Notas iniciais
Acho que apelei muito nesse capitulo. Só acho.

A casa era simplesmente simples. Mas dava pra ver que era bem cuidada.

Do lado de fora as paredes de tijolos, por dentro, as paredes eram revestidas por reboco e gesso, e pintadas com uma cor azul-marinho. O chão era feito com madeira de carvalho envernizada, parecia velha, mas não rangia. A mobília parecia que já tinha certa idade. A maioria parecia da época da Inglaterra vitoriana. Outros da época da Segunda Guerra Mundial. As únicas coisas que poderiam ser consideradas atuais eram uma tevê de tela plana presa na parede, um notebook no balcão da cozinha, e um microondas e fogão.

Ao entrar, senti-me estranho, era como se o lugar fosse um museu de bizarrices. Martin, que entrara primeiro, pôs a lanterna em cima da mesa de centro da sala de estar, e se jogou em cima do sofá.

– Achou eles? – uma voz rouca vindo da cozinha perguntou.

– Achei pai – Martin respondeu. – Estavam na campina.

– Fazendo o que, até uma hora dessas? – a voz pareceu irritada. Rachel e eu nos entreolhamos. Acho que o pai dela não levaria na boa se Rachel falasse: ”Ah, sacomé, né pai. Só dando uma olhadinha no passado, falando com mortos, esse tipo de coisa”.

– Nada, pai – Rachel logo se apressou em falar. – Só estava mostrando a campina pro Jon. A gente se sentiu cansado e acabamos dormindo – ela tentou parecer o mais inocente possível.

Ouvimos passos vindos da cozinha indo para a sala. Do corredor, irrompeu um homem de meia idade, com os mesmos olhos castanhos que Martin tinha, com uma barba por fazer, e tinha um cabelo castanho-avermelhado desarrumado. Ele vestia uma camiseta branca com uma calça moletom cinza claro, e seus pés estavam descalços. Quando ele nos viu, cruzou os braços num gesto de reprovação, e seu rosto tinha uma expressão severa.

– Acho que isso não me convenceu – o pai de Martin inclinou um pouco a cabeça. – Tente de novo.

– Tá, depois te explico. Antes de tudo, as apresentações – Rachel esticou a mão em direção ao pai num gesto de apresentação. – Jon, esse é meu pai, Phillip Harper. Pai, esse é Jon Fuller, meu amigo – ela botou ênfase nesse amigo de propósito, como que se tivesse que confirmar isso pro pai.

– Prazer em te conhecer, senhor – eu disse esticando a mão para que ele a apertasse.

– O prazer é meu – ele apertou a minha mão com os olhos semicerrados. – Acho que já te vi em algum lugar. Talvez Nova York. Não me lembro.

– Nova York, senhor?

– Sim, eu trabalho lá – Phillip fez uma cara de desentendido.

– Como? – perguntei inocentemente.

– A mesma moeda que circula no mundo humano, circula aqui também. – ele se virou para Rachel – Ele é daqui mesmo? – ele sussurrou para a filha.

Ela apenas assentiu, se virou e entrou num corredor.

Nunca havia perguntado pra ninguém esse tipo de coisa desde que eu chegara ao Limbo. Por mim deixava do jeito que tava. Eu sou meio assim:” Tá funcionando, ta bom demais”. Nunca fui de mexer com dinheiro ou números, sempre evitava as aulas de matemática por meio dos recursos: Dormir até a aula acabar; Dizer que estava passando mal; Ou em último caso, dizer que minha mãe tava no hospital e tinha que ir pra lá. Eu era um pouco radical com essas coisas.

– Tudo bem – Phillip coçou a nuca. – Martin de uma toalha para o seu amigo imundo – eu me senti um pouco constrangido com isso. Eu não percebera que estava todo coberto de terra. E por incrível que pareça, Rachel estava limpa, sem um grão de sujeira na roupa.

– Pra que a toalha? – Martin perguntou por cima do sofá.

– Pra ele tomar um banho, sua besta – Phillip berrou por cima do ombro. – E tira o pé de cima do sofá, já é a milésima vez que eu te falo...

Perguntava-me se aquilo era ter um pai presente, e não um que tenta te matar. Sinceramente, nunca fiquei imaginando como seria se meu pai ficasse brincando comigo quando criança. Uma vez perguntei a Sacha, o porquê de o meu pai nos deixar. Ela apenas respondeu:

– Porque ele é um babaca, Jon.

Hoje eu concordaria com ela, mas quando eu era mais novo, no fundo queria que o meu pai não fosse um idiota completo.

