ILHA DOS DESEJOS
25 Capítulo 25 — Debaixo da casa
Às sete e dez da manhã, Paul disse não.
Sarah, Jacob, Edward, Quil e Embry olharam para ele.
Paul continuou tomando café.
— Não.
Jacob cruzou os braços.
— A ilha é minha.
— Isso não muda engenharia estrutural.
— A casa foi demolida.
— Exatamente.
— Conheço aquela propriedade desde criança.
— E isso também não lhe dá conhecimento sobre estruturas subterrâneas construídas sabe-se lá quando.
Embry levantou a caneca.
— Eu gostaria de registrar meu apoio ao homem que pretende evitar que sejamos enterrados vivos.
Jacob lançou-lhe um olhar.
— Ninguém perguntou.
— Isso raramente me impede.
Sarah estava sentada diante do mapa antigo da praia norte.
— Paul está certo.
Jacob virou-se.
— Você também?
— Principalmente eu.
— Temos uma chave.
— Que pode abrir uma porta embaixo de toneladas de concreto.
— Margaret disse que existe uma entrada.
— Margaret também disse várias coisas que ainda estamos verificando.
Paul apontou para Sarah.
— Exatamente.
Jacob respirou profundamente.
— Quanto tempo?
— Para fazer uma inspeção preliminar? Algumas horas.
— Horas?
— Prefere semanas no hospital?
— Não.
— Então algumas horas.
Sarah sorriu.
— Viu? Negociação.
Jacob olhou para ela.
— Estou começando a me arrepender de ter colocado vocês dois na mesma equipe.
— Você me contratou.
— Não esqueço um único dia.
Edward, sentado mais afastado, murmurou:
— Isso soou menos profissional do que você pretendia.
Jacob olhou para ele.
Embry começou a rir.
Sarah fechou os olhos.
— Podemos, por favor, voltar ao arquivo subterrâneo potencialmente mortal?
— Finalmente alguém responsável — disse Paul.
A equipe saiu pouco depois das oito.
Paul levou dois homens da segurança, além de um engenheiro que trabalhava havia anos na manutenção das estruturas antigas da ilha. Sarah insistiu que ninguém soubesse exatamente o que procuravam. Oficialmente, estavam avaliando a fundação remanescente da antiga casa de hóspedes antes de uma possível reconstrução.
Jacob achou excessivo.
Sarah chamou de prudência.
Paul chamou de procedimento.
Embry chamou de mentira corporativa elegante.
Quil permaneceu sob vigilância durante todo o percurso.
Não algemado.
Não preso.
Mas também não livre para desaparecer.
Edward foi no segundo veículo.
Sarah seguiu com Jacob.
Durante quase todo o trajeto, ele ficou olhando pela janela.
Ela percebeu.
— Está arrependido?
— De quê?
— De vir.
— Não.
— Está pensando nela.
Jacob não fingiu não entender.
— Sim.
Aquela estrada.
Aquela praia.
Aquela casa.
Isabella.
Edward.
Mentiras.
Morte.
Sarah colocou a mão sobre a dele.
— Podemos parar.
Jacob olhou.
— Não.
— Não precisa provar nada.
— Não estou provando.
— Tem certeza?
Ele demorou.
— Não.
Sarah assentiu.
Aquilo bastava.
— Então vamos devagar.
Jacob entrelaçou os dedos nos dela.
— Você sempre fala comigo como se eu fosse um animal selvagem.
— Você se comporta como um às vezes.
— E ainda assim dorme comigo.
Sarah ergueu uma sobrancelha.
— Dormir é a palavra importante.
Jacob finalmente sorriu.
— Cruel.
— Preciso manter expectativas sob controle.
— Minhas expectativas estão muito bem informadas.
— Jacob.
Ele levou a mão dela aos lábios.
— Estou melhor.
Sarah percebeu que era verdade.
Não completamente.
Mas melhor.
A praia norte apareceu depois da última curva.
Turquesa.
Branca.
Perfeita.
E as ruínas pareciam uma cicatriz naquele cenário.
