sim.
— Então quando diz “encontrou”, está falando de descobrir a estrutura e obter acesso, não necessariamente da retirada final.
— Exatamente.
Sarah assentiu.
— Continue.
— Ela me mostrou cópias de alguns documentos. Havia movimentações ligadas a Charlie, referências antigas a Aro e iniciais que apareciam repetidamente.
— R.M.? — perguntou Jacob.
— Sim.
Sarah observou Quil.
— Você sabia dessas iniciais quando chegamos do primeiro Nassau.
— Sabia que existiam em documentos antigos. Não sabia o que significavam.
— E não contou.
— Não.
— Por quê?
— Porque eu tinha visto R.M. anos antes nos arquivos de Aro e nunca consegui identificar.
Sarah não gostou.
— Isso deveria ter sido dito.
— Sim.
— Agora continue.
Quil apoiou os antebraços nos joelhos.
— Na noite em que Isabella morreu, ela me pediu para esperar perto da estrada da praia norte.
Edward levantou os olhos.
— Eu ainda estava com ela.
Quil olhou para ele.
— Provavelmente.
Sarah interferiu:
— Horário aproximado?
— Ela falou comigo antes das onze. Pediu que eu estivesse na região, mas não me aproximasse até ela chamar.
— Por quê?
— Charlie iria encontrá-la.
Jacob ficou imóvel.
— Ela marcou o encontro com o pai.
— Sim.
— Sabendo que ele estava vivo.
— Sim.
— E você deveria observar.
— E registrar, se fosse possível.
Sarah se inclinou.
— Então a gravação do confronto não foi casual.
— Não.
— Isabella sabia que você estava filmando.
— Sim.
Aquilo corrigia outra lacuna importante.
A câmera não era um observador desconhecido.
Pelo menos segundo Quil.
— Charlie chegou — continuou ele. — Eu gravei parte da conversa.
— A parte que vimos? — perguntou Jacob.
— Sim.
— “Você matou meu pai.”
— Sim.
— E você continua afirmando que ela falava do homem que Charlie havia sido antes de fingir a morte.
— Pelo contexto, sim.
Sarah corrigiu:
— Sua interpretação.
Quil assentiu.
— Minha interpretação.
— O que aconteceu depois?
— Charlie começou a desconfiar que havia alguém por perto. Eu parei de filmar.
— Ele viu você?
— Não sei.
— Isabella?
— Sabia onde eu estava.
— E então?
— Eu me afastei.
Jacob endureceu.
— Foi quando você disse que foi embora.
— Sim.
— Mas não deixou a região definitivamente.
— Não.
— Essa foi a mentira.
Quil respirou.
— Sim.
Sarah manteve os olhos nele.
— Não avance. O que fez depois de se afastar?
— Dirigi alguns quilômetros.
— Para onde?
— Em direção ao antigo acesso da propriedade Black.
— E então?
— Isabella me ligou.
— Horário?
— Pouco antes da meia-noite.
— Você tem certeza?
— Aproximadamente.
Sarah assentiu.
— O que ela disse?
Quil olhou para Jacob.
— “Ele trouxe alguém.”
Silêncio.
— Charlie? — perguntou Sarah.
— Foi como entendi.
— Isabella disse o nome de Charlie nessa frase?
— Não.
Sarah imediatamente marcou.
— Então isso é interpretação.
Quil assentiu.
— Sim.
— Mais alguma coisa?
— Disse para eu voltar.
— E você voltou.
— Sim.
— No seu carro?
— Sim.
Sarah trocou um olhar com Jacob.
Agora tinham uma informação que poderia explicar o carro das 23h58, mas ainda precisaria ser comparada aos registros.
— Quando chegou, Isabella estava onde?
— Na antiga casa de hóspedes.
— Sozinha?
Quil hesitou.
— Não.
Jacob se inclinou.
— Quem estava com ela?
— Uma mulher.
Sarah sentiu o coração acelerar.
— Margaret?