Quando dei por mim, Phillip já havia saído da sala e ido para o seu quarto. Martin tinha ido ao seu quarto e voltou com uma toalha preta no ombro e segurava roupas nos braços. Ele retirou a toalha e jogou para mim, depois me entregou as roupas.

– O banheiro é no final do corredor – ele disse voltando pro quarto. – Seja rápido. Minha irmã também quer tomar banho.

Ao entrar no banheiro, senti o cheiro inebriante de sabão e xampu. O ar quente queimava os pelos das minhas narinas. Despi-me, e entrei debaixo do chuveiro. Liguei-o e senti as gotas de água quente bater contra a pele do meu corpo cansado. Meus cabelos molhados colaram na minha testa, cobrindo um pouco os meus olhos. Pus a mão na parede de ladrilhos brancos e me apoiei nela, olhei para baixo e vi o filete de terra escorrendo pra fora da minha pele.

– Queria que fosse o sangue do meu pai escorrendo pra fora de mim – murmurei pra mim mesmo.

Eu não queria ser filho da Morte, não é uma coisa legal de se ser. Por ser quem eu sou, eu me meti involuntariamente numa porcaria de guerra que já perdera o sentido faz muito tempo.

Vi que não estava mais sujo, e fechei o chuveiro. Olhei em volta do banheiro e vi que tinha esquecido as roupas em cima do sofá. Enrolei a toalha em volta da minha cintura, e peguei outra toalha que estava jogada e comecei a secar o rosto. Tateei a porta em busca da maçaneta, quando a achei, abri a porta. Depois que sai, tirei a toalha do meu rosto, e ouvi um gritinho. Rachel estava parada na minha frente, com uma toalha no ombro, me encarando. Seus olhos corriam pelo meu corpo, com voracidade e curiosidade. Percebi que ela só tinha dado conta do que estava fazendo, quando seu rosto ficou vermelho. Rapidamente, ela olhou para o outro lado.

– Desculpe-me – eu disse. – Tinha esquecido as roupas no sofá.

– Tudo b-bem – ela gaguejou com o rosto ainda vermelho. – Só vá l-logo.

Caminhei pro sofá, e ouvi Rachel bater a porta com força. Senti os músculos do meu rosto se esticar num sorriso quase obsceno. Sacudi a cabeça, tentando tirar o sorriso do meu rosto, e os pensamentos que vieram junto a ele. Sem sucesso. Foi impossível não rir alto. De repente, ouvi Martin gritar de dentro do quarto:

– Cala boca! Eu quero dormir.

Abafei a risada com a mão, mas ainda ouvia uma risada. Ela vinha de dentro do banheiro. Acho que ela não conseguiu evitar rir também.

Logo depois, sequei o resto do meu corpo. Era estranho trocar de roupa na casa de outra pessoa se não a sua, sentia que não era bem-vindo ali. Eu iria matar Martin. Depois de me secar eu pus uma cueca, e um short velho, até ai tudo bem. Quando peguei a camiseta, a raiva subiu. A camiseta era, pelo menos, três tamanhos menores do que eu usava, e ainda por cima uma estampa dos Teletubbies.

– Eu ainda te mato – murmurei baixinho.

Como era a única camiseta que dava pra usar, achei que não teria problema em dormir com ela. Pensamento errado, Fuller. A camiseta era apertada, me fazia parecer um daqueles caras marombados. Tentei me encurvar para pegar as cobertas que estavam em cima do sofá, mas a camiseta rasgou nas costas. Ouvi um risinho atrás de mim, me virei e vi Rachel, abafando o riso com a mão, com uma toalha na outra. Diferente de mim, Rachel não tinha esquecido as roupas do lado de fora do banheiro. Ela usava apenas uma camiseta preta, que chegava até o meio das coxas, e vi (juro que aquele não era o meu foco naquele momento!) uma calcinha da mesma cor de relance (não me julguem!).

Senti o meu rosto esquentar e ficar vermelho, e ela riu um pouco mais alto. Seus olhos estavam marejados, aponto de chorar de rir, ela arqueou as costas para frente, com uma mão apertando a barriga. O sangue rugia nos meus ouvidos, a raiva borbulhava como água num caldeirão quente. Aos poucos Rachel parou de rir, e se recompôs.

– Vem cá – ela riu um pouco. – Tem roupas aqui pra você.

