Notas iniciais
demorei pra caramba e ja to escrevendo o proximo o/

O que me incomodava em Rachel não era nem sua personalidade peculiar, nem mesmo a idade dela para ser conselheira, era surpresa de ela me tratar como uma pessoa normal, não uma abominação. Desde que eu cheguei aqui, recebi apenas olhares desconfiados. Seu modo de lidar com as coisas era calmo e inteligente, sempre pensando nos outros antes de si mesma. Virtudes difíceis de encontrar em uma pessoa hoje em dia. Imaginava que em qualquer situação, ela saberia o que fazer e como fazer. Caminhávamos numa rua de comercio, que fazia divisa com a região rural. Crianças brincavam de pega-pega, uma delas que vinha correndo, não olhou por aonde ia e esbarrou em Rachel. O rosto do garoto enrubesceu, olhou para baixo e disse baixinho:

– Desculpa moça. – Rachel se abaixou, colocou a mão nos cabelos do garoto e disse:

– Não foi nada. Mas tome cuidado. – ela bagunçou os cabelos do menino e o dispensou.

Nunca havia visto uma garota com tanta ternura e compaixão como Rachel. Lisbeth parecia insegura das coisas e eu sempre tentaria ajudar ela, mas não poderia ajudar para sempre. Rachel era confiante e autossuficiente.

– De onde você tira tanta confiança? – a pergunta saiu da minha boca sem aviso.

– Não sei. Apenas tenho. – sua voz era calma e segura de si mesma, não vacilava, nem fraquejava.

– Como é ser conselheira?

– Como é ser filho da morte? – nunca alguém havia me perguntado isso. Então respondi o que veio a cabeça.

– Uma merda.

– Então não é diferente um do outro. Nunca quis ser conselheira, mas as circunstancias não me deixaram outra escolha.

– E o que aconteceu? – ela me dirigiu um olhar ansioso. Ela queria contar tudo a alguém. Mas precisaria confiar primeiro na pessoa.

– É uma longa história. – ela umedeceu os lábios e perguntou – Diga-me, com o que você vai à festa de hoje? – Droga. Tinha me esquecido de arranjar uma roupa para a festa.

– Provavelmente esqueceu-se da festa. – comentou uma voz rouca, mas familiar. Não podia ser.

– O conhece Martin? – meus temores se confirmaram. Ele se colocou ao lado de Rachel, com um sorriso estampado no rosto. Ele estava com os cabelos ruivos desarrumados, como tivesse acabado de acordar, uma camiseta roxa, e uma bermuda bege.

– Conheço. Tudo bem, Jon? – iria ficar bem quando apertasse seu pescoço.

– Tudo. – disse de forma displicente – Explicações? – cruzei meus braços.

–Longa historia. Mas tem haver com a rainha. – gosto cada vez menos dela. Sem aviso prévio, Rachel desceu um cascudo na cabeça de Martin, daqueles que fazia barulho. Ele esfregou a cabeça no local da pancada e reclamou – Por que fez isso?

– Porque você não falou pra sua irmãzinha aqui, que estava a serviço da rainha. Estava espionando ele? – para quem eram irmãos, eles não se pareciam em nada. Mas agiam como tal.

– Não. Ela disse para ficar de olho em pessoas que agiam estranhamente. — Rachel jogou as mãos para o alto e exclamou:

– Isso é espionar garoto!

– Como assim, eu agia estranhamente? – agora era eu e ela que interrogava Martin.

– Não estava espionando você. Estava espionando a Jesse.

– A líder de torcida? – Rachel deu outro cascudo.

– Era só o que me faltava. Meu irmão fica espiando garotas. Privacidade moleque, já ouviu falar?

– Não tinha tempo para me preocupar com isso. Mas eu não pude evitar. – ele disse com ar de bobo e olhar sonhador. – Ela é tão bonita. – ele começou a babar.

– Eu vou te matar – avisou Rachel, estralando os dedos, e com um olhar assassino. A cara que Martin fez foi impagável. Ele se ajoelhou e pediu perdão como se a sua vida dependesse disso. Não pude deixar de rir, não era todo dia que você via isso.

– Cala boca defunto. Estou tentando viver mais um dia se não percebeu. – mandou Martin.

– Não me chama de defunto! – avisei acompanhando outro cascudo em sua cabeça. – Da próxima vez, use meu nome se quiser viver mais um dia.

