Ao me levantar, me apoiei na espada que estava em minha mão direita, como uma bengala. A espada, no mesmo instante, começou a afundar no chão, rapidamente a tirei, mas não consegui ficar de pé. Então sentei no chão. Lisbeth segurou meu rosto com as duas mãos, e olhou nos meus olhos procurando alguma coisa. Seus olhos azuis brilhavam de curiosidade, mas quando não achou o que procurava, suspirou:

– Jon, do que se lembra? – ela perguntou ainda com as mãos em meu rosto.

– Quase nada. Só escuridão. – respondi balançando a cabeça.

– Você usa lentes de contato, alguma coisa assim?

– O quê? Não. Por quê...

Antes de terminar de falar, minhas forças acabaram e eu desmaiei.

Acordei em uma cama macia, olhei para cima e o vi um teto branco, olhei para os lados, havia apena alguns moveis, minha mochila e uma porta de madeira de carvalho. Senti que alguém estava sentado na cama, baixei os olhos, mas não consegui ver direito. Tentei levantar para ver quem era, mas uma mão me empurrou me fazendo deitar de novo na cama, então uma voz falou:

– Você ainda não está em condições de levantar garoto. – era Holly.

– O que aconteceu? – perguntei arfando.

– Você desmaiou. Invocar a espada tomou muito de você. – seus polegares não paravam de girar, ela parecia agitada.

– O que foi? – perguntei.

– Nunca alguém conseguiu chamar essa espada. Alguns que tentaram ficaram enfermiços por um tempo... Outros morreram tentando. Como só você é capaz? O que você fez para que ela atendesse ao seu chamado?

– Não sei – menti – apenas a chamei.

Holly suspirou, se levantou e disse:

– Vá dormir. Amanhã terá um dia cheio.

Depois que ela saiu, fiquei deitado de lado, um turbilhão de pensamentos passavam pela minha cabeça agora. Eu era o único que teve sucesso em chamar a Devoradora, eu e o Primeiro.

Depois de um tempo pensando, me lembrei de que o Primeiro disse que minha mãe poderia falar comigo. Então chamei por ele:

– Primeiro – chamei.

– Sim, Bela Adormecida. – ele brincou.

– Cala essa boca de fantasma. Tem como você chamar a minha mãe. Mas eu quero ver ela.

– Tudo bem, vou chama – lá.

Então, tudo se esvaneceu na escuridão.

Quando dei por mim estava no mesmo salão em que conversei com o Primeiro, mas ao invés de uma tempestade, o Sol brilhava com intensidade, o salão estava ligeiramente mais limpo, e havia um quadro abstrato muito grande na parede da direita. Em frente a ele, uma moça estava observando as curvas da pintura. Seus cabelos eram negros, com pequenas mechas roxas, pele morena, as mãos eram bem cuidadas. Ela tinha pelo menos a minha altura, usava um vestido azul claro e sandálias de dedo. Ela estava com as mãos nas costas, uma apertando a outra, ela balançava o corpo para frente e para trás, como uma criança faz quando estava observando ou esperando alguém.

Desci as escadas e fui em direção a ela. Estava a pelo menos a 1 metro dela, estendi a mão para tocar em seu ombro nu, mas quando a toquei, ela segurou meu braço passou por cima do ombro e me derrubou. Um conselho: se for conversar com uma garota avise de sua presença, se a tocar sem permissão, ela pode lhe aplicar um golpe de judô.

Caí de costas, juro que ouvi um estralo vindo das costelas. Tentei me virar para me levantar, mas dor me impediu. A garota se ajoelhou e disse:

– Você sabe que não gosto que me chamem a atenção assim, Hayt! – sua voz era macia e agradável, mas o fato dela me chamar de Hayt e me confundir com ele me machucavam. Ela me ajudou a levantar segurando o meu braço, ajeitou a minha camisa. Quando ela olhou para o meu rosto, soltou um gritinho que foi abafado pelas mãos. Seu rosto era lindo, as covinhas em seu rosto não eram muito fundas, seus dentes eram brancos como a neve, e seus olhos eram um violeta vibrante.

Ela me olhou da cabeça aos pés e disse:

– Hayt, é você mesmo?

– Não. Sou o filho dele. – disse entre dentes.

Ela deu outro gritinho, mas em questão de 5 segundos ela estava me abraçando com força. Senti que conhecia esse abraço. Então entendi.