— Não.
Aquilo coincidia com a afirmação de Margaret de que ela não fora a mulher do helicóptero.
Mas Sarah não demonstrou.
— Você conhecia a mulher?
— Não naquela noite.
— Descreva.
Quil descreveu uma mulher de cabelos escuros, idade aproximada compatível com o relato de Embry, altura mediana e um pingente circular no pescoço.
Sarah não retirou a fotografia da bolsa.
Ainda não.
— O que ouviu?
— Isabella e ela discutiam sobre uma chave.
— Palavras exatas que lembra.
Quil fechou os olhos.
— A mulher disse: “Sem a chave ninguém entra.”
Sarah sentiu o peso da pequena chave prateada na bolsa.
— E Isabella?
— “Eu não preciso mais dela. Encontrei a entrada.”
Jacob virou o rosto para Sarah.
Margaret afirmara que Isabella encontrara a entrada do arquivo.
Agora Quil, sem saber que Margaret lhes contara isso, relatava uma frase compatível.
Não era prova absoluta.
Mas era corroborativo.
— O que aconteceu com a mulher? — perguntou Sarah.
— Saiu pelos fundos quando ouvimos um carro se aproximando.
— Você viu quem estava no carro?
— Depois.
— Não antecipe.
Quil assentiu.
— A mulher saiu. Isabella ficou. Eu permaneci escondido.
— E o carro chegou.
— Sim.
— Quem saiu?
— Charlie.
Sarah ficou imóvel.
Aquilo correspondia ao sedã das 00h04, se o horário da gravação estivesse correto.
— Você viu Charlie sair do carro?
— Sim.
— Sozinho?
— Sim.
— Tem certeza?
— Sim.
— Então, segundo você, Charlie voltou à casa depois do primeiro confronto.
— Sim.
Jacob franziu a testa.
— Por que voltaria?
— Não sei. Talvez tenha percebido que Isabella não estava sozinha. Talvez tenha ido buscar alguma coisa.
Sarah ergueu um dedo.
— Hipóteses.
— Sim.
— O que você sabe?
— Que ele voltou.
Paul entrou discretamente.
Sarah levantou a mão antes que falasse.
— Encontrou algo?
— Sim, mas posso esperar.
— Espere.
Ela voltou para Quil.
— Charlie entra. O que acontece?
— Ele e Isabella discutem novamente.
— Você continua escondido.
— Sim.
— Sobre o quê?
— O arquivo. Dinheiro. Aro.
— Rebecca?
Quil franziu a testa.
— Quem?
Sarah ficou imóvel.
Jacob também.
Aquilo era importante.
Quil não reconhecera o primeiro nome.
Sarah não ajudou.
— Nada. Continue.
Quil olhou desconfiado, mas obedeceu.
— Charlie dizia que Isabella não entendia o que estava fazendo.
— Ela respondeu?
— Disse que entendia que ele havia movimentado dinheiro que não era dele.
— E?
— Disse que iria contar tudo para Jacob.
Jacob baixou os olhos.
Sarah apertou sua mão.
— Charlie ameaçou ela? — perguntou Sarah.
— Não naquele momento.
— Levantou arma?
— Não naquele momento.
— Tinha arma visível?
— Não.
Sarah assentiu.
— Continue.
— Isabella perguntou sobre Harry Clearwater.
Sarah congelou.
Mesmo sabendo que Margaret ligara Harry à história, ouvir o nome naquele contexto atingiu diferente.
— Palavras exatas.
— Não lembro todas.
— O que lembra?
Quil pensou.
— Isabella perguntou: “Harry morreu por causa disso?”
Sarah sentiu o peito apertar.
— E Charlie?
— Disse: “Não fui eu.”
Silêncio.
Jacob passou o braço pelas costas dela.
Sarah permaneceu reta.
— Isso não prova que Harry foi assassinado.
— Não.
— Nem que Charlie soubesse que foi.
— Não.
— Pode ser apenas uma resposta defensiva a uma acusação.