A vegetação havia crescido sobre parte da antiga fundação.
Concreto quebrado.
Pedras.
Restos da estrutura que Jacob mandara demolir três dias depois da morte de Isabella, sem saber que ela e Edward haviam usado a casa para encontros secretos.
Edward saiu do carro e ficou imóvel.
Jacob viu.
Os dois se encararam.
Nenhum falou.
Sarah sentiu a tensão.
Quil quebrou o silêncio.
— A entrada não ficava dentro da casa.
Todos olharam.
Sarah se aproximou.
— Onde?
Quil apontou para o lado norte da fundação.
— Harry mostrou uma vez uma diferença na parede de contenção.
— Você viu a entrada?
— Não.
— Então o que viu?
— Uma linha de concreto mais antigo.
Sarah assentiu.
— Mostre.
Quil caminhou.
Paul foi atrás.
Jacob segurou Sarah antes que ela seguisse.
— Espere eles verificarem.
Ela olhou.
— Isso foi um pedido?
— Estou evoluindo.
— Impressionante.
— Não exagere.
A primeira descoberta aconteceu às nove e vinte e seis.
Não era uma porta.
Era uma parede.
Duas camadas diferentes de concreto.
A exterior provavelmente tinha sido construída durante uma reforma posterior.
A interior era muito mais antiga.
O engenheiro passou quase quarenta minutos avaliando.
— Há espaço vazio atrás.
Jacob olhou para Sarah.
Ela sentiu o coração acelerar.
— Quanto?
— Não consigo dizer.
Paul perguntou:
— Seguro?
— Se abrirmos aqui, provavelmente.
— Provavelmente não é minha palavra favorita — disse Jacob.
Sarah olhou.
— Agora você entende.
O engenheiro abriu uma pequena passagem usando ferramentas.
Atrás do concreto havia escuridão.
Ar frio escapou.
Embry recuou.
— Absolutamente não.
Edward olhou.
— Medo?
— Inteligência.
Paul iluminou.
Uma escada.
Descendo.
Sarah ficou imóvel.
Jacob aproximou-se.
— Margaret estava certa.
Sarah respondeu:
— Sobre existir alguma coisa.
Ele sorriu.
— Eu sabia.
— Não estrague.
A escada terminava numa pequena plataforma.
Paul entrou primeiro.
Depois o engenheiro.
Só quando confirmaram estabilidade suficiente permitiram que os demais descessem.
Jacob foi antes de Sarah.
Ela percebeu.
Não discutiu.
Edward veio depois.
Quil por último, acompanhado por um dos homens de Paul.
Embry ficou no alto.
— Alguém precisa sobreviver para contar a história.
Sarah olhou para cima.
— Covarde.
— Vivo.
A luz das lanternas percorreu paredes antigas de pedra e concreto.
O corredor era estreito.
Úmido.
Mas intacto.
Sarah observou a alvenaria sem tocá-la.
— Isso é muito mais antigo que a casa.
Quil assentiu.
— Sim.
— Quanto?
— Não sei.
Seguiram.
Vinte metros.
Talvez mais.
Até uma porta de metal aparecer.
Sem maçaneta.
Apenas uma pequena abertura central.
Sarah tirou a chave.
Jacob olhou.
— Ainda podemos voltar.
Ela virou-se.
— Você quer?
Ele olhou para a porta.
Depois para ela.
— Não.
— Eu também não.
Sarah inseriu a chave.
Não girou.
— Droga.
Jacob soltou o ar.
— Margaret mentiu.
— Ou estamos usando errado.
Sarah examinou.
A chave tinha pequenos entalhes laterais.
A abertura também.
Quil se aproximou.
— Gire primeiro para a esquerda.
— Como sabe?
— Harry fazia isso com o compartimento da bússola.
Sarah olhou.
— Você viu?
— Uma vez.
Ela hesitou.
Depois girou para a esquerda.
Um clique.
Empurrou.
Girou para a direita.
Outro.
A porta destravou.
Ninguém falou.
Sarah olhou para Jacob.
