Sacha tinha razão. Aquela era uma cidade incrível, e eu achando que Nova Iorque era bonita. As ruas eram pavimentadas de asfalto que pareciam novinhas em folha, as calçadas eram de arenito muito áspero, mas não tirava a beleza, as construções dos comércios deixariam qualquer arquiteto de queixo caído. Já as casas eram modestas, mas dava para ver o esforço feito para construí – las.

Andamos pelas calçadas, e ficava observando as pessoas passando, seus rostos tinham feições de quem sorria bastante, de quem nunca viu tristeza na vida. Fiquei imaginando que tipo de vida eles levavam, como seus filhos lidavam com a ameaça do meu pai fora desses portões. ”Tanta felicidade ameaçada. Tudo por egoísmo.” Por mim, viveria aqui até não poder mais, mas eu não podia, não com o meu pai me caçando. E se eu fosse terminar como ele? O Primeiro me falara que os antepassados do meu pai, meus antepassados, sempre buscaram poder e isso os levou a cometer atrocidades, e se eu fosse como ele, o que faria com essas pessoas? O que faria com Lisbeth? Não! Não vou ser como ele. Vou ser melhor, melhor do que todos eles. Com esse pensamento, me lembrei de super – heróis de historias em quadrinhos, e da famosa frase “Com grandes poderes, vem grandes responsabilidades”. Mas no meu caso seria “Com grandes poderes, vem grandes problemas que não posso resolver”.

Sacha parecia confortável em voltar para a cidade, seu rosto transparecia calma e serenidade. Já Holly estava de cara fechada, com direito a beicinho, seu olhar demostrava desconfiança as pessoas. Lisbeth parecia assustada em ver tantas pessoas em uma cidade tão grande, e começou a encolher os ombros. Um homem grande vinha correndo em nossa direção, quando chegou a nossa frente ele tropeçou e caiu de cara no chão, ele parecia que tinha uns 39 anos, mãos calosas, pele levemente bronzeada com uma armadura de malha, com uma espada e um escudo em suas costas. Seu rosto tinha uma cicatriz abaixo do queixo em vertical, seus olhos eram castanhos avermelhados, mas suas pálpebras eram tão fechadas que quase não dava para distinguir. Quando ele se levantou, fez continência a Sacha e Holly e anunciou:

- Henry Waters, sargento do decimo regimento do esquadrão de reconhecimento.

- Descansar. Quais as ordens? – perguntou Holly.

- A rainha exige sua presença imediatamente, juntamente com as crianças.

Quando ele falou da rainha, a rua inteira parou e nos assistiu de olhos arregalados. Ela era importante. Lisbeth se assustou ainda mais e agarrou meu braço com tanta força que não sentia meus dedos. Holly se apressou e disse:

- Já estamos a caminho sargento. Dispensado.

O homem deu meia volta e começou a marchar em direção do castelo. Holly expirou com força pela boca, coçou a cabeça e perguntou:

- Como ela sabe que estamos aqui?

- Ela nunca perde essa mania de ficar espionando. – disse Sacha.

- Acho que nunca ouviu o termo privacidade.

- De qualquer forma, vamos logo. Ela não gosta de ficar esperando – ela me empurrou de leve e começamos a andar.

O céu estava acinzentado com poucas nuvens, mas ameaçava chover a qualquer instante. O ar estava carregado de cheiros diversos, as vozes dos cidadãos divergiam em conversas e risadas. As crianças corriam umas atrás das outras para ver quem chegava primeiro. Era um bom lugar para se viver. — “Realmente Jon.” – disse o Primeiro sem se apresentar.

- Avise quando chegar.

- Desculpe – me. Não pude deixar de apreciar a cidade como esta agora. Nada mudou desde que eu governei. Continua bela como sempre.

- Sim, é difícil não ficar maravilhado. Aqui a tantas possibilidades de se levar a vida.

- Disse para avisar a você quando sua mãe estivesse livre para conversar. Você pode conversar com ela agora, como esta conversando comigo ou quando estiver dormindo. Para ver como realmente ela é.

A ideia de conversar com ela me deixou animado, mas também assustado.

- Agora não. Ainda não. Vou ter que esperar.

- Eu entendo. Bom, vou estar aqui se precisar.

- Tudo bem...

Ao chegarmos aos portões, um guarda se apresentou e disse que viera nos escoltar até a rainha. Quando entramos, duas colunas de soldados estavam alinhadas, formando um corredor que levava a um hall de entrada, em volta do pátio tinham dois jardins. Havia duas torres, uma em cada extremidade do pátio e em cada uma havia dois soldados com bestas de repetição. A luz do hall era um amarelo pálido, o chão e as paredes eram cobertas com um carpete vermelho, as cortinas da mesma cor, com as pontas amarelas, acima de nossas cabeças jazia um lustre de cristais perfeitamente simétrico. Ao fundo havia duas portas de madeira e aço, suas dobradiças pareciam novas.

Ao adentrarmos as portas nos deparamos com um salão, que equivalia pelo menos, um estádio de futebol, as paredes e o chão de mármore. Tenho que admitir, a rainha tinha estilo. O design do lugar deixaria Oscar Niemeyer, o arquiteto brasileiro de queixo caído.