— Sim.
Sarah respirou lentamente.
— Continue.
— Foi então que eu ouvi outro veículo.
Paul, perto da porta, ficou atento.
— Horário?
— Não sei.
— Antes ou depois de a câmera perder sinal às 00h17? — perguntou Sarah.
Quil franziu a testa.
— Que câmera?
Sarah percebeu que ele realmente não sabia da lacuna específica.
— Responda sem isso.
— Eu não sei.
— Certo.
— O carro parou perto da estrada. Charlie ouviu também.
— Reação?
— Medo.
— Você tem certeza de que era medo?
— Não posso saber o que ele sentia.
Sarah assentiu.
— O que ele fez que fez você interpretar como medo?
Quil pensou.
— Parou de discutir. Foi até a janela. Disse um palavrão. Mandou Isabella sair.
— Palavras?
— “Vai. Agora.”
— Disse por quê?
— Depois disse: “Se ele encontrar você aqui, acabou.”
Sarah sentiu um arrepio.
— Ele.
— Sim.
— Um homem.
— Pela frase, sim.
— E Isabella saiu?
— Pelos fundos.
— Sozinha?
— Sim.
— Direção?
— Interior da ilha.
Sarah olhou para Jacob.
Isso era compatível com a imagem das 01h06 mostrada por Margaret, caso fosse Isabella.
— Você ficou.
— Sim.
— Charlie ficou.
— Sim.
— E quem chegou?
Quil fechou os olhos.
— Aro.
O silêncio caiu.
Jacob ficou imóvel.
Sarah não interrompeu.
Quil continuou:
— Eu vi Aro entrar.
— Sozinho? — perguntou Sarah.
— Sim.
— Você tem certeza?
— Vi apenas ele.
— Isso não significa necessariamente que não havia outra pessoa no carro.
— Certo.
Jacob falou baixo:
— Você disse que naquela noite viu o barco de Aro, mas não Aro desembarcar.
Quil olhou para ele.
— Sim.
— Mentiu.
— Sim.
— Por quê?
Quil respirou fundo.
— Porque se eu admitisse que vi Aro, teria de explicar onde eu estava quando vi.
Jacob se aproximou.
— E isso levaria ao fato de que você voltou.
— Sim.
— Então construiu uma versão que escondia sua segunda ida à casa.
— Sim.
A raiva de Jacob era quase física.
— Você deixou que passássemos dias trabalhando com uma linha temporal falsa.
— Sim.
— Enquanto sabia que Isabella continuou naquela casa muito depois do que contou.
— Sim.
Jacob fechou as mãos.
Sarah não precisou dizer nada.
Ele não avançou.
Talvez isso fosse progresso.
Talvez fosse exaustão.
— Continue — disse Jacob.
— Aro entrou — disse Quil. — Charlie e ele começaram a discutir.
— Sobre Isabella?
— Sobre documentos.
— Aro viu Isabella sair?
— Não sei.
— Perguntou por ela?
— Sim.
— O que Charlie disse?
— Que ela tinha ido embora.
— Aro acreditou?
— Não sei.
Sarah percebeu algo.
— Você disse que Charlie estava armado em sua versão anterior para Embry?
Quil franziu a testa.
— Eu não contei isso para Embry.
Sarah assentiu.
Era bom esclarecer.
— Em algum momento naquela noite você viu Charlie com arma?
— Sim. Depois que Aro entrou.
— Quando?
— Aro percebeu que eu estava ali.
— Você saiu do esconderijo?
— Não tive escolha.
— E Charlie sacou uma arma.
— Sim.
— Apontou para quem?
— Para mim.
— Para Isabella?
— Não. Ela já tinha saído.
Sarah assentiu.
— Aro estava armado?
— Não vi arma.
— Houve violência?
— Não.
— Quanto tempo você ficou com eles?
— Não sei exatamente. Mais de uma hora.
— E Isabella estava fora durante esse período.
— Sim.