— Juntos?
Ele colocou a mão sobre a dela.
— Juntos.
Abriram.
O arquivo não parecia um cofre.
Parecia uma biblioteca esquecida.
Prateleiras metálicas.
Caixas.
Tubos para mapas.
Livros encadernados.
Armários.
Tudo protegido por uma estrutura interna surpreendentemente seca.
Edward soltou o ar.
— Meu Deus.
Quil não se mexeu.
Jacob entrou.
Sarah foi atrás.
Havia poeira.
Mas menos do que deveria.
Ela percebeu.
— Alguém esteve aqui.
Paul iluminou o chão.
Marcas.
Pegadas antigas.
E outras menos antigas.
— Quanto tempo? — perguntou Jacob.
— Não sei — respondeu Paul. — Mas isso não ficou fechado por vinte anos.
Sarah olhou para a fechadura.
— Então existe outra entrada.
Quil ficou tenso.
— Ou outra chave.
— Também.
Jacob caminhou até uma mesa.
Havia um objeto sobre ela.
Uma fotografia.
Sarah se aproximou.
Isabella.
Jacob parou.
A fotografia mostrava Isabella dentro daquele mesmo arquivo.
Viva.
A data impressa no canto indicava dois dias antes de sua morte.
Edward ficou branco.
— Ela entrou.
Sarah pegou cuidadosamente a fotografia pelas bordas.
— Margaret disse que não sabia se Isabella havia conseguido entrar.
Jacob olhou.
— Então alguém fotografou Isabella aqui.
— Sim.
— Quem?
Sarah virou a foto.
Uma frase escrita à mão:
Ela encontrou primeiro.
Nada mais.
Paul imediatamente proibiu todos de tocar em qualquer coisa.
Embry foi chamado.
Quando desceu e viu o arquivo, permaneceu em silêncio por quase quinze segundos.
Sarah olhou.
— Você está bem?
— Estou escolhendo palavras.
— Isso é novo.
— Obrigado.
Ele olhou ao redor.
— Certo. Isso é muito pior do que eu imaginava.
Edward caminhou lentamente entre as prateleiras.
Sem tocar.
— Isabella nunca me contou que entrou aqui.
Jacob olhou.
— Talvez porque já tivesse terminado com você.
Edward aceitou.
— Talvez.
Sarah percebeu o velho veneno querendo retornar.
— Não agora.
Jacob assentiu.
Edward também.
Quil estava diante de uma estante.
Imóvel.
— O que foi? — perguntou Sarah.
Ele apontou.
Uma caixa.
Etiqueta antiga.
BLACK — CUSTÓDIA TEMPORÁRIA
Outra.
MORROW — BENEFICIÁRIOS
Outra.
CLEARWATER — REPRESENTAÇÃO
Sarah sentiu o coração acelerar.
Não propriedade.
Representação.
Exatamente como Margaret afirmara.
Jacob olhou para a caixa Black.
— Custódia temporária.
Sarah percebeu.
— Isso pode significar muitas coisas.
— Eu sei.
Ela olhou.
Jacob sorriu sem humor.
— Aprendi.
— Estou orgulhosa.
— Pare.
Paul montou uma área de catalogação improvisada.
Nada sairia dali sem registro.
Começaram pelo que parecia diretamente ligado às descobertas atuais.
MORROW — BENEFICIÁRIOS.
Dentro havia documentos muito antigos.
Certidões.
Atos fiduciários.
Correspondências.
Sarah lia devagar.
Rebecca Marianne Morrow.
O nome aparecia.
R.M.
Margaret dissera a verdade sobre isso.
Pelo menos naquela parte.
Havia também Miriam Morrow.
A irmã.
Morta.
Sarah encontrou a certidão.
— Aqui.
Jacob aproximou.
Miriam morrera vinte e três anos antes.
Poucos meses depois, um documento registrava o encerramento de direitos atribuídos apenas pelas iniciais R.M.
Sarah sentiu frio.
— Então alguém pode ter usado a morte de Miriam para tentar encerrar os direitos de Rebecca.
