Eu já tinha visto seguranças grandes, mas esse gigante.

Seu rosto tinha um aspecto de macaco careca super vitaminado viciado em esteróides, braços grandes e musculosos, mas suas pernas eram pequenas e magras. Ele usava uma camiseta azul-marinho, óculos escuros, coisa que não fazia sentido, pois já era de noite, e um short de ginástica.

Esperamos na fila uns 10 minutos para poder entrar. Ao chegar à vez de Martin e Rachel, o segurança apenas baixou os óculos para ver eles e mandou seguir em frente. Quando chegou a nossa vez, ele nos analisou de cima abaixo, e se demorou mais em Sacha. Depois de umas dez análises, ele finalmente perguntou:

– Nomes? – bastava ter perguntado isso antes? Não. Espera. Você ficou babando em cima da minha tia antes!

– Sacha Stormgard e Jon Fuller. – disse Sacha calmamente.

– Sacha... Fuller... – ele disse procurando na lista em sua prancheta –. Aqui estão seus nomes. Espera, deixa eu ver se eu li direito... Stormgard?

– Isso mesmo. – confirmou Sacha.

– Pelo grande rei! Uma Stormgard na festa da rainha? – ele se inclinou, saudando – Mil perdões, senhora. Eu não sabia.

– Tudo bem.

Seguimos portão adentro para entrar num mundo surreal.

Eu não sabia se era uma festa num armazém ou um filme de Hollywood carregado de efeitos especiais. Luzes se mexiam freneticamente, a música estourava nos ouvidos, e as pessoas dançavam feitas loucas. Parecia uma cena do filme Projeto X. No meio da multidão, Martin pulava, jogando a cabeça para os lados. Rachel estava num canto, tomando um copo de refrigerante, com cara de entediada. Olhei para os lados, percebi que Sacha não estava mais ao meu lado. Ela estava no andar superior saudando um grupo de pessoas.

Ao olhar para as escadas, vislumbrei o que achei ser um anjo. Lisbeth usava um vestido preto, que chegava até um pouco acima do joelho, um salto alto. Seus cabelos estavam soltos, e a maquiagem que ela usava acentuava o azul de seus olhos. Apenas senti os músculos do meu rosto rasgando num grande sorriso. Eu tinha que ver mais de perto.

Passei por entre a multidão dando cotoveladas, até que cheguei à base da escada. Lisbeth descia de ombros encolhidos, com o rosto um pouco vermelho. Ao me avistar, a tensão do seu corpo pareceu desaparecer, e seu rosto se acendeu num sorriso aliviado. Nos últimos degraus, estiquei a mão, como se convidasse ela a andar comigo, ela segurou a minha mão e me lançou um olhar como se falasse: obrigada por estar aqui.

Avançamos um pouco dentro da multidão, ela pegou as minhas mãos, e começamos as dançar.

Durante uns 10 minutos, tocava apenas música eletrônica (o que eu me perguntava veementemente, como à rainha conhecia esse tipo de musica). Depois começara a tocar uma música lenta. Os outros já começavam formar pares. Martin forçara Rachel a sair de seu canto, puxando-a contra seu peito. A única resposta dela foi ela revirando os olhos. Lisbeth e eu olhamos a cena e demos um risinho abafado. Percebemos que éramos os únicos sem par, então peguei sua mão e passei o braço envolta de sua cintura. Ela olhou nos meus olhos.

– Tem certeza disso? – ela perguntou.

– Apenas siga os meus passos. – confirmei

Dei apenas um passo para a direita, e quase ao mesmo tempo ela acompanhou. Dei outro passo, só que dessa vez para trás, e de novo, ela acompanhou com precisão. Então parti para uma coisa mais rápida. A cada movimento, ela acompanhava sem errar. Estávamos numa sincronia perfeita. Cada passo conjunto era perfeito e impecável. Então, chegara à hora de trocarmos de pares, ela foi para um lado e eu para o outro. Dei de cara com Rachel, que aceitou de bom grado a minha companhia.

Começamos a nos movimentar, e a cada movimento, Rachel embasbacava mais.

– Como você sabe dançar assim? – Rachel perguntou.