— Aro saiu quando?
— Depois das duas.
— Você tem horário exato?
— Não.
— Charlie?
— Ficou.
— Você?
— Também.
Jacob franziu a testa.
— Por quê?
Quil olhou para ele.
— Porque quando Aro foi embora, eu queria encontrar Isabella.
— Charlie também?
— Sim.
Jacob pareceu surpreso.
— Ele procurou a própria filha.
— Sim.
— Depois de apontar arma para você.
— Sim.
— Depois de esconder a própria morte dela durante meses.
— Sim.
— Depois de roubar dinheiro dela.
— Sim.
Quil respirou.
— Pessoas podem fazer coisas terríveis e ainda amar alguém.
Sarah olhou para Jacob.
Ele não respondeu.
Talvez porque aquilo se aplicasse a gente demais naquela história.
— Onde procuraram? — perguntou Sarah.
— Primeiro pela mata e pela estrada interior. Isabella tinha corrido naquela direção.
— Separados?
— Sim.
— Encontraram alguma coisa?
— Um sapato.
Jacob ficou branco.
— O sapato dela?
— Sim.
— Onde?
— Perto da trilha antiga que desce para a costa leste.
Sarah franziu a testa.
— Isso estava no relatório policial?
— Não.
— Por quê?
Quil ficou em silêncio.
Jacob percebeu.
— Quil.
— Charlie pegou.
— Por quê?
— Disse que se a polícia encontrasse o sapato ali, procuraria na direção errada.
Sarah ficou incrédula.
— Mas aquela era justamente a direção em que ela havia corrido.
— Sim.
— Então por que seria errada?
— Eu perguntei.
— E?
— Charlie disse: “Porque ela não foi sozinha.”
Silêncio.
Sarah sentiu frio.
— Ele sabia de alguém com Isabella.
— Parecia saber.
— Disse quem?
— Não.
— Você contou sobre a mulher que tinha visto antes?
— Não.
Sarah fechou os olhos.
— Por quê?
— Porque eu ainda não sabia quem ela era ou de que lado estava.
— Quil, isso não é justificativa.
— Eu sei.
— É a mesma coisa que todos vocês fizeram. Tinham uma parte da informação e decidiram que escondê-la era mais seguro.
— Sim.
Jacob riu amargamente.
— Meu pai ensinou muito bem.
Quil abaixou os olhos.
Sarah olhou para Paul.
— Agora.
Ele se aproximou.
— Consegui uma primeira validação dos arquivos trazidos de Nassau.
Todos prestaram atenção.
— O vídeo da estrada não apresenta sinais óbvios de edição recente. Isso não autentica todo o conteúdo nem garante que os horários estejam corretos, mas o arquivo é antigo.
— E os horários? — perguntou Sarah.
— Estou comparando com registros de energia e outras câmeras disponíveis.
— Alguma coisa?
— Uma.
Paul colocou o notebook sobre a mesa.
— O carro de Quil aparece às 23h58 na câmera da estrada.
Quil assentiu.
— Isso combina com minha volta.
— O sedã ligado a Charlie aparece às 00h04.
— Também.
— A câmera que Margaret forneceu perde imagem às 00h17.
Sarah esperou.
— E volta às 00h51.
— Certo.
Paul abriu outro arquivo.
— Mas existe uma segunda câmera.
Quil ficou imóvel.
— Onde?
— Num antigo depósito de manutenção, quase um quilômetro para o interior. O arquivo não estava com Margaret. Encontramos uma referência dele nos registros de segurança antigos de Saint Claire e recuperamos uma cópia arquivada no sistema que substituiu aquele equipamento.
Jacob aproximou-se.
— Minha equipe tinha isso?
— Tecnicamente, sim. Mas estava num backup antigo classificado como manutenção, não investigação. A câmera não apontava para a praia nem para a casa.
Sarah sentiu o coração acelerar.
— O que mostra?
Paul abriu.
Imagem noturna.
Ruim.