Edward leu.
— Mas o documento não identifica qual das duas como R.M.
— Exatamente.
Outro documento.
Seis meses depois.
AUTORIZAÇÃO EXTERNA — R.M.
A assinatura.
Sarah comparou com os arquivos digitalizados da bússola.
— É a mesma referência.
Quil aproximou.
— Então Rebecca estava viva.
Sarah respondeu:
— Ou alguém continuava usando R.M.
Quil assentiu.
— Certo.
Jacob encontrou uma carta.
— Sarah.
Ela foi até ele.
Papel envelhecido.
Remetente:
Ephraim Black.
Destinatário:
Aro Volturi.
Jacob ficou imóvel.
— Leia — disse Sarah.
Ele respirou.
A carta era curta.
Ephraim dizia que não autorizaria a transferência definitiva dos ativos enquanto “a situação de R.M.” não estivesse esclarecida.
Sarah olhou para Jacob.
— Seu avô não estava simplesmente entregando tudo a Aro.
— Parece que não.
— Parece.
Ele assentiu.
Continuaram.
Outra carta.
Aro para Ephraim.
Tom agressivo.
Afirmava que a morte da beneficiária encerrava qualquer impedimento.
Resposta de Ephraim:
A mulher morta não é aquela cuja autorização você tenta extinguir.
Silêncio.
Sarah sentiu um arrepio.
— Ephraim acreditava que estavam usando a morte da mulher errada.
Jacob olhou.
— E enfrentou Aro.
— Nesse assunto.
Jacob respirou.
Não era absolvição.
Mas também não era a história simples que começara a imaginar.
Sarah apertou sua mão.
— Pessoas complicadas.
— Odeio quando você está certa.
— Vai sofrer muito comigo.
Ele olhou para ela.
— Pretendo.
O coração dela tropeçou.
Embry, do outro lado:
— Ouvi isso.
Jacob fechou os olhos.
— Eu vou matar ele.
Sarah começou a rir.
A caixa Clearwater foi aberta depois.
Sarah demorou antes de tocar.
Jacob percebeu.
— Não precisa.
— Preciso.
— Não.
Ela olhou.
— Quero.
Ele assentiu.
Sarah abriu.
Documentos.
Nenhum testamento secreto.
Nenhuma fortuna inesperada.
Nenhuma revelação de que Sarah era dona da ilha.
Os Clearwater apareciam como representantes.
Auditores.
Custodiantes.
Consultores.
Pessoas diferentes, em épocas diferentes.
Sarah encontrou Harry.
Harry Clearwater — consultor independente.
Seu peito apertou.
Outro documento.
A assinatura dele.
Mais jovem.
Outro.
Anotações à mão.
Ela reconheceria em qualquer lugar.
Jacob ficou ao lado.
Não tocou.
Sarah leu.
Harry havia identificado divergências entre mapas de propriedades e registros fiduciários.
Algumas áreas costeiras tinham sido transferidas sem autorização completa dos beneficiários.
Entre elas:
Saint Claire.
Sarah sentiu um arrepio.
— Ele encontrou isso.
Quil assentiu.
— Sim.
— Foi aqui que começou para ele.
— Acredito que sim.
Sarah olhou.
— Você sabe ou acredita?
— Acredito.
— Certo.
Ela continuou.
Um memorando de Harry.
Não existe prova suficiente para acusar Black de origem. Os registros indicam que a família recebeu parte das propriedades após a primeira reorganização. Determinar o conhecimento de Ephraim antes de concluir participação.
Sarah ficou olhando.
Jacob leu por cima de seu ombro.
— Ele fazia a mesma coisa que você.
Ela sorriu, triste.
— Talvez eu tenha aprendido mais do que percebia.
Outro bilhete:
A.V. insiste que R.M. morreu. E.B. diz que não. Descobrir quem está mentindo antes de agir.
Jacob respirou.
— Ephraim dizia que R.M. estava viva.
— Se Harry estava interpretando R.M. como uma mulher naquele momento, sim.
Jacob olhou para ela.