– Oi mãe – disse abraçando ela.

– Meu filho — ela disse começando a chorar.

Era o abraço mais quente que eu já havia recebido. Era aconchegante e me sentia seguro, nada poderia nos atingir. Ela chorava com mais força a cada segundo em que estava passando abraçados. Ela me soltou, mas ficou segurando a minha mão. Limpou as lágrimas com a palma da mão e disse:

– Você se parece com o seu pai. Até o último fio de cabelo. – ela passou os dedos entre meus cabelos.

– Não quero parecer... – mal completei a frase e ela disse:

– Mas a personalidade é diferente. É mais terna, mais viva. Sacha te criou bem.

– Ela fez o melhor – disse pondo a mão na cabeça, sentido meu rosto esquentar.

– O rei disse que você conseguiu chamar a espada dele. É verdade? – ela perguntou animada.

– Rei? O Primeiro quer dizer?

– Sim.

– É verdade. Consegui fazer isso.

Depois do que pareceu um interrogatório da minha vida, ela disse:

– Chega de falar disso. Acho que você também tem perguntas.

– Com certeza.

– Mas não vou poder responder agora. Bom dia Jon. – não quero acordar. Não agora que vou conseguir minhas respostas.

Antes de eu dizer qualquer coisa, ela desapareceu. Abri meus olhos, vi aquele teto familiar outra vez. Olhei para os lados, não havia ninguém.

Gostaria de receber aquele abraço mais uma vez, a sensação era sem igual. Após trocar de roupa, fui fazer a higiene de praxe que executava todo dia. Ao abrir a porta, tinha uma escada em espiral descendo direto para o hall de entrada, os portões estavam abertos, a luz do sol penetrava o aposento com tal intensidade, que quando entrei na luz, meus olhos começaram a arder, o que me ajudou a acordar de verdade. Fui à sala do trono, ninguém estava lá, apenas um faxineiro de barba desgrenhada, que estava limpando o tapete de algodão. Perguntei onde estava à rainha e o pessoal, ele disse que estavam no salão de festas. Após me perder pelo menos cinco vezes, finalmente achei o bendito salão. Ao entrar, estava a rainha sentada numa mesa de 5 metros, Lisbeth estava ao seu lado, Sacha mordiscava um pão no fundo do salão, e Holly contava uma historia de guerra para um garoto. Sentei-me no lado oposto da mesa onde estava Lisbeth, para não irritar a rainha, que já notara a minha presença desde que eu entrei. Três criados trouxeram – me o café: pão com manteiga, café com leite, e um bolo de chocolate. Não me lembrava de comer tanto desde que sai de casa, sempre que eu pedia eles traziam mais comida. Poderia ficar nisso para sempre, mas meu estômago me impediu. Lisbeth comia com a mesma voracidade, ouve um momento em que, em meio a nossa comilança, nossos olhares se cruzaram. Observamo-nos, ambos estávamos com migalhas de comida no rosto, e a calda de chocolate em volta da boca. Foi nesse momento em que soltamos uma sonora gargalhada que preencheu o salão, que foi silenciada pela rainha, pelo simples gesto de levantar o dedo em frente aos lábios.

Ao terminar, me levantei, agradeci pela comida e me retirei. A partir daí fiquei visitando cada cômodo do castelo, para ver como era viver num lugar desses todo dia. Mas o lugar que eu queria ver mesmo era a cidade, era incrível e eu queria ver mais dela.

Estava andando no pátio, quando apareceu a rainha junto a Lisbeth, que pelo visto também estava fazendo um tour pelo castelo. A rainha levantou o braço e chamou:

– Fuller. Venha cá.

Ao chegar até ela, a rainha disse:

– Quer visitar a cidade, eu imagino.

– Sim senhora – ela lê pensamentos?

– Vou levar minha filha para andar pela cidade. Você pode ir também. – eu queria passar um tempo com Lisbeth, queria descobrir as coisas com ela. Mas não com a rainha junto – Rachel lhe mostrará a cidade.

Então com um salto, uma garota apareceu. Ela era da minha altura, pele branca, cabelos negros com mechas verdes que chegavam um pouco abaixo dos ombros, olhos verdes brilhantes. Ela vestia uma camiseta do Black Sabbath, um jeans escuro surrado e um all – star.

– Ela é minha conselheira mais jovem e mais confiável. Ela cuidará de você. – disse a rainha.

Oh merda.