Uma estrada estreita.
Horário:
01h07.
Uma pessoa surgiu correndo.
Roupas claras.
Cabelos compridos.
Jacob parou de respirar.
Sarah se aproximou.
— Pode ser Isabella.
Paul assentiu.
— Compatível. Ainda não posso confirmar.
A pessoa saiu do quadro.
Sarah perguntou:
— Mais alguém?
Paul avançou vinte e nove segundos.
Outra figura apareceu.
Andando rapidamente.
Não correndo.
Parou no meio da estrada.
Olhou na direção em que a primeira pessoa havia desaparecido.
Depois continuou.
Sarah sentiu frio.
— Mulher?
— Parece.
Quil levantou-se.
— É ela.
Sarah virou.
— Quem?
— A mulher que estava com Isabella.
— Tem certeza?
— Pela postura e pelo cabelo, acredito que sim.
— Acredita.
— Sim.
Paul ampliou.
O rosto continuava ruim.
Mas havia um ponto claro no pescoço.
Um reflexo circular.
Sarah abriu a bolsa.
Retirou a fotografia que Margaret lhes entregara.
A mulher do helicóptero.
Pingente circular.
Colocou ao lado da tela.
Edward aproximou-se.
— Parece o mesmo.
Sarah respondeu:
— Parece.
Não era prova.
Ainda não.
Quil olhou para a fotografia.
— Essa é ela.
— A mulher que estava na casa naquela noite?
— Sim.
— A mesma do helicóptero?
Quil olhou por vários segundos.
— Sim.
Sarah sentiu uma peça finalmente ficar mais firme.
Não resolvida.
Mas sustentada por duas fontes diferentes.
— Você descobriu o nome dela depois — disse Sarah.
Quil assentiu.
— Victoria Hale.
Edward ficou imóvel.
Jacob percebeu.
— Você conhece.
Edward demorou.
— Conheço o nome.
— De onde?
— Charlie.
Sarah olhou para ele.
— Explique.
— Quando eu trabalhava com Charlie, antes de ir para a empresa de Jacob, havia uma mulher chamada Victoria que aparecia em algumas reuniões.
— Sobrenome?
— Nunca ouvi. Ou não lembro.
— Era essa mulher?
Edward estudou a fotografia.
Demorou.
— Não posso afirmar.
Sarah assentiu.
— Certo.
— Mas pode ser.
— Isso é diferente.
— Eu sei.
Quil apontou para a tela.
— Eu vi um arquivo de Aro anos depois. O nome usado era Victoria Hale.
— E o arquivo dizia o quê?
— Intermediária.
— De quem?
Quil respirou.
— R.M.
Jacob olhou imediatamente para Sarah.
Ela não revelou ainda o que Margaret dissera sobre Rebecca.
— Você interpretou R.M. como pessoa?
— Nunca soube.
— Então não diga “de quem”. Diga “ligada a R.M.”.
Quil assentiu.
— Ligada a R.M.
Sarah voltou para Paul.
— O que acontece depois da segunda figura?
— Nada por três minutos.
— Depois?
Paul avançou.
Um veículo cruzou a estrada.
Sarah congelou.
— Que veículo?
— Não consegui identificar ainda.
— Direção?
— Mesma direção das duas figuras.
Quil empalideceu.
— Eu não sabia disso.
Jacob virou-se.
— Você estava onde?
— Ainda na casa com Charlie e Aro.
Sarah olhou para o horário.
01h10.
— Então, se seu relato estiver correto, esse carro não era de nenhum dos três.
— Não.
— E Victoria estava a pé.
— Sim.
Sarah sentiu um arrepio.
Havia outra pessoa.
Talvez.
Um motorista.
Talvez o homem que Charlie temera.
Talvez ninguém ligado à morte.
Ainda não sabiam.
— Placa? — perguntou Jacob.
Paul balançou a cabeça.
— Ilegível.
— Modelo?
— Estou trabalhando nisso.
Sarah olhou para a tela.