— Você é impossível.
— Consistente.
Ele beijou sua têmpora.
— Também.
Edward chamou de outra estante.
— Encontrei Northstar.
Todos se aproximaram.
A caixa era mais recente.
NORTHSTAR — REORGANIZAÇÃO.
Sarah sentiu imediatamente.
— Talvez seja aqui que “nós quatro começamos” se encaixe.
Quil ficou atento.
Abriram.
O primeiro documento tinha data posterior à estrutura original.
Muito posterior.
Nomes:
Aro Volturi.
Billy Black.
Charlie Swan.
Quil Mercer.
Jacob olhou para Quil.
Ele empalideceu.
— Eu nunca fui sócio.
Sarah leu.
— Não diz sócio.
— O quê?
— Comitê operacional extraordinário.
Edward aproximou.
Sarah continuou lendo.
O grupo havia sido criado para localizar, congelar e reorganizar ativos considerados “sem titularidade verificável” depois de décadas de disputas.
Jacob compreendeu.
— “Nós quatro começamos.”
Sarah assentiu.
— Pode ser esta fase.
— Não a origem da Northstar.
— Exatamente.
Quil sentou-se.
— Então era isso.
Jacob olhou.
— Você não sabia?
— Eu sabia que Billy havia criado um grupo para tentar separar ativos. Não sabia que Charlie guardara aquilo como “começamos”.
Sarah pensou.
— E “apenas dois tentaram terminar”.
Silêncio.
— Billy — disse Jacob.
— Provavelmente um — respondeu Sarah.
— E o outro?
Todos pensaram em Charlie.
Sarah levantou a mão antes que alguém transformasse pensamento em fato.
— A carta de Isabella indica Billy e Charlie como homens que entraram depois e tentaram sair. É uma pista forte. Ainda não é identificação definitiva dos dois da fotografia.
Jacob assentiu.
— Certo.
Pouco depois do meio-dia encontraram o livro.
Não escondido.
Não enterrado.
Numa caixa de metal sobre a prateleira mais baixa.
Edward viu primeiro.
— Isso parece um livro-caixa.
Sarah ficou imóvel.
Margaret.
Charlie procurando.
Isabella possivelmente retirando documentos.
O registro anterior à Northstar.
Paul fotografou antes de abrir.
Jacob ficou ao lado de Sarah.
A capa não tinha título.
A primeira página:
REGISTRO DE CUSTÓDIA E BENEFICIÁRIOS
Datas de mais de trinta anos antes.
Sarah começou a ler.
Ativos.
Empresas.
Terras.
Contas.
Nomes codificados.
E então:
R.M. — 41%
Outra linha.
Beneficiário II — 34%
Outra.
Beneficiário III — 25%
Sarah franziu a testa.
— Três.
— Como Margaret disse — falou Jacob.
— Sim.
Mas os nomes dos outros dois não estavam ali.
Apenas códigos.
Sarah virou páginas.
Mais transferências.
Mais empresas.
Até encontrar uma anotação em tinta vermelha.
Participações não poderão ser transferidas sem consentimento de R.M. enquanto houver beneficiários menores.
Sarah parou.
— Menores.
Jacob olhou.
— Os outros beneficiários eram crianças?
— Pelo menos em algum momento.
Edward aproximou-se.
— Então R.M. tinha autoridade sobre eles.
— Ou representava uma autoridade com essa função.
Quil ficou pálido.
— É por isso que Aro precisava de R.M. fora do caminho.
Sarah olhou.
— É uma possível motivação.
Quil assentiu antes que ela precisasse repetir.
Viraram outra página.
Uma fotografia caiu.
Sarah pegou.
Três crianças.
Duas meninas.
Um menino.
Fotografia antiga.
No verso havia apenas:
Os três.
Jacob ficou imóvel.
— Rebecca?
Sarah estudou.
A menina mais velha talvez tivesse doze anos.
A segunda, seis ou sete.
O menino, quatro.
— Não sabemos quem é quem.
Edward olhou.
— Margaret pode saber.
Sarah assentiu.