– Sacha me obrigou a fazer dois anos de curso de dança, quando eu tinha 8 anos. Ela achava que era importante. – respondi com calma – E você? Como aprendeu a dançar assim?

– Minha mãe me ensinou. – sua voz vacilou – Ela gostava de bailes e coisas parecidas.

– Que tipo de bailes? – perguntei.

– Ela gostava dos bailes da Inglaterra vitoriana. – ela respondeu – Mas uma coisa que ela gostava mesmo, era de Paris.

– Paris? — minha curiosidade queimava como um braseiro.

– Sim! Ela me contava historias sobre as pessoas que viviam lá, sua história, e torre Efi... – ela estalava os dedos, tentando lembrar – Elfi... Como se chama mesmo, Jon?

– Ah! A Torre Eiffel?

– Sim! – ela estava animada – Minha mãe contava como ela era alta e bonita. Gostaria de vê-la um dia. – ela terminou com um olhar sonhador.

Rachel é o tipo de pessoa que gosta de ver todo tipo de lugar que lhe chamasse a atenção, mas Paris era um lugar especial para ela. Dava pra ver isso nos olhos dela, mesmo naquela época.

Dançamos mais um pouco, então trocamos mais uma vez de pares, dessa vez, minha parceira era uma menina que eu não conhecia, mas isso não a impedia de ficar tagarelando, sobre como essa festa estava chata e blá-blá- blá...

Depois de uma dança que mais parecia um teste de paciência, a música acabou (Graças a Deus). Fui para o canto em que Martin estava. Ele estava sentado num sofá de couro vermelho, com o rosto virado para cima, tentado se recompor. Sentei-me ao lado dele, e ele franziu o cenho.

– Já está morrendo Jon? – ele deu um sorrisinho.

– Não gostei do trocadilho, Martin. – resmunguei – Mas estou um pouco sem fôlego. Não dançava faz tempo.

– Muito menos eu. – ele estava ofegante.

– As festa aqui são sempre assim?

– Não. Geralmente é uma merda maçante. É só valsa, isso aqui, isso ali...

– Cala essa boca, Martin. Assim ele nunca mais vem numa festa da rainha. – disse Rachel se sentando no sofá conosco – Não escute ele Jon. Ele só vem nos bailes de gala. Ele nunca viu as “festas” mesmo.

– Como assim... – ele olhou para frente – Ah! Oi Lisbeth!

Olhei para ela, ela estava acenando com um sorriso no rosto. Como eu adorava aquele sorriso. Então seu rosto se contorceu numa careta.

– Martin? O que está fazendo aqui?

– Só curtindo a festa. Eu tenho que fazer presença pro pessoal de vez em quando. – Lisbeth levantou uma sobrancelha – Eu moro nessa cidade, numa casa, com essa criatura – ele apontou para Rachel, que não gostara nada da referencia a ela – tentando sobreviver nesse mundo cruel, sob constante ameaça que esse ser vivo me impõe – ele apontou novamente para a sua irmã, que dessa vez desceu um cascudo na cabeça dele.

– Cala essa boca, Martin. – ela mandou com a voz firme e severa – Não acredite em tudo em que esse projeto de pessoa diz. – ela disse com a cara emburrada, mas logo a expressão se suavizou – Sou Rachel. Acompanhei você e sua mãe mais cedo. – ela disse estendendo a mão.

– Sou Lisbeth. – ela apertou a mão de Rachel, tentando dar seu melhor sorriso – Foi você que acompanhou Jon pela cidade, não?

– Sim. – ela corou – Foi ordens de sua mãe ficar... Digo... Err... Acompanhar ele, para que não causasse problemas pela cidade.

– Me responde. Como eu iria causar problemas? – perguntei com ênfase no eu.

– E eu sou vidente pro acaso? – ela respondeu bufando – Cala essa boca e vá perguntar para a Mary! – ela afundou no sofá.

– E onde ela está? Eu tenho que reclamar duma conselheira neurótica. – brinquei.

– Já disse! Cala essa boca! – ela afundou mais no sofá.

Martin abafou o riso com a mão, e Lisbeth ficou tentando entender a cena.

– O que aconteceu hoje entre vocês? – perguntou Lisbeth.