— Esse é o ponto que investigamos agora.
Não Victoria como assassina.
Não Aro.
Não Charlie.
Não Quil.
Um carro não identificado às 01h10, seguindo a direção tomada por duas pessoas que podiam ser Isabella e Victoria.
Era uma pista.
Nada além disso.
Ainda.
Somente depois de Paul sair para continuar a análise Sarah colocou a fotografia recente de Rebecca Morrow sobre a mesa.
Quil olhou.
— Quem é?
— Margaret acredita que seja Rebecca Morrow.
Quil ficou em silêncio.
— Fotografada onze dias atrás — continuou Sarah. — Em Miami.
Quil se aproximou.
— Ela está viva?
— Margaret acredita que sim.
— Você acredita em Margaret?
Sarah olhou para ele.
— Acredito que Margaret nos mostrou uma fotografia de uma mulher idosa e afirmou que é Rebecca. O resto precisa ser verificado.
Quil quase sorriu.
— Harry fazia exatamente isso.
Sarah endureceu.
— Margaret também disse.
O sorriso desapareceu.
— Desculpe.
Sarah respirou.
— Vocês conheceram meu tio. Eu entendo. Mas não usem ele para validar tudo que eu faço.
Quil assentiu.
— Certo.
Ela colocou a chave prateada ao lado da fotografia.
Quil empalideceu.
— Onde conseguiu?
— Margaret.
— É a chave.
— Você não pode saber com certeza.
— Vi uma parecida uma vez.
— Onde?
— Com Harry.
Sarah parou.
— Quando?
— Anos antes da morte dele.
— Ele tinha essa chave?
— Uma parecida.
— O que disse?
— Que existiam lugares em Saint Claire que os Black acreditavam possuir, mas nunca tinham realmente pertencido a eles.
Jacob franziu a testa.
— Praia norte.
— Provavelmente.
Sarah olhou para a chave.
— Margaret afirma que abre o arquivo original sob a antiga propriedade da praia norte.
Quil fechou os olhos.
— Então ela encontrou.
— Encontrou o quê?
— A chave que desapareceu depois de Harry morrer.
Sarah ficou absolutamente imóvel.
— Você sabia que Harry tinha uma chave e nunca disse.
— Eu não sabia que era importante até agora.
Sarah riu, sem humor.
— Essa frase deveria estar gravada na entrada desta casa.
Embry, do fundo:
— Eu apoio.
Jacob olhou para Sarah.
— Não vamos hoje.
Ela virou-se.
— Eu sei.
— Não discuta.
— Eu não ia discutir.
— Você sempre discute.
— Porque normalmente você merece.
Ele quase sorriu.
— Amanhã.
Sarah olhou para a chave.
— Amanhã, com Paul verificando a estrutura primeiro.
— Sim.
— Quil vem.
Jacob franziu a testa.
— Por quê?
— Porque se ele reconhece a chave e conhece a propriedade antiga, quero ele onde podemos vê-lo.
Quil assentiu.
— Justo.
— Edward também.
Edward ergueu as sobrancelhas.
— Eu?
— Isabella usava aquela casa para encontrar você. Se houver alguma coisa que reconheça, quero saber.
O desconforto atravessou Jacob.
Sarah percebeu.
— Você consegue?
Ele olhou para ela.
Depois para Edward.
— Consigo.
Edward não disse nada.
Mais tarde, quando a casa finalmente ficou quieta, Sarah entrou no quarto e encontrou Jacob sentado na ponta da cama.
Ele havia tomado banho.
Cabelos ainda úmidos.
Camiseta escura.
Cotovelos apoiados nos joelhos.
Sarah fechou a porta.
— Você está fazendo aquela coisa.
— Que coisa?
— Pensando até parecer que quer processar o universo.
— Talvez eu queira.
Ela deixou a bolsa sobre a cômoda.
— Quil confirmou parte da gravação.
— Sim.
— Paul encontrou uma segunda câmera independentemente de Margaret.