— Talvez.
Quil estava estranho.
— O quê? — perguntou Jacob.
— Já vi essa fotografia.
Sarah virou.
— Onde?
— Na casa de Billy.
Silêncio.
— Quando?
— Muitos anos atrás.
— Billy tinha uma cópia?
— Sim.
— Onde?
— Na caixa escura.
A mesma caixa que Edward vira.
A mesma sobre a qual Billy e Quil haviam discutido.
Sarah sentiu um arrepio.
— Então a caixa de Billy continha material sobre os beneficiários originais.
— Pelo menos essa fotografia.
— Você abriu?
— Não. Billy mostrou.
— Disse quem eram?
— Não.
Jacob ficou frustrado.
— Claro.
Quil continuou:
— Mas disse uma coisa.
— O quê?
Quil olhou para as três crianças.
— “Tudo isso começou porque alguém roubou de crianças.”
O silêncio tomou o arquivo.
Sarah voltou ao livro.
Três beneficiários.
Uma possível ligação de R.M. com Rebecca.
Duas identidades desconhecidas.
Ativos posteriormente fragmentados.
A Fundação Clearwater aparecendo em registros de custódia e representação.
Aro tentando assumir controle.
Ephraim resistindo em alguns documentos.
Depois Billy, Charlie, Quil e Aro envolvidos numa reorganização posterior.
Décadas de decisões sobrepostas.
— Isso muda a escala do problema — disse Sarah.
Jacob olhou.
— Como?
— Começamos achando que isso era sobre dinheiro desviado dos Black.
— Sim.
— Depois parecia dinheiro escondido em nome de Isabella.
— Sim.
— Agora temos evidência de que alguns ativos podem ter origem numa disputa patrimonial muito anterior.
Jacob ficou quieto.
— Inclusive terras de Saint Claire.
— Algumas, aparentemente.
— E se for mais?
Sarah se aproximou.
— Então descobrimos.
— E se parte do que tenho veio de algo que nunca deveria ter pertencido à minha família?
— Então você decide o que fazer quando souber exatamente o quê.
— Simples assim?
— Não. Horrivelmente complicado.
Ela segurou seu rosto.
— Mas você não escolheu o que Ephraim fez. Nem Billy. Nem Aro. Você escolhe o que Jacob faz quando conhece os fatos.
Ele ficou olhando para ela.
— Como consegue fazer isso?
— O quê?
— Me impedir de desmoronar sem fingir que está tudo bem.
Sarah sorriu suavemente.
— Talento.
Jacob puxou-a.
O abraço veio forte.
Sem se importar com quem estava olhando.
Embry, pela primeira vez, não fez piada.
Foi Edward quem encontrou o compartimento.
Na mesa.
— Jacob.
Ele estava agachado.
— Tem alguma coisa aqui.
A parte inferior tinha uma pequena gaveta escondida.
Sem fechadura.
Dentro:
um gravador antigo.
E uma fita.
Sarah sentiu o coração acelerar.
Etiqueta:
I.S.
Jacob ficou pálido.
Isabella Swan.
— Data? — perguntou Sarah.
Edward virou.
A data era do dia anterior à morte de Isabella.
— Ela gravou aqui — murmurou Jacob.
Paul preparou o equipamento.
A fita estava preservada.
O som começou com ruído.
Depois a voz de Isabella.
Jacob fechou os olhos.
— Meu nome é Isabella Swan.
Pausa.
— Se alguém encontrar isso, eu entrei no arquivo da praia norte.
Sarah segurou a mão de Jacob.
— Edward não sabe que estou aqui.
Edward baixou os olhos.
— Jacob também não.
Jacob respirou.
— Eu passei meses mentindo para os dois de maneiras diferentes.
Pausa.
— Não vou tentar explicar isso nesta gravação. O que fiz com Edward foi minha escolha. Foi errado. E não tem nada a ver com o que encontrei aqui.
Jacob apertou os dedos de Sarah.
— Meu pai está vivo.
— Charlie Swan não morreu no acidente.
— Eu o vi.