A segui até o quarto dela. Geralmente quando imaginamos o quarto de uma garota, imaginamos 5 coisas básicas:

1 – O quarto deve ser rosa, ou alguma coisa cor de rosa;

2 – Um guarda-roupa gigante, daqueles que da pra andar dentro;

3 – Milhares de saltos altos, tênis ou qualquer outro tipo de calçados que ela nunca usou, só quis comprar mesmo;

4 – Ela deve ter uma chapinha ou qualquer coisa do tipo. Impossível uma garota de 16 ou 17 anos não ter um;

5 – A cama, local onde estas adoráveis (e por vezes maléficas) criaturas repousam deve estar simetricamente arrumada.

Lembrando que essa lista é só o que imaginamos, não que seja daquele jeito.

Bom, o quarto dela fugiu a essa lista completamente.

O quarto absolutamente não era rosa, era um cinza escuro; Ela tinha um guarda-roupa médio, daqueles que você só bota a mão pra tirar alguma roupa; Ela tinha apenas 3 pares de tênis, nada de saltos altos ou sapatilhas; Ela não tinha uma chapinha (MASOQ!!!); Parecia que alguém tinha dançado todas as musicas do Michael Jackson em cima da cama de Rachel. Simetria? Esqueça isso.

Rachel entrou no quarto, enquanto eu apenas a observava. Ela foi até o guarda-roupa e tirou uma camiseta azul marinho de lá. Rachel ficou de frente pra mim, me analisando, da cabeça aos pés. Finalmente ela disse:

– Tira a camiseta – ela mandou com toda a naturalidade do mundo.

– Tudo bem – respondi, sentindo o meu rosto ficar quente.

Obedeci-a, e tirei a camiseta rasgada. Ela me jogou a camiseta. Ficar seminu na frente de uma garota, nunca imaginei essa situação acontecendo aos meus 17 anos. Sei lá, poderia ter acontecido aos 21 anos. É, isso seria mais plausível. Quando passava a minha cabeça pela gola da camiseta, vi de relance Rachel encarando o meu abdômen, mordendo o lábio inferior. Nunca tinha pensado que um dia eu iria ter algum músculo que se destacasse no meu corpo, sempre achei que seria aquele garoto franzino que nunca tinha posto o pé numa academia. Meu tio Willian sempre dizia que um guerreiro deve ter força, e me obrigou a fazer 500 flexões diárias. Conseqüentemente, isso resultou em músculos desenvolvidos, e roupas um pouco maiores. Imaginem um treinamento do Rocky, multiplicado por cinco, incluindo tomar a gema no copo. Isso acaba com a auto-estima de qualquer um, acreditem.

Depois que eu vesti a roupa, agradeci e fui pro sofá que serviria de cama naquela noite. Estiquei-me no sofá e entrei debaixo do cobertor. O tecido fazia minha pele pinicar, mas pelo menos esquentava. Pus as mãos atrás da cabeça, e olhei para teto branco, tentando imaginar como eu iria explicar para Lisbeth que passei a noite na casa de Rachel. Ela iria me matar. E o que Sacha tinha que fazer no mundo humano? E como assim ela não podia confiar em mim com a casa? Essas perguntas me deixavam frustrado.

Do nada. Sério, do nada ouvi um barulho de alguma coisa se partindo ao meio, vinha dos quartos. Sentei-me no sofá, olhando por cima do encosto pra ver o que tinha acontecido. Do corredor, irrompeu uma Rachel com o rosto vermelho, com uma postura meio tímida. Ela olhou para um canto.

– O que aconteceu? – perguntei bocejando.

– Minha cama... – o vermelho de seu rosto se intensificou – minha cama quebrou.

Dei uma gargalhada. Era impossível me conter. Olhei para Rachel que me olhava embaraçada. Seus olhos diziam: Você pode rir, mas um dia poderá ser a piada. Por alguma razão não me sentia bem com aquilo, rir dela. Sentia-me com vergonha, mas parecia que o sentimento não partia de mim, mas de outra pessoa. Imediatamente parei de rir.

– Vamos ver os estragos – eu disse. – Talvez eu possa te ajudar.

Ela apenas assentiu.

Eu não acreditava no que eu via. A cama realmente tinha se partido ao meio. Era como se o peso de Rachel fosse de uma tonelada e meia. Perguntava-me se ela tinha pulado em cima da cama, porque só assim pra fazer aquilo.

– Como você conseguiu – perguntei sem olhar pra ela, somente encarando o estrago feito.

– Digamos que eu meio que pulei em cima da cama.

– Meio que pulou...

– Tá! Eu me joguei em cima da cama! Tá feliz agora? – ela ficou na minha frente e olhou nos meus olhos.