— Sim.
— Isso aumenta a credibilidade da sequência.
— Sim.
Sarah sentou ao lado.
— Mas ainda não sabemos como Isabella chegou ao mar.
Jacob ficou quieto.
— Não.
— Não sabemos se Victoria a alcançou.
— Não.
— Não sabemos quem dirigia o carro das 01h10.
— Não.
— Não sabemos quando Isabella morreu.
— Não.
Jacob passou as mãos pelo rosto.
— Quatro anos e agora tenho mais pessoas naquela noite do que tinha numa festa.
Sarah encostou o ombro no dele.
— Edward.
— Sim.
— Quil.
— Sim.
— Charlie.
— Sim.
— Aro.
— Sim.
— Victoria.
— Sim.
— Um motorista desconhecido.
— Talvez.
— E Isabella.
Jacob respirou.
— No centro de todos.
Sarah olhou para ele.
— Talvez porque ela tenha descoberto coisas demais ao mesmo tempo.
— E tentou resolver sozinha.
— Não completamente. Chamou Quil. Procurou Margaret. Tentou falar com você.
Jacob ficou quieto.
— Mas tarde demais.
Sarah não respondeu.
Não havia frase boa para aquilo.
Depois de algum tempo, Jacob perguntou:
— Você acha que ela estava voltando para casa?
Sarah sabia que ele não falava de uma casa.
— Não sei.
Ele assentiu.
— Obrigado.
— Por quê?
— Por não dizer sim só porque acha que eu preciso.
Sarah segurou sua mão.
— Você merece verdade. Não conforto inventado.
Jacob olhou para ela.
— Isso é assustadoramente romântico vindo de você.
— Não se acostume.
Ele sorriu.
— Tarde demais.
Sarah apoiou a cabeça em seu ombro.
Ficaram em silêncio.
Depois Jacob falou:
— Na praia ontem...
Ela fechou os olhos.
— Não.
— O telefone interrompeu.
— Ainda não.
— Eu nem disse o que ia falar.
Sarah levantou o rosto.
— Ia dizer?
Jacob sustentou seu olhar.
O humor desapareceu.
— Ia.
O coração dela acelerou.
— E agora?
— Agora eu quero dizer ainda mais.
Sarah respirou.
— Então por que não diz?
Jacob tocou seu rosto.
— Porque você pediu que fosse nosso.
— Isso é nosso.
— Não.
Ele olhou em direção à porta.
— Quil está a vinte metros. Edward provavelmente está acordado. Embry tem capacidade sobrenatural de aparecer nos piores momentos.
Sarah começou a rir.
— Isso é verdade.
Jacob sorriu.
— Quando eu disser, quero alguns minutos em que ninguém esteja morto, fingindo estar morto, escondido numa ilha, envolvido em empresa fantasma ou batendo na porta.
— Ambicioso.
— Muito.
Ela o beijou.
— Então espere.
— Odeio esperar.
— Eu sei.
Jacob puxou-a para deitar.
Sarah se acomodou contra ele.
— Amanhã abrimos o arquivo.
— Talvez.
Ela levantou a cabeça.
— Talvez?
Jacob sorriu.
— Estou aprendendo.
Sarah riu.
— Muito bem.
Ele beijou sua testa.
— Dorme.
— Mandão.
— Cansado.
— Eu também.
Ela fechou os olhos.
Às seis e vinte da manhã, Paul já estava na biblioteca quando Sarah e Jacob desceram.
Embry estava com café.
Edward também.
Quil permanecia diante do mapa antigo da praia norte.
Sarah percebeu imediatamente que ninguém tinha dormido o suficiente.
— Encontrou o carro? — perguntou.
Paul assentiu.
Jacob parou.
— Modelo?
— Sim.
Paul virou o computador.
Uma reconstrução ampliada da imagem das 01h10.
— Sedã. Modelo compatível com três veículos registrados nas Bahamas naquele período.
— Proprietários?