— Falei com ele.
— E ele tem medo de Aro Volturi.
Pausa.
— Mas também mente.
A voz continuou:
— Billy Black participou de coisas que Jacob não conhece. Mas os documentos aqui mostram que ele não criou a estrutura original.
— Ephraim Black também aparece. Algumas vezes contra Aro. Algumas vezes ao lado dele. Eu não sei por quê.
Sarah permaneceu imóvel.
Isabella continuou:
— Existe alguém identificado como R.M.
Pausa.
— Eu ainda não sei se R.M. é uma pessoa, uma representação ou um nome usado nos documentos.
Sarah virou imediatamente para Jacob.
Aquilo era coerente com a incerteza dos registros.
— Existe uma mulher tentando localizar os documentos ligados a R.M.
Quil ficou tenso.
— Ela me disse que quer ajudar.
Pausa.
— Eu não sei se acredito.
Jacob olhou para Sarah.
— Amanhã vou encontrar meu pai.
— Quil vai ficar por perto.
Agora aquela parte estava confirmada pela própria Isabella.
— Depois vou falar com Jacob.
A voz falhou.
— Tudo.
Silêncio.
— Inclusive Edward.
Edward virou o rosto.
— Não sei se Jacob vai me perdoar.
— Provavelmente não.
Jacob fechou os olhos.
— Mas ele merece odiar a verdade, não amar uma mentira.
Sarah sentiu os olhos arderem.
Depois de alguns segundos, Isabella continuou:
— Tirei uma coisa do cofre de Nassau.
Todos ficaram atentos.
— Não vou deixar aqui.
— É um documento anterior às reorganizações. Pode ajudar a identificar os outros beneficiários e explicar por que R.M. tinha autoridade sobre eles.
Sarah sentiu o coração acelerar.
— Se Aro encontrar, ele vai entender o quanto eu sei.
— Se meu pai encontrar, também.
Jacob apertou sua mão.
— Vou esconder onde nenhum deles procuraria.
Pausa.
— Com alguém que não tem nada a ver com isso.
Sarah prendeu a respiração.
— Essa pessoa não sabe o que está guardando.
— É melhor assim.
— Se eu conseguir contar a Jacob amanhã, pego de volta.
A voz ficou baixa.
— Se não...
Ruído.
Depois:
— ...espero que ninguém precise encontrar.
A fita terminou.
A fita terminou.
Por alguns segundos, ninguém falou.
Edward foi o primeiro a quebrar o silêncio.
— Então o livro ficou aqui.
Sarah assentiu lentamente.
— Sim. Isabella retirou outra coisa do cofre de Nassau. Um documento anterior às reorganizações, provavelmente capaz de identificar os outros beneficiários ou, pelo menos, explicar por que R.M. possuía aquela autoridade.
Jacob continuava olhando para o gravador.
— E entregou para alguém.
— Segundo ela — corrigiu Sarah. — A gravação diz que pretendia esconder o documento com alguém que não tinha relação com aquilo e que essa pessoa não sabia o que estava guardando. Ainda precisamos confirmar se ela realmente conseguiu fazer a entrega.
Embry soltou o ar.
— Isso nos deixa com praticamente toda a população que Isabella conhecia.
— Não — respondeu Sarah. — Deixa um universo grande, mas delimitável. Precisamos reconstruir as últimas quarenta e oito horas dela.
Paul assentiu.
— Posso levantar telefonemas, deslocamentos, funcionários da propriedade, pessoas do vilarejo, registros da marina e do aeroporto.
— E qualquer contato pessoal que Isabella mantivesse fora do círculo Black, Swan, Edward, Quil e Aro — acrescentou Sarah.
Quil apoiou a mão na mesa.
— Ela tinha contato com muita gente da ilha.
— Então começamos por frequência — disse Sarah. — Pessoas que ela procurou pessoalmente depois de voltar de Nassau. Não quero uma lista de nomes escolhidos porque parecem interessantes. Quero uma linha temporal.
Jacob olhou para ela.
— Você está pensando em alguém?