– Droga. – reclamou Martin – Agora é outro com a mesma atitude da Rachel. Já me basta ela pra me encher o saco todo dia. – comentou.

– CALA A BOCA – Rachel e eu gritamos ao mesmo tempo.

Trocamos um olhar que foi um segundo longo demais.

Desviamos o olhar. Rachel era conselheira da rainha, ela estava ali para me vigiar, eu tinha que me lembrar disso.

Martin nos olhou com curiosidade, depois deu um sorrisinho. O sol já se escondia atrás dos muros da fortaleza, as estrelas já tomavam seu lugar no céu, as pessoas já se recolhiam em suas casas, e o vento já se fazia ligeiramente mais forte nos lugares mais altos.Martin havia nos deixado para entregar um relatório para o seu superior, então ficamos apenas eu e Rachel vagueando pelas ruas. O vento batia em seus cabelos, e eles por sua vez, voavam com esplendor e orgulho. A luz do Sol bruxuleava nos olhos de Rachel suavemente, fazendo sua cor esmeralda brilhar mais. Caminhamos até uma campina, que se destacava por sua árvore solitária. Rachel apontou para ela e perguntou:

– Vamos até lá? Quem chegar por último limpa todos os banheiros do castelo! –disse Rachel tomando impulso para correr.

– Assim não vale! – berrei começando a correr.

Depois de uma corrida cheia de empurrões e tropeços um no pé do outro, chegamos ofegantes na base da árvore. Sentei-me e puxei ar, Rachel se deitou por sob a grama e jogou a cabeça no meu colo. Aquilo me pegou de surpresa.

– O que está fazendo? – perguntei sentindo meu rosto esquentar.

– Me deitando. Acho que você não vai me matar por isso. – ela disse fechando os olhos.

Sua expressão tornou-se calma e despreocupada. Mais uma vez o vento bateu em nossos rostos, nos dando fôlego. Perguntava-me o que Lisbeth fazia naquele momento, se estaria com a sua mãe, conhecendo o lugar, ou estaria absorta em seus pensamentos. Mas automaticamente, os meus pensamentos foram parar em Rachel. Imaginava como ela se sentia morando aqui, sendo conselheira da rainha, como ela se sentia em relação a essa disputa entre sua chefinha e meu pai, se ela poderia confiar em mim. A julgar pelas roupas de Rachel, ela fazia algumas visitinhas ao mundo humano. Humano. Era uma condição que já não pertencia mais. Deveria me acostumar com essa ideia, mas nunca consigo.

Em meio aos meus devaneios, Rachel acabou pegando no sono. Só percebi quando ela se aninhou mais em mim. Gostaria de ficar naquele momento para sempre, e me peguei imaginando como seria se tivesse conhecido ela em outras circunstâncias, em outro lugar, se poderíamos conviver sem desconfiança, se poderíamos ser mais que pessoas que se conheceram a algumas horas, ser mais...

Acariciei seus cabelos, e ela abriu um sorriso. Seus dentes eram brancos como neve. Para quem era irmã do Martin, ela não se parecia nada com ele. No que ele era péssimo, ela era ótima. Onde ele tinha defeitos, ela tinha em completa perfeição. Por fim, acabei dormindo.

A lua já brilhava quando nós acordamos. Ela esticou os braços para cima e bocejou. Ela olhou para os lados coçando o olho direito, então olhou para cima. Seus olhos se arregalaram em uma expressão assustada. Ela levantou num pulo, e agarrou minha mão.

– Merda. Estamos atrasados. Mary vai me matar. – disse Rachel.

– Quem é Mary? E atrasados para o quê?

– A rainha. E atrasados para o baile. – merda.

Fomos correndo em direção ao castelo, rezando para que a rainha não nos esfolasse vivos. O castelo estava todo decorado para a festa, com tudo o que tinha direito, dois guardas em cada portão, cada um com armaduras de placas de aço, um capacete com um espigão se projetava no topo da cabeça, uma lança e escudo. Estávamos a dois quarteirões do castelo, viramos a esquina de uma padaria, e no outro lado, estava Sacha de braços cruzados vestindo um vestido de cetim púrpuro, o cabelo estava jogado por cima do ombro esquerdo. Quando ela nos viu, andou apressadamente em nossa direção e perguntou num tom irritado:

– O que vocês estavam fazendo até essa hora?

– Err... Não vimos o horário? – disse Rachel num tom descontraído. Segurei o riso. Sacha não se absteve. Ela soltou uma gargalhada assustadora.