– Nada! – eu e Rachel falamos em uníssono. Ela me olhou como se falasse: eu cuido disso como se isso fosse assunto de segurança nacional.

– Apenas caminhamos pela cidade, e viemos direto pra cá – ela disse dando um sorriso inocente. Foi então que percebi que ela omitira a cena debaixo da árvore, para não deixar que Lisbeth e Martin pensassem besteiras sobre nós dois.

– E o que você fez o dia inteiro? – perguntei a Lisbeth tentando mudar de assunto. Rachel me lançou um olhar agradecido.

– Eu e a rainha visitamos pontos históricos da cidade. Depois fomos a uma lanchonete no Brooklin. – percebam que ela falou “a rainha”, e não “mãe”. Iria demorar um tempo para ela chamá-la de mãe.

– Brooklin? – perguntei.

– Sim. Usamos um portal obsoleto na torre norte. – Rachel se levantou com um salto.

– A torre norte? A Mary nunca leva ninguém lá! Nem mesmo eu!

– Nossa. Uma coisa em que a rainha não te inclui. Isso é uma surpresa.

– Cala essa boca Martin. – Rachel gritou logo que a musica voltara a estourar em nossos ouvidos – É só uma coisinha de nada. – Ela puxou Martin do sofá – Vem. Vamos dançar. – ela saiu batendo o pé.

– Vem, vamos lá fora. – Lisbeth me chamou, puxando a minha mão.

Saímos de mãos dadas, o que para mim era muito estranho, pois nem mesmo Sacha conseguia andar comigo de mãos dadas quando eu tinha 6 anos. Esse tipo de proximidade entre mim e Lisbeth, fazia meu estômago dar cambalhotas, mas ao mesmo tempo dava vontade de pegar um revolver e atirar pra cima de tanta emoção. O aperto de sua mão era suave, mas firme.

– Se divertindo, Jon? – perguntou o Primeiro.

– Sabe, tem coisas que eu gostaria que você não interferisse. – rosnei.

– E eu não gostaria de estar morto, mas a vida é assim. Conforme-se.

– Por que você não vai passear, hein? – perguntei.

– Está bem, vou dar uma olhada no seu passado. Não tenho mais nada pra fazer mesmo. – declarou.

– No meu passado não, Pri... – tarde demais ele saiu.

– Jon? Está ai? – perguntou Lisbeth, que sacudia a mão em frente aos meus olhos.

– Sim, sim, estou. – falei voltando a realidade. Ela ainda segurava a minha mão.

O céu estava estrelado e particularmente bonito aquela noite. O ar carregava um cheiro adocicado que não pude distinguir.

Lisbeth me levara até atrás do castelo, onde se estendida um enorme pomar, onde havia varias árvores, que escondiam qualquer coisa que estivesse lá. Adentramos o pomar, e nos recostamos numa árvore.

Ela se sentou na minha frente ainda, segurando as minhas mãos. Ela me olhava com aqueles olhos azuis inquietos, que me chamavam tanto a atenção.

– Vamos fugir? – ela sussurrou.

– O que? — perguntei assustado.

– Fugir. – ela disse mais firmemente – Não gosto desse lugar.

– E ir para onde – perguntei.

– Não sei! – lágrimas escorriam por sobre a bochechas – Eu não quero que você se machuque.

– Me machucar? – levantei uma sobrancelha – Como assim?

– A rainha... – ela hesitou – minha mãe, ela disse que você iria ter que lutar numa guerra.

– Guerra? – pus a mão em seu rosto – Não vai ter nenhuma guerra. E se tivesse uma, eu não participaria. Eu não sei nem dar um soco. – eu disse tentando acalmá-la.

– Ela disse que você teria que lutar, – ela soluçou — ela me disse que havia uma profecia sobre essa guerra. E ela acha que tem a haver com você.

– Que profecia?

– Escute-a, Jon – disse o Primeiro seriamente.

– Ela me contou assim: A Morte irá sucumbir ao filho, ele será guiado por aquele que governou primeiro e aquele que começou o conflito. Um deverá perder aquilo que mais amou e o outro perderá aquilo que é seu oposto. Se um não concordar, o filho perecerá diante do pai, e ao mundo devorará.