— Não.
— Ninguém?
— E esse é exatamente o ponto.
Sarah caminhou até a mesa e apoiou as duas mãos sobre a madeira.
— Já cometemos esse erro vezes demais. Encontramos “Clearwater” num documento e quase transformamos minha família inteira em parte da história. Encontramos Black e presumimos culpa herdada. Encontramos Swan e começamos a tratar Charlie como resposta para tudo. Agora não vamos escolher alguém para receber o documento de Isabella simplesmente porque um sobrenome, uma profissão ou uma coincidência torna a teoria mais bonita.
Quil permaneceu em silêncio.
Sarah olhou diretamente para ele.
— E isso vale especialmente para os Clearwater.
Jacob percebeu a firmeza em sua voz.
— Harry está aqui porque existem documentos, assinatura, trabalho realizado, a bússola, a carta e pessoas que confirmam relações específicas dele com essas estruturas.
— Exatamente — respondeu Sarah. — Não porque se chamava Clearwater.
Ela apontou para a caixa marcada CLEARWATER — REPRESENTAÇÃO.
— E essa caixa também não transforma cada pessoa com meu sobrenome em membro de uma organização secreta. “Clearwater” aparece aqui associado a funções de representação, auditoria e custódia em épocas diferentes. Precisamos descobrir quem eram essas pessoas individualmente e o que cada uma fez.
Edward assentiu.
— Então a pessoa que recebeu o documento continua desconhecida.
— Completamente — respondeu Sarah.
Embry pensou por alguns segundos.
— Isabella participava de atividades no vilarejo. Ajudava em eventos, conhecia comerciantes, funcionários, algumas famílias. Às vezes levava coisas para a escola local.
Sarah olhou para ele.
— Isso é útil como rotina. Não como identidade.
— Entendi.
— Não quero que alguém procure uma professora específica porque Isabella visitava uma escola. Quero saber quando ela esteve lá, se esteve depois de Nassau, com quem falou e quanto tempo permaneceu.
Paul já fazia anotações.
— Posso reconstruir isso.
— E amplie além da escola — continuou Sarah. — Igreja, mercado, marina, clínica, funcionários da propriedade, qualquer pessoa que ela tenha visitado entre a retirada do documento e a noite em que morreu.
Jacob finalmente desviou os olhos do gravador.
— Ela disse que escolheria alguém sem ligação com a história.
Sarah assentiu.
— O que significa que, se começarmos procurando pessoas já ligadas à Northstar, provavelmente estaremos fazendo exatamente o contrário do que Isabella pretendia.
Quil olhou para ela.
— Faz sentido.
— Mais do que isso. É nossa melhor orientação neste momento.
Paul fechou o bloco.
— Então reconstrução cronológica primeiro. Identidade depois.
Sarah assentiu.
— Exatamente.
Jacob olhou para o gravador.
— E até encontrarmos evidência de quem recebeu o documento...
— Essa pessoa não tem nome — concluiu Sarah.
Houve alguns segundos de silêncio.
Então Embry perguntou:
— Posso pelo menos chamar de “pessoa misteriosa número vinte e sete”?
Sarah olhou para ele.
— Não.
— Vinte e oito?
— Embry.
— Certo.
Jacob quase sorriu.
Sarah voltou os olhos para as caixas.
Harry Clearwater estava naquela história.
Isso agora era documentado.
Margaret usara o sobrenome Clearwater, embora o parentesco continuasse sem prova.
A Fundação Clearwater existira.
Também era fato.
Mas nenhum desses elementos transformava o sobrenome numa chave universal.
Sarah não permitiria que a investigação inventasse parentes, cúmplices ou guardiões apenas para preencher espaços vazios.
Se Isabella realmente entregara aquele documento a alguém, eles encontrariam essa pessoa da maneira correta.
Pelos movimentos de Isabella.
Pelos registros.
Pelo tempo.
Pelas provas.
E, até lá, aquela pessoa permaneceria exatamente como Isabella a deixara na gravação:
alguém que não tinha nada a ver com aquela história.
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