– Tudo bem. Também quase perdi o horário. – confessou Sacha. – Vai. A rainha está te procurando.

– Com sua licença. – e ela se retirou.

Sacha me olhou com curiosidade, mas depois abriu um sorriso. Senti meu rosto corar.

– Meu garotinho está socializando com as pessoas. – ela brincou puxando minhas bochechas – Está até corando de timidez.

– Para com isso – resmunguei.

– Tudo bem. Vem, vou te arrumar roupas pra festa.

Caminhamos até um casarão antigo, que era isolado da cidade. Em sua maior parte, ele parecia com uma casa suburbana, com um telhado azul- mar, paredes de madeira de carvalho brancas, com uma varanda de 4 metros na entrada, em volta havia apenas uma vastidão interminável de espaço e grama úmida.

Entramos pela porta de madeira envernizada, as paredes tinham uma pintura azul sombria, havia lustres de cristal no teto que ganhara suas teias com o passar do tempo, o chão tinha um piso de mármore, a mobília tinha uma aparência antiga, mas bem cuidada. Sacha andou na frente, me indicando onde cada cômodo da casa ficava, a fraca luz e única luz do local brincava nos olhos de Sacha, ela passava os dedos nas paredes carinhosamente, como se tivesse saudando um velho amigo.

– Essa era a minha casa quando criança. Lembro-me de quando Violet e eu brincávamos no escritório do meu pai. Ele falava para não entrarmos lá, mas não ligávamos. Sempre que tínhamos uma chance, entravamos. – sua voz soava nostálgica e distante. Ela abriu uma porta branca desgastada, com as dobradiças enferrujadas. Não sabia se era um escritório ou uma biblioteca, ou uma combinação rústica entre as duas. – Minha mãe sempre odiou esse cômodo. Uma vez ela ameaçou colocar fogo em todos os livros. – ela deu uma risada abafada.

Nós continuamos andando pelo corredor, e chegamos a uma porta mais bem conservadado que a anterior, Sacha abriu. Era um quarto enorme, com paredes de cinza nebulosas, com pôsteres de bandas antigas, na maior parte delas, era do Sex Pistols. E no teto havia frases fluorescentes sem sentido ou uma linha de uma musica.

– Era de quem esse quarto? – perguntei tentando ler as palavras.

– Meu. Era inconsequente nessa época. – Sacha disse passando a mão sobre o pôster do Nirvana. – quase sempre ia ao mundo humano para ir a shows, ou fazer bagunça.

– Você? Inconsequente? A dona faz-tudo? – soltei uma gargalhada que preencheu o quarto e ecoou no corredor. Ela limitou-se a dar um sorrisinho.

– Acredite se quiser, mas já namorei o Kurt Cobain. Foi um pouco antes dele se casar. Durou mais ou menos umas 2 semanas, mas foi muito bom. Cada beijo que ele dava... – ela lembrou gesticulando com as mãos.

– Para. – interrompi – Por favor, sem detalhes.

– Tudo bem. Suas roupas estão ali no guarda-roupa. – ela apontou o guarda-roupa – desça quando estiver pronto.

Havia um banheiro no final do corredor, então o usei. Vou lhe poupar dos detalhes. Sacha havia deixado um terno, uma camisa cinza, mas a calça não me servia muito menos à camisa. Então pus uma calça jeans velha e uma camiseta do Nirvana. Quando desci, Sacha me olhou, e suspirou:

– Pelo menos o terno serviu. E pensar que você está maior que seu avô. – ela sorriu.

Nunca tinha parado para pensar, em quem seriam meus parentes. Já tinha me acostumado a ter apenas Sacha cuidando de mim, nunca perguntei a ela onde estavam meu pai, meus avós...

Já estávamos a uma quadra do castelo, quando vimos Martin e ao seu lado estava Rachel num vestido de algodão, numa cor azul escuro, que se estendia até um pouco abaixo dos joelhos, seus cabelos estavam ainda mais negros e as pontas verdes cintilavam, e lutando para por o All-Star no pé direto. Martin apenas usava um terno, uma camisa branca com uma gravata negra, uma calça Jeans, e um tênis preto sujo. Olhei para eles e pensei. – “Às vezes, o mais simples é o mais extraordinário”.

Notas finais
avalie essa merda que eu escrevo senão você não vai dormi. Zuera. So muito brincalhão :P