– Acho que um pouco – dei um leve sorriso. Ela revirou os olhos.

Subitamente, os olhos verdes de Rachel se acederam numa idéia, mas logo após, se tornaram apreensivos.

– O que foi? – perguntei.

– É que eu tive uma idéia, mas... – seu rosto ficou um pouco vermelho.

– Mas... – eu disse fazendo um gesto pra ela continuar.

– Eu tava pensando... sei lá pode ser só loucura minha... posso dormir no sofá com você? – ela terminou me olhando inocentemente.

Se eu estivesse tomando água, estaria cuspindo fora naquele momento mesmo. Nunca, eu repito, nunca, uma menina tinha pedido pra dividir uma cama comigo. Nem nos meus melhores sonhos. A única vez que uma garota tinha dividido uma cama comigo, ela nem tinha me pedido (mas depois nem precisou).

– Ah sei lá... – pensei um pouco – Seu pai não vai me matar?

Ela riu.

– Não. Eu explico depois pra ele.

– Quantas explicações do tipo embaraçoso ao extremo você já deu ao seu pai? – inclinei levemente a cabeça.

– Cala essa boca e vamos logo? Eu tô com sono! – ela exclamou.

Eu a segui de volta pra sala, e observo o lugar em volta. Do lado do sofá, há uma mesinha de madeira polida, com algumas fotos em cima. Eu me aproximei da mesinha e comecei a estudar as fotos. Uma foto era de um aniversario, com Martin com uma língua-de-sogra na boca, Rachel abraçava o pai com força, e uma mulher bonita com um cabelo castanho escuro e olhos verdes como os de Rachel, olhava com ternura para as duas crianças ali com ela. Outra foto era apenas de Phillip abraçando a mesma mulher da outra foto.

– Essa é minha mãe – eu não tinha visto Rachel do meu lado. Ela apontava para a mulher que estava com Phillip.

– O que aconteceu com ela? – perguntei.

– Ela morreu. – seus olhos verdes tinham uma expressão de angustia.

Eu não ia perguntar como ela tinha morrido. Seria muita insensibilidade da minha parte. Eu podia ser a futura Morte, mas eu tinha respeito pelos mortos.

– Ela foi conselheira da rainha antes de mim – Rachel continuou. – Dizem que ela fora uma excelente estrategista. Pra mim ela foi uma excelente mãe – seus olhos começavam a soltar lágrimas.

Eu a abracei. Foi instintivo. Ela afundou o rosto no meu peito e desatou a chorar. Eu nunca sentira a dor de perder um ente querido, isso havia sido privado de mim. Talvez eles achassem que se isso acontecesse, eu perderia o controle de mim mesmo. Diziam pra mim que eu era volátil, instável e suscetível a perder o controle e começar uma chacina por puro prazer, como Devan fazia. Resumidamente, eu era uma bomba pronta para explodir a qualquer momento. Esse era o defeito da Morte, ela é muito suscetível a sentimentos muito fortes. Sabe, eu tinha inveja de quem era normal. De me sentir normal. Mas com o tempo descobri que a normalidade era chata, sem graça. Tudo o que você faz. Tudo o que te diferencia dos outros, tudo o que você pensar. Isso te faz único. Nunca abra mão disso.

Rachel se desvencilhou dos meus braços. Ela limpou o rosto e disse:

– Tá, chega de chorar. Vamos dormir? – ela perguntou com um sorriso meio comprimido. Por fora ela pode parecer forte, mas por dentro, ainda é apenas uma menina normal, com seus problemas normais.

Para não deixar os outros residentes da casa com a impressão errada, deitei na ponta do sofá enquanto Rachel dormiria atrás de mim. Primeiro eu a cair do que ela. Só rezava pra ela não ficar me chutando enquanto dorme.

Depois de um tempo, ainda estávamos acordados. Eu olhava para a TV na frente do sofá, tentando pegar no sono, de repente senti dois braços me abraçarem firmemente.

– Err... Rachel – a chamei.

– ...mm? – ela gemeu.

– Você sabe que esta me abraçando, né?

– Hmm – ela confirmou se aconchegando mais em mim.

– Rachel. Eu tenho namorada. – ela me apertou mais.

– Rachel – eu insisti.

– 5 minutos? – ela pediu.

Eu pensei um pouco.

– 5 minutos.

Não foram cinco minutos.

Notas finais
Eu sei, eu sei. Tá muito grande não? É que tive tantas ideias pra esse capitulo que poucas eu deixei de fora