— Dois não têm ligação conhecida com nada disso.
Sarah percebeu a palavra.
— E o terceiro?
Paul abriu um registro.
Meridian Fiduciary Services.
Silêncio.
Sarah sentiu um arrepio.
A empresa ligada ao veículo usado por Margaret em Nassau quatro anos antes.
A mesma empresa cuja estrutura de encerramento trazia a referência RM-01.
Jacob aproximou-se.
— Margaret.
Sarah imediatamente respondeu:
— Não.
Ele olhou.
— O carro era da empresa ligada a ela.
— Ligada também a Aro.
Jacob ficou quieto.
Paul assentiu.
— Sarah está certa. O registro da empresa não identifica quem usava o carro naquela noite.
— Mas cria uma ligação — disse Edward.
— Sim.
Sarah olhou para Quil.
Ele estava pálido.
— O que foi?
Quil demorou.
— Aro não chegou de sedã.
Jacob franziu a testa.
— Como?
— Naquela noite. Ele veio da marina em um utilitário.
Paul ficou atento.
— Tem certeza?
— Sim.
Sarah olhou para a tela.
— Então, se o sedã das 01h10 realmente for o veículo da Meridian...
— Não era o carro de Aro — completou Jacob.
— Pelo menos não o que Quil viu Aro usando — corrigiu Sarah.
Jacob assentiu.
— Certo.
Paul abriu outra imagem.
— Tem mais uma coisa.
Sarah se aproximou.
— O sedã aparece novamente.
— Quando?
— 01h38.
— Voltando?
— Sim.
Sarah sentiu o coração acelerar.
— E?
Paul congelou o quadro.
O carro estava parcialmente de lado.
A imagem era ruim.
Mas havia duas silhuetas na frente.
Motorista.
Passageiro.
E algo — ou alguém — no banco traseiro.
Jacob parou de respirar.
Sarah aproximou o rosto da tela.
— Não dá para identificar.
— Não — disse Paul.
— Nem dizer se é uma pessoa.
— Não.
Jacob ficou olhando.
Sarah segurou sua mão.
— Não conclua.
— Eu sei.
Ela olhou para ele.
Jacob não tirou os olhos da imagem.
— Eu sei, Sarah.
Paul ampliou o máximo possível.
A imagem se desfez em pixels.
Nada.
Nenhum rosto.
Nenhuma certeza.
Apenas um veículo ligado a uma empresa que conectava Aro, Margaret e R.M., atravessando Saint Claire na mesma direção tomada por Isabella e pela mulher que podia ser Victoria.
À 01h10.
E retornando vinte e oito minutos depois.
Sarah olhou para a chave prateada sobre a mesa.
Depois para o mapa da praia norte.
— Não vamos perseguir o carro primeiro.
Jacob virou-se.
— Não?
— Não.
Ela tocou a chave.
— Isabella disse que encontrou a entrada.
Quil ficou imóvel.
Sarah continuou:
— Margaret diz que o arquivo original está sob a praia norte. Harry conhecia uma chave parecida. Isabella escreveu “procure na casa”. E alguém naquela noite estava discutindo justamente sobre entrar em alguma coisa.
Edward entendeu.
— O que aconteceu na estrada pode ter começado na casa.
Sarah assentiu.
— Exatamente.
Jacob olhou para o mapa.
— Então vamos descobrir o que ainda está embaixo dela.
Sarah fechou a mão sobre a chave.
Desta vez, não estavam seguindo apenas o caminho de Isabella.
Estavam seguindo o de Harry.
E, se Margaret tivesse dito a verdade sobre aquela chave, sob as ruínas da antiga casa de hóspedes talvez estivesse a única coisa que quase todos naquela história haviam tentado encontrar, esconder, proteger ou roubar.
O arquivo que existia antes da Northstar.
Antes de Charlie.
Antes de Billy assumir qualquer parte dos negócios.
E talvez antes de todos começarem a mentir sobre quem realmente era dono de quê.
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