Havia outro corredor de homens nos esperando, só que dessa vez eram de senhores e senhoras de terras, com o respectivo símbolo de sua casa estampado no peito com orgulho. Eles nos olhavam com expressão de curiosidade e expectativa, em todos os passos que dávamos mais seus olhos se abriam. Quando uma senhora me olhou, soltou um guincho baixinho, mas logo voltou a manter a compostura, mas deixava transparecer medo em seus olhos. Logo mais a frente estava uma senhora de pelo menos 30 anos, sentada num trono branco de mármore, que era adornado com figuras de lobos e leões no acento logo acima da cabeça, nos lados estavam cervos correndo junto a um urso, pronto para o abate.

Ao nos ver a senhora se levantou com dignidade, ela usava um vestido azul com ornamentos em ouro nas pontas, sua pele era branca como neve, cabelos negros longos que chegavam à metade das costas, olhos azuis como o céu anoite e um nariz perfeito. Era como ver Lisbeth crescida. Então entendi... Ela era a mãe de Lisbeth. Senhoras e Senhores acabo de lhes descrever a Vida, Senhora de Arce Invictum, protetora de metade do Limbo e etc. Não iria lembrar das outras honrarias. Também não sei para que essa frescura.

A rainha se aproximou de nós, e os senhores se curvaram em respeito a sua presença. Só então percebi que era o único que estava de pé, Sacha, Holly e Lisbeth já tinham se curvado. Rapidamente me curvei, esperando que a rainha não tivesse reparado no bobalhão aqui, senti que as minhas bochechas esquentaram de vergonha.

Não demorou muito para que ela se pronunciasse:

- Podem se levantar – sua voz era suave e calma, mas com autoridade. Ela ficou de frente com Lisbeth, a rainha não era muito mais alta que ela, olhou Lisbeth da cabeça aos pés, e disse – Nenhuma filha minha tem que ser curvar perante mim – e sem aviso prévio, deu um abraço de urso em Lisbeth, que a levantou uns 2 centímetros do chão, e a soltou suavemente no chão. Ela se ajoelhou numa perna só e confessou – Tive muita saudade sua filha.

Lisbeth me olhou com cara de desentendida e eu repliquei o olhar. Com isso a rainha se virou para mim, me olhou da cabeça aos pés como fez com Lisbeth, e disse:

- Você se parece com seu pai.

- Não sou igual a ele. – disse secamente.

- Mas fala como ele, tem até o mesmo olhar. – esse comentário me assustou um pouco. Não. Não vou ficar igual a ele. Ela estreitou os olhos e disse – Quem me garante que você não está armando com Hayt?

- Eu, minha soberana – disse Sacha se pondo a frente com um passo.

- Stormgard. Também senti saudades de você. Conte – me, como vocês foram descobertos?

- Um caçador classe 2 atacou os dois. Mas por sorte Holly estava por perto. – reportou Sacha. A rainha fora em direção de Holly e disse:

- Ainda está em forma Owens. Saudade do esquadrão de abate? Aposto que sim.

- Sim senhora. Stormgard não deixou que eu trouxesse a cabeça do caçador como espolio de guerra. – ela suspirou.

- Ainda bem. – ela deu uma risada – faria uma bagunça danada.

Depois de relatórios após relatórios, a rainha disse:

- Amanhã a noite daremos uma festa, em comemoração a volta de minha filha e de... – ela fez uma pausa – e seu amigo! – anunciou.

Depois que os senhores foram dispensados, o salão ficou com uma atmosfera de tensão, a rainha jogou os cabelos para trás com as mãos e disse:

- Stormgard, você deu a espada ao garoto? – como ela percebera a marca?

- Sim, a meu ver era necessário que tivesse proteção extra.

- Então vamos ver se ele sabe pelo menos chama – lá. Garoto chame – a.

Eu ainda não sabia como fazer isso, mas tinha alguém que sabia.

- Primeiro! – gritei chamando por ele em meus pensamentos.

- Calma! Não sou surdo.

- Como chamo a Devoradora de Almas? – perguntei apressadamente. Sua voz então se tornou séria.

- Raiva.

- Como assim?

- Sinta raiva garoto. Ela atende seu chamado assim.

- Não dá pra ficar com raiva do nada, né o fantasminha camarada.

- Então lembre – se de situações que você foi inútil e sentia raiva por isso, deixe que isso flua por suas veias.

- Situações em que sentia raiva...

Então comecei a me lembrar de coisas que não sabia que tinha ainda. Quando briguei com o valentão da escola na 4ª série, quando discuti com Sacha pela primeira vez... Então me lembrei de quando o caçador nos achou, como não consegui lutar com ele, como fiquei impotente diante da situação, como... não consegui proteger Lisbeth! Tal condição é inaceitável para mim, eu deveria proteger ela, eu deveria, eu podia mais eu era fraco. Fraco. Isso é o que eu sou. Fraco. Não! Não mais! Superar os obstáculos, ganhar poder a qualquer custo. Com esse pensamento em mente, a marca começou a queimar com uma chama negra, não ardia. Tudo que vi depois foi escuridão.

Quando dei por mim, estava ajoelhado numa perna só, segurando em minha mão uma espada negra com entalhes em prata. Lisbeth me segurava, me ajudando a levantar. Sacha tinha o os olhos arregalados e sussurrou apenas uma palavra – Violet.